A “nova mediocridade” do Ocidente e a ascensão econômica da China

por John Ross* | Learning from China - Tradução de Gabriel Deslandes

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No recente artigo “A chegada do século da economia chinesa”[1], Justin Yifu Lin, ex-economista-chefe do Banco Mundial, argumentou que o centro mundial da teoria econômica passaria para a China.

“Eu também fiz uma previsão. No século 21, é bem possível que muitos mestres em Economia despontem a partir do estudo da economia chinesa. A importância de uma teoria depende da importância do fenômeno explicado por essa teoria. Se um fenômeno é importante, então explicar o fenômeno e revelar a lógica causal por trás dele tornam esta uma importante teoria. O que é um fenômeno importante? Os fenômenos que ocorrem em países importantes são importantes. Considerando a história do desenvolvimento da Economia moderna, Adam Smith publicou a Riqueza das Nações. Desde o final do século XVIII até meados do século XX, o centro da economia mundial, de contribuições significativas para a economia, foi o Reino Unido. A grande maioria dos principais estudiosos eram economistas britânicos ou estrangeiros que trabalhavam no Reino Unido.

Após as décadas de 1940 e 1950, a grande maioria dos economistas que fizeram grandes contribuições para a economia era de americanos ou eram economistas estrangeiros que trabalhavam nos Estados Unidos… Após a Primeira Guerra Mundial, o centro da economia mundial se mudou para os Estados Unidos. Os fenômenos econômicos mais importantes são os fenômenos que aparecem no centro da Economia mundial. Com essa transferência, o centro de pesquisa em Economia seguiu o mesmo caminho.

Em termos de paridade de poder de compra [PPP], a China se tornou a maior economia do mundo em 2014. Enquanto o desenvolvimento constante da China continua, então à taxa de câmbio média do mercado, é muito provável que ela se torne a maior economia do mundo até 2025. Atualmente, o país responde por 18% da economia mundial e será mais de 20% até 2025. Em 2050, a economia chinesa provavelmente representará entre 25% e 50% da economia mundial. Portanto, o centro da economia mundial pode mudar dos Estados Unidos para a China.

É muito provável estarmos assistindo à chegada de uma nova era de grande importância para a humanidade porque, de um dos países mais pobres do mundo, a China se tornou um país de renda média e se tornará um país de alta renda. A maioria dos países do mundo agora são países em desenvolvimento – países de baixa renda e países de renda média. Eles têm a vontade de se modernizar e se tornar países de alta renda. Assim sendo, é necessário resumir as inovações teóricas realizadas na experiência econômica da China e desenvolver melhores meios de testar a contribuição dessas teorias”.

De fato, o objetivo é alcançar o crescimento sustentável mais rápido em uma das principais economia da história humana. A China já teve que passar por testes decisivos da superioridade de seu pensamento econômico. Mais fundamentalmente, de positivo, a “economia de mercado socialista”, criada por Deng Xiaoping, Chen Yun e seus colaboradores, foi algo sem precedentes na história humana – uma conquista intelectual e teórica da mais alta ordem. Isso é analisado extensivamente no meu livro O Grande Jogo de Xadrez e de uma maneira mais popular em um artigo cujo título é autoexplicativo: “Deng Xiaoping: o maior economista do mundo”[2].

O sucesso da China não foi meramente prático, mas teórico, porque suas políticas foram levadas a cabo em clara oposição à teoria econômica ortodoxa ocidental dominante, e  com a China apresentando seus próprios conceitos econômicos. Como Justin Lin Yifu observou: “Havia um consenso [ocidental] de que os resultados econômicos da política gradual e de trilha dupla que a China realizava seriam piores… Mas agora, olhando para trás, a China é a economia de crescimento mais rápido e estável das últimas quatro décadas. Os países que sofreram uma reestruturação pela terapia de choque do Consenso de Washington sofreram uma crise de colapso econômico e estagnação”.

