Em meio à discussão acerca dos recentes acontecimentos na Síria e mais especificamente em Aleppo, é notável a confusão das pessoas em relação à identidade dos auto-proclamados revolucionários que combatem o governo sírio e seu presidente, Bashar Al-Assad. Quase seis anos se passaram desde o início da guerra, e imprensa e público parecem não terem entendido (ou talvez se esqueceram) de quem são os rebeldes. Muitas pessoas pegaram carona na comoção pública e não têm ideia do que de fato ocorre na Síria, enquanto que mesmo os apoiadores comprometidos da “Revolução Síria” demonstram eventualmente desconhecimento ou ambiguidade em relação aos grupos armados anti-governo.

O principal partido político no Brasil que presta solidariedade a esses grupos é o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), partido de origem argentina, seguindo uma linhagem trotskista-morenista (Nahuel Moreno) e que foi corrente do PT nos anos 90. Entre suas lideranças e notáveis está o seu candidato presidencial, Zé Maria, que figurou como um grande sindicalista nos anos 80. O partido recentemente passou por um racha que o debilitou e deu origem à organização “MAIS”(Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista). Apesar desse revés, o PSTU ainda faz parte e na prática dirige uma organização chamada de Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI ou LIT-CI usando o espanhol do berço argentino), que também produz textos defendendo a “Revolução Síria” e atacando os “stalinistas” da esquerda que não compartilham desta posição.

O PSTU é frequentemente acusado de adotar as mesmas posições do imperialismo norte-americano por, como nesse caso, coincidir no chamado pela queda do “regime ditatorial do tirano Bashar al-Assad”, assim como presta solidariedade aos mesmos grupos armados pelos imperialismo. Sua posição é ainda menos incidental a partir do momento em que compreendemos que ela se dá num quadro de relações com elementos da Irmandade Muçulmana que atuam no Brasil na comunidade islâmica, contato que (até onde nós reles mortais podemos cogitar) foi provavelmente iniciado em movimentos de solidariedade à Palestina (as mentes mais ousadas ou melhor informadas dos bastidores podem ir mais longe). Dentro da esquerda a organização tem passado maus bocados por conta disso e se esforça para defender uma pluralidade de grupos armados que são majoritariamente formados por “radicais islâmicos” (as aspas não tornam a identificação menos verdadeira, mas é do nosso interesse especificar quem é quem – quem é Irmandade Muçulmana, quem é salafista, quem é Al Qaeda).

No intuito de trazer um pouco mais de esclarecimento a esse debate e às acusações presentes nele, bem como retirar a cortina de fumaça sob os grupos armados, quero compartilhar a leitura de um relatório publicado por Aron Lund no site do Think Tank “The Century Foundation“.

É importante antes estabelecer duas coisas: eu mesmo me situo no campo crítico à posição do PSTU, campo que considera a posição justa aquela anti-imperialista de se opor a uma agressão promovida pelos Estados Unidos e seus lacaios regionais (Arábia Saudita, Turquia, Israel, monarquias do golfo) contra a Síria através de grupos radicais que colocam em risco não só a independência, mas também o secularismo e a diversidade étnico-religiosa daquele país. Em segundo lugar, no entanto e a despeito da minha posição, estou utilizando aqui uma fonte ocidental que eu poderia caracterizar a partir de minha posição, no pior dos epítetos, como um dos principais propagandistas do imperialismo, membro do programa para Oriente Médio da Carnegie Endowment for International Peace (I.E. um promotor de revoluções laranjas e regime change), “especialista” responsável por grande parte do discurso contrário ao governo sírio na esquerda ocidental, pela promoção da “revolução” e do intervencionismo. O Think Tank TCF cabe nessa descrição, sendo ele um dos mais antigos produtores do discurso “liberal progressista” nos Estados Unidos, que tem como mote “progressismo, democracia, sociedade aberta e livre mercado”.

Dito isso, não quero atribuir uma legitimidade superior a eles por serem ocidentais ou definirem o discurso da esquerda liberal no ocidente, eu poderia muito bem usar fontes simpáticas ao regime, mas esclareço que este não é o caso. Não quero alimentar ilusões de que estas figuras são “mais neutras”, mas somente demonstrar algumas coisas utilizando uma fonte ocidental contrária a Bashar Al-Assad e que alimenta não só o discurso de uma grande parcela da esquerda como da própria mídia em geral (principalmente publicações como o The Guardian, The New York Times e The Huffington Post). O relatório mesmo é parte de um trabalho mais amplo financiado pela Corporação Carnegie de Nova York.

