Ucrânia: cientista de 84 anos condenado a 12 anos de prisão

Salvação nacional ou espetáculo fascista? Cientista aposentado nega acusações de serviço de segurança ucraniano e ativistas denunciam "prisão política". Conspiração envolveria até mesmo deputados alemães.

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Foto de audiência reproduzida em diversos meios, fonte não identificada.

Em 2017, “marines” em uniforme militar do serviço de segurança ucraniano, SBU, prenderam em Kharkiv um cientista de 84 anos por “alta traição”. Mehdi Feofanovich Logunov foi acusado de visar, para fins de espionagem, o Instituto de Física e Tecnologia de Kharkiv, onde experimentos nucleares são conduzidos. A acusação cresceu e de espião o cientista foi “promovido” para chefe separatista. No dia 31 de Julho foi condenado a 12 anos de prisão.

“Ele coletava dados de despejos e armazenamentos radioativos. Logunov transferia para a Federação Russa informação sobre instalações militares e uma série de armas, bem como dados pessoais de militares e cidadãos de mentalidade patriota de Kharkiv. Além disso, ele se encontrou com um dos desenvolvedores de uma nova tecnologia de blindagem”, dizia inicialmente a acusação do SBU.

No momento de sua prisão, foi questionada a falta de evidências e a não apresentação de outros membros da suposta rede de espionagem que ele tinha sobre seu comando. O SBU deveria apresentar provas durante o processo, enquanto isso solicitaram que o pensionista permanecesse preso. A prisão foi questionada como irregular e Logunov declarou em tribunal que não estava recebendo atenção médica de que necessita – os remédios estavam sendo enviados por familiares para ser tomados por conta própria.

Foto Polit Navigator

O advogado Dmitry Tikhonenkov em sua petição de uma medida restritiva mais leve se referiu a precedentes de Kharkov e da Corte Europeia de Direitos Humanos. O Antifashist denunciou a prisão e relatou o processo.

Em Novembro de 2014, Logunov foi contratado como diretor técnico da empresa GRIMI (alemã-eslovaca), servindo como um consultor para a criação de uma fábrica em Belgorod, oblast russa na margem direita do Donets, que faz fronteira com a Ucrânia. Os acusadores usaram este trabalho como demonstração de que Logunov seria um agente de inteligência – seu computador foi apreendido e cópias de passaportes de pessoas que ele indicaria para trabalhar na fábrica foram usados como provas de uma rede de agentes para espionagem.

Com o final do processo, a acusação ampliou a “rede de espiões” para 25 pessoas cumprindo as mais diversas funções, inclusive de combate e seguindo “conspirações separatistas” – mais do que um grupo de espionagem, seria uma “gangue terrorista”. Sua principal função não era mais coletar informações, mas a de criar uma nova república separatista.

Na descrição do SBU de uma vitória contra o “agressor russo”, Logunov pretendia criar uma República Popular de Kharkov e contava com auxilio de até mesmo deputados do Bundenstag alemão.

Não é a primeira vez que o SBU descobre – ou forja – esse tipo de caso. Recentemente houve o caso do jornalista Ruslan Kotsaba, que sofreu as mesmas acusações. Com a guerra no leste, a pressão política na capital e o fracasso da última onda de mobilização, a caça por “inimigos do Estado” parece ter aumentado.

O serviço de segurança descreve uma conspiração muito abrangente, que chega até mesmo ao campo da propaganda. Logunov estaria por trás da tradução de cartas para o alemão que fundamentam “declarações pro-russas” feitas por políticos no parlamento alemão. A rede ucraniana TSN exibiu uma reportagem onde uma mulher de rosto coberto diz que teria sido “constrangida” pelo cientista a trabalhar como tradutora e o “método” que ele utilizou foi mostrar vídeos de pessoas brutalizadas por bombardeios ucranianos no leste do país.

Apesar dos “agentes alemães” não terem sido nomeados, uma deputada do partido de esquerda Die Linke, Sarah Wagenkneht, foi nomeada como uma das “propagandistas”. Filha de um iraniano com uma alemã, a deputada é uma economista notória por sua posição mais radical, comunista. Logunov teria se encontrado com esses agentes em uma reunião nos alpes europeus.

No plano militar, o SBU alega que havia um grupo especial de combate e que apreenderam lança-granadas RPG-22, granadas e TNT. Diferente da prática comum entre os ucranianos, o serviço no entanto não exibiu as armas e os agentes capturados.

Um ativista anti-Maidan de Kharkov, Alexander Alexandrov, declarou que se realmente tivessem pego um grupo de espiões e sabotadores, eles seriam exibidos.

“Quando falam em armas eu já fico cheio de dúvidas. Até pessoas ordinárias são detidas, bem como presos políticos. Quem nas atuais condições vai armazenar armas? Só aqueles que as vendem e tem a certeza das costas quentes”, explicou Alexandrov para o portal Argumenti i Fakti (“Fatos e Argumentos”, AFI). “Estes são, mais provavelmente, ex voluntários da Operação Anti-Terrorista”, se referindo a ATO, operação do governo ucraniano contra os governos separatistas. “O SBU cultiva eles e depois eventualmente fecha o arsenal inteiro”.

Aqui as acusações também adquirem proporções hollywoodianas: os HDs do computador do cientista mostram seu interesse por física nuclear e, segundo um agente do SBU em camuflagem na tela da TSN, “separatistas sempre estão interessados em lixo radioativo para criar uma ‘bomba suja'”.