Porém, se do ponto de vista “positivo” a teoria chinesa da “economia de mercado socialista” demonstrou ser superior às do Ocidente por conta do crescimento econômico da China, também mostrou-se correta “do lado negativo”, na avaliação não apenas dos países em desenvolvimento, mas em particular da aplicação das teorias econômicas ocidentais dominantes na antiga União Soviética. A aplicação destes após 1991, pela “terapia de choque”, produziu na Rússia o maior colapso econômico em uma grande economia em tempo de paz desde a Revolução Industrial, com declínio do PIB de 39% em um período de sete anos. Foi totalmente possível prever antecipadamente esse desastre, como mostrado em meu artigo escrito em abril de 1992: “Por que a reforma econômica foi um sucesso na China e falhará na Rússia e na Europa Oriental”[3].

Esse artigo, originalmente publicado em russo, refletiu o fato de que, a partir de 1992-2000, o presente autor viveu em Moscou tentando persuadir as autoridades russas a adotarem a abordagem da reforma econômica da China em vez do desastre da “terapia de choque” da economia ocidental. Pode-se notar que este artigo foi escrito inteiramente do ponto de vista da teoria econômica, já que, naquela época, eu nunca tinha visitado a China, nem havia tido contato direto com economistas chineses – embora eu estudasse cuidadosamente o material disponível no Ocidente sobre Deng Xiaoping, Chen Yun e trabalhos dedicados à teoria econômica chinesa.

Minha concordância com as opiniões de Justin Yifu Lin sobre a superioridade do pensamento econômico chinês e sua avaliação do movimento do centro do pensamento econômico global para a China não se baseia, portanto, em eventos recentes, mas em mais de um quarto de século de estudos da teoria da economia chinesa e da prática e comparação de seus resultados com as ideias dominantes no Ocidente.

A situação atual da economia mundial

Dentro do quadro histórico geral descrito acima, o objetivo do presente artigo é fazer uma análise mais apurada da situação atual – mostrar que a situação atual da economia global, mais especificamente das tendências nas economias do G7, torna mais urgente reforçar e acelerar à transição do centro do pensamento econômico internacional para a “economia de mercado socialista” da China. Isso se deve ao fato de que, conforme demonstrado, aquilo que foi referido pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, como a “nova mediocridade” nas economias ocidentais está agora caracterizando todo o período da economia mundial.

Mais precisamente, será mostrado em detalhes que, embora a desaceleração nas economias avançadas do G7 após a crise financeira internacional não tenha sido tão violenta quanto à Grande Depressão após 1929, a lentidão na recuperação pós-crise financeira resultou em uma situação na qual o crescimento geral do G7 é atualmente mais lento do que na Grande Depressão. Essa situação não apenas tem consequências políticas econômicas, mas geopolíticas e domésticas no G7, que são brevemente mencionadas no final deste artigo. A fim de evitar um mal-entendido, deve ficar claro que, enquanto vários escritores chineses têm estudado a mudança histórica geral do centro do pensamento econômico para a China, a análise da situação atual dessa tendência, com relação à “nova mediocridade” do Ocidente, não implica a concordância deles com esta análise específica.

Para estabelecer os fatos relativos às tendências econômicas globais e evitar qualquer sugestão de adoção de dados excessivamente favoráveis ​​à China, a fonte utilizada para a análise são as projeções para os próximos cinco anos da economia mundial emitidas duas vezes por ano pelo FMI. Estes indicam essencialmente a mesma dinâmica para as economias ocidentais do G7, como o presente autor já analisou os EUA em “Por que os EUA permanecem bloqueados no crescimento lento”[4], ou seja, o FMI prevê que haverá uma reviravolta cíclica moderada nas economias do G7 em 2017-2018, mas que isso não se transformará em um boom. Em vez disso, ao longo de cinco anos, o crescimento total do G7 será baixo, com uma desaceleração econômica em 2019-2020.

