O Presidente da Síria, Bashar al-Assad, disse na última quinta-feira (21) que o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan tem utilizado a tentativa de golpe de estado, na última semana, para “executar sua agenda extremista”, que de acordo com o Presidente sírio “é a mesma da Irmandade Muçulmana em solo turco.”

A acusação foi feita durante entrevista ao repórter Roberto Garcia Hernandez, da agência de notícias Prensa Latina, na qual Assad trata também das intervenções estrangeiras na Síria, da situação dos curdos e das relações da Síria com a América Latina. Confira a entrevista completa:

Senhor Presidente, muito obrigado por conceder à Prensa Latina esta histórica oportunidade de transmitir ao mundo seu ponto de vista a respeito da situação na Síria, já que como você sabe, existem muitas informações manipuladas sobre a agressão estrangeira que seu país enfrenta.

Senhor Presidente, como você avalia a atual situação militar na Síria e qual são os principais desafios que enfrentam as forças armadas sobre terrestres na luta contra os grupos antigoverno? Se for possível, gostaríamos saber sua opinião a respeito da situação atual nas frentes de batalha em Alepo e Homs.

Obviamente, os terroristas receberam muito apoio de diferentes lugares do mundo. Existem mais de cem nacionalidades que participam da agressão contra a Síria, contando com o apoio de certos países como Arábia Saudita e Catar que os financiam, e Turquia, que lhes oferecem apoio logístico. Sem dúvidas, também com a aprovação e supervisão dos estados ocidentais, encabeçados pelos Estados Unidos, França, Reino Unido e outros aliados.

Mas desde que os russos decidiram combater o terrorismo na Síria, basicamente a Frente Al-Nusra, o Estado Islâmico e outros grupos vinculados a estas duas entidades extremistas, o equilíbrio de forças se inclina agora a nosso favor e contra esses grupos. O exército sírio conseguiu e tem conseguido avanços em diferentes partes da Síria e está decidido a derrotá-los.

A situação [na cidade de] Homs, desde que os terroristas a abandonaram há mais de um ano, tem melhorado e está muito estável. Houve alguns distritos da cidade nos quais se infiltraram os extremistas, e agora existe ali um processo de reconciliação, sobre a base de que ou os terroristas abandonam suas armas e retornam às suas vidas normais para gozar da anistia governamental, ou saem de Homs para outra parte da Síria, exatamente como ocorreu há mais de um ano na zona central de tal cidade.

No entanto a situação é diferente em Alepo, já que os turcos e seus aliados sauditas e catares perderam muitas de suas cartas nos campos de batalha da Síria, de modo que esta cidade é sua última carta, especialmente para o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que se esforçou ao máximo com os sauditas para enviar para lá o maior número possível de terroristas, que agora são cerca de cinco mil. Isso eles fizeram nos últimos dois meses, da Turquia até Alepo, com o fim de ocupá-la – mas fracassaram.

Na realidade, nosso exército conseguiu avanços nessa cidade e nos arredores, buscando cercar os terroristas para negociar com eles, para que retornem sua vida normal ou abandonem a zona, ou de outro modo seriam derrotados, porque não há outra opção.

Quais são as prioridades do exército sírio em sua luta contra os grupos terroristas? Qual é o papel que desempenham os grupos de defesa popular no teatro de operações?

A prioridade do exército sírio é a luta contra o Daesh (Estado Islâmico), contra a Frente Al-Nusra, Ahrar Al-Sham (Livres do Levante) e Yeish Al-Islam (Exército do Islam). Esses quatro grupos estão diretamente vinculados à Al-Qaeda, e já compartilham da mesma ideologia. São islamistas extremistas que querem eliminar a todos aqueles que não estão de acordo com eles e que não atuam como eles.

Em relação aos grupos de defesa popular, os terroristas no começo da guerra levaram a cabo uma guerra não-convencional contra nosso exército, que é uma organização convencional, como qualquer outro do mundo. Portanto, o apoio que ofereceram esses grupos foi de grande importância para derrotar os terroristas com uma tática não-convencional. Eles constituíram uma grande ajuda ao exército sírio, porque esses combatentes lutam em suas próprias zonas, cidades e aldeias, que conhecem muito bem. Dominam muito bem as rotas, caminhos e a geografia de suas zonas, e nesse aspecto oferecem grande ajuda ao Exército sírio, e essa é sua missão.

