Eleições no Iraque: Comunistas em momento histórico

A aliança chamou a atenção no mundo todo, se apresentando como uma união cívica contra a corrupção e com um posicionamento nacionalista frente as divisões sectárias e os interesses de outros países, dentre eles os Estados Unidos, a Turquia e o Irã.

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A contagem dos votos nas eleições do Iraque indica que a coalizão Aliança dos Revolucionários pela Reforma (Sairoun) está a frente no voto popular e previsões não oficiais falam de uma maioria no parlamento, com cerca de 54 cadeiras. O movimento é liderado pelo clérigo Muqtada al-Sadr e tem como núcleo político uma aliança com o Partido Comunista Iraquiano.

Sadr é famoso por liderar um movimento político baseado em xiitas pobres e por ter comandado grupo paramilitar que lutou contra a invasão norte-americana, além de ter se envolvido nos conflitos civis do país. Se reinventou liquidando o tom mais religioso do próprio movimento sadrista e liderando protestos contra a corrupção, com uma plataforma política anti-sectária e pró-secularismo. O Partido Comunista Iraquiano tem credenciais mais do que confirmadas em uma forma radical de secularismo e décadas de oposição contra o sectarismo.

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Foto da marcha comunista no Primeiro de Maio. Reproduzida em diversas contas do Twitter, autor não identificado.

A aliança chamou a atenção no mundo todo, se apresentando como uma união cívica contra a corrupção e com um posicionamento nacionalista frente as divisões sectárias e os interesses de outros países, dentre eles os Estados Unidos, a Turquia e o Irã.

Tendo rompido com a coalizão secular Aliança Democrática Civil, o partido comunista justifica a decisão como parte de um movimento maior. Em entrevista para o Middle East Eye, Salam Ali, membro do Comitê Central, explicou que não é algo repentino, mas produto da “cooperação, da coordenação entre este amplo movimento civil democrático, o movimento de protesto e o movimento sadrista”.

Os dois movimentos tem origens parecidas e mantém suas sedes na massa urbana de uma periferia social conhecida como Sadr City (no passado, Saddam City). Apesar do vínculo dos movimentos com essa área que é alvo frequente de ataques terroristas e abriga três milhões de habitantes, Salam Ali explicou que a aliança permitiu maior articulação do partido em regiões que antes não alcançava.

Descrevendo uma cooperação a nível de base e estrutura de organização, com jovens das duas bases enfrentando problemas locais, Ali também apontou que a cooperação política nestas eleições pode significar uma grande virada na história iraquiana.

Os comunistas iraquianos, que voltaram a política em 2003 sem a força do passado, sofreram com perseguições, sequestros (inclusive no recente movimento anti-corrupção) e incêndios de suas sedes. Até mesmo assassinato. No que concerne as relações com religiosos, velhas fatwas de velhos ayatollahs contra o partido comunista continuam em circulação – o próprio pai de Moqtada, o respeitadíssimo Grande Ayatollah Mohammad Mohammad Sadeq al-Sadr, não era exatamente simpático a política vermelha.

Membros da aliança continuam sendo ameaçados, como o professor de economia da Universidade de Muthanna, Abbas Adel Khader, para que este retire sua candidatura.

Apesar de manter uma imagem pública discreta e um certo nível de clandestinidade na militância, os comunistas não escondem suas posições. Sempre se apresentaram como o único partido “não sectário”, tratam o momento atual como a falência dos partidos confessionais e denunciam forças ligadas a outros países.

Os comunistas são críticos do intervencionismo norte-americano, da influência iraniana sobre as Unidades Populares de Mobilização (que lutaram contra ISIS) e da interferência turca através de movimentos sunitas.

Entrevistado pelo MEE, o dirigente comunista Raid Jahed Fahmi, candidato e protagonista das conversações com Sadr, defendeu que o Iraque não deve entrar em um conflito armado na região, mantendo sua independência, se colocando como um ponto de equilibrio geopolítico. Ao mesmo tempo, criticou a política anti-iraniana de Donald Trump, “não podemos aceitar (…) não é realista, é perigoso”.

Fazendo análise de classes, Fahmi defendeu a semelhança das bases dos dois movimentos tão distintos: “os pobres, a classe trabalhadora e aqueles descontentes com a corrupção e o desemprego”.

“Cada vez mais pessoas estão entendendo que os seus problemas não estão nas diferenças com as outras comunidades”, para ele os líderes religiosos perderam credibilidade e as pessoas estão adquirindo maior consciência das questões materiais. Nesse caso, seria importante evitar um conflito com o Irã para não perder esse avanço político, segundo ele.

Nos 200 anos de Karl Marx, por fim o dirigente defende que as ideias do alemão continuam mais atuais do que quando foram publicadas. “Nas nossas políticas, nós usamos, em termos de analisar a sociedade iraquiana, para analisar nossas prioridades, em determinar a natureza da contradição – nós não podemos analisar de forma adequada sem usar a ferramentas marxianas”.

