O homem que fez um jornal sozinho

por Bruno Ribeiro | Revista Opera

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Certas histórias pareceriam saídas de um romance de ficção, se não fossem reais. Uma delas é a história de Júlio Mariano, “o homem que fez um jornal sozinho”. Nascido em Itatiba, interior de São Paulo, no dia 19 de agosto de 1901, Mariano superou a pobreza, notabilizou-se como músico, enxadrista (chegou a disputar torneios estaduais), cronista e, principalmente, repórter.

Mas o que ressalta sua biografia não é a história de superação ou a sua formação cultural eclética (falava francês muito bem, mesmo tendo passado pouco tempo na escola). Tampouco é o fato de ter sido o primeiro jornalista negro de Campinas – cidade para onde se mudou ainda criança. Apesar de tudo isso ter construído sua personalidade e influído em seu talento, Júlio Mariano é mais reconhecido, no meio da imprensa paulista, como o exemplo máximo do profissional compromissado com a informação. Ao arriscar a própria vida para que a população soubesse do que se passava no front, durante a Revolução de 1932, tornou-se uma espécie de herói da imprensa, embora ainda hoje pouco se conheça sobre este feito.   

Antes de ser jornalista, Mariano trabalhou como auxiliar de farmácia e, depois, como gráfico. A maior parte do seu conhecimento foi adquirida fora do ambiente escolar; como ele próprio reconhece, em um texto autobiográfico, sua melhor professora foi a vida pulsante das ruas, dos bondes, dos cafés e dos botequins de Campinas nas décadas de 1910 e 1920.

Circulando pelo centro da cidade, gostava de sentar num banco qualquer para ouvir a conversa dos intelectuais e dos jornalistas que se concentravam na Praça Carlos Gomes. Sentia prazer com o cheiro de tinta fresca dos jornais e, por isso, procurou e conseguiu emprego como tipógrafo na Casa Genoud. Foi lá que passou a imprimir um jornalzinho chamado “O Cometa”, criado e escrito por ele. Embora irreverente, a publicação era feita com seriedade e continha, além de crônicas, reportagens sobre futebol e sobre corrida de cavalos, artigos sobre aspectos da vida social dos jovens e uma hilária seção de cartas dos leitores repletas de declarações de amor. O único problema era a periodicidade indefinida: o jornal saía quando dava.

O debute de Júlio Mariano na grande imprensa se deu em 1925, na Gazeta de Campinas, onde trabalhou quase de graça por muitos anos. Numa época em que ainda não havia a função de repórter esportivo nas redações, Mariano foi o primeiro a acompanhar a rotina do Guarani e da Ponte Preta. Depois, contratado pelo Correio Popular, criou a página policial. A sua coluna “No Cadastro da Polícia e das Ruas” foi a mais lida do jornal durante muitos anos.  

Ao longo de sua carreira, escreveu e publicou vários livros – “Nebulosas” (1928), “História da Imprensa em Campinas” (1946), “Um Crime de Escravos” (1949), “Crônica da Velha Campinas” (1950), “Campinas de Ontem e de Hoje” (1970) e “Badulaques” (1976), entre outros. Publicou também inúmeros artigos sobre música popular e folclore, além de uma curiosa palestra sobre a experiência do diabo no mundo moderno: “As Boas Qualidades do Sr. Dom Diabo – Autos de um Inquérito Lítero-demonológico” (1934).

Mas Mariano tinha alma de repórter. Em 1932, quando a Revolução Constitucionalista eclodiu em Campinas, deu-se um fato inusitado: milhares de pessoas, temendo os bombardeios aéreos e a invasão das tropas federais, sumiram da cidade. Até os jornalistas, que deveriam honrar o juramento da profissão e ficar a postos, deixaram a redação do Correio Popular às moscas. Todos fugiram, menos um: o valente Júlio Mariano, que tomou para si a responsabilidade de manter o jornal funcionando, mesmo sem exercer nenhum cargo de chefia naquela época.

Enquanto duraram os combates, o repórter foi ao front com papel e lápis, redigiu as matérias, imprimiu e distribuiu praticamente sozinho o Correio Popular, numa heroica jornada diária que chegava a vinte horas de trabalho. Quase sem dormir e sem comer, ele foi a voz do povo nas trincheiras.     

Graças ao sacrifício de Júlio Mariano, as informações sobre a guerra fratricida não se perderam no tempo. Hoje sabemos como se deu o conflito em Campinas, onde e quando caíram as bombas lançadas dos aviões do governo, como era o dia a dia de um voluntário constitucionalista nas trincheiras, quem morreu, quem matou, quem teve casa e família destruídas. Tudo está registrado em forma de reportagens que se confundem a crônicas, tingidas com a emoção própria de quem escreve no meio do caos.

Paranhos de Siqueira, talvez o maior nome da imprensa de Campinas em todos os tempos, comparou Júlio Mariano a Machado de Assis. E não somente por “sua prosa fácil e o tom combativo e sempre bem-humorado de suas crônicas”, mas porque “tal como Machado, ele começou como tipógrafo, sob a luz mortiça de um pendente imóvel”. Era o discípulo de Gutemberg que ia dispondo os caracteres tipográficos no componedor e, ao mesmo tempo, acompanhando o pensamento do autor, na ânsia de assimilá-lo, no desejo vocacional de aprendê-lo.

Júlio Mariano era feito da mesma matéria que compõe os grandes homens e não se deixava corromper pela vaidade, mesmo após consagrado como uma das maiores referências do jornalismo campineiro. “Sou apenas um proletário das letras. É essa a expressão que melhor define a minha vida profissional, desde certo dia de abril de 1932 em que, ingressando no Correio Popular, iniciei minha carreira no jornalismo”, disse. Mariano morreu de causas naturais em 15 de julho de 1988.