Devo agradecer a um contato de rede social, Thiago Régis, por ter me mandado um vídeo de uma página de Facebook chamada Dilma Resistente, onde Leonardo Stoppa explica a tentativa de golpe na Turquia.

O vídeo é muito interessante e explicativo, por fazer um trabalho importante de trazer essa discussão para as pessoas no Brasil e por estabelecer paralelos com a nossa realidade. No entanto, acho necessário fazer alguns apontamentos no que diz respeito a certas premissas do argumento, incluindo a ideia de que “não é difícil que o governo golpista Michel Temer jogue com o povo da mesma forma”.

Vamos retomar à pergunta central: quão semelhante é a situação da Turquia à do Brasil?

As bases de apoio do sultão

A primeira coisa que Stoppa diz é que Erdogan é um presidente que, apesar de ser democraticamente eleito, “não tem mais suporte da população.” Acrescenta: “é mais ou menos o que está acontecendo hoje com Michel Temer, mas ele tá forçando a barra, ele tá lá peitando a população brasileira”.

Erdogan tem sim uma grande base de apoio, com vários fundamentos sólidos. Diferente de Temer, que tem uma grande carreira política, porém na maior parte dela como um desconhecido (guardadas proporções, sem destaque), Erdogan já tem uma longa carreira política marcada por holofotes, tomada de partido e popularidade.

Aydogan Vatandas, no seu livro que se tornou a grande compilação crítica anti-Erdogan,  se refere ao atual presidente como “o líder turco mais influente desde Ataturk”. Diz ele: “a sua popularidade como líder é quase sem paralelos na história moderna turca”. Lembrando que esse livro já expõe no título a alcunha de “esfomeado por poder”; é realmente o principal livro jornalístico escrito contra Erdogan e a maior parte do discurso da oposição está lá, a despeito das posições mais específicas de Vatandas.

Erdogan começou na política nos anos 70, quando foi líder da juventude do Partido de Salvação Nacional, seguindo seu líder Necmettin Erbakan e sua ideologia islamista conservadora. O partido mudou o nome para Partido do Bem Estar após o golpe militar de 1980, e é por este que em 1994 Erdogan seria eleito como prefeito de Instambul.

Como prefeito ganhou a maioria dos habitantes daquela cidade, conquistando a fama de grande administrador ao manter estrita disciplina fiscal e endereçar alguns problemas da megalópole (especificamente: trânsito congestionado, falta de água, manuseio de lixo e poluição do ar).  Os anos no fim de seu mandato foram turbulentos para os islamistas turcos, com o partido de Erdogan sendo banido pela Suprema Corte. O atual presidente naquele momento seria um dos principais oradores nas manifestações e chegaria a receber uma pena de prisão de 10 meses por recitar um certo poema que comparava “as pessoas de fé” com um exército.

Com o fim do partido, Erdogan não seguiu o velho líder Erbakan e decidiu afirmar a própria liderança, fundando em 2001 o partido AKP, o “Partido do Desenvolvimento e da Justiça”, que consquistou uma grande vitória já nas eleições gerais de 2002. O AKP é um partido populista, conservador, que não é propriamente um partido islamista mas um partido com lideranças de formação islamista. O AKP realmente foi muito bem recebido no ocidente (por governos e intelectuais) como uma boa conjugação de “liberalismo, islamismo e democracia”. Erdogan conseguiu articular setores liberais, islamistas e nacionalistas entorno do seu projeto, cultivando uma boa relação orgânica com o empresariado, adquirindo a confiança de setores médios e apoio de diversas classes das camadas mais pobres da sociedade turca. Dentro desse complexo podemos considerar grande parte das mesquitas e das redes sociais religiosas.