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Foto da marcha comunista no Primeiro de Maio. Reproduzida em diversas contas do Twitter, autor não identificado.

Críticas e ataques

Os sadristas se esforçam para reforçar suas credenciais anti-sectárias. Dia al-Asadi, líder do movimento político de Sadr, o Bloco Al-Ahrar, declara: “Sadr não acredita que a política seja lugar para disseminar a religião”.

Para alguns, no entanto, o problema não é disseminar religião mas disseminar o comunismo. Bahaa al-Araji, ex-sadrista que foi obrigado por Sadr a renunciar a um cargo de ministro de energia por acusações de corrupção, ironizou na televisão a possibilidade um partido com o lema de “trabalhadores do mundo, uni-vos” se juntando a um que deveria usar “que as benções estejam sobre o profeta”? “Hoje em dia qualquer um com possibilidade de virar primeiro ministro se alia até com o diabo”.

Ali Velayati, político conservador iraniano e conselheiro do Líder Supremo (Ayatollah Khamenei), disse publicamente ao lado de Nouri al-Maliki que “o Despertar Islâmico não vai permitir o retorno de comunistas e liberais ao poder”.

O posicionamento foi criticado por figuras e parlamentares seculares. Um membro do Comitê Central do Partido Comunista, Jassim Alhelfi, fez uma declaração em seu Facebook. “O Iraque é maior do que você! O Iraque  não é seu estado!”. Ele também criticou a tradição criada por oficiais iraquianos que se humilham ouvindo o discurso de Velayati sem fazer oposição, atacando dessa maneira o ex-primeiro ministro al-Maliki.

Sadr também se defendeu de ataques:

“Se entramos em uma aliança com os Xiitas, dizem que é uma aliança sectária.  Se entramos em uma aliança com os Sunitas, me acusam de Wahhabismo, Baathismo ou lealdade a Arábia Saudita. Se entramos em uma aliança com uma corrente da sociedade civil, eles dizem que somos Comunistas. Quando entramos em aliança com partidos próximos do Irã, eles nos acusam de ser lealistas iranianos e quando nos aproximamos de partidos árabes, dizem que somos agentes secretos deles. Eu participarei das eleições pelo bem do Iraque, para apoiar pessoas moderadas e tirar os extremistas, conseguir a reforma e acabar com a corrupção e o nepotismo.”

Sadr é ainda hoje atacado como um líder perigoso e imprevisível; o que é certo é que ele possui muitos inimigos. Alguns podem afirmar que ele não buscou o voto sunita somente com um discurso anti-sectário, mas com visitas a Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos. Muitos o ressentem pelo histórico do seus paramilitares, que entraram em conflito até mesmo com grupos armados xiitas ligados ao governo de Maliki – nesse período, Sadr estava exilado no Irã.

Se já teve exílio no Irã, hoje Sadr fala contra os principais aliados iraquianos do vizinho persa e grita o slogan “fora Irã”. Como os comunistas, Sadr falou pela desmobilização das milícias xiitas que compõem as Unidades de Mobilização Popular e contra a participação política delas nas eleições.

A coalizão das milícias se chama “Aliança Fatah” e é liderada por Hadi al-Amiri. Por um momento, iriam compor a “Aliança da Vitória” do Primeiro Ministro Abadi, que vem sendo apresentado como um “reformador inimigo do sectarismo” – Sadr não perdeu a oportunidade de atacar a união como sectária e aberrante, o que rompeu a aliança 24h depois.

Segundo ex-embaixador americano no Iraque, o favorito para os interesses dos Estados Unidos no país seria Abadi, enquanto a vitória de Sadr é problemática. Abadi é apoiado pelo grupo “Unidos pelo Iraque”, união partidária sunita liderada pelo ex-governador de Nineveh, Al-Nujaifi, que declara apoio as eleições porém não se furta a dizer que os Estados Unidos deveriam fazer algo sobre as milícias.

Até então, a Aliança Fatah está em segundo lugar atrás da coalizão de Sadr.

Futuro e perspectivas

É difícil dizer até onde vai esta aliança, mas é provável que os comunistas consigam por volta de 14 cadeiras no parlamento através dela. Sem resultados definitivos, já sabemos porém de alguns deputados eleitos em sua jurisdição. Deputadas, no caso.

A candidata Suhad al-Khatib foi eleita pela “Cidade Sagrada” de Najaf, capital espiritual xiita. Ela é uma ativista por direitos femininos.  Haifa al-Amin foi eleita por Dhi Qar.

Independente de seu futuro, a aliança já havia sido prevista em 2010 em um artigo de um intelectual iraquiano, Dr. Faris Kamal Nadhmi. Como Nadhmi  nos lembra, os comunistas iraquianos nos anos 50 buscavam organizar xiitas pobres e trabalhavam com religiosos nos centros dos grandes santuários, isto é, Karbala, Najaf e Kazimayn.

Haifa al-Amin, material de campanha.