Reforçando que não atribuo legitimidade especial alguma a essas fontes, observo que muito do que será dito aqui são fatos bem conhecidos e tudo que faremos aqui é um certo choque de realidade para os esquecidos ou ignorantes, resumindo o texto de Lund e eventualmente fazendo pontuações críticas.

Para evitar as dificuldades da boa escrita em prosa dissertativa direta e fluída, vamos garantir clareza através de pontos:

– No primeiro parágrafo já é estabelecido que a maioria da população vive sob áreas controladas pelo governo Bashar al-Assad, o que é importante, para qualquer um de considerações humanitárias, saber. Acrescento que boa parte da Síria está em condições mais próximas da normalidade civil do que propriamente da guerra. Fiel à cartilha discursiva ocidental, Lund também se refere ao partido de Assad (o Ba’ath) como “russian backed and iranian backed”, ou seja, “apoiado” ou “segurado” por russos e iranianos. A Rússia e o Irã, como sabemos, de fato apoiam Assad, mas isso não muda que o partido tenha um ampla base de militantes e funcionários construída num período superior a 30 anos (superior a 50 se contarmos toda a história do partido). Esse tipo de discurso tenta sugerir uma falta de independência de um partido que surgiu sozinho na história síria e não como criação artificial ou recente dos países citados. São aliados e não patrões.

– No segundo parágrafo Lund é um pouco escorregadio ao falar de “milícias xiitas islamistas aliadas de Assad” contra “facções rebeldes árabes sunitas”. Temos uma tendência possivelmente desonesta de exagerar o papel politico das milícias xiitas (que no Iraque, na Síria e no Líbano combatem o “Estado Islâmico”, que daqui pra frente será referido como “DAESH”) de rebaixar o caráter islamista das facções rebeldes (esse segundo elemento da tendência será contido no restante do texto, como veremos). Além disso, há o perigo de tratar o conflito sírio como um conflito sectário, no molde racista-ocidental/orientalista de “xiitas e sunitas sempre se mataram, árabes são loucos sectários”, quando a maioria do também citado Exército Árabe Sírio (com “de Assad” no final) é formada por combatentes sunitas, existindo sunitas no alto escalão do Estado e do exército. Recusem qualquer sugestão em suas mentes que as origens do conflito estão em meras “diferenças religiosas”, um acerto de contas religioso ou coisa do tipo, porque é daí para a “solução” de que os “pobres selvagens” precisam da intervenção de uma terceira parte, o nobre cavaleiro branco com seu fardo civilizatório.

No mesmo parágrafo Lund observa que “muitas” das “facções rebeldes sunitas” recebem apoio da Arábia Saudita, do Qatar, da Turquia ou dos Estados Unidos. Esse apoio não é irrelevante ou minoritário como às vezes militantes do PSTU querem fazer parecer, e todos estes fazem parte de uma mesma “frente revolucionária”.

– Ainda no segundo parágrafo Lund coloca que “o governo parece estar consolidando suas posições em áreas chave”. Mais para frente, menciona que a queda de Aleppo Oriental é uma grande derrota estratégica e simbólica para a insurgência, “muitos de seus apoiadores devem acabar concluindo que eles foram derrotados”, isto é, enquanto “Revolução Síria”. O texto, porém, será sobre Ghouta Oriental.

– “O norte da Síria é dominado por facções islamistas como Ahrar Al-Sham, o Failaq al-Sham da Irmandade Muçulmana, e o grupo ligado com a Al Qaeda, Jabhat Al-Nusra (que se renomeu Fateh al-Sham em julho de 2016 e diz ter cortado vínculos com a Al Qaeda).”

Devo fazer algumas observações próprias: o Ahrar Al-Sham é um grupo radical wahabita, estrito, “fundamentalista”, apoiado pela Arábia Saudita e pela Turquia, mas é o grupo favorito especificamente dos sauditas, recebendo voluntários, armas, treinamento e dinheiro, além de santuário nas terras da dinastia Saud e lobby diplomático através desse país. Este grupo possui cerca de 20 mil soldados e era um dos que controlava Aleppo. São provavelmente o componente principal de uma frente com outros grupos chamada de “Frente Islâmica”, que conta com até 70 mil combatentes e cujo líder Zarhan Aloush declarou que “limparia a Síria” de xiitas e alawitas. A Frente Islâmica é uma frente dominada por grupos salafistas e compostas por islamistas patrocinados por diversos países, alguns mais radicais do que outros, incluindo o que era a principal brigada de Aleppo e a mais famosa do “Exército Sírio Livre”, a Brigada Tawhid. A ideologia dos grupos apoiados pelo sauditas é uma corrente religiosa salafista (“fundamentalista”) do wahabismo, uma forma ultra-estrita e purista de Islã conforme pregado e praticado na Arábia Saudita, com uma ênfase especial na condenação dos “infiéis”, dos “hereges”(xiitas) e dos “hipócritas”; sunitas que fazem más práticas, não-ortodoxas, inovações e idolatria.

