No dia 27 do último mês um helicóptero da Agência de Investigação Penal, Criminal e Científica da Polícia venezuelana sobrevoou o céu de Caracas, disparando contra os prédios do Ministério do Interior e Justiça, onde um evento ocorria em homenagem ao Dia do Jornalista, e contra a Suprema Corte de Justiça, que foi alvo também de quatro granadas jogadas pelos ocupantes do aeronave.

O helicóptero foi sequestrado pelo agente da polícia científica Oscar Pérez, que divulgou uma mensagem em vídeo, junto de homens armados e encapuzados, na qual demandou a “imediata saída” do presidente Nicolás Maduro e a realização de eleições gerais. “Somos uma coalizão de funcionários militares e policiais, além de civis, em busca de harmonia e contra esse governo criminal e transitório”, disse Pérez.


Revisitar a história

Em meio ao caos informativo das campanhas de propaganda levadas a cabo pelos grandes meios contra a Venezuela – o leitor mais desconfiado pode se irritar com os adjetivos, sugiro seguir a leitura e posteriormente fazer um balanço se, de fato, são exagerados – setores da esquerda brasileira, e mesmo setores que um dia já se disseram simpáticos ao chavismo, magicamente “abrem seus olhos” para a realidade, decepcionando-se com a Revolução Bolivariana e reproduzindo as acusações de “autoritarismo”.

Em tempos como esse, é necessário ir além das manchetes reproduzidas das grandes agências internacionais de notícias pelos herdeiros das capitanias comunicativas brasileiras, que tanto se esforçam para colocar os fatos em cena, não em debate. Olhar à história é sempre um bom começo.

“A metade dos lucros da Standard Oil vinha de sua subsidiária venezuelana e, durante um período de sete anos (1950-1957), alcançaram 3,79 bilhões de dólares. O tamanho do lucro foi inflacionado pela combinação de salários baixos e nenhuma greve, imposta pelo ditador. E, para manter tudo dessa maneira, o FBI e a CIA foram convidados a realizar um trabalho de ‘vigilância’ sobre a força de trabalho e ajudar a impedir o crescimento de ‘subversivos’.” – Tariq Ali, “Piratas do Caribe”, p. 65.

O trecho se refere ao regime de Marcos Evangelista Pérez Jiménez, que em 1952, com o apoio de Washington, derrubou o governo eleito do romancista Rómulo Gallegos, aumentando a colaboração com as empresas norte-americanas, em troca da lucrativa administração do estado venezuelano – Jiménez seria depois culpado pelo desvio de 200 milhões de dólares durante seu governo.

Ocorre que, com o aumento da desigualdade durante seu governo e em especial com a crise no ano de 1957, decorrente do esgotamento do boom do petróleo nos anos 50, protestos populares começaram a irromper, por vezes destruindo os elefantes brancos construídos por Jiménez para a elite venezuelana.  A situação precisava ser controlada; em uma reunião secreta em Nova York, lideranças da Ação Democrática, União Republicana Democrata e do Partido Social Cristão (Copei), militares e empresários venezuelanos se encontraram secretamente com representantes da Câmara do Comércio, e definiram a saída de Jiménez, que enfim ocorreria em janeiro do ano seguinte; Jiménez, é claro, recebeu salvo-conduto para os EUA – tudo feito pelas costas do Partido Comunista da Venezuela, é bom lembrar, que à época era uma das principais forças a pressionar o governo, nas ruas.

O que se seguiu foram três décadas de aumento da pobreza – que chegou ao nível de 38,5% em 1988, com uma inflação anual de 40,3% – sob os governos da Ação Democrática e do Copei. Mais uma vez, o povo foi às ruas, no que ficou conhecido posteriormente como Caracazo, desta vez contra o pacote de medidas econômicas de Carlos Andrés Pérez (AD). Pérez reagiu declarando “estado de emergência”, suspendendo todas as liberdades civis, e impondo um toque de recolher de 12 horas. Os massacres que se seguiram, de acordo com estimativas extra-oficiais, chegaram à cifra de 3 mil mortos. O governo Pérez admitia somente 276 mortos, mas mesmo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, dez anos mais tarde, consideraria que houveram muito mais mortos do que as cifras oficiais dão conta.

