Considerado por vários anos pelo prêmio Congresso em Foco como um dos mais atuantes parlamentares do Brasil, o deputado federal Glauber Braga (PSol-RJ) deposita toda sua confiança na mobilização popular para reverter as políticas impopulares aprovadas pelo governo Temer. Para ele, a maior parte das esquerdas compreendeu a profundidade do golpe parlamentar de 2016 e suas consequências lesivas para a classe trabalhadora brasileira, mas vem errando em buscar saídas apenas dentro do processo institucional-eleitoral.

Integrante da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, Braga também credita no ativismo judicial, promovido pela Operação Lava Jato, um papel ativo de agravamento do Estado penal-punitivo e limitado no combate à corrupção em si, já que não atinge o sistema financeiro, a mídia e o próprio Judiciário.

Em entrevista exclusiva concedida à Revista Opera, o deputado faz um balanço da ofensiva conservadora na retirada de direitos e garantias no Brasil nos últimos anos e que alternativas a esquerda dispõe para a reversão desse quadro. Confira:

O governo Temer tem a aprovação de 5% da população, e 88% dos eleitores não votariam nele caso fosse candidato nas próximas eleições, segundo a pesquisa CNT/MDA. Ao mesmo tempo, Lula lidera em todos os cenários, e 73% acredita que os poderosos querem tirá-lo das eleições, segundo a pesquisa Ipsos. Apesar disso tudo, cadê o povo nas ruas?

Esse é uma questão que tem vários fatores. Acho que um deles é que as pessoas jogaram o peso do que está acontecendo no Brasil apenas nas eleições, como se o processo institucional-eleitoral fosse suficiente para barrar o tipo de golpe que estamos vivenciando. E não é. O golpe que vivemos exige uma resistência articulada que se tentou fazer em alguns momentos, mas que não foi suficiente para barrá-lo. Foi suficiente para ter vitórias pontuais, mas não para reverter por completo o processo de golpe. Acho que há uma cultura enraizada ao longo do tempo por um conjunto de fatores que leva as pessoas que poderiam dar o troco nessa história – pelo menos, majoritariamente do ponto de vista numérico-popular – a colocarem as suas expectativas numa virada eleitoral.

Os partidos de esquerda gritaram “não vai ter golpe”, e o impeachment passou. Gritaram “Lula livre”, e o ex-presidente Lula foi condenado e preso. Em que as esquerdas erraram ou continuam errando tanto no diagnóstico da natureza dessa crise, seja no diagnóstico da sua profundidade?

Não acho que o erro profundo esteja no diagnóstico do que está acontecendo. Acho que existe um consenso em parte significativa da esquerda mais ampliada de que o golpe é grave, amplia o Estado de exceção, tem um programa econômico que desmonta a Constituição em qualquer aspecto de direito social e faz com que as rodadas de privatizações desmontem o Estado brasileiro. Talvez o que não tenha completo acordo é no caráter do que seja a ampliação do Estado penal-policial-punitivo, pois se diminui o Estado numa parte, mas se amplia em outra parte. Nesse segundo aspecto, talvez não haja um consenso na esquerda mais ampliada para poder se chegar a essa conclusão. Sobre o desmonte de garantias sociais e na ampliação do Estado de exceção, talvez exista um consenso. O que não se conseguiu foram instrumentos de mobilização de massa que fossem suficientes para barrar essa agenda que está sendo colocada em prática. Isso se conecta com a sua primeira pergunta: por quê? Acho que é um conjunto de fatores e, entre eles, eu quero repetir: houve uma adequação no decorrer dos últimos anos em colocar as expectativas em trabalhar a mobilização popular eleitoralmente, não utilizando outras práticas que são fundamentais de resistência popular, independentemente da relação com as eleições. As eleições são importantíssimas, e disputar os espaços institucionais é fundamental. Acho que uma parte do nosso campo ainda não conseguiu virar essa chave.

No dia da votação da Medida Provisória que previa renúncia fiscal de R$ 1 trilhão às petroleiras que operariam nos campos do pré-sal e do pós-sal – a chamada MP da Shell, ou MP do Trilhão – o senhor disse que cada deputado que votasse favorável àquele projeto era “ladrão”. O adjetivo seria uma forma de popularizar a discussão do tema da soberania nacional, industrial e energética, que ainda parece distante do dia a dia da população? Como trazer o debate para o campo popular?

