Ex-prefeito da cidade de São Paulo, o petista Fernando Haddad converteu-se neste ano em coordenador do programa do partido para a Presidência. Caso o tempo conforme o óbvio – isto é, que Lula será barrado de concorrer as eleições – Haddad é também um dos principais nomes cotados para substituí-lo nas urnas. Assim, apesar de ter amargado uma dura e humilhante derrota ao disputar o primeiro turno pela prefeitura de São Paulo com o farsante João Dória, em 2016, Haddad é, por méritos ou falta deles, uma figura relevante.

Talvez por isso tantos tenham reagido com espanto às entrevistas que o ex-prefeito tem dado. Ao Valor Econômico, prometeu que o programa do PT trará “radicalidade liberal”, com dois “choques liberais.” À Folha disse que “o nosso ponto de vista é liberal”, criticando a “elite atrasada” e reafirmando seu desejo de “conversar com a elite que tem essa visão de futuro.”

As manchetes sobre os “choques liberais” escandalizam por si só. Ocorre que as propostas de Haddad não são, por definição, liberais: os “choques”, segundo o ex-prefeito, são uma regulamentação dos meios de comunicação “que aumente o pluralismo e a diversidade”, e a aplicação de “um sistema de prêmios e punições” para o sistema financeiro, que dê vantagens tributárias a bancos que se adequarem às regras definidas, que definirão tributos altos para spreads* bancários altos e tributos mais baixos para spreads baixos.

Aqui nasce, para o presente autor, uma tarefa árdua. Os desatentos podem considerar que pretendo defender Haddad de suas próprias palavras; os ainda mais desatentos podem considerar que o que planejo é denunciar uma “mentira” proferida por um “estatista”, em defesa do “verdadeiro liberalismo.” Trata-se somente de dar um passo à frente. A pergunta que deve ser feita é a seguinte: se as medidas prometidas por Haddad não são liberais, porque o coordenador petista insiste em chamá-las assim?

Haddad não incorporou o liberalismo ao programa petista; ao contrário, enunciou o que, desde a formação do PT, é a matriz intelectual e ideológica do partido. Isto é: o que deve chamar nossa atenção em suas entrevistas não está no campo da economia, mas no campo ideológico.

A maior parte dos intelectuais que formaram o PT (ou ao menos os da linha majoritária), na década de 80, não se pretendiam “radicais de esquerda”, mas se entendiam como os “verdadeiros liberais.” Essa visão, como demonstrarei à frente, é fruto de uma leitura perversa de nosso País, que engloba: 1 – A incompreensão do imperialismo; 2 – O esquecimento da “classe” como fator determinante para a compreensão dos conflitos; 3 – A confiança nas elites e, em última instância, o desejo de pactuar com elas.

Homem liberal: Prisioneiro das equações

Diz Haddad à Folha:

“Eu já vi elogios de empresários ao Bolsonaro. Em que mundo essas pessoas estão vivendo? Que uma parcela da sociedade, desinformada, possa se sentir seduzida por um discurso fácil e tosco… Mas capitão da indústria fazer isso? É muito surpreendente.”

É o ápice da teoria do “homem cordial”, “prisioneiro das emoções”: é natural que o povo seja enganado por Bolsonaro, mas surpreendente que empresários o apoiem. Haddad faz assim uma separação clara entre o povo e a elite – mas, na sua concepção, o povo é naturalmente atrasado, e é surpreendente que as elites não sejam a ponta de lança do futuro. A história é desenhada por Haddad não como produto dos conflitos de classe, mas como o conflito entre o passado, o atrasado, o vulgar – permitido e natural ao povo – e o futuro, o progresso, o inteligente – que para o ex-prefeito deveria ser defendido pela vanguarda natural do futuro; a elite econômica do País. Ignora-se assim que esta mesma elite se beneficie do atraso do Brasil, sendo a mediadora interna do centro capitalista.

Fora do reino fantasioso de Haddad, as coisas são bem diferentes. É natural que parte da elite seja favorável a uma candidatura como a de Bolsonaro, por ver em sua disposição à dureza na política uma fórmula para conter os ânimos revoltosos que nascerão em resposta às medidas liberais na economia (também defendidas por Bolsonaro). Não foi o acaso que levou setores da burguesia italiana a apoiar o fascismo: foi a necessidade de fazer frente e conter um crescente movimento revolucionário. Como escrevi em “Não deixar a chispa se apagar“, em maio de 2017; “Dado o esfacelamento vindouro deste governo, restará como aposta somente três fichas: a da farsa estética, a de um grande pacto, ou a da força. Nenhuma delas interessa aos brasileiros, é claro, mas é nosso dever estabelecer qual delas interessará às classes dominantes.” Não há nada de “surpreendente” em setores dessa classe apostarem na farsa da força.

