Estamos à beira das eleições presidenciais norte-americanas, e aparentemente “o sistema” norte-americano escolheu Hillary Clinton como sua candidata.

Não descartemos que o momento de crise tenha extendido o campo do debate nessas eleições de maneira que um dos grandes candidatos representasse uma forma de discurso dissidente na figura de um grande diabo descomedido. Ele mesmo um americano, o intelectual Noam Chomsky, diz em um de seus livros (The Common Good, Odonian Press 1988, pg. 43; tradução livre):

“A maneira inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro da opinião aceitável, mas permitir um debate muito animado dentro desse espectro – até mesmo encorajar as opiniões mais críticas e dissidentes. Isso dá às pessoas a sensação de que de que a liberdade de pensamento está efetiva, enquanto o tempo todo os pressupostos do sistema estão sendo reforçados pelos limites colocados na amplitude do debate.”

O jornalista sueco Vihelm Moberg, por sua vez, nos falou de uma “democradura”(democratur, “democracia-ditadura”) onde um establishment que só permite que certas opiniões passem, mas ao mesmo tempo apresenta um espectro limitado de opiniões, cria uma falsa noção de nuance e objetividade (que é basicamente o que a grande mídia faz na forma de discurso oficial). O debate é estrito, apesar de nesse momento aparentar mais quente e polarizado.

A amplitude do debate adquiriu um aparência mais radical por causa de condições externas? Grande parte da amplitude do debate foi cerceada pela mídia nos limites da “questão do politicamente correto”, girando entorno de comentários controversos e ofensivos por parte de Donald Trump. A campanha de Clinton, a oficial e não-oficial, não perdeu tempo e assumiu a bandeira do politicamente correto e a defesa das minorias culturais (as que são ofendidas e sofrem preconceito), enquanto Trump mesmo virou uma caixa de ressonância pública para pessoas “cansadas do politicamente correto” ou simplesmente intolerantes (racistas, por exemplo).

A performance de razoabilidade de Clinton em relação à sua linguagem pretende extender as conclusões de que ela também é uma política mais razoável, capaz, enquanto Donald Trump é um doido varrido. Na verdade, Trump realmente fez alguns discursos um tanto radicais para os padrões do sistema onde criticou o intervencionismo americano, elogiou inimigos internacionais e efetivamente falou dos interesses encastelados no que seria um establishment globalista. Trump é só mais uma forma de garantir a vitória de Hilary Clinton e dos interesses por trás dela (como o partido da guerra)? Trump é uma “armadilha” do sistema criar o seu próprio “outsider” antes que as massas escolham um para incendiar a Casa Branca? Ou um erro de programação, um breve inconveniente? Mesmo que essas perguntas sejam importantes nesse texto, respondê-las não é o nosso objetivo.

Nosso objetivo aqui é contribuir para as reflexões sobre a candidata Hilary Clinton para além dos limites criados pela mídia. Neste exato momento existem pessoas de esquerda, teoricamente críticas e independentes, simplesmente repetindo os padrões do debate cerceado, pensando dentro das cercas ou até celebrando as cercas, que é o caso mais extremo de pessoas que defendem Clinton como uma progressista, como se sua eleição fosse uma conquista social.

Falamos de uma orquestra de questões idiotas em que um coro de massas amorfas interage com os instrumentos pesados da grande mídia, gerando um verdadeiro espetáculo da estupidez que acoberta e desvia as questões reais na política americana, espetáculo com lógica de “show interativo” (muito próximo do entretenimento) onde as massas tem direito a alguns gestos simbólicos e identitários, quer dizer, essas massas eleitorais precisam de algum tipo de resposta mas essas respostas costumam já estar previstas dentro do espectro do espetacular e dominante. Como se isso não bastasse, temos brasileiros supostamente politizados repetindo os mesmos padrões superficiais e preocupações frívolas. Intelectuais e sub-personalidades de esquerda tem uma oportunidade de demonstrar que sua capacidade crítica  é preguiçosa e limitada, uma mistura de página neoliberal disfarçada do Facebook com Huffington Post e Globo News.

É por isso mesmo que preparamos um texto bem simples, pontual, para compilar o que interessa na hora de se discutir Hilary Clinton, coisas que são ignoradas perante o fantoche feio de Donald Trump – até Julian Assange (Wikileaks) foi acusado de “trumpista” por expor emails comprometedores da ex-Secretária de Estado (responsável pelas relações exteriores dos EUA). Clinton é uma radical da política externa, uma hawk (falcão), um falcão “em qualquer medida razoável” como disse o Foreign Policy, ou seja, ninguém questiona isso. Um falcão que acredita em intervencionismo, “exportar democracia”, em bombas, em drones, extermínios e grupos armados.