Seu partido tem conseguido sucessos eleitorais desde seu surgimento e avançado cada vez mais na direção de conquistar o regime presidencialista desejado por Erdogan. O AKP ganhou as maiores pluralidades nas últimas cinco eleições, com uma porcentagem que aumentou progressivamente. Os principais partidos da oposição, o CHP, de centro-esquerda (que tem Ataturk entre seus fundadores), e o nacional MHP são incapazes de articular uma posição que realmente desafie o domínio do AKP na arena política.  A soma dos assentos dos dois partidos, que em tamanhos são os dois atrás do partido dominante (CHP e MHP respectivamente), não é o suficiente para alcançar a maioria de Erdogan – são 317 assentos contra apenas 174. Quase 24 milhões de votos para o AKP contra quase 16 milhões desses dois partidos somados, um sem ter muito a ver com o outro politicamente.

Erdogan venceu as eleições presidenciais com cerca de 51,7% dos votos – claro que podemos discutir algumas coisas como o boicote dos kemalistas, o boicote parcial de eleitores de esquerda do CHP, 15 milhões de abstenções contra 20,8 milhões de votos para Erdogan, porém isso não muda o fato de que ele possui sim uma base de apoio confirmada em eleições recentes. Se esse resultado é pequeno para alguém que controla 60% da mídia, por outro lado é impressionante considerando o momento de instabilidade que parece ser a origem dos julgamentos de Stoppa. Muitas pessoas confiam no Erdogan por diversos motivos. Temer não tem isso: ele não representa projeto nenhum, não representa um movimento político.

É notável que nessas eleições Erdogan conseguiu tomar votos dos nacionalistas na Anatólia e protegeu seu flanco eleitoral com um apoio considerável do eleitorado curdo que já há tempos flutua para Erdogan por este ter dado uma perspectiva melhor de direitos civis (sim, por incrível que pareça) e por ter ido no caminho da negociação de paz com o PKK. O fato dele enfrentar um momento muito difícil de instabilidade por diversos fatores (econômicos, geopolíticos, política interna, repressão) não significa que não tenha nenhum apoio.

A mídia ocidental pode até dar visibilidade para a Turquia como o país que mais prende jornalistas, mas por contraste é possível dizer que a situação até melhorou já que em governos anteriores ocorriam diversos assassinatos dessa classe – o clima internacional de “Erdogan é um ditador” não reflete necessariamente o clima interno na Turquia. As manifestações em Gezi realmente mostraram para o mundo diversos descontentes com o regime, o que também não implica em total falta de apoio para Erdogan.

Depois da sua ruptura com o também islamista porém mais liberal “Movimento Gulen”(Hizmet) é que surgiram as tendências mais autoritárias, investigações de corrupção e vazamentos de áudio, o que Erdogan tratou como uma forma de golpismo no judiciário, ao mesmo tempo que ia pra cima de “jornalistas traidores” que assumiam posições mais investigativas ou uma crítica mais incisiva. O Movimento Gulen é muito bem visto por diversos setores da política americana, apesar do governo turco chamar este de terrorista. Isso não retirou dele a base de apoio e até um crítico como Vatandas, citado anteriormente, é bem enfático quanto a isso!

Pode ser verdade que durante golpe na Turquia muita gente tenha ido às ruas por rejeitar os militares, em defesa da democracia, mas também é verdade que muita gente saiu para defender Erdogan e dentre esses havia um número menor porém muito comprometido com o islamismo político. Os distritos conservadores foram os primeiros a se levantar.

O AKP não compartilha das mesmas características do PMDB, ou da mesma história que o PMDB, essa grande tenda centrista com políticos de todos os tipos e oligarcas de várias cepas, que lidam com Temer não tanto como um correlegionário e sim mais como um power broker, alguém que dá as cartas. Erdogan pode compartilhar do estilo mafioso de Michel Temer, (afinal ele também dá as cartas)  pode até ser pior que ele nesse aspecto, mas certamente é de maior calibre político e ideológico.

O golpe foi orquestrado por Erdogan?

Leonardo Stoppa diz que o Presidente Erdogan combinou o golpe com as Forças Armadas para fazer uma encenação e ganhar popularidade. Não é bem assim – é certo que Erdogan já sabia do golpe e se aproveitou dele. Provavelmente foi necessário um grande trabalho de inteligência, sabotagem e desinformação entre os núcleos golpistas, o que permitiu que ele deixasse o golpe prosseguir para colher os frutos que Stoppa aponta. Esses frutos, porém, estão além da popularidade (que como foi dito, não é algo que Erdogan simplesmente não tem), eles estão mais no campo da repressão, das mudanças jurídicas e na devastação do cenário político. Erdogan fortaleceu sua posição politicamente, mas também está aumentando seus poderes na prática, com inimigos importantes sendo jogados na cadeia.