O Failaq al-Sham (Legião do Sham) é a principal força armada dirigida pela Irmandade Muçulmana na Síria (mas não a única) e pode ser chamado de um dos grupos favoritos da Turquia (que na prática se tornou o “centro” da Irmandade Muçulmana). Recebem armas, dinheiro e tropas da Turquia, inclusive participando de uma ofensiva conjunta (Operação Jaraboulos) com o exército turco contra a milicias curdas do YPG em agosto de 2016. Também podemos dizer que são os “favoritos” dos árabes no Brasil que armam as manifestações pro-rebeldes ao lado do PSTU, eles mesmos amantes do Erdogan como líder de um “renascimento islâmico” e próximos, quando não membros, da Irmandade Muçulmana. A Legião foi responsável pela formação de uma coalizão com outros grupos islamistas de Aleppo (muitos provenientes do ELS e também ligados à Irmandade como o Jaysh Al-Sunna). Eles também fazem parte do “Exército da Conquista” criado pelo Jabhat al-Nusra. Possuem cerca de 4 mil combatentes, poucos se comparados com a franquia dos sauditas, mas com a importância exagerada devido a seus apoios políticos.

A Irmandade Muçulmana não é um grupo propriamente salafista, ainda que use “salafi” para se referir a si mesmo. É um grupo que assume algumas roupagens mais “modernas”, além de ser um dos precursores ideológicos e práticos do Islamismo político e do jihadismo, com uma longa experiência de oposição ao nacionalismo árabe. O grupo tenta passar uma imagem de “moderação” (talvez devido a suas origens notavelmente burguesas), imagem que foi desmoralizada não só por causa das campanhas terroristas que conduziu (especialmente na Síria) mas agora por inter-secções ideológicos e práticas até com o Daesh. Frequentemente apresentam noções ultra-conservadoras de estabelecimento da Sharia, quando não abertamente sectárias. Têm sua própria ideia de conservação da pureza do Islã com a influência de interpretes contemporâneos da religião e outros movimentos políticos (especialmente do ocidente). A estratégia de seu fundador egípicio para alcançar o ideal da unificação da comunidade dos fiéis (Ummah) é primeiro promover a islamização da sociedade “por baixo”, garantindo a supremacia dos valores tradicionais num processo gradual que culminaria na tomada do poder de uma forma ou de outra. Posteriormente passariam por outro grande ideólogo, Sayyid Qutb, que promoveria uma nova radicalização. Para Qutb o mundo muçulmano estava em ruínas, todos viviam em apostasia e a Irmandade Muçulmana precisaria ser um enclave ou refúgio de resistência dos verdadeiros crentes, onde formariam um núcleo sólido para a tomada do poder. Atualmente eles têm Erdogan como patrocinador e referência do “possível” – de certa forma é o mais próximo do “novo Califa” capaz de realizar a tal reunificação da Ummah. Eles também possuem representação parlamentar em alguns países, tiveram um breve período de poder no Egito com Mohamed Morsi, aumentam seu poder liderando a coalização do governo na Tunísia e foram historicamente instrumentalizados por regimes como o da monarquia marroquina (nas manifestações pro-rebeldes do PSTU em São Paulo sempre há entre os organizadores um senhor marroquino notável por suas loas ao regime daquele país).

Segundo Alain Gresh, “Uma poderosa onda islamita composta por uma aliança entre a Irmandade Muçulmana, salafistas e os emires do Golfo parece varrer o mundo árabe”.

Apesar da aliança momentânea no atual contexto do Oriente Médio (não só na Síria – o massacre das bombas anglo-americanas lançadas no Iêmen pela monarquia saudita, ignorado por um PSTU conivente, foi iniciado entre outras razões para proteger a ordem dominada pela Irmandade que foi estabelecida naquele país em 2011), a Irmandade Muçulmana e o wahabismo saudita são duas correntes concorrentes na ascensão do islamismo político  – para wahabitas e salafistas em geral, a Irmandade é muito “inovadora” (termo pejorativo, referente à introdução de inovações na ortodoxia religiosa); para a Irmandade os apoiadores da casa dos Saud apoiam um regime degenerado e vendido aos Estados Unidos, que não é suficientemente puro e traiu a comunidade (vide Palestina; essa diferença ideológica não impediu os sauditas de patrocinarem eventualmente grupos ligados à Irmandade) – ainda assim o wahabismo oferece uma opção mais cruamente reacionária e estrita do ponto de vista ideológico e religioso.