É neste contexto que grupos de militares começam a se reunir, sob a liderança do então jovem tenente Hugo Chávez, afim de organizar a derrubada de Pérez. Em 1992, Chávez e seus companheiros lançam uma operação militar com esse objetivo, mas terminam isolados e presos. Em dezembro 1998, no entanto, o ex-tenente sublevado seria eleito presidente.


Quem é a oposição?

A principal organização opositora na Venezuela é, desde 2008, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), que nos últimos dois anos tem tido grande espaço nas manchetes do mundo, em especial desde que conquistou a maioria na Assembleia Nacional do país, em 2016. A MUD é uma coalizão de partidos antichavistas, na qual se destacam o Primero Justicia, com 33 cadeiras na Assembleia Nacional, o Acción Democrática (25), Un Nuevo Tiempo (19), Voluntad Popular (18), além de uma série de outras organizações minoritárias, como La Causa Radical (4), Vente (4), Avanzada Progresista (3), etc.

Henrique Capriles.
(Foto: César González)

Primero Justicia

Transformado em partido político em 2000, o Primero Justicia foi formado a partir de uma “Associação Civil” de mesmo nome, que teve Leopoldo López como seu cofundador. É também a organização do conhecido opositor e atual governador de Miranda, Henrique Capriles.

O partido cumpriu o papel de dar cara nova à oposição, sendo reconhecido pelo seu trabalho nas redes sociais. De acordo com advogada venezuelana-norte-americana Eva Golinger, que denuncia o apoio recebido pelo partido da Fundação Nacional para a Democracia (NED – National Endowment for Democracy) e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), “a ideia era [fortalecer] novos partidos para acabar com a falta de credibilidade dos partidos velhos, mas como foram formados por integrantes dos velhos, não conseguiram.”

Em 2002, no contexto do golpe militar contra Chávez, os prefeitos eleitos pela legenda participaram nas prisões dos funcionários do governo – dentre eles, Leopoldo López, à época prefeito de Chacao, e Henrique Capriles, então prefeito de Baruta, que ajudaram na captura do ex-ministro do Interior e Justiça, Ramón Rodríguez Chácin, durante a invasão à Embaixada de Cuba por opositores.

O partido também apoiou as paralisações de 2002-2003, que tiveram participação da Federação de Câmaras (dirigida por Pedro Carmona, escolhido em 2002, após o golpe, para ocupar a cadeira de Chávez), setores petroleiros e da educação, além de apoio massivo por parte da imprensa.

Em 2013, após a vitória de Maduro, seu principal expoente, Henrique Capriles, estimulou a realização de manifestações de rua, e se negou a reconhecer os resultados, exigindo uma recontagem de votos. Os manifestantes – apoiadas por Capriles – chegaram ao ponto de incendiar sedes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

Ação Democrática

Trata-se de um dos mais tradicionais partidos da Venezuela. Formado em 1941 como um partido de centro-esquerda (inclusive com tendências internas marxistas), o Ação Democrática alternou o poder com o COPEI por mais de 40 anos sob regime bipartidário, após a derrubada de Pérez Jiménez, tendo quatro presidentes durante o período: Rómulo Betancourt, Raúl Leoni, Jaime Lusinchi e Carlos Andrés Pérez (responsável pela também já citada repressão durante o Caracazo, foi o primeiro mandatário venezuelano a ser deposto por peculato e fraude à nação, pelo uso indevido de 250 milhões de bolívares do fundo presidencial.)

Apesar de suas origens, o partido transformou-se formalmente numa agremiação social-democrata, tendo suas propostas marcadas por medidas neoliberais, por vezes “sugeridas” pelo Fundo Monetário Internacional (como é o caso das medidas econômicas do segundo governo de Pérez).

