Cantora norte-coreana “executada” é negociadora de delegação da Coreia do Norte

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Há alguns anos os meios de notícia internacionais informaram que ela havia sido executada por um pelotão de fuzilamento. Hyon Song Wol, uma dirigente sênior do Partido do Trabalho da Coreia, agora reaparece como uma das faces da delegação norte-coreana que foi para a Coreia do Sul negociar a formação de uma equipe única nas Olimpiadas de Inverno.

A cantora da banda Moranbong é negociadora e líder da equipe que trata os detalhes da iniciativa esportiva para o jogos de Pyeongchang, proposta surpreendente que saiu dos norte-coreanos apesar do momento de tensão com os Estados Unidos.

Apesar da notoriedade como cantora, Hyon Song Wol não foi enviada como uma face simbólica, para desempenhar qualquer papel de celebridade ou gerar um intercâmbio mais publicitário; a figura sóbria, fleumática e quase cinzenta não difere de outros dirigentes do Partido do Trabalho – o seu trabalho é de negociação e ajustes burocráticos, não relações públicas. Ocupando uma cadeira do Comitê Central do partido, Hyon é uma das pessoas mais influentes do país.

Hyon fez pelo menos duas viagens através da Zona Desmilitarizada (DMZ) demarcada no Paralelo 38.

Apesar da imagem de burocrata, a mídia e um público considerável na Coreia do Sul vêm tratando Hyon como uma espécie de estrela do k-pop. O assédio midiático não conseguiu tirar respostas ou entrevistas da negociadora, entretanto. Esse tipo de construção midiática é estranha à realidade norte-coreana, onde não existem “celebridades” propriamente (ou como estamos acostumados), sem um trabalho midiático e ideológico no entorno de carreiras individuais dos cantores notórios. A exemplo disso, não existe alarde na mídia norte-coreana sobre a presença de Hyon entre os delegados.

Também houveram reações de manifestantes radicais, que armaram uma recepção na estação de trem de Seul que contou com queima de retratos do líder norte-coreano Kim Jong Un, da bandeira norte-coreana e da bandeira da unificação que as delegações olímpicas dos dois lados da península vão carregar na abertura dos jogos.

Não é a primeira vez que Hyon aparece na mídia. No passado a mídia sul-coreana e internacional (ecoada pela brasileira) noticiou que Hyon foi fuzilada por conta de um “escândalo pornográfico”. Um ano depois ela reapareceu na televisão norte-coreana, botando fim ao boato que havia sido erigido a verdade como uma arma de guerra midiática contra a Coreia do Norte. Dentre outros casos de norte-coreanos “executados que voltaram”, foi provavelmente o mais famoso, gerando uma série de piadas sobre “ressurreição” e alguma auto-crítica em alguns meios internacionais de prestígio. Ainda assim houveram pessoas para questionar os fatos como um “jogo de imagens” do governo norte-coreano com as pessoas que teriam de fato sido executadas.

A República Popular Democrática da Coreia enviará 22 atletas na delegação conjunta, uma equipe de demonstração de Taekwondo e um grupo de torcida feminina. A banda Samjiyon, orquestra que tem cantores e dançarinos dentre seus 140 membros, também vai acompanhar a delegação olímpica e dentre os músicos participantes está Hyon Song Wol.

A Banda Moranbong foi tratada como uma sinalização de Kim Jong Un para a “abertura” por conter um caráter mais pop, apesar de não um estilo completamente inédito na República Popular e não obstante as letras terem caráter político. No passado, Kim Jong Il criou o projeto da Orquestra Eletrônica Pochonbo, com o som carregado de sintetizadores e onde Hyon cumpria um papel proeminente. Como fica explícito nos escritos do falecido Kim Jong Il, as grandes bandas são pensadas com um trabalho político minucioso.

Hyon é muito mais do que uma cantora, cumprindo responsabilidades de implementação política de grandes dimensões. Não se trata somente das Olimpíadas de Inverno, mas do estabelecimento de um importante canal de comunicação – talvez a maior retomada de negociações em mais de uma década e a iniciativa desse tipo mais importante desde que Kim Jong Un se tornou o líder norte-coreano.

Dentro do modelo estabelecido na história pelo “socialismo real” dos estados de ideologia marxista-leninista que nascem do tronco soviético, dentro da estrutura onde um partido dirigente exerce um papel de vanguarda o Comitê Central funciona como instância máxima entre congressos partidários, dividindo responsabilidades na condução de diversas atividades partidárias e funções governamentais. Hyon, então, foi designada para uma tarefa específica, possivelmente relacionada com um grupo de trabalho ou comitê mais específico.

O Comitê Central cumpre funções políticas e burocráticas de primeira importância, funcionando com disciplina estrita e um ritmo profissional. Uma posição mais pública, talvez coerente com uma lógica de aproveitamento da imagem de Hyon (e que alguns no ocidente chamariam de “recompensa”), seria um cargo de representante na Assembleia Popular Suprema, de caráter distinto e que inclui uma relação mais aberta com o povo em geral (o Comitê Central se relaciona com “bases”, “comitês”, “instâncias inferiores”, etc).