Este artigo se baseia na teoria econômica marxista e no estudo macroeconômico de países latino-americanos, combinado com duas experiências primárias diretas:

  • O autor é especialista em economia chinesa, tendo escrito mais de 200 artigos, publicados em inglês, chinês, espanhol, português, francês e russo durante um período de 26 anos.
  • O autor esteve diretamente envolvido em discussões econômicas na Venezuela durante o período de Chávez, inclusive pessoalmente com o presidente Chávez (artigos relacionados a isso em espanhol e inglês podem ser encontrados em http://thevenezuelaneconomy.blogspot.com/).

Contudo, o autor tem conhecimento insuficiente da situação detalhada em todos os países da América Latina, e este artigo não trata diretamente de questões políticas. Portanto, o texto trata apenas de algumas questões econômicas fundamentais que podem ser claramente vistas tanto tendencialmente na América Latina quanto em comparação com os países asiáticos – particularmente a China. Portanto, críticas são muito bem-vindas para discussão na expectativa de aperfeiçoamentos inevitáveis.

A nova onda de lutas sociais na América Latina

Os eventos recentes na América Latina refutam inteiramente a alegação na mídia ocidental de que a direita estava tomando conta de todo o continente. Certamente, a direita na América Latina é fortemente coordenada por forças externas, e a esquerda na América Latina não tem as mesmas vantagens na unificação fácil e coordenada, apesar dos grandes sucessos e conquistas da “maré rosa” no início do século XX. Porém, a realidade é que tanto a direita quanto a esquerda têm raízes sociais muito profundas na América Latina e que haverá um prolongado período de luta entre elas. Para tomar simplesmente alguns eventos-chave recentes.

  • A eleição do novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, popularmente conhecido como AMLO, é um avanço importante para toda a esquerda internacional, especialmente nas Américas.
  • As pesquisas mostram que, no Brasil, Lula venceria as eleições presidenciais – e é por isso que uma política estatal fraudulenta está sendo efetivada para prendê-lo e bani-lo do pleito.
  • Uma nova crise econômica na Argentina obrigou o governo neoliberal a ir à procura do FMI de forma humilhante, sendo desacreditado e lançando uma nova rodada de lutas sociais.

Confrontada com essa situação, a direita latino-americana está cada vez mais usando uma estratégia proposta pelos EUA de “lawfare”, que é o uso de um Judiciário não-eleito – na realidade, controlado pela direita e pelos EUA – para bloquear políticos populares.

O site de notícias Brasil Wire publicou uma excelente descrição da estratégia: “Os EUA lançaram um novo tipo de guerra na América Latina e se chama ‘lawfare ‘: usar o sistema jurídico local para destituir políticos hostis, mas democraticamente eleitos, ignorando a corrupção praticada por seus aliados na extrema-direita da região.

O site destaca o lançamento dessa estratégia para lidar com a “maré cor-de-rosa” de eleições de governos de esquerda na América Latina: “Hillary [Clinton] fez um discurso em 2009 no qual disse que ‘ter uma democracia funcional não basta para a América Latina, e é preciso que apoiar esses países tenham judiciários fortes e independentes’.

Essa estratégia também se baseou na experiência da direita da Itália, onde métodos semelhantes foram empregados ​​uma década antes a fim de instalar governos totalmente corruptos, que encabeçaram privatizações maciças. Há uma ligação direta com a Operação Lava Jato contra a esquerda no Brasil: “Em 2004, Sérgio Moro, o juiz inquisidor da Lava Jato, publicou um artigo chamado ‘Considerações sobre Mani Pulite’, sua tese a respeito da investigação anticorrupção italiana nos anos 90 – feita com a cooperação dos EUA – que dizimou a ordem política do país, em particular a centro-esquerda, e preparou o caminho para o surgimento político de Silvio Berlusconi, o líder mais corrupto de sua história, e uma onda de privatizações do setor público maciço, apelidada de “pilhagem da Itália”. Mani Pulite, seu uso da mídia para estimular a indignação pública e o apoio às condenações serviram de protótipo para a operação de Moro, lançada uma década depois da escrita de seu artigo. Essa nova ordem intensificada de privatizações, começando com um processo de corrupção que causou indignação midiática e a derrubada de governos democraticamente eleitos com programas sociais, apenas para serem substituídos por líderes verdadeiramente corruptos que vendam todos os bens públicos’’

