Brasil, Ucrânia e as tarefas da história

por André Ortega | Revista Opera

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(Fotos: à esquerda, de Rovena Rosa/Agência Brasil, à direita por Nwssa Gnatoush)

O tempo em que presenciei a guerra civil no Leste da Ucrânia, em 2015, graças à Revista Opera e seus leitores, sempre implica em uma responsabilidade que me arrasta para as questões daquele país e naturalmente me provoca muitas reflexões. Na última palestra que fiz sobre o tema, no Largo do São Francisco, deixei claro que sempre me deparo com a questão da integridade territorial da nação e do Estado ucranianos. Mantenho uma posição mais inclinada para os chamados “separatistas” (verdadeiramente, o movimento federalista e de resistência no Leste do país), é claro, porém observei que procuro sim reconhecer as aspirações nacionais dos ucranianos e a própria lógica por trás do nacionalismo.

Com isso quero dizer que compreendo as aspirações nacionais ucranianas. Eu entendo a lógica de certo nacionalismo ucraniano, a lógica do ucraniano que não quer seu país dividido, quebrado. Reconheço até mais: a nação unificada pode, realmente, ser um veículo de grande realizações e um mito mobilizador para um povo.

É evidente, no entanto, que é no mínimo uma imoralidade o ucraniano que vive no extremo oeste do país pegar em armas para oprimir o outro ucraniano que vive no extremo leste. Eles possuem uma diferença cultural considerável e opiniões políticas distintas. Também não é correto cobrir o leste do país com bombardeios, porém podemos falar disso depois, vamos ignorar esses fatos e dizer que a princípio a Ucrânia deve permanecer unida e integral.

É disso que falam os nacionalistas ucranianos e os políticos de Kiev, de defender o país, de preservar a integridade territorial do país. Pois que seja; a pergunta que devemos sempre fazer é: quem está a altura desta tarefa histórica?

Quem está a altura da tarefa histórica de manter a Ucrânia unida? Qual movimento, qual pessoa, figura, político ou general? O que a “revolução”, o Euromaidan, trouxe para cumprir essa tarefa?

O Presidente Petro Poroshenko? – Um oligarca chocolateiro e dono de televisão, demagogo, puxa-saco do ocidente, que preside o governo mais corrupto da história ucraniana (feito notável) e se ajoelha para o FMI enquanto é pessoalmente responsável pelo bombardeio de civis no Leste (através das tropas da administração presidencial). Este senhor sequer consegue controlar bandos de fascistas armados que estão no leste do país lutando contra os “separatistas” e fazendo o que querem (especialmente extorsão e contrabando) nesse meio tempo. Nem os seus seguidores o vêem como líder e seu discurso político é inconsistente, recebendo votos precisamente por causa de sua postura mureteira frente à direita mais radical (isso numa eleição um tanto quanto ilegítima ou “magra”, feita numa situação de guerra). Poroshenko, uma versão decadente, mais corrupta e sangrenta do presidente que foi derrubado pela “revolução” – Yanukovich -, engrossa a voz para falar que as crianças do Donbass vão viver em porões enquanto “as nossas vão para a escola” mas chora e implora ao “ocidente” (OTAN, União Europeia, Banco da Europa, Banco Mundial, FMI, Estados Unidos) para que salve o seu governo desgraçado. É ridículo ver esse empresário falando de “defender a Ucrânia” enquanto a corrupção dispara e denúncias apontam diretamente ao presidente. O seu discurso político raquítico, sem visão de mundo, combina perfeitamente com sua prática: cada um cuida do seu patrimônio pessoal.

Será uma mulher, Yulia Timoshenko? – Ícone para muitos liberais, chefe do partido favorito dos grupúsculos fascistas que não aderem ao partido neonazista Svoboda, é outra oligarca que fala contra os russos (falou até de jogar uma bomba nuclear no leste do país, em conversa telefônica vazada), mas fez sua fortuna graças a contratos privilegiados com estes mesmos russos.