Clinton não é só pessoalmente mais radical do que o Presidente Obama no seu posicionamento, mas já deu boas demonstrações de que tem uma paixão desequilibrada pelo exercício desse poder (disse ela: “Nós viemos, nós o vimos, e ele morreu! hahahahahaha” sorridente, logo após vídeo de Kadafi sendo assassinado e sodomizado por uma turba de radicais ter sido jogado para o horror internacional). Não nos importa tanto se ela é notável por seu humor irrascível (talvez importa para quem adora falar da saúde mental de Trump e de seu narcisismo…), mas a razão dela ter sido escolhida pelo “partido da guerra” (grupos de interesses pro guerra) é justamente pela necessidade que o grande capital financeiro internacional defendido pela espada estado-unidense tem desse tipo de guerrista em tempos de crise como esse. Clinton não vai começar o seu mandato simples e diretamente declarando guerra à Rússia como o alarmismo de Trump quer sugerir, mas suas políticas realmente caminham no sentido de um salto nas tensões com a Federação Russa.

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Muitas pessoas inteligentes e politicamente educadas sequer têm ideia de alguns desses pontos, impossibilitando que realizem uma pesquisa. Todos os itens são fatos e políticas que possuem a participação de Hilary Clinton, como Secretária de Estado principalmente.

1. Hilary teve envolvimento direto no golpe militar em Honduras que derrubou o Presidente Zelaya, que por acaso politicamente revoltava a direita com alguns elementos da agenda LGBT – que por sua vez agora é reivindicada Clinton – e a distribuição estatal de pílulas do dia seguinte. Desse golpe nasceram esquadrões da morte que até hoje assolam o país.

2. O programa de militarização, guerra e parapolítica na Colômbia. Clinton é a política que colocou mais poder e mais terra nas mãos da narco-direita colombiana, o que em última instância serve interesses de corporações agro-industriais e mineiradoras de seu país e aliados do centro imperialista que prosperam em detrimento das populações camponesas, afro-colombianas e tradicionais. Os paramilitares, que são ligados a políticos de direita e a cartéis de droga, são os principais responsáveis por assassinatos e chacinas na Colômbia atualmente. É a campanha paramilitar a principal responsável pelo deslocamento de refugiados internos que já totalitazam mais de 6 milhões de colombianos.

3. A defesa de Clinton e seu envolvimento com a imposição do Free Trade Agreement na Colômbia, tanto na corrida presidencial anterior como depois na Secretaria de Estado, saga que envolve hipocrisia política (vira-casaca) e corrupção. Bill Clinton chegou a receber 800 mil dólares para fazer palestras na Colômbia defendendo o acordo enquanto ela ainda se dizia contra a proposta para atacar o Obama durante as eleições. Hilary mudou de posição depois que a Pacific Rubiales, empresa petrolífera “colombiana”(na verdade canadense), doou 100 milhões de dólares para a Fundação Clinton, além de um dos diretores (um financista canandense, Frank Giustra) ter recebido uma cadeira na direção da fundação. A empresa está envolvida em escândalos trabalhistas, casos de lavagem de dinheiro e paramilitarismo.

4. O casal Clinton mantém uma espécie de potentado neocolonial no Haiti, através de vínculos pessoais, o poder estatal e fundações filantrópicas, uma relação neocolonial com o Haiti. Eles exercem um grande poder graças a suas redes. Jean-Max Bellerive, que foi Primeiro Ministro do país, disse que no Haiti os Clinton estão “em todos os níveis do poder”. O Haiti foi um laboratório de Hilary Clinton, marcado pelo neoliberalismo e o poder apadrinhador de tipo neocolonial. Os grandes investimentos estrangeiros que não fazem muito pelo país foram articulados por Clinton, assim como o governo neoliberal capacho dos Estados Unidos. Bill Clinton ainda tem no currículo o fato de na sua presidência, num passado não tão distante, ter imposto reformas neoliberais ao país, que levaram à perda da capacidade de produzir arroz.

5. Clinton foi contra o Free Trade Agreement com o Panamá, na campanha anterior, mas depois no poder da Secretaria foi pivô pra impor o mesmo.

Em relação ao México, Clinton já tem experiência na construção de muros, na apologia da construção desses muros, na continuidade da política da militarização fronteiriça, além de ter forçado a agenda de privatização do petróleo no país.