O viés em tais campanhas de direita foi flagrante: “dois dos ex-candidatos à presidência do PSDB, principal oposição conservadora ao PT e há muito tempo amigo dos Estados Unidos, estão implicados em dezenas de milhões de subornos, com provas em áudio e vídeo, e todas os tipos de acusações, possíveis de serem facilmente encontradas na Internet, enquanto o ex-presidente Lula recebeu uma sentença de prisão de 9,5 anos por supostamente receber US$ 200 mil em reformas em um apartamento de luxo que os promotores e juízes não puderam comprovar que ele seja o proprietário. Não há provas. O próprio Lula afirmou recentemente em um discurso: “O mínimo que eles poderiam fazer é me dar a escritura desse lugar”. Por isso, a operação é tão seletiva. Você não vê nenhum político do PSDB preso no Brasil por causa disso…”

“Há um consenso geral entre a maioria do povo brasileiro de que esta é uma caça às bruxas contra Lula. A maioria das pessoas considera que ele é inocente. 96% do povo brasileiro rejeitam o presidente golpista, Michel Temer. Ele tem uma taxa de aprovação de 4%. E eu também diria que a maioria das pessoas, provavelmente acima de 50%, acredita que a Lava Jato é uma caça às bruxas visando o PT, trazendo resultados desastrosos para a economia brasileira”.

O objetivo desse “lawfare” é impedir que os políticos de esquerda concorram a cargos para os quais seriam eleitos, ou tentar impedi-los de fazer campanha política dentro de seus países. Este “direito legal” antidemocrático tem testemunhado:

  • Lula impedido de concorrer à presidência no Brasil, conforme já analisado.
  • Na Argentina, a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner foi acusada de traição, um crime punível com 10 a 25 anos de prisão. O governo de direita, no poder desde 2015, já era impopular antes de assinar um acordo de resgate com o FMI, e espera-se que seu apoio diminua ainda mais. Kirchner seria uma forte candidata às eleições presidenciais do ano que vem. Então o objetivo é impedi-la de concorrer.
  • Em 3 de julho, a Corte Nacional de Justiça do Equador ordenou a prisão preventiva do ex-presidente do país, Rafael Correa, e solicitou que ele fosse extraditado da Bélgica, onde ele está vivendo atualmente.

Confrontada com esse assalto à democracia e ao progresso social, a primeira e incondicional exigência é a solidariedade internacional das forças progressistas em todos os países.

A segunda questão, entretanto, é a preparação das lutas pela análise dos pontos fortes e fracos da anterior “maré rosa” na América Latina – a série de governos de esquerda que foram eleitos em todo o continente a partir de 2000.

Os pontos fortes desses governos progressistas são bem conhecidos. Eles trouxeram uma radical redução na pobreza e da desigualdade e um aumento nos padrões de vida popular. Essa “revolução na distribuição” foi a conquista comum a todos eles e uma tremenda contribuição para o progresso tanto no continente quanto no mundo. Contudo, a análise objetiva mostra que apenas em certos casos isso foi acompanhado por uma “revolução na produção” – isto é, a capacidade de proteger suas economias da desaceleração dos preços internacionais das commodities, que teve início em 2014 como um rescaldo da crise financeira internacional. Portanto, é útil examinar as diferentes experiências e as razões para elas em termos de políticas econômicas. Por sua vez, os principais exemplos econômicos serão analisados.

Sucesso político e sucesso econômico – Bolívia e Nicarágua

A mais combinada experiência de contínuo sucesso econômico e político, ambos articuladamente, aconteceu na Bolívia e na Nicarágua. Nos dois casos, a esquerda reteve o poder político. O registro econômico dos governos progressistas nesses países é mostrado na Figura 1.

  • Na Bolívia, Evo Morales foi eleito presidente em dezembro de 2005 e reeleito para o cargo desde então. A economia boliviana tem crescido anualmente desde que Morales foi eleito, com a expansão total do PIB per capita de 46% até o final de 2017, com uma taxa média anual de crescimento do PIB per capita de 3,2%.
  • Em novembro de 2006, Daniel Ortega foi eleito presidente da Nicarágua e reeleito para o cargo desde então. A economia da Nicarágua cresceu anualmente desde que Ortega foi eleito, com exceção de 2009, quando foi atingida pela crise financeira internacional. A expansão total do PIB per capita até o final de 2017 foi de 38%, com uma taxa média anual de crescimento do PIB per capita de 3%.

Esse crescimento econômico relativamente suave e substancial, é claro, sustenta significativamente e ajuda a explicar o sucesso político dos governos da Bolívia e da Nicarágua.