Assim, Haddad compreende que o fato de algo tido como “natural” nos EUA ou Inglaterra, como a regulamentação da imprensa ou algum controle sobre os spreads, não ser defendido pelas elites no Brasil é uma questão de “atraso” das elites brasileiras (em contraponto à iluminada elite norte-americana, por exemplo). Na realidade, é justamente por forçar medidas neoliberais no Terceiro Mundo que o Primeiro Mundo pode e precisa de impor alguma regulamentação interna.

Tomemos outro exemplo: os EUA têm mais de 800 bases militares espalhadas pelo mundo, mas não há nenhuma base militar (ao menos não similar) de outro país dentro dos Estados Unidos. Na concepção de Haddad, isso se deve provavelmente a uma falta de esclarecimento de todos os países do mundo. No mundo real, é justamente por ter centenas de bases mundo a fora que os EUA não tem nenhuma em suas terras.

Revela-se aqui, primeiro, o entendimento do brasileiro (incluindo as elites) como nativamente atrasado, frente aos naturalmente iluminados do Primeiro Mundo; e, segundo, a incompreensão do imperialismo como um sistema global, no qual certos países se beneficiam da imposição, a outros países, de medidas que nunca tomariam em próprio solo.

De mãos dadas à cidade dos pés juntos

As declarações de Haddad – que, rememoro o leitor, coordena o programa do PT – revelam outro aspecto da ideologia petista formulada pelos teóricos de 1968: o abandono da classe como chave central para compreender o mundo. Sob sua concepção, o conflito não ocorre entre os interesses de uma classe contra a outra, mas entre o “progresso” e o “atraso.”

À elite econômica, assim, cabe a tutelar os trabalhadores e os rumos do País – a infelicidade de Haddad é que esta mesma elite não seja tão “esclarecida” quanto ele, quando na realidade é mais esclarecida, e precisamente por isso é atrasada – porque seus interesses dependem do atraso do País. A solução? Compor com a “elite esclarecida.” Vemos aqui a reedição do pacto de classes: ricos e pobres de mãos dadas; aos primeiros o mundo, aos últimos a cidade dos pés juntos.

Diz Haddad:

“Há setores modernos. Mas a elite é majoritariamente atrasada […] Queremos conversar com a elite que tem essa visão de futuro.”

Façamos de novo a transferência desse tipo de ideologia para o campo internacional: o Primeiro Mundo é o progresso, o Terceiro o atraso; é possível ter uma política “amiga” com todos os países do mundo. Assim surge a cisão que diferencia Fernando Henrique Cardoso e os intelectuais petistas: o primeiro defende o subdesenvolvimento como característica quase natural ao nosso País, algo que não deve ser combatido mas, ao invés disso, aproveitado. Negando a necessidade de uma política de enfrentamento com o imperialismo e o subdesenvolvimento, Fernando Henrique advoga que o Brasil colha microbenefícios da relação de exploração. Assim chamou a “dependência associada.” Os intelectuais petistas, igualmente, entendem o subdesenvolvimento como algo natural; mas advogam pela “tomada de consciência” de nossa elite para que se torne “esclarecida” como a do Primeiro Mundo. Ou seja: as elites não são “atrasadas” porque há uma situação concreta da qual se beneficiam ao assim se comportarem, mas o contrário: há uma situação concreta (de subdesenvolvimento) porque as elites são atrasadas. Assim chamo o “idealismo vulgar.”

Voltemos aos exemplos práticos: Em 1862 o presidente norte-americano Abraham Lincoln sancionou a primeira lei de reforma agrária do País (Homestead Act), reforma nunca realizada no Brasil. Em 1964, após propor a Reforma Agrária no Brasil, João Goulart foi derrubado por um golpe militar que teve apoio direto dos EUA, que 100 anos antes promovia sua própria reforma. FHC entende que a posição do Brasil deva ser subdesenvolvida; que não devemos promover uma reforma agrária justamente para poder colher benefícios dos EUA. Haddad acredita que a falta de uma reforma agrária no Brasil se deva ao “atraso” da nossa elite – ignorando que os yankees esclarecidos tenham barrado-a.

A diferença entre Haddad e FHC? Ao menos o último consegue explicar a razão do golpe de 1964. Para Haddad, de tão periféricos e atrasados, provavelmente nossa elite ordenou a Operação Brother Sam (se ainda fosse o povo… ele entenderia).

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*Spread, em termos simplificados, é a diferença entre a taxa de juros cobrada aos tomadores de crédito e a taxa de juros paga aos depositantes pelos bancos.