No dia 17 de Setembro completaram-se 46 anos da morte do Capitão Carlos Lamarca, militar que abandonou o exército para comandar a luta contra os golpistas na Vanguarda Popular Revolucionária.

É necessário relembrar do Capitão quando a esquerda falha em reconstituir figuras históricas e quando o país carece de referências patrióticas. O nosso país tem história e exemplos, exemplos de comprometimento e ação criadora na longa marcha da construção nacional. Afinal, os guerreiros são mais uma parcela daquilo que ergue civilizações e nós devemos lembrar das guerras que nos trouxeram até hoje, mesmo as guerras sujas e clandestinas.

São as grandes figuras que nos fornecem modelos de coragem e determinação, que dão significado à ideia de ser brasileiro e um ar de onde podemos chegar como seres humanos. Mesmo que a história esteja repleta de determinações e forças fora do nosso controle, que ela nos jogue em situações que nunca desejamos desde o nosso nascimento, são as demonstrações de fibra pessoal que nos lembram dos nossos poderes de escolha e decisão.

É a luta trágica contra condições adversas, condições tão poderosas e incompreensíveis que muitas vezes nos submetem às mais vis dominações, alçando mal feitores aos tronos do poder. É no impossível que o humano se afirma, não existe nada mais humano que a esperança – a esperança é um ato e é mais pura que o desespero do cálculo frio, o desespero de olhar o monstro constituído pelas “coisas como são”.

Recordemos dos pracinhas que foram para terras estrangeiras para lá de um oceano perturbado, deixando para trás suas famílias, amores e ambições, para encarar o desconhecido: frágeis, feitos de carne pronta para ser dilacerada por metralhadoras impiedosas de aço gélido. Foram para a Europa enfrentar uma besta muito maior do que qualquer uma de suas vidas individuais, a besta do nazi-fascismo. Aqueles pequenos homens só botavam fogo no fumo que enrolavam no terreiro de casa ou na varanda do cortiço, mas lutavam contra uma máquina que incendiou o mundo; a besta arrastava seus exércitos, multiplicando campos de concentração, grupos de extermínio, dizimando vilas e consumindo a vida de nações inteiras.

Lamarca também era soldado, mas lutou numa guerra diferente. Lamarca decidiu abandonar a estabilidade, o prestígio e a remuneração da sua posição de Capitão do Exército para lutar pelo o que considerava ser o caminho da justiça. Lamarca foi para clandestinidade lutar contra um monstro burocrático armado até os dentes, cheio de dinheiro, repleto de torturadores a seu serviço e que contava com o amparo de mentores ainda mais terríveis do imperialismo norte-americano. É nesta empreitada mortal contra um inimigo formidável (ainda que moralmente desprezível) que se molda a figura heróica.

Mesmo sem tratar em detalhes os caminhos trilhados pelo Capitão, esses olhares já nos permitem ver no mínimo um grande exemplar da estirpe nacional, um homem inscrito na história do Brasil e nos grandes dramas políticos daqueles que esta terra buscaram transformar. Não é preciso ser comunista para constatar e respeitar essa grande tragédia humana.

Certamente a esquerda deve tirar seu chapéu não só por semelhanças ideológicas ou por árvore genealógica, mas por se tratar de um exemplo de militância que se recusa a aceitar o dogma conservador de que tudo está aí não pode ser mudado, que o sistema é grande demais para se desafiar. Não obstante, ainda arrisco dizer que a direita deveria respeitar a coragem e o patriotismo do guerrilheiro, sendo Lamarca um verdadeiro exemplo de firmeza moral e virtude guerreira.

O problema é que a direita brasileira é estúpida demais, filha bastarda do imperialismo com as capitanias mais podres da nossa sociedade, vítimas óbvias da pobreza ideológica e da repressão moral do regime militar. Para além de um conjunto de fatores, a presença de homens armados e fardados dando conta de tudo no poder impediu o amadurecimento da direita no Brasil, que é pueril, violenta e ignorante. Simplesmente não precisaram se desenvolver.

Dessa forma, a direita, ao ouvir o nome de Lamarca, não se comporta com magnaminidade nem tão pouco inteligência (que muitas vezes confundem com barulho e histeria zombeteira), mas ficam histéricos frente à memória de um homem há muito morto e de escasso legado material. Surge o fenômeno curioso que vai da boca de viúvas desavergonhadas do regime militar até os textos de auto-proclamados liberais: a repetição do discurso oficial de que era Lamarca era um “terrorista” e um” traidor” (conforme declarado pelo Tribunal Superior Militar).

Ao invés de tratar do fundamental ou ter dimensão histórica das coisas, se comportam como os miseráveis mesquinhos que são.

