Massacres post-mortem em Gaza

por Stephen Lendman - Stephenlendman.org | Tradução de Gabriel Deslandes

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(Foto: Justin McIntosh)

Na última sexta-feira (30), soldados israelenses mataram 16 habitantes da Faixa de Gaza desarmados a sangue frio, ferindo mais outros 1.400 palestinos, alguns com ferimentos graves. No sábado, o número de mortos certamente aumentou – outros 49 palestinos foram mortos.

Um comunicado do Centro Palestino para os Direitos Humanos (PCHR) destacou que soldados israelenses mataram ou feriram manifestantes pacíficos de Gaza, incluindo mulheres e crianças, que não ameaçavam ninguém. Um forte crime que exige responsabilização, conforme salientado: “Esse grande número de vítimas prova que as forças israelenses continuam cometendo crimes, e o uso excessivo da força contra civis palestinos, em desprezo por suas vidas, passa por cima das decisões políticas”.

Netanyahu elogiou vergonhosamente o que aconteceu, alegando falsamente que os soldados estavam “vigiando as fronteiras do país” – uma mentira descarada. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI), general Ronen Manilis, inverteu os fatos, afirmando que os palestinos mortos estavam envolvidos na violência – torcendo a realidade, acrescentando que apenas algumas dúzias deles, no máximo, ficaram feridos pelos tiros. O porta-voz de Netanyahu, David Keyes, disse vergonhosamente que a ONU deveria investigar o Hamas e não Israel.

O Ministério de Relações Exteriores de Israel repetiu a Grande Mentira sobre o Hamas, alegando que a cerca ao longo da fronteira de Gaza “separa um Estado soberano e uma organização terrorista, um Estado que protege seus cidadãos de assassinos que enviam seus compatriotas para o perigo”, acrescentando:

“A cerca separa um exército que usa sua força em autodefesa e de forma concentrada e proporcional e o Hamas, uma organização que santifica o assassinato e a morte, que, por anos – inclusive ontem –, tem a intenção de fazer o mal a milhões de israelenses. Qualquer um que veja equivocadamente nesse espetáculo assassino um pingo de liberdade de expressão está cego para as ameaças que o Estado de Israel enfrenta. […] Forças de Defesa de Israel enfrentaram violentos motins e ataques terroristas. (Eles agiram) em estrita conformidade com as regras de combate, disparando apenas quando necessário e evitando que os civis estrategicamente colocados pelo Hamas em perigo”.

Todos os itens acima são uma perversão repugnante da verdade. As únicas ameaças de Israel foram forjadas. As FDI empregaram dezenas de atiradores, um ou mais tanques e drones para atacar palestinos indefesos – mortos a sangue frio. Nenhum soldado ou civil israelense foi morto ou ferido. Nenhum deles ameaçado.

Separadamente, as FDI mentiram alegando que 10 dos 16 moradores de Gaza mortos na sexta-feira eram membros de “grupos terroristas”. O Hamas reconheceu a morte de cinco membros das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam – membros da força de segurança de Gaza, não terroristas. Um comunicado do Hamas afirmou que eles estavam participando “em eventos populares lado a lado com seu povo”.

O integrante do Comitê Executivo da OLP, Hanan Ashwari, emitiu uma declaração contundente dizendo: “Os palestinos em toda a Palestina histórica continuam a suportar a destruição, o deslocamento e a desumanização nas mãos do governo israelense extremista de direita e suas políticas ilegais e medidas draconianas. […] Por meio de flagrantes violações, principalmente a persistente anexação de terras e a expansão do empreendimento de assentamentos ilegais, postos de controle militar e muros do apartheid nos territórios palestinos ocupados, Israel está agindo com impunidade e prolongando a ocupação militar. [..] Também está causando grave sofrimento para seus cidadãos palestinos com leis, propostas e medidas discriminatórias e injustas, negando-lhes seus direitos básicos e fundamentais como cidadãos de Israel. […] Todos os palestinos, seja na Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental ocupada), Gaza, Israel de 1948, ou no exílio, permanecem inabaláveis e comprometidos com sua terra e com a defesa de seus direitos inalienáveis e aspirações legítimas de liberdade e autodeterminação […] Ao observarmos este Dia Nacional (da Terra) e honrarmos nossos irmãos e irmãs que foram assassinados, prestamos homenagem ao povo palestino em todos os lugares por sua coragem e resiliência diante do racismo, do colonialismo e da violência de Israel. […] Com todos os obstáculos e barreiras implantadas por Israel, vamos perseverar e dar esperança diante da devastação e do desespero. […] Continuamos comprometidos com o ativismo popular não violento e os esforços políticos, legais e diplomáticos, e persistiremos na luta por nossas liberdades, direitos e dignidade”.

No sábado, o governo Trump bloqueou um pedido do Conselho de Segurança, que pedia a investigação independente sobre o massacre de sexta-feira. O pedido expressava “grande preocupação” com o ataque a manifestantes não violentos, afirmando “o direito ao protesto pacífico”, além de clamar “pelo respeito à lei internacional de Direitos Humanos e ao Direito internacional humanitário, incluindo a proteção de civis”. Todos os membros do Conselho de Segurança apoiaram a declaração. Somente Washington se opôs.

O oficial do Hamas, Mousa Abu Marzook, explicou que todos os habitantes de Gaza mortos ou feridos “não chegaram nem perto da cerca da fronteira e não tentaram atacá-la. Eles foram mortos por atiradores de longa distância quando estavam dentro da Faixa de Gaza.”

O fogo israelense causou a metade ou mais das baixas palestinas. Gaza continua ilegalmente bloqueada sob cerco – por razões políticas não-relacionadas à segurança. Os crimes de guerra, contra a humanidade, e o genocídio em câmera lenta perpetrados por Israel permanecem, no decorrer das décadas, sem ser contabilizados, e os palestinos seguem   sendo vitimados pela crueldade israelense.