6. Se alguém fala em “racismo”, Clinton não herda só os muros, mas a continuidade do governo que mais deportou imigrantes e destacado por seus bombardeios no Oriente Médio (dos quais Hilary é mais adepta que o atual presidente).

7. Golpe no Paraguai, vínculos com da Embaixada Americana.

8. Extrema pressão política no governo de El Salvador (do FMLN) para passar um programa de privatização. Também falou a favor de implodir o programa de cooperativas de semente, para o governo comprar sementes de empresas como a MONSANTO.

9. Julian Assange para John Pilger, sobre Trump ganhar: “Minha resposta é que Trump não será ‘autorizado’ a vencer. Não lhe permitirão vencer. Por que digo isso? Porque Trump tem contra ele todo establishment, todos os vários campos do establishment. Não há uma única área ou setor do establishment a favor de Trump. Talvez só, no máximo, os evangélicos, se se pode dizer que sejam um establishment. Bancos, inteligência, empresas fabricantes de armas, dinheiro de fora etc. Todos esses apoiam Hillary Clinton. E a mídia-empresa comercial, claro. Os proprietários das empresas comerciais de mídia e, também, os próprios jornalistas, seus empregados.”

10. Clinton é partidária de uma solução radical de intervencionismo e regime change (mudança de regime) para a Síria. Ela foi a principal patrocinadora da “Revolução” na Síria e acabou saindo da Secretaria de Estado por conta de seu radicalismo. Em um de seus emails vazados pelo Wikileaks, Clinton fala da necessidade de se derrubar o presidente sírio, Bashar Al-Assad, para ajudar Israel e fechar o cerco contra o Irã. Isso é um raciocínio geopolítico básico, é uma pena que quando expomos, mesmo que na forma de especulação, aparecem alguns para fazer acusações de conspiracionismo. Claro, é muito mais inteligente e realista simplesmente pensar na bondade desinteressada do imperialismo.

Foi a política de regime change e o apoio armamentista que levou afundo a Síria à guerra e que deu a origem a vários grupos radicais islamistas direta ou indiretamente armados pelos Estados Unidos, inclusive o Estado Islâmico, cujo crescimento é sub-produto da política de Clinton.

11. Líbia. Clinton foi a principal patrocinadora, “pusher”, da política de guerra contra a Líbia que culminou na destruição do país com melhor IDH da África e imersão do mesmo no caos político e paramilitar, dominado por diversas gangues terroristas, inclusive com o ISIS no controle de uma das principais cidades do país (Sirte). Isso foi feito inclusive a despeito da posição dos militares americanos, que também mantém uma posição conservadora em relação a Síria por temer um confronto com a Rússia.

12. Clinton foi uma figura importante para o golpe que catapultou neofascistas para o poder na Ucrânia e também levou aquele país a uma situação de guerra civil, tendo como objetivo a realização de uma política agressiva anti-russa. Victoria Nuland, secretária de estado assistente para a Eurásia da administração Obama, uma das principais figuras norte-americanas na Ucrânia, é ligada ao círculo da candidata, sendo ela mesma um falcão radical dos Democratas. Hoje um grupo abertamente neonazista como o Batalhão Azov é legal, possui um partido político, influência nas instâncias do poder e equipamento norte-americano avançado.

Clinton vai querer re-escalar o conflito na Síria e possivelmente na Ucrânia.

13. Micah Zenko no Foreign Policy: “…o longo currículo da candidata sugere que ela procura ser uma presidente de guerra desde o primeiro dia (…) Diferente de Donald Trump, que mudou de posições de maneira selvagem (…) Clinton tem um currículo extenso de atuação que nos permite avaliar suas posições mais prováveis.” Zenko é do think-tank Council on Foreign Relations, é um entusiasta e não um crítico dessas características. Ele mesmo produz o pensamento estratégico que alimenta intervencionistas do Partido Democrata.

14. Uma massa de guerristas, neoconservadores e globalistas ligados historicamente ao Partido Republicano desertaram Trump em prol de Clinton precisamente por conta do intervencionismo. Até figuras famosas como Robert Kagan, que se refere especificamente ao que seria uma falta de firmeza de Obama com a Rússia (“por temer uma guerra nuclear”, diz ele – provavelmente esse é um motivo fútil), que Obama “não se preocupa com a Ucrânia”, que Clinton se preocupa mais com a questão e armará mais o governo ucraniano. Por acaso Kagan é casado com a já citada Victoria Nuland, a plenipotenciária dos Democratas na Ucrânia, um casamento que pelo visto vence diferenças partidárias e tem coisas importantes em comum, como o interesse em jogar mais armas para o Estado ucraniano massacrar civis e rebeldes no Donbass, de preferência se utilizando de grupos radicais de extrema-direita.

