Empresa ligada à inteligência ucraniana pode ter sido responsável por viagem de brasileiro preso em Kiev

A Revista Opera teve acesso exclusivo a emails que revelam a trajetória de Rafael Lusvarghi até sua prisão em Kiev por André Ortega e Pedro Marin | Revista Opera

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(Foto: André Ortega / Revista Opera)

Como noticiamos nesta semana, o ex-voluntário brasileiro no leste da Ucrânia, Rafael Lusvarghi, foi preso na última quinta-feira por autoridades ucranianas, ao desembarcar no aeroporto de Boryspil, em Kiev. Tendo voltado ao Brasil no final do ano passado, Rafael passou a trabalhar em um barco de pesca na costa brasileira, e enviou currículos em diversas áreas para lugares distintos do mundo com o título de “Legionaire seeks employment” (Legionário busca emprego).

Ele havia manifestado ao nosso ex-correspondente na Ucrânia, André Ortega, a intenção de sair do Donbass e fazer algumas viagens. De acordo com André, Rafael estava cansado da convivência na região, já havia vivido o suficiente da guerra e se enfastiava com a paralisia ligada ao cessar fogo inconclusivo – além de quê, sua saída seria uma necessidade no processo de implementação dos Protocolos de Minsk (que na prática não ocorreu). Posteriormente André também soube por Rafael que havia recebido algumas poucas propostas, mais especificamente uma para cuidar de animais na Mongólia e outra para prestar serviços de segurança em zonas de risco da Malásia.

De acordo com documentos obtidos com exclusividade pela Opera, a empresa “Omega” entrou em contato com Rafael em agosto desse ano, lhe oferecendo um emprego para segurança de um navio que sairia de Odessa, na Ucrânia, com destino a Galle, no Sri-Lanka.

Ainda naquele mês, após trocar algumas mensagens com a companhia, Rafael demonstrou preocupação com a ida à Ucrânia: “Já que estive no exército da República Popular de Donetsk, não teria problemas em aterrisar na Ucrânia? Seria possível embarcar em um porto fora da jurisdição ucraniana?”, questionou Rafael, que depois enviou uma mensagem à empresa sobre a anistia garantida pelos Acordos de Minsk. Ele havia lido os protocolos e, de acordo com fontes próximas do ex-combatente, enviado emails pedindo orientação para o Ministério de Relações Exteriores do Brasil.

“Ele claramente estava receoso, mas o fato de ser só uma passagem e ser a partir de Odessa deve ter dado confiança para ele”, disse André Ortega, explicando que o brasileiro sabe que Odessa é uma cidade majoritariamente “pró russa” e que Lusvarghi teve isso reforçado por outro jornalista que esteve na cidade. “Odessa é considerada pelo governo ucraniano como uma zona de alto de risco de separatismo e é capaz que Rafael fosse até recebido positivamente na cidade pelos locais”, concluiu.

Alguns dias depois a empresa disse ter contatado a Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) – que supervisiona o conflito na Ucrânia e que teve participação nos Acordos de Minsk – por meio do escritório da companhia em Londres, e que a viagem aparentemente não apresentaria riscos a Rafael.

Tendo reservado sua passagem no dia 26 de setembro, Rafael embarcou para a Turquia na última quarta-feira (5), de onde embarcou novamente até a Ucrânia, chegando no dia seguinte. Na terça-feira (4), no entanto, a Procuradoria de Kiev já havia um mandado de prisão preventiva contra Rafael. Até então, um site pro-ucraniano já divulgou parcialmente esta história indicando que, de fato, Lusvarghi foi vítima de uma operação do SBU.

Omega

Funcionando pelo menos desde 2011, a empresa “Omega” tem como foco desenvolver “soluções para apoiar e aprimorar a aplicação da lei, a defesa nacional, e o contraterrorismo”. Entre os clientes da empresa figura o Diretório Máximo de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia – informação omitida pela empresa durante as conversas com o ex-voluntário brasileiro.

A Opera tentou contato com a empresa na manhã deste domingo (9), questionando-a sobre a prisão de Rafael, sua contratação e sobre suas relações com a inteligência ucraniana, mas não obteve resposta até a publicação desta notícia.

Os contratos de segurança naval, que Rafael carregava consigo no momento da prisão, estão sendo utilizados para expor o brasileiro como um mercenário e por dedução/analogia ele teria sido contratado pela Federação Russa para atuar no Donbass. “Nada mais longe da verdade”, disse nosso correspondente que acompanhou Lusvarghi desde o Brasil, “Rafael foi para o Donbass por conta própria tão logo soube que era possível, ele queria lutar numa guerra de verdade e simpatizava muito com a posição pró-russa”, sobre recrutamento acrescentou que “sequer foi recrutado por algum grupo político específico, tanto é que ele esteve nos mais diversos batalhões com os mais diversos tipos”. André explica ainda que Lusvarghi já falava russo e por isso mesmo nunca dependeu de uma unidade, se diferenciando dos voluntários estrangeiros “ideológicos” e se parecendo mais com um soldado qualquer; a única motivação ideológica de Lusvarghi seria sua predileção pela civilização russa (“eu adorava Taras Bulba”) e sua admiração religiosa pela atividade guerreira. “É claro que isso não é do interesse do SBU ou dos promotores, que inclusive já divulgam confusões sobre ele ter sido formado como policial militar não no Brasil mas em Kursk, na Rússia, onde ele estudou medicina por um certo período de tempo”, finaliza André.

Itamaraty

Questionado pela Opera na última sexta-feira, o Ministério de Relações Exteriores do Brasil disse que foi notificado da prisão de Rafael por meio da Embaixada brasileira na Ucrânia, que entrou em contato com as autoridades do país para solicitar uma visita ao ex-voluntário e obter mais informações sobre as circunstâncias de sua prisão.

Em relação às mensagens trocadas por Rafael e pela “Omega” neste domingo (9), a Opera também contatou o Itamaraty, que não respondeu à redação até o momento.

Troca de prisioneiros

Um jornalista russo ligado a vários portais e ao canal de TV “Rússia 1”, que se identificou como um “amigo” de Lusvarghi, buscou comandantes da República Popular de Donetsk para pedir algum tipo de “intercessão” e disse que Lusvarghi já foi incluído nas listas de trocas de prisioneiros. Ainda não temos uma confirmação oficial em relação à presença do brasileiro na lista.

Lusvarghi não é a rigor um prisioneiro de guerra, mas uma troca não é impossível, o que provavelmente só deverá ocorrer após um julgamento e provável condenação na justiça ucraniana. O fato de Lusvarghi ter recebido condecorações por bravura, ter notabilidade pública na região, participado da tomada de Debaltsevo e sofrido um ferimento na perna no Aeroporto de Donestk facilita uma posição favorável das autoridades rebeldes por uma troca.

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