Sim, na cadeia. Logo no primeiro dia após o golpe já eram mais de 130 oficiais presos! Erdogan falou que vai limpar completamente o exército, que os golpistas vão se arrepender, e já se discute pena de morte. Não consigo imaginar que Erdogan combinou algo como “vocês colocam o exército na rua e depois eu fuzilo vocês”. São milhares de soldados presos em condições sub-humanas, surgindo acusações de tratamento desumano que vão de fome a estupros.

Erdogan não “combina” muita coisa com o exército turco. Se formou politicamente em oposição a esse exército e sua ideologia kemalista, secular – ele é alérgico a essa ideologia. Na ânsia de aumentar seu poder e domar o exército, Erdogan partiu para cima dos militares e atacou sistematicamente a posição política do exército – a velha guarda foi silenciada, oficiais foram presos e a liderança foi devastada, decapitada com os processos do “Martelo” e do Ergenekon em 2007, verdadeiros expurgos que geraram sérias farpas.

Esse processo de enfraquecimento do exército e fortalecimento das forças de segurança civis foi bem visto no ocidente como algo positivo, assim como parte das reformas de governança democrática que o AKP promovia e a inclinação para que este país aderisse à União Europeia – o exército não podia mais controlar a política.

O que ficou dúbio a princípio é o fato de ao mesmo tempo em que essas forças de segurança são ligadas a um ministério do interior, elas seriam devidamente aparelhadas para servir de braço forte de Erdogan, e foi esse braço forte que derrotou os militares – nós vimos videos forças especiais da polícia bradando motes a favor do presidente com armas em punho e policiais surrando e humilhando soldados detidos (num dos vídeos mais famosos na internet falam de estuprar a filha de 11 anos de um oficial). O presidente precisava de uma força armada mais confiável. Não foi um auto-golpe, o que o presidente fez foi manipular o jogo de maneira que os inimigos deram um passo em falso.

Os golpistas realmente eram nacionalistas seculares preocupados com o poder crescente de Erdogan e o uso desse poder para uma islamização que está mais para uma “sunificação” (sunita) otomanista. Reconhecer que isso é uma contradição política real não é um absurdo – muitos militares de alta patente não são só crentes no kemalismo ou ocidentalistas convictos, mas são de outros grupos religiosos.

Numa aparente coincidência, foi a partir de 2007 que o AKP se afastou das políticas de liberalização e passou a trilhar de forma mais consistente o caminho da islamização. Foi nesse ano que ocorreu a ruptura com o Gulen. Dr. Steven A. Cook, senior fellow do Council of Foreign Relations, concorda que a partir daí Erdogan começou a dominar o Estado e que até então ele mantinha um acordo de cavalheiros com General Hilmi Ozkok (que então era chefe do Estado Maior) de não tomar atitudes que pudessem gerar uma crise.

É importante ter em conta que Cook é um dos “maiores especialistas em Oriente Médio” do CFR, um think tank fundamental para a política externa americana, especialmente quando tratamos de uma gestão do Partido Democrata.

A política religiosa

O vídeo aponta corretamente que existe uma agenda político-religiosa sendo avançada na Turquia. Isso é muito certo, porém acrescento que a situação lá é um pouco mais profunda e de longa data que no Brasil – há toda uma rede social que deu origem a movimentos políticos religiosos. Erdogan mesmo foi educado numa escola religiosa que surge num contexto de reação ao secularismo!

Para ter um contraste, tenham em mente que Erdogan usou sua influência no meios de comunicação nos últimos anos para forçar pautas morais e religiosas ao mesmo tempo que tem uma grande maioria no parlamento. A islamização é um fato, fato que, como aponta o video, irá piorar. Bashar Al-Assad disse bem em entrevista recente para a agência de notícias cubana Prensa Latina:

“Erdogan usou o golpe para implementar sua agenda de Irmandade Muçulmana.