Essa era a tentativa mesmo: fazer uma discussão em que o maior número de pessoas pudesse acompanhar o que está acontecendo ali. Aquela matéria seria votada no plenário da Câmara como mais um projeto de desmonte, sem que a maioria da população brasileira sequer soubesse o que está acontecendo. O governo fala num déficit da previdência e justifica, em sua proposta original mandada ao Congresso, uma alteração no Benefício da Prestação Continuada para quem tem de renda ¼ de salário mínimo, mais dificuldade sensorial de natureza grave, ou seja, quem está numa situação de vida dificílima. E justifica isso com o que seria o déficit, mas, numa canetada só, isenta R$ 1 trilhão num período de pouco mais de 20 anos para as operadoras internacionais de petróleo. Ao mesmo tempo, faz uma renegociação de dívidas de deputados e senadores que são sócios ou donos de empresas no valor estimado de R$ 3 bi. Então, a gente precisa popularizar o que está acontecendo. Não posso falar em cifras de tri ou de bi sem dizer, de forma frontal, o que é isso: é dilapidar o Estado brasileiro e entregar as riquezas nacionais. E quem faz isso está roubando o Estado brasileiro e é um ladrão. As pessoas precisam saber.

A economia brasileira sofre um processo de desnacionalização grave desde os anos 90 e somos muito dependentes da importação de insumos, alimentos, medicamentos e derivados de petróleo. Vamos supor que o PSol chegue ao poder. Como governar com um projeto nacional à esquerda sem correr o risco de bloqueios, boicotes e sabotagens empresariais?

Esse é um risco que estará sempre presente. Quando você procura fazer modificações estruturais, os setores que estavam sendo beneficiados por um Estado de exclusão vão reagir das mais variadas formas. Entre outras, boicotando economicamente um projeto que queira se estabelecer como uma mudança profunda. Só há uma forma de darmos enfrentamento a isso: a mobilização popular permanente da maioria do povo. Numericamente, nossas teses têm maioria na sociedade. Se você for falar em reforma previdenciária, a maioria do povo é contra. Se você for falar em reforma trabalhista, a maioria do povo é contra. Se você for falar em congelamento de investimentos em saúde e educação – e eu pensei que as pessoas não estavam nem ligadas nisso –, o Datafolha, que não é um instituto de esquerda, mostrou que a maioria do povo era contra. Quando perguntados se eram a favor das rodadas de privatizações, de cada 10 brasileiros, sete disseram que eram contra! Como se reverte uma tentativa de boicote a um programa econômico que dê enfrentamento a essa agenda? Com mobilização popular permanente e organização de base, indo no passo a passo e explicando o que está acontecendo. E, claro, procurando parceiros internacionais que possam suprir as lacunas e deficiências daqueles que boicotarão uma proposta de ruptura com um modelo excludente.

Por exemplo, os BRICS?

Também, mas não só os BRICS. Temos que tentar reforçar a articulação com segmentos na própria América Latina. É fundamental.

Como um governo progressista seria capaz de desmobilizar o ativismo judicial fomentado pela Operação Lava Jato, que vem passando por cima da garantia de direitos fundamentais, sem que isso seja percebido pela população e pela mídia como tentativa de obstruir a Justiça?

Amplia-se o controle social. Sempre que há um impasse, em que as pessoas não aprovam majoritariamente, mas se dividem com relação a uma questão, você deve ampliar o poder, ao invés de concentrá-lo na mão de determinados agentes. Ou seja, se questionado se deve ampliar o seu acompanhamento sobre a atuação do Poder Judiciário, eu tenho certeza que o povo dirá que é fundamental, que é importantíssimo. Então, que a gente faça isso! Temos o Conselho Nacional de Justiça, em que são escolhidos a dedo aqueles que já são representantes de uma parcela do próprio Judiciário brasileiro e de alguns outros segmentos com acúmulo jurídico. Por que não ideias como a que o Podemos defende na Espanha de ampliação da participação popular na escolha, inclusive, daqueles que farão a fiscalização e o acompanhamento do Judiciário? Essa é uma medida que pode quebrar essa narrativa de que se estaria defendendo justamente a impunidade desmontando nichos já concretizados desse ou daquele poder. Não, e o que deve haver em todos os poderes – não só no Judiciário, mas no Executivo e no Legislativo – é a democratização desses poderes, em uma outra relação com esses movimentos e a sociedade civil organizada.

