A política dos EUA para a Síria: Um passo mais perto da guerra de larga escala

por Peter Korzun | Strategic Culture

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(Foto: SSG Bertha A. Flores / defenseimagery.mil)

A administração norte-americana tem enfrentado alguns inconvenientes na sua tentativa de dar vida a seus planos de construir um muro na fronteira mexicana. O Presidente Trump terá de lutar uma batalha árdua para manter sua promessa pré-eleitoral, mas o lançamento de um programa que tem por objetivo garantir a segurança fronteiriça de um outro estado, situado a milhares de quilômetros – um plano que nunca foi anunciado – se mostrou muito mais simples. As notícias foram uma grande surpresa para aqueles que acompanham o desenrolar dos eventos no Oriente Médio.

Uma “Força de Segurança Fronteiriça” de 30 mil homens, apoiada pelos Estados Unidos, deverá operar nas fronteiras da Turquia e Iraque, bem como na Síria, às margens do Rio Eufrates. Suas atividades serão coordenadas com as milícias curdas das Forças Democráticas da Síria (SDF), atualmente com o controle de quase 25% do território sírio, no Norte e Leste.

Duzentos e trinta novos cadetes já foram recrutadas para a força. Uma fonte da coalizão liderada pelos EUA disse: “A base da nova força é essencialmente um realinhamento de aproximadamente 15 mil membros do SDF para uma nova missão de segurança na fronteira, já que suas ações contra o Estado Islâmico estão chegando a um fim.” De acordo com o The Defense Post, “a composição étnica da força será relativa às áreas onde operam. Esforços foram tomados para que os combatentes sirvam próximo às suas casas. Isso garante que os curdos, que são a maioria da população no nordeste da Síria, estabelecerão checkpoints pelos quase 820 quilômetros da fronteira Síria-Turca.” O movimento terá grandes repercussões.

No dia 15 de janeiro, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan disse que a Turquia considera a nova força um “exército terrorista” que deveria ser estrangulado antes de seu nascimento, e ameaçou abertamente usar da ação militar. De acordo com o líder turco, as preparações finais estão sendo feitas para o início de um bombardeio contra as forças curdas na região de Afrin, no norte da Síria, e uma operação poderia começar a qualquer momento, independente da presença de militares norte-americanos na região. A Turquia enviou mais armamentos para a fronteira síria depois da decisão de criar a força fronteiriça ter sido anunciada.

Trata-se de um desenvolvimento muito sério, que ocorre após vários anos de fricção. No último verão, os EUA prometeram à Turquia que tirariam as armas das milícias curdas depois da vitória sobre o Estado Islâmico. A promessa foi quebrada, e já foi esquecida. Washington também prometeu repetidamente que deixaria a Síria após a derrota do grupo terrorista, mas no final de 2017 anunciou que permaneceria no território sírio.

O governo sírio também condenou o plano, chamando-o de “invasão escandalosa” da integridade do país. No dia 15 de janeiro, a televisão estatal reportou que o governo está determinado a retirar os Estados Unidos da Síria. A decisão também foi criticada pelo Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, que disse que os Estados Unidos pode estar levando a cabo uma política de partição na Síria.

O movimento dos EUA mostra que os norte-americanos ficarão na Síria por um bom tempo, e que seus planos futuros têm pouco a ver com a luta contra o Estado Islâmico, que já foi derrotado, reduzido à insignificância, e que já não tem influência na Síria. A rede Al-Masdar News informa que as forças curdas receberam um carregamento de sistemas de míssil terra-ar portáteis (MANPADS) dos Estados Unidos, como parte de um acordo secreto. As armas darão às milícias curdas alguma capacidade de defesa aérea caso as hostilidades entre a Turquia e o governo da Síria explodam.