A análise detalhada das tendências macroeconômicas confirma que os motivos do escopo limitado da recuperação nas economias do G7 são os mesmos que dos EUA. No entanto, a apresentação detalhada dessa análise será dada separadamente. O objetivo do presente artigo é simplesmente descrever as previsões factuais do FMI e mostrar suas implicações.

No que diz respeito às tendências da economia global, as previsões do FMI para os próximos cinco anos de crescimento econômico nas economias do G7 são mostradas na Figura 1. Como pode ser visto, após um crescimento muito baixo em 2016, apenas 1,4%, o FMI prevê crescimento em 2017 de 2,0% e em 2018 de 1,9% – uma recuperação moderada, mas real. Contudo, o crescimento do G7 deverá cair para 1,6% em 2019 e para um mísero 1,5% em 2020-2022. A projeção do FMI é, portanto, um padrão de “dois anos bons e depois quatro anos fracos”.

Figura 1.

O “novo medíocre”

O efeito cumulativo dessas previsões que o FMI está projetando é que as economias do G7 permanecerão bloqueadas em uma média de baixo crescimento – o “novo medíocre”, na frase de Christine Lagarde. Esse crescimento “medíocre” e pouco sustentável pode ser particularmente visto levando em conta as taxas móveis para o crescimento das economias do G7, pois essas taxas se focam em padrões de crescimento a longo prazo comparados a movimentos puramente cíclicos. As taxas móveis para as economias do G7 são apresentadas na Figura 2.

Naturalmente, uma média móvel a curto prazo de cinco anos mostra um grande impacto cíclico da queda acentuada da produção durante a crise financeira internacional de 2008-2009, enquanto esse efeito cíclico é quase removido na média móvel a longo prazo de 20 anos, mas a tendência fundamental do crescimento lento, particularmente em comparação com o desempenho anterior, é clara em qualquer que seja o período:

  • Durante um período de cinco anos, o crescimento médio anual nas economias do G7, projetado pelo FMI, é de queda de 3,1% em 2000 para 1,6% em 2022.
  • Durante de um período de 10 anos, o crescimento médio anual nas economias do G7, projetado pelo FMI, é de queda de 2,9% em 2000 para 1,7% em 2022.
  • Durante de um período de 20 anos, o crescimento médio anual nas economias do G7, projetado pelo FMI, é de queda de 2,9% em 2000 para 1,5% em 2022.

Em resumo, todas as médias mostram uma queda severa no crescimento médio anual do G7 desde o início do século XXI e mostram taxas de crescimento de apenas 1,5%-1,7% nos próximos cinco anos.

Consequentemente, o FMI não está projetando que a “nova mediocridade” seja uma tendência de curto prazo que será superada, mas que continuará nos próximos cinco anos. A recuperação em 2017-2018 é, portanto, puramente cíclica e não será consolidada em um novo “boom” mais longo – o FMI projeta que o crescimento do G7 vai enfraquecer novamente depois de dois bons anos.

Figura 2.

 

Consequências geopolíticas

Para termos um quadro histórico comparativo a fim de considerarmos as tendências atuais, é útil fazer um estudo dessas tendências em relação à mais conhecida de todas as crises econômicas globais – a “Grande Depressão” depois de 1929. A Figura 3 mostra o desenvolvimento anual de PIB no G7 após 1929 e 2007 (ou seja, 1930 é um ano após 1929, 2008 é um ano depois de 2007, etc.). Ela mostra claramente a seguinte dinâmica-chave da situação pós-2007 em comparação à pós-1929.