Un Nuevo Tiempo

Foi formado em 1999, com dissidentes do Ação Democrática do estado de Zulia. O partido passou a abrigar a partir de 2007, após rachas decorrentes das discussões referentes à participação ou boicote às eleições de 2006, uma série de políticos de outras agremiações, como Leopoldo López e Liliane Hernández (Primero Justicia) e Alfonso Marquina (Ação Democrática).

Seu principal expoente é Manuel Rosales, responsável por assinar o decreto que concedeu ao empresário Pedro Carmona Estanga a presidência, após o golpe de estado contra Chávez, em 2002.

Voluntad Popular

Formado por ONGs, membros do movimento universitário e líderes comunitários de oposição, o partido foi formado como movimento em 2009 por Leopoldo López, após sua expulsão do Un Nuevo Tiempo, e se oficializou como partido político em 2011.

Apesar de ter somente 18 representantes na Assembleia Nacional venezuelana, o partido teve um papel fundamental nas manifestações que levaram o país à situação atual. Em janeiro de 2014, Leopoldo López (Voluntad Popular), Antonio Ledezma (Ação Democrática) e María Corina Machado (Vente Venezuela) iniciam uma campanha pela saída de Maduro, conhecida como “La Salida.” Em fevereiro, manifestações explodem em Táchira e em Caracas.


Financiamento externo

O financiamento do estado norte-americano a organizações, ONGs, partidos e “ativistas” não é novidade.

Em um email de 2006, enviado da Embaixada norte-americana em Caracas e posteriormente vazado pelo Wikileaks, a estratégia da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional na Venezuela, que inclui o financiamento a mais de 300 organizações, é explicada: “Em agosto de 2004 o Embaixador descreveu a estratégia de cinco pontos da equipe no país para guiar as atividades da embaixada na Venezuela durante o período de 2004-2006 […] O foco da estratégia é: 1) Fortalecer instituições democráticas, 2) Penetrar a base política de Chávez, 3) Dividir o chavismo, 4) Proteger interesses comerciais norte-americanos vitais, e 5) Isolar Chávez internacionalmente […] o Escritório de Iniciativas de Transição [da USAID] apoiou mais de 300 organizações da sociedade civil venezuelana com assistência técnica, desenvolvimento de capacidades, conectando-as umas com as outras e com movimentos internacionais, e apoio financeiro superior a 15 milhões de dólares.”

Em um outro email, de 2009, a Embaixada diz que a empresa DAI, contratada pela USAID, era responsável pelo financiamento e treinamento de manifestantes. “Fernandez disse que ‘as ruas estão quentes’, referindo-se aos crescentes protestos contra os esforços de Chávez para consolidar o poder, e que ‘todas essas pessoas’ (organizando os protestos) são financiados por nós.'”

O tamanho do projeto de desestabilização levado a cabo pela USAID contra o governo venezuelano é tal que, em uma matéria da Vice em 2014, Juan Andrés Mejía, então diretor do partido Voluntad Popular, de Leopoldo López, respondeu da seguinte maneira a uma pergunta do repórter Ray Downs sobre o financiamento dos Estados Unidos: “Contanto que não seja ilegal, se um outro país quer nos ajudar a deixar as eleições mais transparentes e ajudar a fortalecer um partido político, eu não vejo o que há de errado nisso.”


Mídia, a arma favorita

“Tínhamos uma arma mortal: a mídia. E agora tenho a oportunidade, quero congratulá-los.” A frase foi proferida em 11 de abril de 2002, pelo vice-almirante Victor Ramírez, ao vivo, no canal Venevisión, por ocasião do golpe militar contra Chávez, em 2002, e atesta que desconfianças em relação à imprensa venezuelana e as agências internacionais de notícias podem eventualmente ser exageradas – mas não são infundadas.

Tomemos como exemplo a narrativa das “mortes nas manifestações”, tão frequente nos grandes veículos, que atualizam os números quase diariamente, sem contextualizá-los ou, em alguns casos, omitindo a realidade e sugerindo inverdades. Diz por exemplo uma matéria do El País, publicada no final de abril, e intitulada “Grupos paramilitares chavistas semeiam o terror na Venezuela”: “Muitos dos crimes que aconteceram nos protestos da oposição venezuelana são atribuídos aos Coletivos, grupos paramilitares do chavismo. De acordo com dados da Promotoria do país, 26 pessoas morreram até terça-feira nessa onda de protestos, que começou há um mês.”