Como se materializa a resistência do povo sírio contra a agressão estrangeira no frente econômico? Quais são os setores desta esfera que seguiram funcionando apesar da guerra, das sanções internacionais e dos atos de sabotagem?

Na realidade, a guerra contra a Síria é integral, porque não se limita ao apoio oferecido aos terroristas, mas desata uma contenda política contra nosso país a nível internacional…

A terceiro front é o econômico, eles dão as ordens a seus extremistas e agentes mercenários para destruir a infraestrutura que a economia síria levantou e que satisfazia as necessidades diárias dos cidadãos. Ao mesmo tempo, começaram a impôr um embargo direto nas fronteiras de nossa nação, fazendo uso de esses elementos irregulares, e, do exterior, usando dos sistemas bancários em todo o mundo.

Apesar disso, o povo sírio está determinado a seguir uma vida normal, dentro do possível. Esta situação tem feito com que muitos homens de negócio, basicamente industriais médios e pequenos, abandonem as zonas de conflitos, [saem das] mais instáveis e vão para outras de maior estabilidade. Ali estabelecem seus negócios em tamanho reduzido, para conservar sua existência, manter a atividade econômica e seguir satisfazendo a demanda de nossos cidadãos.

Nessa questão, a maior parte dos setores seguem funcionando. Por exemplo, a indústria farmacêutica trabalha com mais de 60% de sua capacidade produtiva, o que é algo muito importante para a nossa economia nestas circunstâncias.

Creio que apesar da atual situação, fazemos todos os esforços para ampliar de novo a base de nossa economia, sobretudo depois dos avanços que o exército faz em diferentes zonas de combate.

Senhor Presidente: falemos um pouco sobre o ambiente internacional. Qual sua opinião em relação ao papel que desempenha as Nações Unidas no conflito sírio e das tentativas de Washington e seus aliados de impôr sua vontade sobre o Conselho de Segurança e sobre as conversas de Genebra?

Falar sobre o papel das Nações Unidas e do Conselho de Segurança poderia ser ambíguo e confuso, já que as Nações Unidas na realidade constitui atualmente um instrumento que os Estados Unidos pode utilizar da maneira que deseja. Washington tem a possibilidade de impôr suas normas de dois pesos e duas medidas no lugar da Carta da organização. Podem utilizá-la como fazem com qualquer outra instituição na administração norte-americana. Se não fossem as posturas russas e chinesas em certas questões, a ONU teria se transformado por completo em uma instituição estadounidense. Portanto, a Rússia e a China conseguiram certo equilíbrio nessas instituições nos últimos cinco anos, especialmente no que se refere à causa síria.

Mas se quiser falar de seu papel através de seus mediadores e enviados, como o senhor Staffan De Mistura (enviado especial da ONU na Síria) e antes Kofy Anan e entre estes Lakdar Brahimi e outros, podemos dizer que estes mediadores não são independentes. Esses funcionários refletem as pressões exercidas pelos países ocidentais ou em alguns casos o diálogo existente entre as principais potências, principalmente Rússia e Estados Unidos. Eles não são estáveis e devido a isso não se pode falar do papel das Nações Unidas. É um reflexo deste equilíbrio, e por isso não existe um papel das Nações Unidos no conflito sírio, só há um diálogo russo-estadounidense e nós sabemos que os russos não economizam esforços e trabalham com toda sinceridade e honestidade para derrotar os terroristas. Contudo, os estadounidenses manobram para utilizar os terroristas e não para derrotá-los.

Como você vê atualmente a convivência entre os grupos étnicos e religiosos sírios frente a esta ingerência estrangeira? Que impacto tem esse fator na conjuntura atual?

O assunto mais importante a respeito desta harmonia entre os diferentes espectros do tecido sírios é que é verdadeira e autêntica, porque foi construída ao longo da história e ao longo de séculos, portanto, neste tipo de conflito, é impossível destruir esse tecido social.

Se fizer uma visita às diferentes zonas em controle do governo, poderá ver todas as cores do espectro da sociedade síria convivendo juntos.

Posso acrescentar que durante o conflito, esta harmonia melhorou e se fortaleceu mais, e essas não são só palavras, é uma realidade que tem diferentes razões. O conflito é uma lição, e esta diversidade que caracteriza a uma determinada sociedade ou enriquece o país ou se converte em um problema, não há meio termo.