Por último foi citado o grupo Jabhat al-Nusra, notável franquia da Al Qaeda na Síria, com a ideologia própria da organização, uma forma mais radical de salafismo wahabita misturado com uma concepção própria de jhadismo (de Bin Laden e principalmente o egípcio Al Zahawiri, influenciada pela obra dos ideológos da Irmandade Muçulmana e com o componente “revolucionário ativista” distinto dos ultra-reacionários wahabitas ligados ideologicamente a Arábia Saudita – “ideologicamente” porque do ponto de vista material todos esses grupos tem vínculos com o regime saudita). Apesar da maioria dos grupos possuir estrangeiros, é um dos mais notáveis pela presença de jihadistas do exterior e militarmente um dos grupos mais sólidos e disciplinados, com 15 mil soldados. Muitos atribuem seu crescimento ao que seria sua estratégia política de aliar a “moderados” e permitir que eles assumissem a frente. Também fundaram uma das principais frentes islamistas anti governo do país, o Exército da Conquista (Jaish al-Fatah), que inclui grupos ditos moderados e, como dissemos, a Legião do Sham, controlando assim um dos maiores contingentes do conflito.

– Segundo o autor, porém, esses grupos não são dominantes em Ghouta Oriental, e sim grupos supostamente mais “regionais” ou pelo menos de menor envergadura internacional. Não é incomum o PSTU argumentar que existem “grupos pagos por estrangeiros na revolução Síria para liquidá-la”, ao mesmo tempo que são ambíguos e defendem esses grupos na aliança anti-Assad – mas seriam esses grupos de Ghouta os “verdadeiros revolucionários”?

Lund os nomeia: “um grupo maior de salafistas conhecidos como Exército do Islã [Jaish al-Islam], os islamistas não-salafistas do Ajnad al-Sham, a facção auto-declarada do Exército Livre Sírio chamada de Failaq al-Rahman, e grupos locais com política oportunista e ideologia incerta, como o Fajr al-Umma e a coalizão conhecida como Exército da Umma”.

Lund nesse momento aparentemente quer rebaixar o caráter do Jaish al-Islam, que é ao lado do Ahrar al-Sham o principal grupo apoiado pelos sauditas e berço de um dos líderes da Frente Islâmica, aquele mesmo das declarações anti-xiitas, Zahran Alloush – um dos maiores líderes da “revolução síria”. Possui entre 17 e 25 mil soldados.

O Ajnad al-Sham (Soldados do Levante) se chama “União Islâmica Ajnad al-Sham” e já se aliaram em comandos conjuntos com o Jabhat al-Nusra, bem como com a Frente Islãmica e a Legião do Sham, além da proximidade especial com o Jaish al-Islam. Possui entre 2 mil e 3 mil soldados. Possui vínculos com o Qatar (portanto, vínculos mais fortes com o ocidente). O autor observa em seu relatório que o grupo é ligado a Irmandade Muçulmana e a clérigos tradicionalistas críticos do salafismo. Ficaram com o segundo posto do comando unificado de Aloush.

A Legião al-Rahman é comandada por um ex capitão do exército e foi recipiendário de ajuda americana na forma de lança mísseis anti-tanque TOW. É um grupo em decadência e cujo corte islamista da ideologia é questionável, já que o grupo tentou recorrer a esses elementos em sua propaganda misturando-os com componentes nacionalistas e o passado militar de seu comandante para aparentar uma alternativa “não islamista”. O comandante é Abu Al-Nasr, que iniciou as suas atividades pós deserção liderando um grupo chamado “Batalhão Bara”, que sequestrou 48 peregrinos xiitas iranianos que se dirigiam ao templo Sayyeda Zeinab. A libertação desses reféns ocorreu após negociações não muito claras, que envolveram troca de prisioneiros e possivelmente grande somas de dinheiro. O dinheiro do sequestro teria garantido a autonomia da Legião al-Rahman por algum tempo.