Figura 1

Se a razão desse impressionante sucesso econômico na Bolívia e na Nicarágua for examinada, seu principal fator macroeconômico é mostrado na Figura 2 – a importância disso se tornará ainda mais clara quando forem analisados ​​casos menos bem-sucedidos.

Deve ser lembrado que o PIB é dividido em duas partes:

  • Insumos na produção, ou seja, investimento – na terminologia marxista, Departamento 1 da economia.
  • Consumo que, por definição, não é um insumo para a produção – Departamento 2 da economia em termos marxistas.

Como “nada pode vir do nada”, apenas insumos na produção podem aumentar a produção econômica. A Figura 2 mostra como uma proporção crescente da economia dedicada ao investimento fixo sustentou o crescimento econômico da Bolívia e da Nicarágua.

  • A porcentagem de investimento fixo no PIB da Bolívia subiu de 14,3% para 20,8%.
  • A porcentagem de investimento fixo no PIB da Nicarágua subiu de 24,9% para 30,1%.

Essa alta e crescente porcentagem de investimento fixo no PIB está alinhada com o padrão, como será mostrado abaixo, das economias socialistas asiáticas bem-sucedidas, como a China.

Para resumir, a Bolívia e a Nicarágua realizaram não apenas uma “revolução na distribuição”, mas também uma “revolução na produção” – aumentos sustentáveis do crescimento econômico, mesmo quando confrontados com tendências negativas, como as consequências da crise financeira internacional e o declínio dos preços das commodities após 2014. Esse é um fator decisivo que sustenta tanto o seu sucesso econômico como o político.

Figura 2

Sucesso econômico, derrota política devido à traição – Equador

O Equador constitui um caso especial na América Latina, em que o revés político veio da traição de dentro do campo da esquerda.

Rafael Correa foi eleito presidente em dezembro de 2006. Ele foi reeleito presidente para três mandatos como presidente até 2017. Seu sucessor, Lenin Moreno, foi o candidato do partido de Correa, Alianza País. Todavia, no cargo, Moreno subordinou o país aos EUA. Para tentar bloquear o apoio de Correa no país, foi emitido um mandado de detenção fraudulento em julho de 2018.

Apesar dos grandes obstáculos econômicos no Equador, que não tem sequer sua própria moeda, mas usa o dólar americano, o grande progresso econômico e social foi feito durante o governo Correa, como claramente resumido pelo Centro de Pesquisa Econômica e Política dos EUA (CEPR).

  • O crescimento anual do PIB per capita durante a última década (2006–16) foi de 1,5%, contra os 0,6% dos 26 anos anteriores.
  • A taxa de pobreza diminuiu em 38%, e a pobreza extrema em 47%. A redução da pobreza foi, muitas vezes, maior que a da década anterior.
  • A desigualdade caiu substancialmente, medida pelo coeficiente de Gini (de 0,55 a 0,47).
  • O governo dobrou os gastos sociais, como porcentagem do PIB, de 4,3% em 2006 para 8,6% em 2016.
  • O investimento público aumentou de 4% do PIB em 2006 para 14,8% em 2013, antes de cair para cerca de 10% do PIB em 2016.

Este aumento na proporção de investimento fixo no PIB no Equador pode ser visto na Figura 2 acima, subindo de 20,9% do PIB no ano anterior à eleição de Correa a um pico de 27,6% do PIB em 2013.

Em 2015-2016, além dos problemas criados pelo aumento da taxa de câmbio do dólar, sem capacidade de desvalorização, o Equador foi atingido por graves desastres naturais, como a erupção do vulcão Cotopaxi e o fenômeno El Nino e, mais substancialmente, o terremoto grave, que matou pelo menos 676 pessoas com mais de 16 mil feridos e que, por si só, teve um impacto negativo de 0,7% sobre o PIB. Isso levou à necessidade, no curto prazo, de se dedicar mais à economia ao consumo, a fim de manter os padrões de vida da população, mas não houve confusão quanto à estratégia fundamental de aumentar o nível de investimento na economia. Essa mudança simplesmente tática foi politicamente bem-sucedida em assegurar a eleição do candidato da Alianza País nas eleições presidenciais de 2017.

No geral, o desenvolvimento no Equador, portanto, foi um sucesso econômico, mas culminou em uma derrota política devido à traição do sucessor de Correa, Lenin Moreno.

A incapacidade econômica de lidar com os efeitos do declínio nos preços das commodities cria um retrocesso político – Brasil e Argentina.

