Hamas: “Nós queremos buscar uma estratégia diferente de resistência”

por André Ortega | Revista Opera*

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(Foto: IDF)

Notória liderança do Hamas, Khaled Meshaal, disse que os palestinos são capazes de iniciar uma nova Intifada contra a ocupação israelense. As declarações foram feitas na Al-Jazeera na última sexta feira (8).

“Se a Declaração de Balfour foi o primeiro passo na direção do estabelecimento de um Estado de Israel, nós devemos ser capazes de fazer Trump prometer o primeiro passo na direção do fim da presença israelense em terras palestinas”, desafiou Meshaal.

Acompanhando as declarações oficiais do atual líder do movimento, Ismail Hanieh, Meshaal explicou que “a situação atual nos força a concordar com a estratégia da intifada”. “Nós queremos buscar uma estratégia diferente de resistência depois do fracasso em conseguir um acordo sob o patrocínio norte-americano. Nós devemos incendiar a resistência popular e a intifada dentro de uma decisão nacional unificada”.

Essa resistência não seria “transiente”, mas “vai continuar forçando os EUA a cancelar sua decisão sobre Jerusalém”, apontou o palestino. Essa necessidade seria justificada também pelo fato de que “os palestinos deram uma chance para a comunidade internacional, para as iniciativas árabes e norte-americanos, mas foi em vão”. Meshaal acrescentou que Trump insiste numa política que estimula o conflito na região e que haverão consequências de tal “decisão tola”, ao mesmo tempo que elogiou o fato da maioria dos países terem criticado a decisão do presidente dos Estados Unidos, dizendo que, no entanto, “não é suficiente”, acrescentando um pedido por mais pressão contra a potência norte-americana; “passos fortes, uma posição clara contra a decisão dos EUA e uma série de atitudes políticas, diplomáticas e econômicas de rejeição a decisão”.

Meshaal também falou da necessidade de unidade palestina depois de anos de conflitos internos, pedindo a reconstituição das instituições do país com base na parceria e cooperação. Esse tipo de declaração é afinada com um processo de conciliação e aproximação dos principais partidos palestinos, Hamas e Fatah, que chegaram a se confrontar militarmente no passado.  O político do Hamas colocou uma “coordenação nacional” como pré-condição para a decisão política de forçar a administração Trump a recuar, ao mesmo tempo observou que a própria atitude de Trump já contribui para a unidade palestina.

Ele também denunciou países árabes cúmplices do “Acordo do Século” proposto por Trump, “uma forma de normalização árabe com Israel, uma forma de ‘limpar’ a causa palestina; nenhum árabe sequer tem o direito de sacrificar a Palestina em nome de conflitos e agendas regionais”.

Trump adotou o caminho de uma política internacional unilateral e da demonstração de força. Até então, Obama seguia um caminho de negociações multilaterais onde os Estados Unidos cumpriam um papel de patrocinador no sentido de proteger seus interesses e guiar os resultados; Trump e seus colegas acreditam numa demonstração de força.

Articulando um discurso nacionalista árabe com uma forma de pan-islamismo, o político palestino acredita que uma posição forte da parte de seu povo engendraria mais força nas posições dos árabes e muçulmanos em geral. O caso palestino é um exemplo entre muitos em que a resistência de um povo pode gerar reações em setores da comunidade internacional ou de uma “opinião pública mundial”; no entanto, este caso tem a característica especial dos acontecimentos internos relativos à colonização e ocupação sionista poderem levar a instabilidade e a deslegitimação para os países árabes vizinhos.

Nos últimos 60 anos os estados árabes lidaram com fluxos de refugiados e organizações palestinas, assim como tiveram que enfrentar amplos setores da sua própria população solidária com a causa palestina. Ademais, a própria existência de Israel intensificou as dinâmicas sociais e históricas na região, acelerando as contradições com o colonialismo e a intervenção externa – a derrota em conflitos militares com o exército sionista não só ofereceu um objeto de agitação política para os governos nacionalistas do século XX, mas postulou uma necessidade de modernização, independência e industrialização no mundo árabe.

Meshaal foi Presidente do Birô Político que dirige o Hamas até maio de 2017, quando foi substituído por Ismail Haniyeh. O Hamas foi muito atacado por sua colaboração com a Irmandade Muçulmana da Síria, que ao mesmo tempo se desgastou perante o que foi declarado um “erro” do partido – Meshaal foi identificado com esse momento e sua substituição por Haniyeh acompanha a derrota dos rebeldes na Síria.

*Com informações de Middle East Monitor