  • A queda da produção após 1929 foi muito mais grave do que após 2007 – a queda máxima do PIB do G7 após 1929 foi de 17,5%, em comparação com 4,0% após 2007.
  • No entanto, após a recessão inicial severa, o crescimento geral nas economias do G7 no período posterior a 1929 foi muito mais rápido do que em 2007. O resultado acumulado é que, em 10 anos após a crise inicial, o crescimento geral nas economias do G7 após 1929 foi de 15,9% em comparação com apenas 10,9% após 2007. Isso significa que, no final de 2017, o crescimento geral nas economias do G7, após a crise financeira internacional, será realmente mais lento do que durante a “Grande Depressão”.
  • O crescimento geral mais lento das economias do G7 depois de 2007 do que de 1929 se tornará progressivamente mais comentado, devido ao crescimento muito lento projetado pelo FMI. Em 2022, isto é, 15 anos após 2007, o crescimento total do PIB nas economias do G7 será apenas de 20%, em comparação aos 62% dos 15 anos pós-1929.

A fim de conceituar essa situação em que o crescimento global do G7 após a crise financeira internacional será realmente mais lento do que depois de 1929, então, como a situação pós-1929 é  referida como a “Grande Depressão”, por analogia, a nova mediocridade talvez seja a “Grande Estagnação”.

Figura 3.

Consequências econômicas e geopolíticas

Finalmente, para lidar brevemente com as consequências econômicas e geopolíticas dessas tendências, primeiro deve ficar claro que a análise acima diz respeito às tendências das economias avançadas do G7. Não é uma análise das tendências gerais da economia mundial. Na verdade, uma característica fundamental das projeções do FMI é que o crescimento muito mais rápido nas economias em desenvolvimento do que no G7 continuará como mostrado na Figura 4.

  • No decorrer do período de 2007-2022, o crescimento das economias em desenvolvimento é projetado pelo FMI em 109%, em comparação com apenas 20% no G7.
  • Durante o período 2016-2022, o FMI prevê que o crescimento no G7 seja de apenas 10%, em comparação com 33% nas economias em desenvolvimento.

Portanto, o “novo medíocre” é uma característica específica das economias do G7 e não de outras partes da economia mundial. Particularmente, enquanto a “nova mediocridade” continuará nos países do G7, o crescimento será mais rápido nos países em desenvolvimento – com o crescimento médio anual em 2016-2022 projetado para 4,9%, em comparação com apenas 1,7% no G7. Além disso, o FMI projeta que 44% desse crescimento nos países em desenvolvimento, quase metade, será na própria China. Os principais projetos econômicos internacionais em prática na China, como o “Um Cinturão, uma Estrada”, se encaixam nesse quadro.

Figura 4.

Em segundo lugar, as consequências políticas geopolíticas e domésticas desse crescimento tão lento nas economias do G7 também são claras. Os dados apresentados acima dizem respeito ao PIB total, mas o crescimento anual da população no G7 foi em média de 0,54% nos últimos cinco anos. Portanto, o crescimento do PIB per capita nos países do G7 é significativamente mais lento do que o crescimento total do PIB, como mostrado na Figura 5. No período 2016-2022, as projeções do FMI implicam um crescimento anual do PIB per capita de apenas 1,1%. Não só essa taxa de crescimento é baixa, mas significa que qualquer recessão cíclica leva o PIB per capita a níveis extremamente baixos. Por exemplo, os principais distúrbios políticos em 2016, o voto economicamente irracional do Reino Unido no Brexit e, em particular, a eleição de Trump como presidente contra a oposição da esmagadora maioria do establishment político dos EUA, tornam-se facilmente compreensíveis quando é observada naquele ano a queda no crescimento do PIB per capita para baixo de 1%. Em 2016, o crescimento do PIB per capita nos EUA foi de apenas 0,8% no ano e, no segundo trimestre do ano, caiu para um valor extremamente baixo de 0,5%.

A consequência evidente de taxas tão baixas de crescimento econômico no G7 é, portanto, a continuidade da instabilidade política interna dentro dos países do G7.

Figura 5.