O Brasil e a Argentina foram os dois maiores países da América Latina em que a esquerda chegou ao poder, antes da vitória recente da AMLO no México – sendo respectivamente o maior e o quarto país mais populoso do continente e sua maior e terceira maiores economias.

  • Lula foi eleito presidente do Brasil em outubro de 2002. Ele foi sucedido em 2011 por Dilma Rousseff, que ganhou a reeleição em 2014 até ser destituída do cargo por um golpe de Estado constitucional fraudulento em agosto de 2016 – com Temer se tornando presidente, cuja a taxa de aprovação atual é de 4%.
  • Néstor Kirchner tornou-se presidente da Argentina em maio de 2003. Ele foi sucedido por Cristina Fernández de Kirchner, que permaneceu no cargo até que o direitista Macri fosse eleito presidente em dezembro de 2015.

A dinâmica econômica no Brasil e na Argentina é mostrada na Figura 3

  • No Brasil, sob o governo de esquerda, a economia cresceu de forma estável até 2013. O PIB per capita em 2002-2013 aumentou 33%, uma média anual de 2,6%. No entanto, a partir de 2014-2016, o PIB per capita do Brasil caiu drasticamente em 9%.
  • Na Argentina, o PIB per capita cresceu 58% de 2002 a 2011 – uma média anual de 5,2%. Contudo, após 2011, o crescimento do PIB estagnou e, até 2015, o PIB per capita caiu 3% em comparação a 2011.

Essa tendência econômica negativa nos períodos finais dos governos progressistas no Brasil e na Argentina necessariamente minou seu apoio. Embora tivessem feito uma “revolução na distribuição”, proporcionando um grande progresso para a população de seus países, eles infelizmente não conseguiram fazer uma “revolução na produção” – isto é, a capacidade de desenvolver uma política econômica capaz de continuar com um crescimento substancial diante de dificuldades econômicas, como as consequências da crise financeira internacional ou a queda dos preços das commodities.

Figura 3

As principais dificuldades políticas enfrentadas por esses governos – por exemplo, no Brasil, o PT não possuía maioria na legislatura, e os anos 90 haviam testemunhado muitos aspectos do neoliberalismo institucionalizados no Banco Central e em outros órgãos. Circunstâncias econômicas negativas também foram herdadas pelo governo brasileiro em taxas de juros excepcionalmente altas e uma taxa de câmbio sobrevalorizada. Entretanto, confrontada com dificuldades objetivas tão fortes e em comparação a exemplos positivos na América Latina e à experiência da China, parece que havia uma perspectiva insuficientemente clara na direção macroeconômica estratégica que teve consequências negativas quando o período de altos preços das commodities chegou ao fim.

Voltando à explicação da diferença entre os governos de esquerda que alcançaram sucesso econômico e político e Brasil e Argentina, isso pode ser visto claramente comparando a Figura 4 abaixo com a Figura 2 acima.

  • No Brasil, o percentual de investimento fixo no PIB aumentou significativamente de 2003 a 2013 – de 16,6% do PIB em 2003 para 20,9% do PIB em 2013. No entanto, a partir de 2014, ele caiu, caindo para 16,4% do PIB até 2016.
  • Na Argentina, o aumento do investimento fixo foi menor do que no Brasil – de 15,1% do PIB em 2002 para 19,5% do PIB em 2007, antes de cair para 15,8% do PIB em 2015.

Portanto, enquanto na Bolívia e na Nicarágua, e durante a maior parte do período do governo progressista no Equador, a porcentagem de investimento fixo no PIB aumentou continuamente, sustentando o sucesso econômico, nenhuma escala comparável de aumento ocorreu no Brasil e na Argentina. Isso significava que a Argentina e o Brasil não eram tão capazes de resistir às tendências econômicas negativas desencadeadas pelas consequências da crise financeira internacional e da queda nos preços das commodities.

Figura 4

Um caso especial Venezuela – a esquerda no poder político, mas problemas na economia

A Venezuela constitui um caso especial na América Latina. Chávez foi eleito presidente em 1998 e assumiu o cargo em fevereiro de 1999. Inicialmente, enfrentou forte oposição do controle capitalista da estatal petrolífera PDVSA, o recurso econômico predominantemente dominante na Venezuela, o que criou grandes dificuldades econômicas. Porém, a revolta popular de abril de 2002 para derrotar a tentativa de golpe anti-Chávez, ao destruir o controle capitalista do exército, transferiu o centro do poder estatal para as mãos da classe trabalhadora. A classe trabalhadora manteve o poder do Estado na Venezuela até o presente – uma grande vitória. Em dezembro de 2002 a 2003, Chávez derrotou a greve administrativa na PDVSA – garantiu assim, pela primeira vez, o controle firme da instituição econômica mais importante do país.