(…) mais importante que o golpe em si são as medidas tomadas por ele e sua coterie nos últimos dias, quando começaram atacar os juízes, removeram 2700 juizes de suas posições, mais de 1500 professores universitários, mais de 15 mil funcionários do setor de educação. O que as universidades, os juizes e a sociedade civil tem a ver com o golpe? (…) Ele usou o golpe para implementar a própria agenda extremista, agenda da Irmandade Muçulmana, dentro da Turquia, o que é perigoso para a Turquia e para seus vizinhos, incluindo a Síria.”

O papel dos Estados Unidos

A questão dos Estados Unidos é a mais complexa, onde há mais confusão e portanto onde mais se deve ter cuidado. Erdogan não é anti-imperialista e nem propriamente um anti-americano; sim, ele foi um aliado importante do imperialismo na região, até porque há tempos que a Turquia é peça fundamental da geopolítica americana na Eurásia. E é por isso mesmo que os Estados Unidos tem motivos para se preocupar com quem está governando o país, e, se necessário, substituirão o comando.

Geopolítica, mesmo a geopolítica imperialista, não é via de mão única, livre de contradições. Governantes mais fantoches do que Erdogan já foram despostos pelos Estados Unidos antes. Existem vários interesses em jogo – nós vimos como os Estados Unidos abandonaram rapidamente Mubarak no Egito em busca de uma alternativa que o sucedesse e garantisse os interesses americanos.

O golpe na Turquia já era mais ou menos previsto desde o ano passado – think tanks americanos praticamente “alertavam” Erdogan. Sibel Edmonds, analista internacional (famosa por ter prestado serviços ao FBI e ter falado publicamente sobre questões controversas) de altíssima qualidade, poliglota americana de origem turco-iraniana, no fim de 2015 já previa um golpe contra Erdogan devido ao acúmulo de contradições com os Estados Unidos. Agora nós já temos um posicionamento confiável do jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar que indica que no mínimo houve um sinal verde da OTAN para o golpe e que havia interesses americanos, mesmo que eles não tenham organizado diretamente a conspiração.

O exército sempre foi muito pró-ocidente e próximo dos americanos. Para não serem interceptados, os golpistas usaram o sistema de comunicação da OTAN para coordenar o golpe (o que foi enfatizado por membros do AKP) e nenhum dos aliados ocidentais da Turquia avisou Erdogan sobre o golpe – quem aparentemente forneceu informações foram serviços de Moscou. Os generais do golpe são especialmente próximos da OTAN. Aliás, outro ponto: o Irã foi o primeiro país a oferecer apoio e assistência a Erdogan.

Notícias diversas já falam de “Turcoexit”, de um esfriamento das relações da Turquia com a OTAN e até sua possível saída. Um jornal conservador turco acusa um ex-comandante americano da OTAN, John F. Campbell, de ser um dos organizadores do golpe e diz que ele usou redes da CIA para distribuir dinheiro entre os golpistas!

Quais são as questões por trás disso? Há algum tempo ocorrem importantes choques entre a Turquia e os EUA. As relações parecem decair desde 2007; Sibel Edmonds argumenta que no geral Erdogan se tornou “muito independente” e fez muitas mudanças num Estado que os americanos estavam acostumados a dominar mais diretamente – apontou que sentem falta dos velhos fantoches que marcaram os anos 90. No entanto, recentemente temos alguns fatos mais concretos.

Dentro dos planos neo-otomanos de Erdogan, sua pretensão de assumir a liderança no Oriente Mèdio, a chamada “Primavera Árabe” foi o grande momento e Erdogan se tornou o “Poderoso Chefão” por trás da Irmandade Muçulmana. O xadrez ficou especialmente complicado na Síria, onde a Turquia cumpriu um papel decisivo na guerra “civil” (mais do que a Arábia Saudita, porque os sauditas financiaram e os turcos cumpriram um papel mais operacional).