Por fim, para retornar diretamente às questões tratadas no início deste artigo, passados dez anos do início da crise internacional, a incapacidade do G7 para superar essas taxas de crescimento muito baixas, com suas consequências sociais desestabilizadoras e a projeção de que isso continuará por pelo menos mais cinco anos, indica claramente a inadequação das teorias econômicas ocidentais dominantes. Na década de 1980, como observou Justin Lin Yifu, as teorias econômicas dominantes no Ocidente, que formaram o Consenso de Washington, produziram estagnação nas economias em desenvolvimento. Porém, na década de 1990, também produziram um desastre econômico na antiga URSS e, desde 2007, a inadequação das teorias econômicas ocidentais dominantes demonstrou sua incapacidade de resolver o problema da “nova mediocridade”, da “Grande Estagnação”, nas economias ocidentais. As projeções do FMI nos próximos cinco anos mostram simplesmente que esse fracasso continuará.

Conclusões

As conclusões para a China que decorrem dessas tendências econômicas internacionais são práticas e teóricas.

Primeiramente, a característica específica de qualquer situação deve ser entendida. Como Xi Jinping citou o filósofo chinês Mencius: “Já há mais de 2.000 anos, o povo chinês reconheceu que ‘é natural que as coisas sejam diferentes’”. Nos termos do pensamento europeu, são as palavras do filósofo grego Heráclito, também há mais de 2.000 anos: “Nenhum homem atravessa o mesmo rio duas vezes”. Tudo o que existe é único, tanto no tempo quanto no espaço. Por causa da crise mais famosa da história econômica mundial, que viu um declínio econômico extremamente rápido em 1929, enquanto que, após a Segunda Guerra Mundial, houve um boom por um período prolongado, isso pode criar a falsa impressão de que a economia ou deve sofrer um declínio rápido ou estará em “boom”. No entanto, o caráter específico da situação atual nas economias do G7 não é nenhum desses – é um período muito longo de crescimento lento, uma “nova mediocridade”.

Em segundo lugar, dentro dessa situação geral de crescimento médio muito lento, os ciclos de negócios ainda existem. O crescimento extremamente baixo das economias do G7 em 2016 é, portanto, logicamente seguido por um crescimento mais rápido em 2017-2018 – as economias do G7 estão oscilando em torno de seu caminho de baixo crescimento. O que o “novo medíocre” significa, contudo, é que tais retornos são temporários e não se transformam em aumentos fortes prolongados. A projeção do FMI de uma nova desaceleração no crescimento em 2019-2020 é, portanto, precisamente uma expressão da “ nova mediocridade”.

Em terceiro lugar, essa “nova mediocridade” significa inevitavelmente a instabilidade geopolítica e a instabilidade social e política doméstica nos países do G7.

Em quarto lugar, os erros da teoria econômica ocidental dominante, do neoliberalismo, que já foram mostrados na estagnação produzida nos países em desenvolvimento na década de 1980, e no severo declínio econômico na ex-URSS na década de 1990, são novamente confirmados na incapacidade de as economias do G7 escaparem da “nova medíocre” mesmo depois de uma década. A influência de tais idéias comprovadamente falsas na China é também perigosa para os próprios chineses tanto do ponto de vista da política econômica como da estabilidade social.

Em quinto lugar, para retornar ao ponto de partida deste artigo, a situação da prolongada “novo mediocridade” nas economias do G7 representa parte da transição do centro do pensamento econômico para a China. O desenvolvimento econômico rápido da China pós-1978 foi criado por uma nova teoria econômica, que se tornou a “economia de mercado socialista”, algo sem precedentes em nenhum país e que provou sua correção por meio do crescimento econômico inédito da China. A correção dessa teoria econômica foi então confirmada pelo fracasso da teoria econômica ocidental no Consenso de Washington para os países em desenvolvimento e da “terapia de choque” na Rússia e na ex-URSS. A correção dos conceitos da China agora está sendo demonstrada novamente na comparação com a “nova mediocridade” resultante da aplicação nos países do G7 das teorias econômicas ocidentais dominantes.