Essas vitórias foram seguidas por uma rápida expansão econômica na Venezuela. Entre 2003 e 2008, o PIB per capita aumentou 52% – uma média anual de 8,7%. Apesar de um revés econômico moderado em 2008-2010, devido ao impacto da crise financeira internacional, a recuperação ocorreu e, em 2013, o PIB per capita da Venezuela ainda estava 50% acima do nível de 2003 – um aumento médio anual durante o período de 4,1%. Chávez morreu em março de 2013 e foi sucedido por Nicolás Maduro, que permanece presidente até o presente.

A partir de 2013, no entanto, a economia da Venezuela sofreu uma forte contração, principalmente com a queda do preço do petróleo e com a queda na produção dessa commodity. Até 2017, o PIB per capita da Venezuela ficou 39% abaixo do nível de 2013 e 8% abaixo do nível de 2003. Essa contração econômica, cujas consequências sociais foram bastante exageradas na mídia ocidental, não impediu a retenção do poder pela classe trabalhadora, com Maduro assegurando sua reeleição em 2018. Contudo, sem dúvida, reduziu o apoio ao governo, com a votação de Maduro caindo 1,3 milhões entre 2013 e 2018. A situação econômica na Venezuela foi identificada pelo presidente como uma questão-chave a ser abordada. Essas dinâmicas econômicas gerais são mostradas na Figura 5.

Figura 5

Ao analisar essas tendências na Venezuela, percebemos que elas são muito afetadas pelo preço do petróleo – conforme mostrado na Figura 6. As principais variáveis macroeconômicas venezuelanas, investimento fixo e poupança, são mostradas na Figura 7.

Durante a maior parte do período da presidência de Chávez, a Venezuela foi sustentada pelo aumento acentuado do preço do petróleo, que subiu de US$ 12,2 em 1 de fevereiro de 1999, a data de posse de Chávez, para a alta histórica de US$ 145,3 em 3 de julho de 2008. Houve uma queda severa no final de 2008 e 2009, devido à crise financeira internacional, mas, em 29 de abril de 2011 o preço do petróleo havia se recuperado para US$ 113,9. Era de US$ 105,7 em julho de 2014. Depois disso, em linha com os preços de outras commodities, o preço do petróleo caiu drasticamente, atingindo o mínimo de US$ 26,2 em 11 de fevereiro de 2016, recuperando-se para mais de US$ 70 em julho de 2018. Figura 6

Figura 6

Os resultados do elevado preço do petróleo durante a maior parte do período anterior a 2014 criaram um nível muito alto de poupança total na Venezuela – a poupança total é igual à poupança das empresas, poupança por indivíduos e poupança do governo. Essa cotação muito alta do petróleo criou uma economia muito alta – a economia total na economia venezuelana atingiu 42% do PIB em 2007.

Como o investimento é financiado pela poupança, esse alto nível de poupança teria permitido um aumento muito grande do investimento fixo na Venezuela, do tipo visto na Bolívia, Nicarágua ou Equador – ou do tipo visto na China, conforme analisado abaixo. Porém, embora os investimentos fixos na Venezuela tenham se recuperado do nível extremamente baixo de 2003, nunca chegaram ao patamar de 1998. Ou seja, a Venezuela não estava transformando suas economias em investimento fixo – como em Bolívia, Nicarágua, Equador ou China. Essas tendências são mostradas na Figura 7 – os dados em uma forma comparável internacionalmente só estão disponíveis até 2013.

Sem um alto nível de investimento, o crescimento econômico da Venezuela não poderia ser sustentado diante da desaceleração dos preços internacionais das commodities após 2014, e, ainda mais diretamente, sem um alto nível de investimento, a taxa de produção de petróleo não poderia ser mantida.

Portanto, a Venezuela não seguiu o caminho econômico bem-sucedido da Bolívia, Nicarágua e Equador. Esse fracasso econômico, como já foi observado, teve um efeito negativo sobre a situação governamental, apesar do grande sucesso político geral na retenção do poder do Estado.

Figura 7

China

Finalmente, além de observar as lições positivas da América Latina, vale a pena fazer uma comparação dessas experiências na América Latina com a bem-sucedida economia socialista na China, já que a experiência e o progresso chineses ainda são consideravelmente subestimados em partes da América Latina.

