Em alguns casos, as vítimas permaneciam nas calçadas, do lado de fora de suas casas, onde foram atingidas pelas balas. A reação global foi o silêncio. Ainda não havia entrado na moda descrever um massacre como genocídio e ameaçar com ‘intervenção humanitária’. Como poderia haver um massacre em nome do neoliberalismo, sem qualquer adversário, além de ‘desordeiros conservadores, resistindo às reformas concebidas para preservar a lei e a ordem’?

Há algo de cômico em reler as palavras de Tariq Ali sobre os assassinatos cometidos pelo governo de Carlos Andrés Pérez em 1989 em meio aos berros da imprensa mundial em relação à Venezuela de 2017. O leitor que até o momento esteve acostumado às chamadas dos jornalões não poderia deixar de traçar um paralelo entre os guardas do títere Pérez massacrando o povo em meio a uma crise econômica galopante e a polícia do tirano da vez, Maduro, assassinando manifestantes.

Não há na Venezuela, no entanto, leitura da realidade mais falsa. No espetáculo teatral venezuelano – não trato aqui da realidade concreta do país, mas do que a imprensa tem nos imposto como tal – há um requintado jogo de luz e sombras, que, dia após dia, se torna mais contrastado. Como mencionei na primeira parte desta série de artigos, no entanto, a história pode nos servir, neste caso, como espelho: reflete os raios do holofote de volta ao rosto de quem o opera.

Neste sentido, as últimas duas semanas – e em especial esta última – nos dão muitas oportunidades. No domingo (16), por exemplo, a oposição realizou um plebiscito informal contra a proposta de Assembleia Constituinte do governo.

A luz – a mídia nos diz que 7 milhões, ou 35% dos votantes, participaram do plebiscito da oposição.

Sombra – não mencionam que o processo não foi acompanhado por observadores, nem reconhecido por nenhum órgão eleitoral, nem que a simulação realizada pelo governo no mesmo dia, por sua vez, teve 11 milhões de votantes. Mais: um repórter do site ResumenLatinoAmericano conseguiu votar sete vezes seguidas no plebiscito, demonstrando o nível de confiabilidade do processo.

Cômico – a oposição, que faz este plebiscito onde se é permitido votar sete vezes, e os grandes meios, que hoje comemoram os resultados, em 2004, quando derrotados em um referendo que pretendia retirar Chávez da presidência, gritavam “fraude”. “Apesar de [o ex-presidente norte-americano] Jimmy Carter e seu Carter Center, junto da Organização de Estados Americanos, terem certificado o processo como livre e justo, a liderança da oposição alega fraude, dizendo que Chávez roubou a vitória – apesar de ter vencido com 59% dos votos […] Até a administração Bush, que é hostil a Chávez, reconheceu que ele venceu de maneira justa.” A citação não provém da Telesur ou da VTV, mas do National Catholic Reporter. “Estamos simplesmente pedindo a recontagem dos votos simples, porque temos dúvidas da lisura desse processo. Se Chávez ganhar nessa contagem, aceitaremos o resultado”, foram, em 2004, as palavras do deputado Julio Borges à Folha, hoje líder do Primero Justicia – principal partido da coalizão opositora Mesa de Unidad Democrática – e presidente da Assembleia Nacional.

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Mais um exemplo: segue sob o holofote dos grandes meios a narrativa quanto aos “manifestantes mortos” e as forças repressivas de Maduro.

Sombras – ouviram falar dos sete membros da Guarda Nacional Bolivariana que ficaram gravemente feridos após a explosão de uma bomba, na semana passada? Do ataque da oposição, ontem, à estatal venezuelana de televisão? Relembro, como na primeira parte do artigo, que o venezuelanalysis mantém uma lista atualizada de quem está morrendo, e em quais circunstâncias.

Cômico – cito mais uma vez as palavras proferidas ao vivo no canal Venevisión pelo vice-almirante Victor Ramírez, no dia 11 de abril de 2002, por ocasião do golpe contra Chávez: “Tínhamos uma arma mortal: a mídia. E agora tenho a oportunidade, quero congratulá-los.”

O erro de Maduro, apesar do que a grande mídia e figuras “de esquerda” que se alimentam dela querem fazer parecer, não é ser “autoritário”. É seguir a tradição chavista da disputa democrática e institucional com setores que não são democráticos e não têm apreço nenhum pela institucionalidade – um erro que talvez possa nos servir de exemplo no Brasil, em momentos em que se fala tanto em diretas como a saída para um golpe. Não quero com isso convencer-lhes a conceder ao presidente venezuelano uma carta branca – mas ao menos não a dêem, também, à imprensa. Quem vencerá a batalha na Venezuela? É difícil prever. Mas escrevo sem receio quanto a ser contrariado pelo futuro: uma vitória desta oposição se resumiria a mais uma tragédia humanitária na América Latina. Não tenham dúvidas; não representam a democracia, a liberdade, a luta contra um regime ditatorial. Representam, sim, o retorno das correntes nos pés dos favelados de Caracas. É o que nos informa as luzes da história. É o que nos esconde as sombras da imprensa.


Leia aqui a primeira parte deste artigo. Uma “parte 3” desta série de artigos não é uma certeza – dependerá da chegada de algo novo em meio à coleção deste grande museu empoeirado que parecer ser a Venezuela hoje. Desta forma, deixo algumas recomendações de leitura:

Artigo de Camila Rodrigues da Silva, do Brasil de Fato, diretamente de Caracas – o Brasil de Fato, aliás, está realizando uma excelente cobertura da questão.

Entrevista com o sr. Julio Borges nas “páginas amarelas” da Veja – interessante notar como essa página confirma tudo o que foi dito acima. Mas trata-se da Veja, afinal.

Leitura de mídia da Telesur. “A mídia mundial algum dia entenderá?”

Para entender quem são os que incendeiam as barricadas – a matéria tem todos os vícios mencionados em meu artigo, mas a luta de classes neste caso nos beneficia; o fato de playboys de Chacao jantarem em restaurantes caros após passarem a manhã confrontando a polícia aparentemente não é nada espantoso para o Bloomberg (daí a existência da matéria) mas para nós é sintomático.