Precisamos sobreviver a 2018

por Pedro Marin | Revista Opera

0
179

Sempre tenho alguma dificuldade em falar de minha relação com a Revista Opera. Isso se deve, no essencial, a duas razões contraditórias: evito parecer ingênuo ou idiota, ao mesmo tempo que receio parecer pretensioso. Afinal, aos olhos dos covardes, acomodados ou derrotistas, a história deste veículo pode parecer fadada ao fracasso, fruto de um esforço insensato de jovens metidos a Dom Quixote, lutando contra moinhos. Por outro lado, da minha posição de editor e fundador, relatar a rotina de dificuldades que enfrentamos e os frutos que elas nos renderam poderia soar arrogante, especialmente aos ouvidos daqueles que respeitam este trabalho.

A Opera, portanto – ao menos é como vejo – está em um limbo: é o veículo que, em defesa de uma posição antimperialista no que se refere à Península Coreana, assina polêmicas em grandes jornais. É o meio que realiza entrevistas com figuras da grandeza de Domenico Losurdo, Frei Betto e do recentemente falecido (que descanse em paz) Moniz Bandeira. É um site que envia correspondentes para bases guerrilheiras na Colômbia e frentes de batalha na Ucrânia.

Ao mesmo tempo, é um veículo que mal se sustenta, cujos colaboradores e editores não recebem absolutamente nada e que é feito, literalmente, de quartos (vocês imaginem a surpresa e confusão ao receber mensagens de leitores pedindo o endereço redação da revista para fazerem uma visita).

É justamente para retirá-la deste limbo que lançamos uma campanha de crowdfunding no ano em que completamos nosso quinto aniversário. No entanto, temos tido uma adesão ainda menor do que em nossa última campanha pública, para enviar André Ortega ao leste da Ucrânia – ainda que tenhamos crescido nesses dois anos, tanto no que se refere ao número de leitores e visitas quanto no que se refere à produção de conteúdo próprio. Quando falamos em “sobreviver a 2018”, estamos falando da possibilidade da Opera ser extinta, ao menos em seu formato atual; não porque somos “jovens empreendedores” em busca de uma árvore de dinheiro, mas porque literalmente precisamos sobreviver.

Se esses cinco anos marcam a Opera com grandes reportagens internacionais, entrevistas com grandes nomes, palestras e furos dignos de grandes redações (que algumas vezes nos procuraram e tiveram de nós recusas, por questões morais), por outro lado são marcados em nossas vidas por muitos sacrifícios, que se mantiveram incógnitos para a maior parte dos leitores, e que são reflexos quase mecânicos da opção que fizemos pela independência (poderíamos sem dúvidas ter uma posição mais confortável, em função de seguir a linha imposta por financiadores ou fundações). Nesses cinco anos, ao passo que ostentava aqui o título e a função de editor, em outros espaços (lojas de roupas, livrarias, gráficas ou distribuidoras) era um funcionário comum. Tive a oportunidade, via ProUni, de cursar uma faculdade – algo que sempre me pareceu um sonho distante, especialmente considerando o fato de ter largado a escola ainda no Ensino Fundamental -, que deixei precisamente para manter a Opera (dado os apertos financeiros, ou mantinha um emprego e a Opera, ou o emprego e a faculdade).

Esse tipo de sacrifício, e os que fizeram os outros membros da Opera, no entanto, não devem ser a razão para você apoiá-la. São só um atestado de nossa parte do nível de comprometimento pessoal que temos com esse projeto. As razões para apoiar esse trabalho estão publicadas em nosso site, em cada matéria que escrevemos apressadamente no banco do metrô, às 9 da noite, sob a impressão de que transcrevê-la seria mais rápido do que escrevê-la, para que pudéssemos noticiar as cacetadas e bombas da polícia contra manifestantes ou o bombardeio de um vilarejo antes das 10h, tendo assim a certeza de que os leitores que trabalham ou estudam pela manhã pudessem ler sobre o que aconteceu antes de dormirem.

Os monstros existem, ainda que os grandes meios façam parecer que são moinhos. É precisamente por isso que a Opera precisa sobreviver. Alguém há de gritar, mesmo que sob a pecha de louco: os moinhos são monstros!

Você pode unir tua voz à nossa de diversas maneiras. Colaborando em nossa campanha (literalmente é possível fazê-lo pelo preço de uma cerveja), divulgando-a nas redes sociais, falando com amigos, professores, organizações, ou solicitando (pelo email revistaopera@gmail.com) a participação em um núcleo de apoio. Nos restam 31 dias.