O povo aprendeu que devemos trabalhar com força para conservar esta harmonia, já que o primeiro discurso que os terroristas e seus aliados na região e no ocidente utilizaram era sectário. Queriam dividir as pessoas para que se chocassem entre si com o fim de colocar fogo na Síria, mas fracassaram. Os sírios aprenderam uma lição de que vivíamos em harmonia e que gozávamos dela nos tempos normais, antes do começo do conflito, mas que devemos nos esforçar para fortalecê-la. E por isso, sem nenhum exagero, posso dizer que nesse aspecto a situação está bem. Apesar disso, podemos dizer que isso é diferente nas zonas controladas pelos terroristas.

Como você sabe, aqueles que pertencem basicamente a facções extremistas vinculadas à Al-Qaeda não economizam esforços para introduzir sua ideologia obscurantista na mente das novas gerações, esta ideologia que advogada pela morte, a decapitação e todas essas práticas horrendas. E eles tiveram êxito em algumas zonas.

Com o passar do tempo, será mais difícil lidar con esta nova geração de jovens saturados com a doutrina e a ideologia dos wahhabitas e da Al-Qaeda. Então aí está o único perigro que enfrentaremos no que se refere à nossa sociedade, no que se refere à harmonia e a convivência de que falou.

Senhor Presidente, voltemos ao tema do cenário internacional. Qual é a sua opinião sobre o papel que desempenha a coalizão liderada pelos Estados Unidos no que se refere aos grupos no norte da Síria, especialmente os curdos?

Como você sabe, quando as administrações estadounidenses têm relações com qualquer grupo ou sociedade em um país, elas não se produzem em benefício de essa nação nem de seu povo, mas a serviço da agenda dos Estados Unidos. Portanto, a pergunta que devemos fazer é: porque os estadounidenses apoiam qualquer grupo na Síria?

Não é para beneficiá-la, sem dúvidas, porque eles têm sua própria agenda e sempre a agenda norte-americana tem sido divisionista em todos os países. Eles não trabalham para unir o povo, mas para dividí-lo. Algumas vezes recorrem a um grupo sectário, e em outras a um grupo étnico para apoiá-lo contra as demais etnias ou para impulsioná-lo a se distanciar de outras facções da sociedade. É essa sua agenda.

Então é óbvio que todo esse apoio estadounidense não tem a ver com o Daesh nem com a Al-Nusra, e tampouco com a luta contra o terrorismo, pois desde o início da intervenção estadounidense o Daesh tem se expandido, e não o contrário. Só começou a se reduzir quando o apoio russo ao exército sírio começou no mês de setembro.

Senhor Presidente, qual sua opinião sobre o golpe de estado que ocorreu recentemente na Turquia e como ele afeta a situação daquele país, a nível internacional e também o conflito na Síria?

Devemos olhar para este golpe como um reflexo da instabilidade e dos distúrbios dentro da Turquia, especialmente a nível social. É possível que o efeito seja de caráter político ou de qualquer outro, mas definitivamente quando um país se desestabiliza, a causa principal tem raízes na própria sociedade. Isso independentemente de quem governará a Turquia e quem será seu presidente, seu líder, porque este é um assunto interno. Nós não interviremos e não cometeremos o erro de dizer que Erdogan deve deixar o poder ou deve cair. Esta é uma questão turca e o povo turco deve decidir sobre esse tema.

Mas o assunto mais importante do próprio golpe, é que devemos ver as medidas e os passos que tomou Erdogan e seu grupo nos últimos dias, quando começaram a atacar o sistema judicial, expulsaram mais de 2,7 mil juízes de seus cargos, mais de 1,5 mil professores e mais de 15 mil empregados do ensino. Que relação têm as universidades, os juízes e a sociedade civil com o golpe?

Isso mostra as más intenções de Erdogan, seu mal caráter e seus verdadeiros fins a respeito do ocorrido, e ainda que as investigações não tenham terminado, porque tomou a decisão de depor toda essa gente? Então ele utilizou o golpe para executar sua agenda extremista que é a mesma da Irmandade Muçulmana em solo turco, e isso é muito perigoso para a Turquia e para os países vizinhos, incluindo a Síria.

Como você avalia as relações de seu Governo com a oposição interna? Qual é a diferença entre estes grupos opositores e aqueles radicados no estrangeiro?

