Quando eu morrer

por Pedro Marin | Revista Opera

0
862
(Foto: Mídia Ninja)

Fred Hampton, líder do Partido dos Panteras Negras em Illinois, fez um discurso em 1968, no qual dizia: “Se você pensa em mim e você não está disposto ao ato revolucionário, esqueça de mim. Eu não quero estar na sua mente se você não for trabalhar pelo povo. […] Eu não acredito que eu tenha nascido para morrer em um acidente de carro. Eu não acredito que eu vá morrer escorregando em um cubo de gelo. Eu não acredito que eu vá morrer por um infarto, não acredito que eu vá morrer por câncer no pulmão. Eu acredito que eu serei capaz de morrer fazendo as coisas para as quais eu nasci. Eu acredito que eu vá morrer pelo povo, acredito que vá morrer como um revolucionário na luta proletária revolucionária internacional. […] Por que você não vive pelo povo? Por que você não luta pelo povo? Por que você não morre pelo povo?”

Um ano depois, Fred Hampton seria assassinado enquanto dormia ao lado de sua mulher, aos 21 anos de idade. Mais de 90 tiros foram disparados pela polícia no apartamento em que descansava, dos quais dois foram disparados contra a sua cabeça, a queima-roupa.

1969. Policiais sorriem ao carregar o corpo morto de Fred Hampton. (Associated Press)

Ontem, a vereadora pelo PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foi morta com quatro tiros de 9mm na cabeça. Tudo cheira a execução. Marielle, como Hampton, sabia que sua atuação poderia levá-la à morte. Ainda assim, partiu à ação. Com seu assassinato, uma trupe de criaturas amorfas, que só conseguem se indignar por meio do espetáculo, tem surgido para “prestar homenagens” que apagam a razão fundamental de seu assassinato e sua razão de vida: a luta.

“Se você pensa em mim e você não está disposto ao ato revolucionário, esqueça de mim. Eu não quero estar na sua mente se você não for trabalhar pelo povo”, disse Hampton. Em outras palavras, a única forma de honrar Marielle é sendo tão ou mais dura do que ela foi.