O exército da Ummah era uma coalizão de mais de 20 grupelhos próximos do banditismo que foi na prática eliminada pelo Jaish al-Islam. O aparecimento de grupos de caráter criminoso muito despolitizado foi comum no início da “revolução” e em geral eles foram suprimidos ou centralizados por fundamentalistas. O grupo identificado como Fajr al-Umma não deve ser muito diferente, mesmo que faltem informações a respeito do mesmo, a não ser sobre seu processo de conflitos e fagocitações pelo Jaish al-Islam. O exército da Ummah seria articulado com um terceiro grupo, “Legião Omar”, para fazer oposição a liderança ascendente de Aloush. A Legião Omar era um grupo local de clãs beduínos e salafistas linha-dura.

Muitos dos elementos do grupo Exército da Ummah eram gangues sob a bandeira do “Exército Sírio Livre”.  Apesar da fama de criminosos, eles não deixavam de acusar Aloush de ser um “ditador que lucra com a guerra”. A tensão chegou ao ponto de membros da oposição, declarando que Aloush era um “cúmplice secreto de Assad” e que “escondia comida dos esfomeados”, fazerem um protesto armado em armazéns controlados pelo Jaish al-Islam que culminou em troca de tiros. O acontecimento foi novembro de 2014, em dezembro Aloush declarou que iria “limpar a sujeira corrupta” e lançou um ataque total contra o Exército da Ummah sem utilizar os mecanismos de foro unificado que ele mesmo estabeleceu. O Exército da Ummah foi dizimado, enquanto o grupo Legião Omar foi incorporado no Jaish al-Islam quando as tensões aumentaram contra o Daesh (havia simpatia pelo Daesh dentro da Legião Omar, e numa declaração pública Aloush pontou que “até mesmo simpatia ideológica” seria considerada crime).

– No parágrafo seguinte Lund vai descrever o caráter fundamental da liderança de Aloush e a ascensão da supremacia do Jaish al-Islam sobre os outros grupos, que foram obrigados a aderir a instituições militares e jurídicas deste grupo. Aloush conquistou um feito militar e politico para os “revolucionários” ao unificar os diversos grupos de Ghouta Oriental sob a égide de seu exército. “Apesar de ser criticado pelos seus métodos autocráticos, Aloush ascendeu a imagem como um dos poucos construtores de estado [state-builders] da insurgência”. Ainda assim, no ápice de seu comando Aloush ainda tinha metade dos rebeldes fora de seu controle a oposição do Jabhat al-Nusra.

De fato, Aloush servia como um bom argumento contra aqueles que esperavam um “caos líbio” na Síria, ao criar uma ordem política sob seu domínio. Depois de dizer isso, Lund justifica: “Por mais de cinco anos a oposição síria falhou em oferecer qualquer alternativa viável ao governo que procura derrubar. ” Os projetos que apareceram para além de Assad, segundo ele, foi o de Rojava e do Daesh. Ele diz que estes dois projetos são eles mesmos incapazes de se espalhar por toda Síria ou mesmo de conquistar a confiança da insurgência árabe sunita (bom, eu não sei se concordo totalmente isso quando vários “rebeldes” passam para o lado do Daesh).

“Enquanto os vários grupos rebeldes criaram conselhos militares, coalizões e lideranças concorrentes no exílio, eles falharam em criar estruturas de governo de nível de base efetivas acima de divisões faccionais e que se imponham a população. Em Ghouta Oriental, em 2014-15 apareceu uma exceção a essa regra sob a direção do Exército Islâmico.”

– Em outro momento do texto o autor fala dos contatos de comandantes “rebeldes” em Ghouta Oriental com comandantes do exército sírio e um mercado de contrabando particularmente agitado. Essa economia política do contrabando erodiu a base de Aloush, que morreu em dezembro de 2015 abrindo espaço para o conflito entre as facções menores mas não tão pequenas assim, confiantes com a morte do caudilho salafista, com o dinheiro de patrocinadores externos e o controle de redes de contrabando.

– Finalizando, Lund descreve o cenário de Ghouta Oriental em 2016 como um dominado pelo confronto de facções, o avanço do Exército Árabe Sírio e a imposição de um cessar-fogo que inicia a destruição do enclave “rebelde”. O autor parece lamentar a queda da “experiência única de unidade rebelde”, a grande derrota para a insurgência e se pergunta sobre lições acerca de construção de Estado e insurgências divididas em facções.

Fontes:

https://tcf.org/content/report/into-the-tunnels/

http://www.voltairenet.org/article193553.html

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1840

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1997

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1205

http://www.reuters.com/article/us-syria-crisis-rebels-factbox-idUSBREA080SW20140109

Damascus, East Ghouta – Jabhat al Nusra, Ahrar al Sham, Ajnad al-Sham Islamic Union Have Formed a Joint Operation’s Room Named "Jund Al-Malahm" from syriancivilwar