Será Klitschko, o ex-boxeador? – Apesar de eu não concordar com suas posições inclinadas ao ocidente, ao liberalismo e com seu discurso marcado pela eterna ladainha anti-corrupção, este senhor não parece particularmente corrupto, só não é tão inteligente (muito socos na carreira de peso pesado cobraram seu preço?). Podia ser presidente da Ucrânia não fosse a “revolução” do Euromaidan, agora ficou como Prefeito de Kiev – os mais informados apontarão que ele renunciou efetivamente à corrida depois de um encontro com Poroshenko e o oligarca Dmytro Firtash.

Seriam líderes fascistas como Dmytro Yarosh e o Sr. Biletsky do famigerado batalhão neonazista “Azov”? – Yarosh é um ótimo puxa-saco dos políticos do poder e abandonou publicamente o movimento que fundou, o “Pravy Sektor”, para criar outro partido no momento em que seus camaradas passaram a ter problemas com a justiça; Biletsky já está adequando a simbologia e a linguagem de seu batalhão, seus movimentos e do partido que criou, o que parece difícil e destinado ao fracasso para nazistas já acostumados com o escândalo armado e aberto. Eles são responsáveis primários pela divisão da Ucrânia com suas ideologias de ódio, e não parecem possuir aspirações maiores do que algum conforto, algum poder, além da condição de senhores da guerra que se estilizam como “guerreiros europeus”, enquanto roubam o povo para consumir anabolizantes e receber serviços orais de skinheads e brutamontes de extrema-direita da Europa e do mundo (por serviços orais entendam elogios, lisonjas, bajulação;  não me responsabilizo por quem entendeu outra coisa).

Poderia citar muitos outros, como aqueles que já não estão mais estão fortes na política: o oligarca Kolomoyski, um judeu que financiou neonazistas e sonhou que era uma espécie de vilão do 007, dono de Dnipropetrovsk; ou o favorito dos ocidentais, Arseniy Yatsenyuk, um fraco que teve a renúncia marcada pela corrupção. Isso seria somente um esforço retórico, o ponto é que não há ninguém a altura dessa tarefa: a própria “revolução” jogou a Ucrânia nessa situação e não serão os criminosos que destruíram o Leste que vão trazer o Leste de volta e reunir o povo num projeto nacional, nem tão pouco os arrivistas e oportunistas que se aproveitaram da situação, menos ainda os que tem sanha assassina até em suas ideologias.

Não serão os generais, cuja corrupção é notória até para os defensores do exército ucraniano e da guerra no Donbass, bem como para a mídia ocidental. Não serão os Estados Unidos da América, que seguem sem interesse na paz e na estabilidade da região, querem sim um Estado cliente de joelhos e às portas da Rússia pegando fogo – eles apreciam muito a possibilidade de soltar cachorros loucos contra a Federação Russa sempre que for preciso.

Neste caso, não estou falando do futuro. Essa questão já está parcialmente resolvida e demonstrada. É bem claro que Poroshenko é incapaz de unificar a Ucrânia, mas, ironicamente, quem assumiu essa papel histórico é precisamente o líder russo, Vladimir Putin.

Foi Putin que deu a direção do federalismo e da reunificação para os rebeldes, foi Putin que politicamente acalmou as pretensões separatistas de Donetsk e Lugansk. Mesmo que as aspirações nacionais do Leste não sejam tão sólidas quanto as aspirações nacionais ucranianas, o fato é que os povos daquela região buscaram sua auto-determinação especialmente depois da agressão governamental e o borbulhar do ultra-nacionalismo fascista. Putin deu a referência da pacificação em contrapartida aos ucranianos guerristas que babavam por sangue de habitantes russos, russófonos e russófilos do Leste do país. Putin é o grande patrono dos Protocolos de Minsk (acordos de paz para a guerra na Ucrânia), enquanto Poroshenko e os radicais ucranianos são seus grandes sabotadores – sabotadores da esperança de uma Ucrânia reunificada.

É ainda mais irônico pensarmos que historicamente o pai do primeiro Estado ucraniano unificado foi Josef Stalin, governante soviético também sentado em Moscou e normalmente detestado pelo nacionalismo ucraniano.

