Nos anos 50, para explicar a razão pela qual uma notícia aparecia ou não em um jornal, teóricos da comunicação começaram a desenvolver a teoria do gatekeeper (porteiro). Em resumo, a ideia é a de que o jornalista não é somente aquele que reporta fatos, mas também o que os seleciona; um porteiro que, frente a abundância de informações que graças aos telégrafos e telefones chegam de todos os cantos, a todo momento, é hábil na arte de gerenciar o espaço disponível nas colunas.

O surgimento dos jornais digitais permitiu a extinção desse cálculo. Sob a égide da “neutralidade”, o “jornalismo fatual” poderia agora publicar tudo o que tivesse ocorrido. Ironicamente, um dos princípios que regem o trabalho na Revista Opera – um veículo digital – é o do gatekeeper. Isso é decorrente da percepção de que a fartura de fatos é capaz de gerar um ruído ensurdecedor, mais obscuro do que o silêncio: são tantos os fatos que eles perdem valor; não se precisa mais o que é e o que não é relevante.

Por essa razão, o último artigo que publiquei sobre a situação na Península Coreana, um dos mais fundamentais polos do conflito geopolítico global (e pelo qual tenho enorme interesse) foi em setembro passado, quando a República Popular Democrática da Coreia realizou um teste de uma bomba de hidrogênio, por considerar que, até o momento, ele resumia a situação regional. Dizia no artigo:

“O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, respondeu ao disparo dizendo que ‘todas as opções estão na mesa’ quando, na realidade, não há nenhuma. Um blefe envergonhado, não de um jogador com uma mão ruim, mas de alguém que sequer está no jogo; um gorila jogando fichas e urrando da platéia. A posição que a RPDC ocupa no momento atual é de tal vantagem estratégica que qualquer posição tomada por seus adversários – ou mesmo posição nenhuma – lhe é conveniente. Guerrear é impossível; primeiro porque tal decisão teria de partir unilateralmente dos Estados Unidos. Em tese, uma ação militar por parte das 24 mil tropas norte-americanas estacionadas na Coreia do Sul depende da aprovação do país, que não ocorrerá […]”

Nesta quinta-feira (26) a RPDC enfim consolidou abertamente sua vitória – motivo pelo qual escrevo. No Paralelo 38N, uma linha imaginária que está a 38 graus ao norte da Linha do Equador, desenhada de maneira arbitrária e sem consulta à meia noite de um dia de 1945 por Dean Rusk para separar o norte do sul da Coreia, o líder norte-coreano Kim Jong-Un apertou a mão do presidente sul-coreano Moon Jae-in.

Jae-in estendeu sua mão para a esquerda, dando passagem para que Jong-Un passasse ao lado sul da península. Kim Jong-Un deu um passo adiante, sendo o primeiro líder norte-coreano a pisar além do Paralelo desde o armistício de 1953. Logo pegou na mão de Moon Jae-in e o trouxe um passo atrás, para o norte, como quem sussurra: “a Coreia é uma.”

Na terça-feira (24) o presidente norte-americano Donald Trump, que no ano passado falava em “fogo e fúria” sobre o “homenzinho do foguete” teve de deixar de lado as bravatas, e declarou que Kim Jong-Un é um “líder respeitável”, prometendo encontrá-lo em maio ou junho.

Sul e norte conversam hoje como não conversavam desde 2007. Na Cúpula entre as Coreias, o foco das discussões devem ser o programa nuclear norte-coreano, paralisado desde a semana passada, bem como medidas menores, mas simbólicas. Especulo: outro ponto tratado, e que não constará na agenda pública do evento, é como lidarão com Trump.

A expectativa de Kim Jong-Un é levar a frente uma tradição de mais de 50 anos no norte da Península: a da barganha. Em troca da paralisação de seu programa nuclear, a RPDC garantirá a suspensão de sanções e possíveis benefícios em infraestrutura, possibilitando os próximos passos de seu novo plano econômico para o desenvolvimento, anunciado nesta semana. Trump, o gorila, não joga mais fichas nem urra. Agora, sim, terá lugar à mesa.