É simplesmente patético o comportamento dessa direita frente a figura de um guerreiro, de uma verdadeira expressão das virtudes militares do nosso país. Basta ter o mínimo de bom senso para entender a guerrilha.

O fundamental: os mercenários de 64 deram um golpe. Varreram a vida política do país, que estava repleta de vida e riqueza – camponeses e trabalhadores se organizavam para pedir seus direitos, e não faltavam palanques para direitistas talentosos defenderem uma outra alternativa. Os mercenários não pouparam nem Lacerda, o palhaço radiofônico do golpismo e organizador inveterado das conspirações. Cassaram deputados, destruíram movimentos, fecharam sindicatos, mataram políticos e estudantes, transformaram a vida política num quartel, quando não criaram políticos biônicos e institucionalizaram a corrupção. Fizeram isso com armas, perseguiram, mataram e torturaram.

A história é mais do que isso, ela possui uma lógica própria, acima de ambições individuais e das decisões deliberadas de atores políticos. Antes do golpe o país já estava repleto de contradições sociais e políticas prontas para explodir.

Mesmo que nos concentremos na pura questão política da tomada do poder e da instabilidade decorrente, não parece meio óbvio o que ia acontecer? Alguma resposta ia ter, alguém iria atirar de volta.

Os militares jogaram um jogo não convencional e ganham prêmios não convencionais. O prêmio aqui foi relativamente barato, na forma de militantes individuais bradando armas pequenas em guerrilhas urbanas.

Isso é bom senso e realismo, no mais elementar. Não é preciso ser de esquerda ou fã de Lamarca para entender o óbvio. A política é assim, basta pegar num livro de história – História não é cafézinho numa cobertura do Leblon, não estamos falando da administração de um condomínio.

Se há alguém culpado pelo caos são os mercenários que deram o golpe em primeiro lugar. O ritmo da história é fácil de perceber aqui, o que é difícil de engolir são os golpistas e suas viúvas chamando Lamarca de “traidor”. Difícil de engolir vindo dos traidores por excelência,  que traíram Vargas em 45, traíram o velho de novo em 54, traíram a legalidade em 61 (detidos por Brizola e pela movimentação popular) e assaltaram o poder em 64, traindo o povo brasileiro, o presidente Jango e cometendo alta traição contra a nação, já que serviam a estrangeiros.

É bom lembrar que um dos mercenários, Gal. Amaury Kruel, se dizia amigo de Jango, jantava com o presidente numa noite, para na outra aceitar as famigeradas malas de dólares dos Estados Unidos.

Traidores são esses. Perto deles, o Capitão desertor Carlos Lamarca é um exemplo de honra na farda e compromisso com a causa nacional. Eles detestam Lamarca até hoje pois ele era militar, lembram da massa de militares legalistas, da qual muitos saíram para a resistência.

As viúvas de 64 adoram simular ares de realismo para perdoar os atos de torturadores, como Jair Bolsonaro fez em programa de televisão pública declarando que “a tortura é uma arma de guerra” (Bolsonabo seria também um realista sexual na medida que se refere a suas aventuras com galinhas em outro programa?). Eu não conheço o possível desempenho de um bolsonete recitando convenções internacionais de guerra e direitos humanos com as mãos amarradas, mas muitos de nós já presenciamos como esse pseudo-realismo cede lugar a tentativas estapafúrdias de atribuir heroísmo à máquina fria, podre e impessoal do militarismo. O realismo desaparece quando se trata de falar dos guerrilheiros, que apesar de estarem numa guerra são privados do seu reconhecimento como beligerantes e são transformados nos cruéis terroristas inimigos do Brasil varonil.

Se estamos falando de guerra, é guerra, e Lamarca se comportou como um soldado – as idealizações de 64 falham em perceber isso. Pasmém, numa tentativa absurda de atribuir algum ideal positivo aos mercenários de 64, recebi uma corrente digital que chamava a traição de herança honesta do tenentismo.

Lamarca sim é o legítimo herdeiro do tenentismo, da insurreição patriótica contra os desmandos e as injustiças, a despeito de “ordens de cima” ou soldos bem pagos. Lamarca teve coragem, coragem física, virtude marcial verdadeira para enfrentar um dragão. Mais do que isso, se partimos do realismo e de avaliações da vida política como confronto, luta pelo poder, as atitudes do guerrilheiro continuam igualmente compreensíveis e razoáveis no mundo violento em que vivemos.

E a ditadura teve o quê? Burocratas de terno (alguns de farda) que torturavam tomando café e depois iam para suas casas, protegidos atrás de suas pastas, com salários gordos, livres para ir e vir, debaixo das asinhas do Estado. Muitos sequer tinham responsabilidade moral – cumpriam ordens -, admitindo que não passavam realmente de obtusos sem personalidade.