A princípio o interesse era o mesmo que o dos Estados Unidos: mudar o regime na Síria, regime change para que Bashar Al-Assad saísse da presidência. O problema é que, como explica o Professor David L. Philips em entrevista para o livro de Vatandas, Erdogan foi mais papista que o Papa e interpretou mal a profundidade do desejo americano e seus delineamentos estratégicos, ficou frustrado com a falta de intervenção direta e a Turquia assumiu seu papel mais que proativo de ampliar o apoio a grupos islamistas e jihadistas, incluindo o próprio Estado Islâmico, que fazia parte da coalização rebelde e era “só mais um” dentre os diversos grupos. A Turquia do AKP era referência ideológica de muitos dos “rebeldes moderados”.

Sabemos o que o ISIS se tornou e a centralidade que o pretenso califado adquiriu no cenário internacional. Como se não bastasse o papel da Turquia na formação/crescimento do grupo, ainda existe o papel que esta cumpriu na manutenção dos terroristas: desde as fronteiras abertas (fechá-las seria uma grande vantagem para Assad) até vínculos de entidades privadas de filhos de Erdogan (que, claro, também estão envolvidas nas desventuras de corrupção do patriarca). A Turquia eventualmente se juntou a coalizão, mas na prática não fez nada contra o EI. O Professor Philips também nos lembra muito bem que o EI cooperou diretamente com o governo turco na operação da remoção dos restos mortais de Suleyman Shah, numa tumba otomana localizada na Síria porém sob controle turco e cercada pelo grupo terrorista.

Para piorar a situação, em 2013 ocorreu um ataque de gás sarin em Ghouta, na Síria, que resultou na morte de cerca de 1400 pessoas. Isso inflamou as exigências de saída de Bashar Al-Assad, mas houve muita controvérsia, especialmente depois da comissão da ONU. Whistleblowers de agências de inteligência ocidentais apontaram que não foi o governo. O governo não tinha nada a ganhar com isso a não ser uma intervenção estrangeira, mas aparentemente também não foram os rebeldes (mesmo que eles tenham usado armas químicas posteriormente). Foi um ataque terrorista pra escalar a situação, colocar o povo contra o governo? E o que a Turquia tem a ver com isso?

Seymour Hersh é o maior e mais mítico jornalista investigativo dos Estados Unidos, talvez do mundo. Hersh nunca errou nas suas grandes acusações no mundo da política suja das agências secretas – sempre foi negado por autoridades pra depois ser vingado pela verdade. Foi assim em relação a participação dos EUA na derrubada de Salvador Allende; foi assim quando em 1975 ele alegou que a CIA estava lendo cartas privadas de cidadãos americanos, o que foi confirmado em investigações posteriores do Congresso. Hersh também foi negado pelo governo americano quando acusou-o de usar armas ilegais no Vietnã, o que também se mostrou verdade. Hersh é um jornalista cuidadoso, metódico, respeitado e com acesso a fontes de ouro. Foi esse jornalista que no fim de 2014, quase um ano após os ataques, apontou a Turquia como responsável pelo o que aconteceu em Ghouta. Ou seja: ele acusou Obama de ignorar o fato de Erdogan ter organizado um ataque de gás sarin.

Hersh descreve um encontro de Obama com Erdogan e um dos secretários da inteligência turca (de nome Hakan Fidan). O presidente turco queria apresentar provas de que o ataque de sarin foi feito pelo regime sírio, mas quando o secretário de inteligência tentou trazer o assunto à tona, foi interrompido por duas vezes por Obama. Erdogan então notou tenso que “Obama cruzou a linha vermelha”(a gota d’água, “estou por aqui”, passou do limite, inaceitável, etc). A intenção dos turcos era forçar os Estados Unidos e a comunidade internacional a intervir contra Assad; Obama já estaria com tal disposição até ser informado pelo próprio serviço de inteligência que os turcos eram os responsáveis, o que obviamente o paralisou, pois não haviam provas contra o regime sírio; somente uma grande “presepada”(assassina, diga-se de passagem) por parte do governo turco, provavelmente reconhecida por diversos serviços do mundo (muitos devem ter pensado nos serviços russos, pode ser, mas um dos primeiros vazamentos foi alemão).