Ironias a parte, o fato é que os bombardeios e a violência contra o Leste do país não são atitudes drásticas de “homens históricos”, à altura de uma tarefa muito maior que seria a unificação do país, mas precisamente atitudes mesquinhas de políticos corruptos que aprofundam a divisão e a desgraça da própria nação.

Agora posso falar de questões futuras: quem está a altura da tarefa histórica que é o Brasil? Vocês acreditam em messias? Você está a altura da tarefa histórica que é construir o nosso país e não permitir que ele se desgrace em níveis mais altos do que os que a história já reservou para ele até agora?

Quem está a altura? Bolsonaro, um demagogo entreguista que nos oferece um modelo de política baseado numa canalização agressiva da ignorância das pessoas? Quer dizer, Bolsonaro faz a política do palhaço de boca grande, que precisa de atenção, precisa de choque, e quer aplicar o mesmo receituário neoliberal de sempre (como vimos no Brasil) com mais repressão e uma maquiagem ideológica para distrair os incautos apontando para minorias. Bolsonaro é um personagem de opereta, uma piada ambulante de mau gosto que mobiliza ilusões destrutivas, muito distante da altura de uma nação como a brasileira.

Ninguém se lembra mais de Aécio, Dória é uma farsa forjada por uma máquina política suja de Geraldo Alckmin junto com muita publicidade. Marina é um fantoche sem posição da família Itaú, é a cara “tranquila” de alguns capitalistas “humanistas” do nosso país.

Lula também já se recusou a ter dimensões históricas. O espírito de Lula é o do eterno negociador, a política é um grande e cordial negócio de conciliação. Lula tem uma disposição de alma e uma práxis política marcada pela fala mansa que busca concessões e arranjos inteligentes de benefício mútuo, sempre respeitando a posição dos mais privilegiados. É demasiado cuidadoso.

A tarefa histórica do Brasil é nos libertar dos verdadeiros corruptos – os coronéis, marajás, senhores de terra e donos de bairro, capitalistas parasitas, das dívidas que nos foram impostas por agiotas inimigos do povo; e, acima de tudo, das amarras da dependência econômica que nos impedem de crescer: chega de ser periferia dos Estados Unidos.

Eu não gosto de reproduzir noções teleológicas e fechadas sobre a história, isto é, como se a história já estivesse pré-determinada de seguir certo curso. Acredito que a história é a batalha entre necessidade e liberdade, entre escolha e determinação.  O homem se fez sempre de todo material; toda época foi presa de um quebra-cabeças, para subir a montanha do grande reino animal. Por outro lado é necessário reconhecer que na história surgem forças que são anti-históricas, que só representam o caos em nome de interesses escusos e acidentais de grupos mesquinhos, que não têm nada a contribuir para a História Universal ou Humana, a não ser com engrossar a soma da desgraça por um punhado de dólares a mais. Esses são os reacionários.

Eles são por excelência os chamados Contras, grupos armados que os Estados Unidos fomentaram na Nicarágua para se opor à Revolução Sandinista, modelo utilizado em várias partes do mundo (como Angola).

Comparem esses fenômenos com movimentos sérios de libertação nacional, o trabalho político – vejam a própria Frente Sandinista. Um é um movimento real que se constrói na prática e precisa se afirmar na história como digno do poder, capaz de criar bases de apoio, de oferecer um projeto real, sem poder abusar da força correndo o risco de se perder, enquanto os Contras são somente formações armadas sem ligação orgânica com o povo ou com a história, cuja única função é matar, destruir e sabotar, para criar uma situação, não para aplicar um projeto ou conquistar o poder. Nesses grupos qualquer indivíduo, por mais abusivo, imoral ou indigno seja, é aceitável.