Durante a Guerra Fria, a estratégia geopolítica dos Estados Unidos era eliminar os inimigos políticos na “luta contra o comunismo”. Depois, a estratégia mudou para a “Guerra às drogas” e a “Guerra ao Terror”. Observando esse intercâmbio informal entre o Departamento de Justiça dos EUA e órgãos do Judiciário no Brasil e na América Latina, dá para dizer que existe uma “Guerra contra a corrupção” como nova geoestratégia norte-americana?

Essa é a estratégia, essa é a estratégia! Vamos lá: você não retira direitos e garantias fundamentais, principalmente de quem está na base da pirâmide e da classe média, se não ampliar o Estado penal-punitivo. O Judiciário e o Ministério Público estão entre esses braços. Então, você consegue estabelecer um diálogo com uma parcela da sociedade que não toparia uma agenda só de desmonte econômico e de retirada de direitos. Darei um exemplo objetivo: um dia desses, fui fazer um bate-papo em uma escola da periferia do Rio de Janeiro. Chegando lá, as perguntas cotidianas – reforma da Previdência, trabalhista e privatizações. A maioria era absolutamente contra! Mas aí, quando perguntei sobre mandatos de busca coletivos nas residências para que se apure alguma coisa, rachou a plenária. Foi metade contra e metade a favor. Então, esse Estado penal-policial-punitivo está completamente atravessado, na nossa vida, como algo cotidiano. Já estabelecemos culturalmente que a solução para as mazelas existentes, especialmente em relação à violência e segurança, está contida na ampliação do Estado em seu poder de punir. Compreendendo que essa é uma estratégia eficaz para desfocar, inclusive, o que é o problema principal – o desmonte do Estado –, será a agenda tocada. Vamos a mais um elemento bem objetivo: a Operação Lava Jato. OK, a corrupção que ocorreu na Petrobras é inegável. Agora, existe um grande esquema de corrupção nos moldes daquele “desvendado” pela Lava Jato sem que se tenha envolvimento da mídia, do próprio Judiciário e do sistema financeiro? Você consegue fazer a transação e a circulação de grandes valores sem a presença e a participação de bancos? Não consegue! A Lava Jato para por aí. Ela não entra no Poder Judiciário, não entra na mídia – que dá o respaldo às ações do Judiciário como Estado policial – e não entra no sistema financeiro, que é, principalmente, quem lucra com o desmonte do Estado, mas continua numa relação de poder se fortalecendo no topo da pirâmide. O único banqueiro preso na operação foi o André Esteves, apenas porque não teve jeito, já que apareceu na delação do senador [Delcídio do Amaral]. Só que ele rapidamente saiu e ninguém mais discutiu o assunto, nem viu o sistema financeiro pagando o preço teoricamente de estar inserido num grande esquema de corrupção. Isso porque o objetivo real não é a diminuição da corrupção. Se fosse, estaríamos trabalhando a ampliação do controle social, os instrumentos de participação por onde a população pudesse acompanhar as ações do Estado na relação com a iniciativa privada e na captura que a própria iniciativa privada faz dos espaços públicos e do aparato estatal. Na nossa avaliação, aquilo que se chama de “combate à corrupção” serve como cortina de fumaça para o que de fato importa, como dizia o estrategista de Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”. O que, de fato, os preocupa é a implementação do programa econômico.

Ao mesmo tempo em que a Operação Lava Jato é acusada de cometer abusos e ter comandado uma perseguição processual contra o ex-presidente Lula, ela também prendeu Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, desvendou os esquemas de corrupção do Sérgio Cabral e enquadrou os donos da Fetranspor. Levando em conta que a bancada do PSol replica as denúncias do Ministério Público contra o MDB, então, para o partido, a operação não é totalmente descartável, correto?