Em sexto lugar, a disseminação das iniciativas que se seguem a “economia de mercado socialista” da China são amplamente entendidas como cada vez mais cruciais a nível mundial – Belt and Broad Initiative (BRI), o Asian Infrastructure Development Bank e outros. Isso também se aplica ao papel principal da China na luta contra as mudanças climáticas – particularmente desde o anúncio dos EUA de retirada do Acordo do Clima de Paris. Porém, estes também fazem parte da crescente liderança internacional do “pensamento chinês” – o BRI vai além da abordagem tradicional dos “acordos de livre comércio”, típica dos acordos comerciais patrocinados pelos EUA após a Segunda Guerra Mundial para absorver infra-estrutura e outros investimentos. O papel cada vez mais importante da China na mudança climática é uma expressão do conceito de “comunidade de destino comum”. Naturalmente, essa abordagem tem seu maior impacto internacional quando articulada pelos líderes políticos da China, como, por exemplo, no amplo elogio internacional dado ao discurso de Xi Jinping sobre a globalização no Fórum Econômico Mundial de Davos, analisado em “Como o marxismo de Xi Jinping pensa no Ocidente”[5].

Entretanto, embora os economistas, naturalmente, não tenham o mesmo impacto massico que os líderes estatais, esse impacto crescente do pensamento chinês é também mais claro na esfera de economia mais estritamente definida. As obras “clássicas” da política econômica da China do período de lançamento de sua reforma econômica estão disponíveis há muito tempo fora da China. Só que o sucesso econômico da China, e o impacto acumulado deste, em contraste com o crescimento muito lento na “nova mediocridade” ocidental, são produtos do pensamento econômico contemporâneo da China. Também são regularmente traduzidos e conhecidos entre os economistas não-chineses – por exemplo, a coluna de Yu Yongding no prestigiado Project Syndicat surgiu há sete anos, mas agora é frequentemente citada nos meios de comunicação ocidentais sobre questões financeiras; os livros de Hu Angang sobre o crescimento verde e questões relacionadas estão sendo traduzidos; inúmeras obras de Justin Yifu Lin sobre o desenvolvimento econômico levadas ao seu Centro de Economia Estrutural e o Instituto de Cooperação Sul-Sul estão disponíveis internacionalmente. Eu, trabalhando no Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, na Universidade de Renmin da China, conheço diretamente o crescente impacto internacional e as conexões dos think tanks chineses, mas muitos importantes economistas chineses ainda não estão disponíveis fora da China. A combinação de crescimento muito baixo nas economias ocidentais avançadas e crescimento contínuo na China está acelerando progressivamente a superação dessa situação.

A “nova mediocridade” do G7 não é, portanto, meramente importante em suas consequências práticas para a economia mundial: a incapacidade crescente do pensamento econômico ocidental para superar o “novo medíocre” está ajudando a criar a mudança do centro da teoria econômica mundial e do pensamento para China. Como o G7 é incapaz de superar esse crescimento muito lento, a “nova mediocridade” significa que essa mudança se intensificará.

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* John Ross é “Senior Fellow” do Instituto para Estudos Financeiros Chongyang, da Universidade de Renmin da China. Ele publica suas opiniões no website “Learning from China”. Este artigo representa sua análise pessoal, o que não implica o endosso pelo Instituto Chongyang.

 

Fontes:

[1] – http://www.guancha.cn/LinYiFu/2017_11_22_435941.shtml

[2] – https://www.learningfromchina.net/deng-xiaoping—the-worlds-greatest-economist.html

[3] – https://www.learningfromchina.net/why-the-economic-reform-succeeded-in-china–will-fail-in-russia.html

[4] – https://www.learningfromchina.net/why-the-us-remains-locked-in-slow-growth.html

[5] – https://www.learningfromchina.net/how-xi-jinpingrsquos-marxism-out-thinks-the-west.html