Já há algum tempo a esquerda se defronta com questões complexas. Anarquistas, comunistas e social-democratas, ao longo da história, travaram intenso debate teórico que, de tempos em tempos, era levado às consequências finais. Houve quem defendesse Trotsky, houve quem defendesse Stalin. Foram várias as polêmicas acerca da necessidade ou não das armas para mudar o mundo. A palavra “oportunista”, dentro da esquerda, foi feita de bola de tênis, raquetada vocalmente ou textualmente nas últimas décadas ininterruptamente.

Como não poderia deixar de ser, a última contenda enfrentada foi a saída do Reino Unido da União Europeia. Por lá, o campo de batalha uniu “trabalhistas” (Labour) e neoliberais de um lado, comunistas e conservadores do outro. Por aqui, o tema levou a confusão similar.

O motivo disso é que as máquinas de propaganda, nesta batalha específica, foram alicerçadas sobre a cabeça dos milhares de refugiados que, fugindo das guerras e da miséria, entram em massa na Europa. Daí foi um passo para o caos teórico, baseado em três questões, sobre a qual nem sempre se trata abertamente:

1 – Um abalo à UE que poderia levar ao enfraquecimento do bloco e, a médio ou longo prazo ao seu fim é mais importante do que a aceitação imediata de mais alguns milhares de refugiados por parte Reino Unido?

2 – Um Reino Unido soberano deixará de aceitar refugiados? Uma União Europeia fragmentada deixará de semear o caos?

3 – Um Reino Unido soberano (ou, como alguns têm apontado, ligado aos EUA) é pior do que uma Europa dominada por Alemanha e França?

À primeira questão, a resposta é simples, e feita também em forma de pergunta: os refugiados sustentaram a UE, ou foi esta quem criou os refugiados?

Evidentemente a União Europeia, que tem hoje seus defensores mais assíduos alinhando-se aos refugiados, foi fomentadora-chave das razões que os levaram à fuga. A defesa dos refugiados por parte de Merkel, Hollande ou Cameron não passa de lágrimas de crocodilos; altamente efetivas para as câmeras de TV, pouquíssimo efetivas para evitar que, primeiramente, centenas de milhares de pessoas sejam obrigadas a deixar seus lares. Para perceber isso basta recorrer à história recente. Em 2013, durante conferência sobre a Síria em Roma, representantes franceses, alemães, ingleses e italianos juntaram-se aos americanos na defesa do envio de ajuda – incluindo em armamento – aos chamados “rebeldes moderados” (uma espécie de versão síria das “armas de destruição em massa” de Saddam). No mesmo ano, o bloco encerrou o embargo de armas à oposição síria, mas o manteve contra o Presidente al-Assad, dizendo que os rebeldes – e não Bashar – são os verdadeiros representantes do povo sírio.

Na destruição da Líbia, em 2011 – considerada pelo ex-chefe de inteligência dos EUA como um “grande erro” que colaborou com o crescimento do Estado Islâmico – nada menos do que 9 membros da UE colaboraram.

Os britânicos, sejam pelos motivos corretos ou não, decidiram pela saída e deixaram a porta aberta para outros povos subjugados pelo domínio da Alemanha e França dentro da UE. Esse fato é reconhecido mesmo pelas autoridades da UE, que citam o referendo em documento que define as novas políticas de segurança do bloco, publicado na última terça-feira (28). “O propósito e até mesmo a existência de nossa União está sendo questionada. Ainda assim, nossos cidadãos e o mundo necessitam de uma União Europeia forte como nunca antes”, afirma, no documento, a vice-Presidente da Comissão Europeia e representante da UE para as Relações Exteriores e Segurança, Federica Mogherini, que diz que isso é “ainda mais verdadeiro depois do referendo britânico.”

No segundo ponto, no entanto, é que se revela a cretinice extraordinária com a qual se tem lidado com o tema dos refugiados. Em 2015, 1,3 milhões de pessoas solicitaram asilo na União Europeia, dos quais cerca de 300 mil foram aprovados. Destas, cerca de 140 mil foram aceitas pela Alemanha (maior interessada na existência da UE nos moldes atuais), e somente 14 mil na Inglaterra. Os países mais afetados pela crise dos refugiados são a Hungria, Itália e Grécia, já que fazem parte das rotas do refúgio. Por esta razão, a UE votou em setembro passado pela criação de um plano de realocação dos refugiados para outros países europeus: Alemanha aceitou cerca de 27 mil, França outros 20 mil e Espanha pouco menos de 10 mil. A Inglaterra, à época subordinada à UE, não participou do plano.

A questão dos refugiados, portanto, é a de menor relevância no contexto inglês, ainda que, antes do referendo, fosse ela que ocupasse as manchetes e incendiasse discursos dos dois lados. A UE aceitou somente 23% dos refugiados que solicitaram asilo, e, destes, menos de 5% foram recebidos no Reino Unido (trata-se de menos de 1% do total de 1,3 milhões que solicitaram refúgio na UE). Isso revela, também, que os discursos do Partido Conservador de Cameron sobre os refugiados não passam de palavras ao vento e que, portanto, a defesa da permanência na UE como bandeira pelos refugiados, por parte do Labour Party, é simplesmente estúpida.

Por fim, à terceira questão, a máxima de César, Bonaparte e Maquiavel: divide et impera. Que seja a UE ou os EUA os “menos piores”. Os trabalhadores de todo o mundo não entram em batalha por migalhas.