Nos quase 40 anos desde o início da reforma econômica da China, a economia chinesa cresceu a cada ano, sem exceção. Seu aumento médio anual do PIB per capita aumentou 8,4% ao ano durante o período de 39 anos de 1978 a 2017. A China não sofreu após a crise financeira internacional iniciada em 2008.

Como resultado desse crescimento, a China mudou de uma situação em que, em 1980, todos os países da América Latina tinham um PIB per capita superior ao seu, para a situação de 2017, em que tinha um PIB per capita mais alto que de todos os países da América Latina, exceto o Panamá. Chile, Uruguai, Argentina, México e Costa Rica. A China superou o Brasil em 2016. Até 2023, nas projeções do FMI, o PIB per capita da China também ultrapassará o México e a Costa Rica.

Traduzindo isso em termos da porcentagem da população da América Latina, como mostra a Figura 8:

  • Em 1980, 100% da população da América Latina vivia em países com um PIB per capita superior ao da China.
  • Em 2017, apenas 23% da população da América Latina vivia em países com um PIB per capita mais alto do que a China e 77% viviam em países com um PIB per capita menor do que a China.
  • Até 2023, nas projeções do FMI, apenas 7% da população da América Latina viverá em países com um PIB per capita mais alto do que a China e 93% viverão em países com um PIB per capita menor do que a China.

Figura 8

Para entender a escala dessa transformação, todavia, deve-se entender que a China é muito maior do que a América Latina – a população chinesa da China, de 1,4 bilhão, é mais do que o dobro da do continente latino-americano.

A Figura 9, portanto, analisa a população combinada da China e da América Latina e observa a porcentagem dessa população combinada com PIBs per capita acima e abaixo da China – isto é, em certo sentido, trata a China como se fosse um país latino-americano para fins de comparação. Isso mostra que, em 1997, todos os países da América Latina e, portanto, 100% da população da América Latina, viviam em países com um PIB per capita mais alto do que a China. Porém, como já observado, até 2017 apenas 23% da população da América Latina vivia em países com PIB per capita mais alto do que a China e 77% viviam em países com PIB per capita menor, enquanto em 2023, nas projeções do FMI, apenas 7% da população da América Latina viverá em países com um PIB per capita mais alto que o chinês e 93% viverão em países com um PIB per capita menor. Como resultado desse desenvolvimento, a China alcançou o mais rápido aumento nos padrões de vida de qualquer país importante.

Figura 9

Em suma, devido à sua política econômica, a China se transformou de um país mais pobre do que qualquer outro na América Latina para um com um PIB per capita mais alto do que todos, exceto os muito ricos países latino-americanos. Em particular, superou o Brasil em PIB per capita.

O que explica então esse extraordinário desenvolvimento econômico na China e como ele se inter-relaciona com as lições da América Latina? A Figura 10 mostra a semelhança do desenvolvimento macroeconômico da China com os governos de esquerda mais bem-sucedidos economicamente na América Latina – Bolívia, Nicarágua e Equador. Isso mostra que o crescimento da China, como o deles, foi sustentado por um aumento considerável no investimento fixo. O contraste com o erro em não aumentar o investimento fixo de forma sustentada no Brasil, na Argentina e na Venezuela é claro.

Figura 10

Conclusão

As lições do avanço da esquerda na América Latina a partir de 2000, durante a “onda rosa”, foi uma das mais inspiradoras e progressistas da história da humanidade. As vidas de muitos milhões de pessoas foram melhoradas.

É também um mito completo, espalhado pela direita, que a direita varreu o continente. Pelo contrário, o sucesso contínuo em vários governos latino-americanos, a nova vitória da esquerda no México, as contínuas lutas no Brasil e na Argentina e em outros lugares mostram que a esquerda, assim como a direita, tem profundas raízes sociais na América Latina. O fato de que a direita na América Latina tem que recorrer à “lei” é precisamente porque acredita que, se um processo democrático pudesse se desdobrar, a esquerda venceria.

Ao mesmo tempo, para enfrentar a nova rodada de lutas, é necessário extrair lições, tanto positivas quanto negativas, da onda anterior de lutas na América Latina. Uma parte fundamental disso é extrair as lições econômicas. Estudar os exemplos de sucesso na América Latina e na economia socialista da China é crucial para isso.

* John Ross é “Senior Fellow” do Instituto para Estudos Financeiros Chongyang, da Universidade de Renmin da China. Ele publica suas opiniões no website “Learning from China”. Este artigo representa sua análise pessoal, o que não implica o endosso pelo Instituto Chongyang.