Temos boas relações com a oposição dentro da Síria, baseadas nos princípios nacionais e obviamente eles têm suas próprias agendas políticas e doutrinas, e nós temos nossa agenda e doutrina. Podemos dialogar com eles diretamente ou mediante as urnas, que é outra forma. Esta é a situação em todos os países. Mas não podemos compará-los com aquele oposição radicada fora da Síria, posto que o conceito de oposição significa utilizar de meios pacíficos e não apoiar terroristas, que não se forme fora do país e que tenha uma base popular com os sírios que vivem aqui.

As bases populares não podem ser dirigidas das chancelarias no Reino Unido ou França, ou dos serviços de inteligência no Catar, Arábia Saudita e Estados Unidos. Esta não é uma oposição como eles a chamam nesse caso, mas nós os temos como traidores, a verdadeira oposição é aquela que trabalha para o povo sírio, reside na Síria e adota sua agenda em função dos interesses da pátria.

Como você avalia a insistência dos EUA e de seus aliados de que você deve abandonar o poder, e a campanha midiática que desatam para manchar a reputação de seu Governo no cenário internacional?

Em relação ao fato de que deva abandonar o poder, eles falam do assunto há cinco anos e nunca demos importância a suas exigências, nem sequer respondemos com uma declaração. Não lhe demos importância. Este é um assunto sírio e os sírios são os únicos que podem dizer quem deve vir e quem deve ir, quem deve permanecer em seu cargo e quem deve abandoná-lo e o Ocidente conhece muito bem nossa postura a respeito [disso].

Portanto não nos importa e tampouco perdemos tempo pensando no que dizem. Estou aqui graças ao respaldo do povo sírio, se não fosse por ele não estaria aqui. É muito simples.

Em relação a manchar a reputação ou suas tentativas de satanizar certos presidentes, pois esta é o modo de agir dos Estados Unidos, ao menos desde a Segunda Guerra Mundial, desde que ocuparam o lugar do colonialismo britânico nesta região e possivelmente no mundo inteiro.

Desde então as administrações estadounidenses e os políticos norteamericanos nunca disseram uma só palavra certa sobre qualquer assunto. Eles sempre mentem. E com o passar do tempo se convertem em especialistas em mentir. Esta é parte de sua política. Suas tentativas de me satanizar são similares à de satanizar ao Presidente [Vladimir] Putin nos últimos anos, ou de satanizar o líder cubano Fidel Castro nas últimas cinco décadas. Esta é sua maneira de agir.

Então devemos saber que essa é a forma de agir dos Estados Unidos e isso não deve nos preocupar. O assunto mais importante é ter uma boa reputação com o povo, é com isso que se deve preocupar.

Senhor presidente, qual é a sua opinião sobre as relações da Síria com a América Latina, sobretudo suas históricas relações com Cuba?

Apesar da grande distância entre a Síria e a América Latina, nos surpreende sempre o nível de conhecimento do povo dessa região, não somente os políticos, sobre essa zona do mundo. Creio que isso é devido a várias razões, que uma delas se materializa nos aspectos de semelhança histórica e os fatores comuns entre a Síria e a América Latina.

Os países latino-americanos sofreram há muito tempo a ocupação direta, mas depois a ação das companhias americanas, os golpes de estado e a ingerência estadounidense. Mas os povos desta região sabem o que significa que um país seja independente ou não. Eles concebem que a guerra na Síria gira em torno da independência.

Mas o assunto mais importante nesta zona do mundo é o papel de Cuba, que sempre foi a ponta de lança do movimento independentista na América Latina, Fidel Castro é um símbolo neste contexto.

Portanto a nível político e de conhecimento, podemos dizer que há forte coincidência entre a Síria e a América Latina, especialmente com Cuba. Mas não creio que estejamos fazendo o suficiente para melhoras os outros aspectos da relação para que estejam no mesmo nível, basicamente nos setores de educação e economia.

Esta era minha ambição antes da crise, eu visitei a América Latina: Cuba, Venezuela, Argentina e Brasil para dar mais força a esta relação. Logo começou o conflito que se converteu em um grande obstáculo frente a qualquer ação neste sentido. Assim, creio que nossas relações não devem se limitar aos aspectos históricos e políticos. Isso é insuficiente. Existem vários setores e os habitantes de ambas as regiões devem conhecer-se mais. A distância poderia constituir um obstáculo, mas a situação não deve ser assim, pois temos fortes relações com o resto do mundo, de leste a oeste.