Na minha avaliação, o que comanda é a política. Você não verá qualquer postagem minha em que eu enalteça a ampliação do poder punitivo ou do Estado de exceção, mesmo quando ela é dirigida aos meus adversários pontuais. Até porque quero fazer uma reflexão crítica do que está por trás da operação. Sérgio Cabral chegou aonde chegou no Rio de Janeiro por que? Fez o que fez por que? Porque ele teve blindagem do próprio Poder Judiciário, não só do Tribunal de Contas, mas da mídia, pois ele tinha um programa de governo que estava em completa sintonia com os interesses da mídia localizada no Rio, com grande poder no Brasil. Fazer uma reflexão crítica sobre isso, na nossa avaliação, é fundamental. Então, temos que ter cuidado. Fazer a disputa política com Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Picciani e cia. é algo que tem que ser feito. Se utilizar disso para enaltecer a ampliação do Estado policial-punitivo, não! Eu sei que a linha é tênue, mas é necessária. Posso até dizer que uma prisão é necessária, mas não devo nunca comemorar uma prisão como um fim em si. Não tenho que comemorar ampliação do Estado de exceção contra ninguém, nem contra os adversários, nem contra meus aliados.

Na sua opinião, qual a principal contribuição que a candidatura do Guilherme Boulos traz para o debate político e econômico brasileiro?

Acho que o Boulos tem uma tarefa fundamental de demonstrar que o Brasil precisa de um projeto político e econômico de enfrentamento, retirando privilégios de quem está no topo da pirâmide para garantir os direitos da maioria social. Então, a gente tem que deixar evidente para a população brasileira que isso não se faz num modelo de conciliação ou de compatibilização de interesses. Não existe aquela história de “todos vamos dar as mãos e todos ficaremos felizes”, seja quem está no topo da pirâmide, seja que está na base. Para você ter a ampliação de direitos para quem está na base, você precisa romper com garantias de privilégios de quem está no topo, e ele tem explicitado na campanha como se faz isso. Desde a instituição da cobrança dos lucros e dividendos à revogação das medidas que estão sendo tocadas pelo governo de Michel Temer. Mas isso se faz “a quente”, não “a frio”. Não adianta imaginar que isso se fará num acordo entre quem está no topo, que naturalmente vai estabelecer que seus privilégios não devem prevalecer mais. E como se faz isso como método? Com mobilização popular permanente. O Boulos traz essa perspectiva de que uma proposta autêntica à esquerda tem que fazer um enfrentamento que seja quente, com mobilização popular permanente, e que não seja a conciliação entre atores com interesses tão antagônicos.

O PSol sempre teve a marca de ser um partido porta-voz dos direitos de minorias, como mulheres, negros, LGBTs e indígenas. Porém, essas bandeiras, da forma como são apresentadas por determinados movimentos identitários, ainda são vistos como muito tangentes à classe média intelectualizada ou ao movimento estudantil. Como ampliar essas pautas para a maioria da população? O Boulos faz essa articulação?

Faz também. Quando você já tem uma candidatura, que é uma aliança entre dois partidos políticos – o PSol e o PCB – e de um movimento que é vivo, que está na luta concreta pelo direito à moradia das pessoas, já estamos procurando fazer a união entre a luta contra as opressões. Ela, na minha avaliação, precisa unir tanto a luta de classes quanto a luta da agenda ou pauta que possa ser considera identitária, que é uma luta por direitos de quem, historicamente, foi excluído ou descriminado. Acho que as duas devem caminhar em conjunto. Temos que fazer essa interlocução, e o Boulos tem conseguido expressar isso de maneira brilhante.

Quando houve, em fevereiro passado, o decreto da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, a maioria da população fluminense foi a favor. Uma política à qual o PSol e a maioria das esquerdas fazem oposição. Falta o debate de um projeto progressista de segurança pública para fazer frente a essa velha política focada na repressão?