Lilian Tintori, esposa de Leopoldo López, concede entrevista no Senado Federal durante visita ao Brasil. (Foto: Jane de Araujo/Agência Senado)

Atualmente, a cifra de mortes decorrentes das manifestações subiu para 100. Mas essas mortes, ao contrário do que as narrativas hegemônicas fazem parecer, não foram causadas majoritariamente por “coletivos chavistas” ou pela polícia. O site venezuelanalysis mantém, desde maio, uma plataforma atualizada sobre o assunto: das 100 mortes, 13 foram causadas por ação policial, e duas por cidadãos pró-Maduro. Por outro lado, 19 foram causadas por manifestantes opositores, 7 estão ligadas às barricadas erguidas pelos manifestantes, e 14 estão relacionadas a saques.

Tomemos um outro exemplo; a da figura de Óscar Pérez, responsável pelos ataques terroristas contra o Ministério de Interior e Justiça e a Suprema Corte. O Globo, em matéria publicada um dia após os ataques, intitulada “Óscar Pérez, o militar (e ator) contra o governo Maduro” e ilustrada por uma foto do militar pilotando um helicóptero, sorridente, diz que Pérez “Não só é funcionário da Brigada de Ações Especiais, corpo de elite da polícia científica da Venezuela, com 15 anos de experiência, mas é até apelidado de Rambo venezuelano. Óscar Pérez, capitão do helicóptero do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (Cicpc) que sobrevoou o Tribunal Supremo e o Minitério do Interior e Justiça da Venezuela na terça-feira em protesto contra o presidente Nicolás Maduro, também segue uma carreira paralela como ator no país.”

A matéria segue: “Chefe de operações aéreas da Brigada, Pérez, de 36 anos, é também paraquedista e mergulhador, além de piloto de helicóptero. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, denunciou sua ação na terça-feira como um “ataque terrorista”, e o acusou de ter lançado granadas contra os prédios públicos […] Julgado ou não pelo povo, Pérez despertou o lado mais ríspido do governo: foi chamado de terrorista, subversivo e psicopata por Maduro e seus ministros.”

A matéria – que lembra que Pérez, o “rambo venezuelano”, foi também ator de um longa-metragem – termina enfim com uma declaração do presidente da Assembleia Nacional, o opositor Julio Borges (Primero Justicia), sobre os vídeos publicados por Óscar na internet: “Tem gente que diz ser montagem, tem quem diga ser uma questão real.”

Comparemos a narrativa contra os “coletivos chavistas”; apesar de anônimos, na visão dos grandes meios, são irrecusavelmente chavistas sedentos por sangue. Pérez, que sequestrou um helicóptero com um agrupamento armado e sobrevoou Caracas disparando contra o Ministério do Interior e Justiça e o Supremo, por sua vez, é uma figura heróica, quase mitológica. As palavras de Maduro contra o ataque terrorista são “ríspidas”, e há espaço (de sobra) até para se duvidar da versão de que Pérez de fato tenha realizado o ataque; afinal, de acordo com setores da oposição, “tem gente que diz ser montagem” os vídeos em que Pérez declara a autoria do ataque.

Tomemos por fim outro exemplo: a invasão à Assembleia Nacional por supostos partidários do governo, no último dia 30. Para a imprensa não há dúvidas de que os fogos de artifício e pedras foram usados por chavistas, contra jornalistas e políticos da oposição. O El País sugere inclusive uma divisão entre “setores críticos” do chavismo, que estariam condenando o ataque, e o governo; ignorando, no entanto, que Maduro condenou publicamente os atos. “Condeno absolutamente esses fatos, até onde os conheço neste momento. Jamais serei cúmplice de nenhum caso de violência. Eu os condeno, ordenei uma investigação e quero que se faça justiça”, afirmou Maduro.

Leia aqui a segunda parte