Na realidade, os EUA estão levando a frente os planos de criar uma Federação Democrática do Norte da Síria, que será dominada por curdos com uma população árabe e assíria considerável. O seu status ainda será determinado. Os Estados Unidos repetidamente deram seu apoio vocal à integridade territorial da Síria, mas sempre rejeitaram a possibilidade do presidente Assad continuar como seu líder, ao menos não por um período de tempo considerável. Não é coincidência que, pouco depois da criação da Força de Segurança Fronteiriça ser anunciada, o jornal Asharq Al-Awsat noticiou que os EUA estão mais dispostos a reconhecer a área (de quase 28 mil quilômetros quadrados) controlada pelas Forças Democráticas da Síria (SDF). De acordo com a fonte, o Secretário de Defesa dos EUA, Jim Mattis, disse que “Washington enviará diplomatas para a área controlada pelas SDF, para trabalhar junto dos militares.” O país também está trabalhando para o estabelecimento de conselhos locais.

As Forças de Segurança Fronteiriça, no entanto, não são as únicas forças que estão sendo apoiadas pelos EUA na Síria. Foi noticiado em dezembro que uma coalizão liderada pelos EUA está treinando o Novo Exército Sírio no campo de refugiados de Hasakah, localizado a 70 quilômetros da fronteira turca e a 50 quilômetros da iraquiana. Essa nova força armada supostamente será usada para o lançamento de ofensivas fora das áreas controladas pelas SDF.

Então enquanto Moscou trabalha arduamente para alcançar um acordo pacífico para resolver a crise Síria e para a realização do “Congresso do Povo Sírio”, em Sochi, Washington faz seu melhor para prejudicar as conversas de paz que ocorrem em Astana e Genebra, bem como para prejudicar a realização da conferência em Sochi. O objetivo óbvio de suas atividades é a partição do país. Claramente, os planos norte-americanos incluem o início de uma nova guerra regional na Síria, colocando um lado contra o outro. Ao invés de promover o muito esperado processo de negociação, os EUA estão indo longe para levar o conflito a uma nova etapa.

O conflito entre os EUA e a Turquia não tem precedentes, e nos lembra dos tempos em que a Grécia e a Turquia estavam balançando em meio à possibilidade da guerra. Isto foi a muito tempo atrás, e haviam diversos membros da OTAN para prevenir a guerra. Dessa vez, no entanto, o conflito é eminente. Caso iniciado, seria difícil imaginar a Turquia permanecendo na OTAN e a Força Aérea norte-americana operando na base de Incirlik.

E essa não é a única ameaça eminente à unidade da OTAN. O primeiro-ministro romeno Mihai Tudose ameaçou fisicamente quaisquer húngaros étnicos que demandam autonomia. Tudose declarou que os húngaros da Transilvânia que levantassem a bandeira Szekler, símbolo não-oficial das regiões habitadas pelos húngaros étnicos, deveriam ser enforcados. A ameaça foi feita após três políticos húngaros terem feito um chamado pela autonomia desta parte da Hungria. É claro que a resposta foi a raiva generalizada, seguida por uma disputa diplomática, protestos e explicações. No dia 16 de janeiro, o primeiro-ministro romeno foi afastado. Isso não significa que um fim para as aspirações dos húngaros étnicos na Romênia por autonomia tenham chegado ao fim. Uma fagulha pode iniciar um incêndio a qualquer momentos, e este é um problema para a OTAN, já que a Moldávia pode se envolver, bem como milhares de cidadãos russos vivendo na Transnistria. Não se trata do único problema da OTAN, já que alguns de seus membros consideram se retirar da organização.

Os desafios à unidade da OTAN estão aparecendo em meio a numerosos problemas não resolvidos que envolvem o Ocidente. Ao invés de tratar deles, no entanto, o Ocidente está concentrando seus esforços na oposição à Russia e na intervenção em conflitos distantes. Há grandes desafios para os Estados Unidos em 2018, e é difícil entender como seu envolvimento no conflito sírio, ou outro conflito longe de suas fronteiras, poderia promover a estratégia de “America First.” No lugar de iniciativas diplomáticas, os EUA preferem focar na preparação de guerras em terras distantes. Seja lá qual for a agenda dos movimentos recentes dos Estados Unidos, o risco de uma guerra de larga-escala e multifacetada acaba de crescer consideravelmente.