Os jovens “idealistas” do neofascismo da Ucrânia não são os voluntários salvadores da pátria como querem se apresentar. Esses marginais só querem descarregar seus espíritos e frustrações invadindo prédios, agredindo veteranos de guerra, destruindo exposições, fazendo barulho, atacando homossexuais… não passam de simples criminosos, mais uma excrescência juvenil, não são o triunfo da Ucrânia, mas precisamente um sintoma de sua decadência. Cada Dmytro que o Estado veste de pepino e arma representa a divisão daquele país. E não quero discutir o valor inerente da vida humana, a igualdade, as bases do humanismo; no entanto, quando batalhões de fascistas cometem atrocidades no Leste do país ou pessoas são mortas por bombas de artilharia, isso é sem dúvida a barbárie – quando estes jovens sem rumo “morrem pelo país” (a “pátria” de Poroshenko e Victoria Nuland) ou se eventualmente acabarem fuzilados por seus hábitos e políticas anti-sociais, isto não será outra coisa que não a marcha da história. Isso deve ser lembrado como princípio moral, mas principalmente como pedra de análise política – uma morte pode ser terrível para cada indivíduo e seus familiares independente de qualquer coisa, mas cada uma tem seu significado na política e na história.

A reação não tem nada a nos oferecer, a não ser o caos, a rebelião contra a realidade, contra a razão presente na própria realidade – não só destroem coisas boas como destroem o potencial de um país realizar boas obras. Representam uma negação a nível histórico.

Não prego a morte, e não acredito que fuzilamentos marcarão os próximos capítulos da novela ucraniana. No entanto, justamente os que saem pregando a morte, a “limpeza”, “limpeza dos inferiores”, de grupos inteiros ou seja o que for, têm de estar cientes da responsabilidade que atraem sobre si e a desgraça que podem desencadear. Toda vez que jogam isso na mesa existe um outro lado que pode sim resistir, toda vez que jogam isso no ar a violência pode explodir.  Esses jovens e não-tão-jovens ucranianos que bradam o discurso fascista, o discurso do “VIVA A UCRÂNIA, VAMOS MATAR OS INIMIGOS DELA, MORTE À ESCÓRIA, MORTE AOS RUSSOS”, que agrediram pessoas de idade simplesmente por usar uma fita de São Jorge, precisam entender o que estão atraindo para si e que foram eles que disseminaram o ódio e a divisão no seu próprio país, eles que precipitaram o seu país numa guerra civil que basicamente o destruiu – claro, colocou dinheiro, armas e poder na mão desses mesmos fascistas de maneira que nunca sonhariam antes, mas é precisamente por isso que não deveríamos nos impressionar se um dia a história cobrar a cabeça desses aventureiros.

Todos que fazem discursos análogos, os que querem “limpar o Brasil”, os que gritam bairrismo e racismo, têm de ter consciência de sua (ir)responsabilidade. Quem fala demais deve medir as consequências de suas palavras, porque o discurso violento pode precipitar o caos sempre latente – a “paz civil” é uma realidade muito frágil mantida por uma política sempre sujeita a flutuações, surpresas. Direitistas já se mobilizam para vitimizar Bolsonaro e seus seguidores em nome da “liberdade de expressão”, mas sem denunciar a irresponsabilidade de um político que faz discursos como o do Clube Hebraica ou de quando o bufão declarou que “o Brasil é um país cristão” e as “minorias” devem “se submeter as ‘maiorias’ ou desaparecer”(sic; inseri aspas próprias em minorias e maiorias por isso não fazer sentido).

O pior é que os idiotas de direita daqui compartilham odes à “Revolução Ucraniana”, ‘”vamos fazer como os ucranianos”, “o Brasil vai virar Ucrânia”. Um país quebrado, na mão dos mesmos políticos de sempre, só que com mais caos e corrupção e o bônus de uma série de fascistas, que odeiam pessoas por falar outra língua, ocupar posições de poder, isso tudo com guerra. É isso que a “direita das ruas”, os “revolucionários de WhatsApp” que falam de matar a Dilma (até quando a mulher já saiu do poder) tem para nos oferecer.

É por isso que os reacionários são marcados pela ignorância e o ódio, desprovidos de razão e perspectiva histórica, seja aqui, na Ucrânia, em Angola, na Nicarágua ou na China: caos e destruição através da estupidez turbinada pelos interesses de alguns endinheirados.

Nós temos que abandonar nossas próprias ilusões para atacar as mentiras que assolam o nosso país na forma de movimentos políticos estranhos à necessidade do nosso desenvolvimento e da nossa independência, porém portadores de germes de ódio e destruição.