15. Para uma feminista tão empoderada e disposta a engrossar a voz com vários governos do mundo, usar drones, bombas e terroristas se necessário, Clinton não é tão dura com alguns dos regimes mais misóginos como os do Qatar e o regime wahabita ultra-estrito e hiper-reacionário da Arábia Saudita. Não nos indignemos: a Síria laica e secular pode ser um lugar onde as mulheres desfrutam infinitamente mais direitos, mas não é uma semi-colônia ou um capacho como a Arábia Saudita.

Os nomes desses países estão trazendo uma dor de cabeça para os agentes de relações públicas da campanha de Clinton porque eles fizeram doações multi-milionárias para a fundação de mesmo nome logo nas calendas do processo eleitoral. Seria escandaloso esse dinheiro, com a fundação já implicada em outras acusações de corrupção, vindo de regimes como esses que financiam grupos radicais islamistas (incluindo o ISIS) para financiar a feminista Hilary Clinton. Mais comprometedor é que se trata de mais um caso em que se falam de vantagens que Clinton desfrutou para sua fundação ao ocupar sua posição de diplomata. Clinton não só conduziu uma política de patrocínio desses regimes como assinou com os sauditas um dos maiores negócios de armas da história.

16. Clinton disse que se ela for presidenta, iria atacar e “obliterar o Irã” no caso de um ataque contra Israel.

17. Durante a disputa eleitoral, Hillary Clinton atacou as posições de Bernie Sanders sobre Israel dizendo que “o Hamas provoca Israel”. Durante a “Operação Margem Protetora”, que resultou na morte de mais de 1400 civis palestinos, Hillary Clinton justificou os ataques de Israel a escolas da ONU em Gaza dizendo que militantes do Hamas as usavam para disparar mísseis contra o território israelense.

18. A virada estratégica feita pela Clinton na política externa norte-americana para a América do Sul possivelmente tem relação com o crescimento da direita no continente e com a desestabilização da Venezuela.

Isso é apenas um resumo.

“Antes ela” que o Trump? Essas coisas são realmente menos importantes do que a distração emocional do macaco Trump, vale mais a repulsa reativa frente uma imagem midiática do que uma reflexão cuidadosa? Enquanto isso a Síria desaba em chamas e o Iêmem é bombardedo.

Leia também – Hillary e Trump: uma moeda, duas faces

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Fontes:

“Hillary Clinton já tem um legado destrutivo na América Latina” –http://www.telesurtv.net/english/news/Hillary-Clinton-Already-Has-Destructive-Legacy-in-Latin-America-20160713-0011.html

“Hillary Clinton nem sempre apoiou o aumento do salário mínimo” –http://www.telesurtv.net/english/news/Hillary-Clinton-Didnt-Always-Support-Raising-the-Minimum-Wage-20160531-0035.html
“Um guia para os eleitores das políticas de Hillary Clinton na América Latina” – https://www.thenation.com/article/a-voters-guide-to-hillary-clintons-policies-in-latin-america/“O rei e a rainha do Haiti” – http://www.politico.com/magazine/story/2015/05/clinton-foundation-haiti-117368Email vazado de Clinton – https://wikileaks.org/clinton-emails/emailid/18328“Hillary Clinton: a guerrista internacional neoconservadora” –http://www.voltairenet.org/article187315.html“Os neoconservadores de Clinton” http://www.theamericanconservative.com/articles/hillarys-neoconservatives/“Hillary, a falcão: uma história” – http://foreignpolicy.com/2016/07/27/hillary-the-hawk-a-history-clinton-2016-military-intervention-libya-iraq-syria/“Neoconservadores, guerristas e globalistas abandonam o Partido Conservador por Hillary” – http://www.thenewamerican.com/usnews/politics/item/23739-neocons-warmongers-and-globalists-abandon-gop-for-hillary

“O Departamento de Estado de Hillary Clinton aprovou 165 bilhões em venda de armas para doadores da Clinton Foundation” – http://treason.news/2016-08-04-hillary-clintons-state-department-approved-165-billion-in-arms-deals-to-clinton-foundation-donors.html

“Clinton diz que os EUA poderiam ‘obliterar totalmente’ o Irã” – http://www.reuters.com/article/us-usa-politics-iran-idUSN2224332720080422
“Hillary Clinton ataca palestinos mortos em batalha contra Bernie Sanders” – https://electronicintifada.net/blogs/rania-khalek/hillary-clinton-attacks-dead-palestinians-battle-against-bernie-sanders