Decreto número 4346, de 26 de agosto de 2002. Transgressão número 56: Tomar parte, em área militar ou sob jurisdição militar, em discussão a respeito de assuntos de natureza político-partidária ou religiosa. Transgressão número 57: Manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária. Transgressão número 58: Tomar parte, fardado, em manifestações de natureza político-partidária. Transgressão número 59: Discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares, exceto se devidamente autorizado.

General Eduardo “Atento às missões institucionais” Villas Boas, comandante do Exército Brasileiro, convida pré-candidatos a se reunir com ele, para discutir “temas que, sob a ótica do Exército, consideramos importantes serem discutidos por quem pleiteia dirigir a Nação”, nas palavras do próprio General. Na terça-feira (17) a pré-candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela D’Ávila, aceita o convite e se reune com Villas Boas. A mesma candidata que, um dia depois, denuncia que a prisão de 23 manifestantes de junho de 2013 no Rio de Janeiro “mostra que o Estado de Exceção avança.”

Fernando Haddad (PT), também havia se reunido com o General, em junho. Ironia dupla: Primeiro porque foi representando Lula (aquela figura política cujo julgamento de Habeas-Corpus ameaçou turvar a retina militar, de forma que fosse necessário que Villas Boas reiterasse sua atenção às missões institucionais do Exército); segundo porque o encontro foi arranjado por Fernando Henrique Cardoso – o ex-presidente que, em 26 de agosto de 2002, assinou o decreto 4364.

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Villas Boas reuniu-se também com Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), e Marina Silva (REDE), numa verdadeira sabatina de coturnos.

Chama a atenção não só que candidatos à esquerda sintam-se à vontade para encontrar o General, mas também que tenham por trás de si uma série de apologetas que tentam justificar o encontro. Gilberto Maringoni, ex-candidato do PSOL ao governo de São Paulo, argumenta que “em política séria não existe esse preconceito moral de não converso com fulano ou beltrano. O que importa é o papel do interlocutor, sua legitimidade, a pauta a ser tratada e a publicidade do evento”, elogiando Manuela e Haddad por terem feito “a conversa com o comandante das FFAA às claras, com fotos e relatos.” Ora, uma “comunista séria” ou uma “esquerda séria” também não se dispõe a sabatinas sob coturnos em tempos em que, após um golpe, militares começam a dar claros sinais de seu desejo de tutela, em especial em um País que os anistiou sobre os corpos de guerrilheiros (dos 50 membros do PCdoB que tombaram na Guerrilha do Araguaia, por exemplo). Militares sérios também não desrespeitam decretos. E não há louvor em uma reunião “pública, com fotos e relatos” na qual o conteúdo da conversa não é conhecido.

Outros tentam argumentar que o encontro é um passo importante para a esquerda, que não deu “a atenção devida às relações políticas com as Forças Armadas”, dizendo que “as escolas militares foram entregues à ideologia conservadora mais entreguista e antinacional.” Miguel do Rosário dá tom estratégico a este seu artigo, justificando o encontro com a máxima “sem força não existe poder.” É bom indagar qual é a capacidade dos pré-candidatos de esquerda de, nestas conversas com o General Villas Boas, influenciar as Forças Armadas e combater a “ideologia conservadora entreguista e antinacional.” Por outro lado, indago também qual é a capacidade do General Villas Boas influenciar, restringir e tutelar os programas destes mesmos pré-candidatos. Se a resposta à primeira pergunta for “pouco” ou “nenhuma” e à segunda for “bastante” ou “alguma”, reconhecemos que realmente não há poder sem força – e que ambos, força e poder, nas sabatinas de Villas Boas, são monopólios do General. Por fim, resta questionar qual é o interesse de Villas Boas em “discutir o tema da segurança” com pré-candidatos. Prepará-los para os debates?