Vamos lembrar de Eramos Dias. Ele comandou a operação de cerco contra Lamarca e seus companheiros no Vale do Ribeira; “comandou” sentado atrás de uma mesa, talvez até se drogando e castigando a pele de alguma prostituta, como convém a “homens de bem”. Não teve coragem de comandar a operação pessoalmente, diferente do que fez depois para enfrentar alguma dezenas de estudantes, quando, muito macho, invadiu a PUC paulista para dissolver uma assembleia estudantil (foi Secretário de Segurança durante muito tempo nesse Estado – imaginem que tradição! Pobre São Paulo…).

Eram cinco guerrilheiros contra uma operação de 2500 soldados mais algumas tropas da Polícia Militar, operação que chegou a bombardear áreas civis com aviões B26 contando que atingiriam guerrilheiros. Mesmo assim Lamarca conseguiu fugir.

Talvez se o comandante da operação fosse mais competente ou responsável, o tenente da PM Mendes Junior não teria encontrado a morte que encontrou quando foi executado a coronhadas por um dos guerrilheiros. O policial havia concordado em ser levado como refém, atrasou o grupo por dias e inclusive tentou surpreendê-los. Executaram aquele homem, peça do cerco titânico feito para matá-los, de maneira que não entregassem sua posição.

Até hoje as viúvas citam o caso em tons de indignação enquanto aplaudem alegremente a memória de torturadores que botinavam e coronhavam um número muito maior de pessoas – e torturavam sem responsabilidade. Um grupo que estava em desvantagem de no mínimo 500 soldados para 1 guerrilheiro, sendo literalmente caçado, adotou uma medida extrema, provavelmente desesperada, em busca da sobrevivência: de alguma forma, no mundo imaginário dos idiotas “politicamente incorretos”, isso não é só comparável mas até justifica a existência de uma rede de porões de tortura no país inteiro.

Lamarca no meio do Vale do Ribeira, helicóptero para lá e para cá, mais de um recontro com forças do Estado, fugindo, acaba por ordenar execução de um prisioneiro hostil: um monstro. Um torturador vestido de terno, sai de casa pela manhã, se dirige ao local de trabalho e tortura um preso até a morte: um herói. Esse é o alto da imbecilidade moral ou o fundo do poço da hipocrisia dos defensores do regime militar.

Não é preciso estudar muito, basta usar o bom senso. Lamarca não foi comandante de arriscar seus camaradas, tomou a decisão enérgica dentro do campo da sua responsabilidade. A responsabilidade até pode ser compartilhada pelo grupo, mas ainda não perde seu caráter pessoal e nem seu elemento excepcional, extremo, episódico. É questão de ter peito perante os fatos, muito diferente da máquina impessoal da ditadura, que matava com frieza e sem responsabilidade, para servir o mais escuso. A repressão em série só era mais uma tecnologia na máquina de fazer dinheiro que era o Brasil (e ainda é para alguns espertos).

Não nos esqueçamos de outra personalidade tão querida por eles: Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI. Com jeito de porco, o “oficial de inteligência” aconteceu de estar lá por acaso e virou um torturador, um oportunista que além de tudo era um mafioso bicheiro.

O que Ustra tem de exemplo para oferecer ao nosso país? O que há de edificador nesta figura que gostava de porões, como gostam os ratos? Este é outro que tomava seu cafézinho, ganhava seu soldo, tirava unzinho por fora, mas levando a vida a torturar outros. Onde está o heroísmo? Ainda que seja ponto pacífico que figuras históricas possam ter lados sombrios, o que há de exemplar em Ustra?

Perto dos burocratas da tortura e dos fardados traidores, Lamarca realmente brilha como exemplo de coragem moral e física. Lamarca não se escondeu em hierarquias, nem se recolheu ao nada: ele tomou uma decisão livre, exerceu sua consciência, tomou as rédeas de suas ideias através da ação… o único caminho para se tornar senhor do seu próprio destino, caminho que ficou marcado pela honra e pelo sacrifício.

Se isso significa algo para nossos sonhos de liberdade e nossa consciência nacional, se as virtudes e patentes militares ainda significam alguma coisa, lembremos todos do Coronel Lamarca. [1]

“Por determinação do presidente da República, qualquer publicação sobre Carlos Lamarca fica encerrada a partir da presente, em todo o país. Esclareço que qualquer referência favorecerá a criação do mito ou deturpação, propiciando imagem de mártir que prejudicará interesses da segurança nacional.” Foi o que escreveu o diretor da Censura Federal aos meios de comunicação do país em 22 de setembro de 1971. Aqui vive o mártir.

Notas:

[1] Em 2007, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a patente de coronel do exército a Carlos Lamarca,