Outra coisa que Hersh revelou foi que a Turquia tinha uma “permissão especial” de violar o embargo e as sanções contra o Irã.

A Turquia manteve uma postura agressiva de aumentar as tensões, espalhando pela Síria contras islamistas e sabotando as negociações de Genebra. Isso reduziu a capacidade dos Estados Unidos de exercer o controle da situação. Não que os grupos de extermínio salafistas chamados de “rebeldes” sejam responsabilidade exclusiva dos turcos e os EUA sejam inocentes – semana passada um grupo diretamente financiado pelos Estados Unidos cortou a cabeça de um menino de 12 anos enquanto gravavam.

Erdogan pode ser considerado responsável pela dor de cabeça que os americanos encontraram na Síria, por esse grande emaranhado que é um problema para os Estados Unidos em geral e um problema político para o Presidente Obama e seu partido em específico. Obama enfrenta grande pressão da oposição por conta dos acontecimentos na Síria e em menor escala por causa da Turquia.

Ao negociar sobre a Síria, Washington e Moscou teriam decidido que Erdogan não podia mais permanecer no poder (Putin provavelmente passou Obama para trás nessa, o que é normal nesse mundo – em relação a Síria o presidente americano também é extremamente ambíguo).

Pra termos ideia do papel do novo sultão precisamos entender que os russos só entraram diretamente na guerra por causa da participação mais incisiva dos turcos, o que realmente ameaçou o governo sírio.

Os Estados Unidos também passaram a apoiar ativamente as milícias curdas no norte da Síria tão detestadas por Erdogan. Isso é uma irritante política do Departamento de Estado concomitante à gradual redução do apoio fornecido pela CIA aos rebeldes, com eventual corte do fornecimento de armas. Os EUA ainda tem seus proxys entre os rebeldes, mas é o fim do Eldorado, o fim dos sonhos de regime change e consequentemente do estado-cliente da Turquia que sairia disso – um belo chute nas fantasias neo-otomanas do sultão.

A estratégia é agora outra, se trata de manter a Síria dividida como está agora, o que implica necessariamente num domínio curdo de facto no norte do país, de cara com a Turquia. Segundo Thierry Meysan, para alguns estrategistas americanos do partido strausseriano, que não estão dirigindo a máquina nesse momento, o mais cabível é fragmentar a região inteira, mas não só o Iraque e a Síria; é dividir também a Turquia em vários pedaços. Essa balcanização também é uma aspiração israelense pois significa o enfraquecimento dos inimigos regionais e a legitimação do enclave sionista (afinal haverá uma série de enclaves étnicos confessionais, qual vai ser o sentido de pedir um único estado palestino multi-étnico ou questionar a etnocracia judaica em Israel?).

Citando Bashar Al-Assad, que sempre acusou as tendências de califa otomano do presidente turco: “Aleppo é a Stalingrado do século XXI e ali foram enterrados os sonhos fascistas de Erdogan.”

Um agravante mais recente nas relações é o rapprochement com a Rússia (apesar de Obama ter feito o seu próprio rapprochement com Putin e a divisão não chegar nem perto de uma situação de polarização total). Outro agravante geopolítico são os flertes com o Pacto de Shangai.

Desde o ano passado think tanks como o CFR e Brookings vem dando alertas para Erdogan para que ele retifique suas políticas, alertas que, dado o papel que essas instituições cumprem, funcionam ao mesmo tempo como ameaças e como norte político no caso de um possível golpe. Erdogan e seu partido, por outro lado, vem investindo mais na retórica anti-americana, que se intensificou agora mas já estava lá na hora de condenar as manifestações de Gezi.

Devem existir outros dez motivos que somos incapazes de conhecer no momento.

A Turquia passa por um momento de instabilidade por causa das desventuras de Erdogan, isso é um risco, então porque os americanos não receberiam bem um golpe militar no estilo egípcio ou até mais democrático? Se Erdogan é uma fruta podre, então deixem cair!