Acho que há projetos e propostas consolidadas, e outras em construção. Não tenho dúvida de que, se enfrentarmos esse debate de frente, a gente ganha! Vivemos uma política de hiperencarceramento e da ampliação dos orçamentos para o Estado punitivo, e não temos maior sensação de segurança das pessoas em todas as classes sociais. Pelo contrário, você tem uma ampliação do sentimento de insegurança relacionado à violência. Portanto, repetir a mesma fórmula imaginando que a gente terá um resultado diferente não acontecerá. Então, alguns temas devem ser colocados na mesa. Vou dar alguns exemplos objetivos da intervenção no Rio. Quanto é que custa? De déficit na área de segurança do Rio, estamos falando de R$ 1,5 bilhão. Para levar a intervenção até o final do ano, será R$ 1,6 bilhão. O Governo Federal já liberou uma medida provisória com R$ 1,2 bilhão para ser investido na ofensiva bélica. Bom, se fosse colocado em políticas estruturais para o Rio, esse R$ 1,2 bilhão dava para construirmos mais de 13 mil moradias populares – uma casa popular com infraestrutura básica custa R$ 90 mil –, incidindo diretamente sobre o déficit de moradia no estado e sobre o aumento crescente de pessoas morando nas ruas. Estamos conversando aqui ao lado da Cinelândia. Se caminharmos pela Lapa ou pelo Largo da Carioca, vemos que se amplia o número de pessoas que estão vivendo nas ruas. O último programa estrutural no estado do Rio na área de educação foram os CIEPs na época de Darcy Ribeiro e Brizola. Hoje o estado tem 509 CIEPs. Se pegarmos esses recursos e dividirmos entre eles, estaríamos falando de mais de R$ 2 milhões em cada unidade. Isso modificaria de maneira concreta a realidade da educação do Rio. Isso é muito concreto para as pessoas! É muito palpável, não é só uma política ou discussão abstrata. Mas, além disso, vou dar alguns exemplos de propostas para a área de segurança: o Brasil não tem um Plano Nacional de Redução de Homicídios, que deveria estar sendo tocado e articulado pelo próprio Governo Federal, verificando quais são as áreas onde você tem um número maior de homicídios e trabalhando que políticas públicas sejam instituídas numa redução. Outro exemplo: a lei que trata especificamente dos autos de resistência. Está pronta para ser votada pelo plenário da Câmara dos Deputados. A lei diz, basicamente, que todo homicídio tem que ser investigado. Não pode haver homicídios que são investigados e outros não, inclusive aqueles que tocados por agentes do Estado. Isso é política de segurança pública que incide sobre a espiral da violência, mas a gente não pode também deixa de discutir as unidades prisionais brasileiras. Hoje temos 700 mil pessoas presas nas unidades prisionais brasileira, mas passam pelo sistema, por ano, um milhão de pessoas. Só que só 10% tem acesso a algum tipo de atividade educacional ou laboral. Quando apresentamos para aumentar a quantidade de trabalho das pessoas e dos anos de estudo, vem uma crítica da extrema-direita que é contundente. Temos propostas nesse sentido, e eu tenho, por exemplo, um projeto que trata do Plano Nacional de Educação nas unidades prisionais e uma que trata da ampliação do trabalho e garantia de direitos de quem trabalha nessas unidades, respeitando o que já estabelece a Constituição. Tem que discutir o sistema prisional brasileiro para a diminuição dos índices de violência. E tem mais: não dá para falar da ampliação da política de segurança sem falar no controle de armas de fogo no Brasil. As Forças Armadas, na minha opinião, têm um papel importante na defesa do que seria a soberania nacional e nisso podem ter uma responsabilidade pelo controle de fronteiras. O Rio de Janeiro não tem fábrica de fuzil, mas há muito fuzil circulando pelo estado. Poderíamos ter um maior trabalho, um maior aparato, nas fronteiras do estado do Rio em relação ao armamento que entra aqui e nas outras regiões brasileiras, ampliando, inclusive, o que há de recursos disponibilizados para isso. Só que, diferente disso, o governo Michel Temer diminui de um ano para o outro aquilo que se coloca à disposição para controle de fronteira. Agora, para terminar, falando de mais uma proposta, não dá para falar em redução da violência no Brasil sem falar em política de droga. Avaliar ou estabelecer que uso abusivo de droga é um problema grave, mas de saúde pública. Não pode ser estabelecido como problema de polícia, reativando cada vez com novos elementos a política de “Guerra às drogas”. Exemplos internacionais como Portugal e o Uruguai, a partir das especificidades brasileiras, precisam sim ser trazidos para a realidade nacional por uma nova política de droga, que não trate a reprodução da política de guerra e sim volte mecanismos para o uso abusivo como questão de saúde. Articular esse conjunto de questões, mas fazendo um debate de frente, acho que é fundamental, e a gente consegue ganhar esse debate na sociedade. O que acaba acontecendo é que ficamos em uma posição muito recuada, não é? Sempre que aparece uma posição de aumento de pena, como isso está muito presente no imaginário da população, evitamos de fazer esse debate, mas temos que fazê-lo. Temos que disputar as narrativas e as mentes, mostrando às pessoas que isso pode ter um efeito real na diminuição da sensação de insegurança delas.

