A vida política de Mikheil Saakashvili pode ser caracterizada, sem dúvidas, como conturbada. Ele foi o líder, em 2003, da chamada Revolução Rosa na Geórgia. Na ocasião, o Movimento Nacional Unificado emergiu como um importante partido, após vinte dias de protestos que no dia 22 de novembro daquele ano tiveram seu pico com a invasão do parlamento, por centenas de manifestantes com rosas nas mãos, onde o então presidente Eduard Shevardnadze discursava. Misha, como Saakhashvili também é conhecido, liderava o grupo, e irrompeu pelas portas do parlamento gritando raivosamente e apontando seu dedo à bancada. “Renuncie! Renuncie imediatamente!” bradava.

Saakashvili, então presidente da Assembleia de Tbilisi, havia convocado as manifestações após as eleições naquele mês argumentando que haviam sido fraudadas, e que ele era o legítimo presidente do país. Foi arrastado por e em meio a uma multidão até a bancada do parlamento, enquanto o presidente de facto Shevardnadze era retirado por guardas. No dia seguinte, Shevardnadze anunciou sua renúncia, sob o argumento de evitar derramamento de sangue, e em janeiro de 2004 Saakashvili foi eleito presidente, após novas eleições.

Na última terça-feira (5), o ex-presidente da Geórgia também foi arrastado. Dessa vez, por uma multidão menor – não de manifestantes gritando “Misha”, mas de policiais – que o levaram de sua casa próxima à Praça da Independência, em Kiev, Ucrânia, para a prisão.

Misha havia sido um fervoroso apoiador das manifestações durante o Euromaidan e do consequente golpe na Ucrânia, e em 2015 foi apontado pelo presidente golpista Petro Poroshenko (de quem era amigo desde que estudaram juntos, na Universidade Nacional de Kiev, no começo da década de 90) como presidente do Conselho Consultivo de Reformas, para ser enfim indicado também por Poroshenko, em junho, como governador biônico do oblast (estado) de Odessa. Em dezembro daquele ano, mais uma reviravolta: o ex-presidente georgiano, que há doze anos era abraçado pelas ruas de Tbilisi, perdeu sua cidadania, tornando-se ucraniano.

Mas Mikheil, tendo os amigos que tem – em 1994 recebeu uma bolsa do Departamento de Estado norte-americano para estudar em Washington, por exemplo -, é um filho nato do caos. Também em dezembro de 2015 fundou o Movimento para a Purificação da Ucrânia, uma “coalizão do público contra a corrupção”, como definiu. Em 7 de novembro de 2016, outra reviravolta: Misha deixa seu cargo de governador, dizendo que seu antigo colega de faculdade, o presidente ucraniano Petro Poroshenko, apoiava “clãs corruptos na região de Odessa”, que estaria “não só sendo concedida a pessoas corruptas, mas a inimigos da Ucrânia.” Quatro dias depois, anunciou a formação de seu novo partido, o “Movimento das Novas Forças.”

O partido, que foi reconhecido pelo Ministério da Justiça da Ucrânia em fevereiro deste ano, poderia ter sido relevante nas próximas eleições do país. Não foi por acaso (ainda que tenha sido, mais uma vez, uma reviravolta), portanto, que em junho o presidente Petro Poroshenko tenha decidido retirar de Saakashvili, por meio de um decreto, a nacionalidade ucraniana, transformando-o em apátrida. Como um cigano, Saakashvili passou os meses seguintes como um nômade na Europa, até que em setembro tentou entrar na Ucrânia pela fronteira com a Polônia. Seu trem foi parado e uma linha de guardas passou a impedí-lo. Finalmente, uma multidão de apoiadores quebrou o cerco, levando Misha para dentro do território ucraniano.

E enfim voltamos à última terça-feira. Um grupo de policiais mascarados das Forças de Segurança da Ucrânia batem à porta de Misha para prendê-lo sob a acusação de estar envolvido em uma tentativa de derrubar o governo ucraniano, após o ex-presidente georgiano ter convocado uma série de manifestações que levaram milhares de ucranianos às ruas nas últimas semanas, pelo impeachment de Poroshenko. Apesar dos homens mascarados em sua porta, Misha corre para o telhado do seu prédio e passa a discursar para uma multidão que se aglomerou após ouvir a notícia da tentativa de sua prisão. Os policiais sobem ao telhado, e por fim o levam.

Um golpe dentro do golpe?

É evidente que, tratando-se de Saakashvili, os eventos não poderiam terminar com a sua prisão. Após ter sido algemado pelos policiais, foi colocado em uma van, de onde, com a ajuda de manifestantes que golpeavam os guardas, escapou. Teatral, ainda com as algemas em seus braços, discursou à multidão nas escadarias de uma igreja. “Eles são animaizinhos mentirosos”, declarou. “Nós devemos retirar esse grupo do crime organizado, liderado por Poroshenko, do poder.”

Desde então, Misha continua livre, liderando seus apoiadores em manifestações contra o governo, e organizou um acampamento de manifestantes, de estilo militar, em frente ao parlamento ucraniano. O procurador-geral da Ucrânia, Yuri Lutsenko – um aliado próximo de Poroshenko -, acusa Saakashvili de ter recebido fundos de empresários ligados à Rússia para desestabilizar o governo ucraniano. O ex-presidente georgiano disse que a acusação é “completamente sem sentido”, declarando que “não há maior inimigo de Putin do que eu.”

De fato, seus dois governos na Geórgia se caracterizaram pela aproximação com os Estados Unidos e o conflito com a Rússia. Durante seu mandato, Saakashvili estreitou relações com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e com a União Europeia, e no campo econômico restringiu a interferência do Estado por meio do Ato de Liberdade Econômica da Geórgia, abrindo as portas para as empresas norte-americanas e europeias.

De qualquer maneira, de acordo com as últimas pesquisas, Misha goza de pouca popularidade na Ucrânia; compartilha a solidão política em seu acampamento com cerca de 100 manifestantes, de acordo com o Washington Post. Mas os últimos 14 anos de atuação política do ex-presidente georgiano demonstram que a realidade nem sempre é previsível ou sequer provável. Um apoio mais amplo a seu movimento poderia surgir de medidas repressivas por parte de Poroshenko, ou mesmo de uma aliança com alguma figura mais popular como Svyatoslav Vakarchuk,  Anatoliy Hrytsenko ou Yulia Tymoshenko. Certamente seria uma saída para manter o status quo na Ucrânia, trocando o impopular presidente Petro Poroshenko por alguém mais palatável, em um momento no qual a balança geopolítica Rússia-EUA é alterada com os avanços na Síria.