Na esquina da Rua Aurora com a Vieira de Carvalho, no Centro de São Paulo, o leitor poderá testemunhar, na parede de um boteco velho, a inscrição “golpe é guerra.” Ela foi imortalizada no concreto, à tinta spray, pouco antes da derrubada da presidenta eleita, Dilma Roussef, no ano passado.

Por esses tempos lembro de ter observado a pixação com acenos mentais: o avanço imprudente da reação contra aquele governo, que tentou até o último segundo agradar os reacionários, deveria de fato ser encarado por nós como uma declaração de guerra.

Pois bem: passou-se quase um ano desde que a frase foi pixada, e o resultado nos é apresentado na forma de um presidente como Temer, que avança contra nosso povo sem restrições, com o apoio do Congresso, que se apega ao trono mesmo quando seus aliados já o abandonam (criando, aliás, um racha interno nas capitanias hereditárias comunicativas do Brasil, com Marinhos e Frias se estapeando em rede nacional) e que, por fim, ainda tem a coragem sádica de apresentar seu governo aos 14 milhões de desempregados deste país como a raiz de uma “recuperação econômica.”

É este o balanço resumido. Golpe é guerra?

Frente às duras pancadas que o governo tem sofrido e frente à sua disposição de reprimir violentamente – como foi demonstrado em Brasília -, tudo que conseguimos fazer é gritar “Diretas Já.” É bom fazer um balanço histórico do termo; o que representou o movimento pelas diretas na década de 80?

Fomos vitoriosos? Reconquistamos as prometidas reformas de base? Mudamos este País? Jogamos os golpistas na lata do lixo da história, para sempre? – Não. Sequer cadeia para os torturadores conseguimos; os nossos cadáveres descobrimos alguns, a duras penas, numa Comissão da Verdade que, 50 anos depois do golpe, ainda é alvo de ataques.

Gritaremos “Diretas”, não teremos a audácia de conquistar o povo com nosso projeto, nos envergonharemos de requerer mudanças não-institucionais (e, talvez, não-constitucionais), não construiremos uma greve geral sob bandeiras verdadeiramente combativas. A História nos entrega uma conjuntura na qual, dia após dia, fica cristalino para todos, inclusive para as massas, que o sistema político e econômico brasileiro é insustentável, e às massas viramos o rosto e apresentamos o mesmo sistema como alternativa, com a esperança de que nossa fé na bondade subverta um mal estrutural. A História, no entanto, não é um cabo de guerra; é a sucessão de chicotadas que os dois lados acertam um no outro. Ao nosso flagelo a corda já serve há 500 anos, e quando as cicatrizes ficam enfim evidentes convocamos o povo a retomar ao nosso lado e puxar – para mais uma vez ser alvo da chibata, talvez na esperança de um algoz mais gentil.

Nosso grito contra o fantoche de hoje e nossas esperanças por um fantoche que a nós nos pareça mais divertido serve de afago à mão que os controlam. Lembremos de Brizola acusando Jango de traidor por não se dispor à resistência em 1964: se na boca do mito gaúcho Goulart era um traidor, o que seríamos nós?