Em 2011, a Região Serrana do estado do Rio, incluindo seu município Nova Friburgo, sofreu a maior tragédia natural do país. O senhor foi relator na Câmara dos Deputados do Estatuto de Proteção e Defesa Civil, primeira lei nacional que trata da prevenção a esses desastres climáticos. A austeridade fiscal do governo Temer prejudica as políticas de Defesa civil no Brasi? Em que dimensão?

Claro, em muita coisa. Se você observar o próprio Rio de Janeiro, é algo que já vinha acontecendo e se intensifica. O que eram áreas de acompanhamento da Defesa Civil e programas de Defesa Civil nas comunidades sofrem uma diminuição, e hoje praticamente temos a ausência de uma política pública robusta, inclusive com a instrução ou orientação do que seria uma política de prevenção. Se você pega ano após ano o que foi investido em política de redução de risco e desastre, o ajuste incide diretamente sobre ela. Você tem a PEC do Teto de gastos que faz com que não seja possível ter a multiplicação do orçamento de um ano para o outro. Isso influencia no que vai ser utilizado na saúde, educação e segurança, mas também na política de redução de riscos. Eu queria falar de mais um aspecto porque foi aprovada a Lei nº 12.608, que é o Estatuto de Proteção e Defesa Civil. Foi a primeira lei que trouxe o tema prevenção para dentro da norma e até hoje ela não foi regulamentada pelo Governo Federal em itens que poderiam ter um papel fundamental na redução de desastres climáticos. Por exemplo, a inclusão nos currículos escolares do tema prevenção. Isso foi inserido como uma alteração à Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Assim como o foco em municípios considerados mais vulneráveis para recebimento de recursos, além de várias outras medidas. Infelizmente, não foi regulamentado e tivemos até que buscar uma representação para que o governo respondesse por isso.

O senhor, junto à sua mãe Saudade Braga [ex-prefeita de Nova Friburgo, entre 2001 e 2008], pertencia a um partido tradicionalmente de centro-esquerda, que em muitos estados e municípios está coligado ao PSDB. Em 2015, ingressou no PSol, partido claramente à esquerda do PSB. O mandato na Câmara dos Deputados lhe radicalizou?

Acho que, mais do que o mandato, mudaram as circunstâncias. O PSB não tem uma divisão por correntes, mas eu pertencia ao que era considerado a esquerda do partido, junto a Roberto Amaral e Luíza Erundina. Imaginava que nunca sairia, que poderia ter uma posição minoritária hoje, mas seria majoritária no futuro, e que eu procurava ser disciplinado com aquelas que eram as posições partidárias. Até o momento em que eu achei que o partido acabou como instrumento de transformação da sociedade quando iniciou uma trajetória, por exemplo, apoiou o Aécio no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, além de várias medidas que foram adotadas ao longo do tempo. Mas as circunstâncias mudaram e, a partir de 2015, você teve que se posicionar de maneira objetiva sobre as questão que estavam colocadas sobre a sociedade brasileira. Não tem conciliação ou compatibilização quando o Cunha apresenta uma agenda de redução da maioridade penal, que é ampliação do Estado punitivo. Não tem conciliação ou compatibilização quando você tem que se posicionar em relação a um golpe parlamentar-institucional que é tudo isso que estamos vendo – desmonte do Estado brasileiro em um programa econômico ultraliberal. As circunstâncias se aprofundaram, e se ampliou o Estado de exceção. Eu sou o mesmo Glauber, e as ferramentas que utilizo para que o mandato possa estar se estabelecendo como um mandato de luta existem desde o primeiro momento. Faço audiências públicas de prestação de contas e de articulação popular desde o primeiro mês de mandato quando ainda era recesso parlamentar em 2009, mas agora, no atual momento, elas são ainda mais necessárias pelo quadro que estamos vivendo. Estou muito feliz de estar no PSol, que é um partido vivo, onde você tem discussão política permanente, onde cada militante tem capacidade de intervir diretamente numa realidade congressual e naquilo que será defendido publicamente pelo partido. Estou muito feliz em ter oportunidade de, antes de ser deputado federal, ser um militante, que tem procurado também dar sua contribuição nas políticas que são definidas pelo partido.