Por isso a distância já não constitui um obstáculo nesses tempos. Creio que se lograrmos superar a crise e esta guerra, então devemos trabalhar com mais força para reviver os diferentes aspectos desta relação com a América Latina, sobretudo com Cuba.

 

Senhor presidente, quais são suas expectativas e o que opina sobre o atual processo eleitoral nos Estados Unidos, especialmente sobre os comícios presidenciais? Como você acredita que seu resultado pode influenciar na guerra na Síria?

Nós retomamos as relações com os Estados Unidos no ano de 1974, fazem 42 anos. Desde então temos conhecido vários mandatários estadounidenses em diferentes casos. A lição que aprendemos é que nada deve se apostar por qualquer presidente estadounidense. Esse é o assunto mais importante. Então a questão não tem a ver com o nome [do candidato].

Eles têm instituições e possuem suas próprias agendas, e cada presidente vem para executá-la à sua maneira. Mas definitivamente, devem cumpri-la. Todos têm agendas militares e a única diferença radica na forma de cumpri-la. Um usa seu exército, como fez Bush, e outros enviam seus mercenários e agentes, como Obama. Mas todos devem cumprir esta agenda.

Não creio que nos Estados Unidos se permita que o chefe da Casa Branca aja com suas convicções políticas. Deve submeter-se às instituições e aos grupos de pressão. Estes grupos não mudaram e tampouco [mudaram] os planos das instituições e portanto não haverá em um futuro próximo um presidente que possa provocar uma mudança séria e radical na política dos Estados Unidos.

Qual é a mensagem que quer fazer chegar por meio desta entrevista com a Prensa Latina aos governos e povos da América Latina e do Caribe, incluindo o povo norte-americano, sobre a importância de se apoiar a luta da Síria contra o terrorismo?

A América Latina é um exemplo bom e importante para o mundo sobre como os povos e os governos conseguiram recuperar sua independência. A região constitui o quintal dos Estados Unidos, mas Washington a tem utilizado para ensaiar suas manobras e executar sua própria agenda.

Os povos da América Latina se sacrificaram muito para conquistar sua independência, e depois que a recuperaram se converteram em países em desenvolvimento ou até desenvolvidos. Então, a independência é algo muito importante e muito querida para todo cidadão da América Latina. Cremos que devem preservá-la, porque os Estados Unidos não deixará de trabalhar para derrubar todo governo independente que represente as grandes maiorias em cada país desta região.

Cuba conhece isso muito bem, e sabe do que estou falando, mais que qualquer outro país do mundo. Vocês sofreram mais que qualquer outro país da América Latina das tentativas dos EUA, e tiveram êxito em fazer frente a todas estas tentativas por mais de cinquenta anos, somente porque seu governo representa o povo cubano. E por isso, agarrar com força a independência é um assunto de vital importância na minha opinião, para o futuro da América Latina.

Em relação à Síria, podemos dizer que está pagando o preço de sua independência, porque em nenhum momento nós atuamos contra os Estados Unidos, França ou Reino Unido. Sempre tratamos de construir boas relações com o Ocidente. Mas o problema deles é que não aceitam nenhum país independente, e creio que isto é o que ocorre com Cuba também. Vocês nunca tentaram causar dano ou prejudicar o povo norte-americano, mas eles não aceitam um país independente. O mesmo caso se aplica aos demais países da América Latina, e por esta razão sempre houveram golpes em seus países, sobretudo nos anos sessenta e setenta. E por isso acredito que preservar a autodeterminação de um país não constitui um caso isolado. Se quero ser independente, devo apoiar a independência em todo o mundo, porque se eu agir sozinho serei fraco.

O apoio à Síria será principalmente nos fóruns internacionais. Existem muitas organizações, especialmente as Nações Unidas, apesar de sua incapacidade, mas definitivamente o respaldo de estas entidades pode desempenhar um papel ativo no apoio à Síria. Existe naturalmente o Conselho de Segurança e a sua postura depende dos membros não permanentes deste orgão. O apoio de qualquer outra organização à Síria também será importante.

Senhor presidente, sabemos que você é uma pessoa muita ocupado e por isso a Prensa Latina valoriza muito o tempo que nos concedeu para esta entrevista. Desejamos ter no futuro este tipo de intercâmbio com você. Muito obrigado.

Serão bem-vindos a qualquer momento.

*Tradução: Pedro Marin