As coisas mudam, não estamos mais na Era Bush. Na situação atual o imperialismo tem feito muitas apostas, a crise do sistema e o próprio caráter degenerado do capital financista favorece a lógica apostadora. O que ocorreu na Turquia foi uma aposta, sem muito compromisso, num golpe que fracassou. Se der deu, se não der, bom, que sirva de aviso e alguns frutos certamente virão.

O que aconteceu no Brasil de certa forma também foi uma aposta. O governo de Dilma não teve compromisso algum com algo que possa ser chamado de nacionalismo ou anti-imperialismo. Os financistas ganharam a batalha da definição do juros e o encontro com Obama serviu para o Brasil mudar o voto na ONU em questões relativas a Síria e ao Irã. Dilma não era uma calamidade para o imperialismo, mas o combo Temer-Serra-Meirelles é melhor. Claro, eu digo “de certa forma” pois existem ressalvas importantes que diz respeito à estratégia norte-americana para a região. Quando Hillary Clinton chegou na Secretaria de Estado ocorreu uma “virada para o sul” que exige a derrubada de todos os governos de esquerda na região. A preocupação não é exatamente ideológica, mas sim a de garantir a hegemonia na região e adequar ela à nova prioridade da estratégia americana, que é a China. Esse contexto é acompanhado pela retirada no Oriente Médio e a escalada de tensões com a Rússia (que é bem recebida por Clinton, não tanto por Obama); há obviamente a questão do BRICS que diz respeito ao Brasil individualmente.

O imperialismo é realmente um inimigo comum do Brasil e da Turquia, é louvável que isso seja colocado. Há em mim a de que o comentarista no vídeo misturou algumas críticas corrente ao Erdogan quando falou em isolamento, misturou críticas liberais com um discurso de esquerda, porém o mais importante é atentarmos para as grandes diferenças entre os países antes de fazer analogias. A agitação pode deixar nossa visão mais turva que o normal. Eu não acredito que Temer fará o mesmo pois não é um político tão importante e tão popular como Erdogan, não existe um “projeto Temer” e golpe não foi para colocar Temer no poder, não foi um “golpe michelista”.

Quanto à Turquia, talvez a posteriori fosse possível elogiar algum produto dessa derrubada de Erdogan, como um possível triunfo do secularismo que abortasse a islamização, por exemplo (outros esperavam uma postura mais correta na Síria, contra os rebeldes). Não obstante, no momento eu prefiro fazer coro com o presidente Bashar Al Assad, o Partido Comunista da Turquia e tantos outros: esse é um problema do povo turco e cabe ao povo turco decidir.

Fontes

Hungry for power: Erdogan’s Witch Hunt and Abuse of State Power, Aydogan Vatandas, Blue Dome Press, 2015

http://edition.cnn.com/2016/07/16/politics/how-turkey-coup-affects-us-and-nato/

http://www.strategic-culture.org/news/2016/07/23/sultan-emergency-swing.html

http://www.lrb.co.uk/v36/n08/seymour-m-hersh/the-red-line-and-the-rat-line

http://www.nytimes.com/roomfordebate/2016/02/24/are-kurds-allies-or-obstacles-in-syria/unconditional-us-support-for-kurdish-forces-in-syria-harms-the-anti-isis-cause

http://www.express.co.uk/news/world/692810/Turkey-Amnesty-International-torture-rape-starved-failed-coup

http://www.presidentassad.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1537:president-al-assad-s-interview-with-cuba-s-prensa-latina-july-21-2016&catid=322:2016&Itemid=468

http://www.brookings.edu/research/interviews/2016/07/18-turkeys-prospects-after-coup

http://www.voltairenet.org/article190876.html Obama e Putin contra Erdogan

http://www.voltairenet.org/article192101.html

http://www.voltairenet.org/article188346.html

http://www.voltairenet.org/article183059.html “o apoio indiscutível de que tem ele goza só tem equivalente no ódio que desperta”

http://www.voltairenet.org/article178910.html Irmandade Muçulmana e Neo-Otomanismo

http://www.voltairenet.org/article186160.html

http://www.voltairenet.org/article187903.html Erdogan, Síria e Irmandade Muçulmana