A prisão em 2017 foi exibida como um troféu pelo SBU, com direito a declaração pública de seu chefe, Vasily Gritsak e que reforça um clima de caça às bruxas contra “agentes russos” (e onde opiniões políticas ou a adoção de certos símbolos culturais são tratadas como evidências circunstanciais).

Irina Logunova, 59, filha do acusado, também narrou a invasão das tropas do SBU a sua casa para o “Svobodaya Pressa” (“Imprensa Livre”, sem relação com o partido neonazista ucraniano), conforme reproduzido pelo Antifashist.

“Ás sete da manhã quatro pessoas mascaradas com metralhadoras invadiram minha casa”, disse Logunova que vive sozinha e foi colocada de rosto virado no chão com uma arma apontada nas costas. “Depois chegaram mais quatro investigadores e testemunhas”, que foi quando iniciou a busca na casa de Irina, que chegou a durar dez horas. Não foram apresentados documentos de mandato judicial.

Na busca foram encontradas fitas de São Jorge (símbolo da vitória soviética sobre os nazistas utilizado pelos russos) e adesivos do ano de 2014 relacionados a manifestações em defesa da estátua de Lênin em Kharkov. Jovens rapazes vizinhos de Irina e que a ajudam com as funções domésticas também foram detidos.

O testemunho destes jovens foi fundamental no caso da promotoria contra Logunov e os livrou de toda responsabilidade criminal. A ameaça de prisão teria sido complementada, segundo Irina, por ameaças físicas e psicológicas. Segundo o testemunho, Medhi Feofanovich teria realmente recrutado esses jovens para “atividades de reconhecimento e sabotagem”. Foram detidos novamente três dias depois da primeira detenção, tendo se dirigido ao prédio do SBU sob o pretexto de recuperar seus telefones celulares, onde então foram orientados a assinar o testemunho se “não quisessem ir para o porão”.

“Esses jovens pegavam trabalho temporário onde dava, como muitos hoje… e papai realmente prometeu que iria ajudar um deles com emprego. Ele constantemente tinha ideias, invenções, planos, então tinha fotocópias dos passaportes dos dois”. Pelo menos 25 pessoas foram detidas simplesmente por ser comunicar com Logunov.

Inventor com mais de uma dúzia de patentes e reconhecido na cidade há décadas, Logunov se recusou a aceitar um trato com os serviços de segurança onde ele testemunharia contra a Federação Russa, recusando a possibilidade de mitigar a punição admitindo as acusações. “Eu entendo que não serei capaz de sair vivo da prisão, mas eu não vou vender a minha consciência”, declarou o homem de 84 anos rejeitando categoricamente todas acusações feitas pelo SBU.

Jornais e portais inclinados pela condenação do aposentado não trazem detalhes sobre o caso mas enfatizam a origem abkhazia de Logunov, sua “fascinação” pela independência desse país (com apoio russo, contra a Geórgia) e de que manteria “atividades políticas anti-ucranianas”, o que neste caso significa oposição aos rumos do país após o Maidan.

Atualmente, somente jornalistas ucranianos leais ao governo possuem acesso ao condenado, que se resigna em negar as acusações e faz afirmações como “provelmente o GRU [serviço de inteligência militar russo] está rindo de todos vocês”.

A filha, no entanto, diz que o pai é apolítico, “contra todos” e mais interessado em suas ideias e invenções de engenharia, já que tem muitos trabalhos sem publicar e patentes ainda por registrar. Na mesma declaração ao AFI, Irina explicou que o pai trabalhava muito duro no negócio que envolvia “alemães, austríacos e eslovacos”. Também falou um pouco da história familiar: o pai de Mehdi era russo e foi funcionário do partido comunista em Sukhumi, porém foi fuzilado durante expurgos enquanto sua esposa passou sete anos em um campo de trabalho correcional (do sistema Gulag).

Publicações céticas e ativistas denunciam a sentença como uma pena de morte, marcada por motivações políticas e produto de uma provocação do serviço de segurança. Segundo as críticas, a prisão não passaria de mais um espetáculo repressivo para aterrorizar a oposição e fazer agitação anti-russa, com a vítima servindo de bode expiatório devido suas opiniões.

Habitantes da cidade e região se mobilizam para apoiar Mehdi e coletar dinheiro para sua defesa.

O ativista de Kharkov mais vocal na defesa do pensionista é Spartak Golovachev, que passou ele mesmo preso durante dois anos e meio, porém se encontra em liberdade sob fiança. Ele denunciou o isolamento inicial a qual o SBU submeteu Logunov para exercer pressão psíquica e “possivelmente física”.

Foto Polit Navigator

Por outro lado, apesar da história dificilmente convencer até apoiadores do Maidan (muito menos cidadãos de outras posições políticas), jornalistas alarmistas como Andrei Tsaplienko se esforçam para demonizar o “Professor Moriarty”. Tsaplienko é notório pela agitação anti-russa e por noticiar conspirações tramadas do outro lado da fronteira – inclusive acusou o “dedo moscovita” no massacre promovido por neofascistas anti-russos no Prédio dos Sindicatos de Odessa em maio de 2014.

O SBU nos últimos anos tem uma postura militante notória com a retórica anti-russa e ameaças contra a oposição nos últimos, acompanhando a onda ultra-nacionalista que varre a política ucraniana. Em 2016, a Revista Opera publicou um artigo tratando sobre a presença do ultra-nacionalismo e do neofascismo nessa instituição, quando um dos seus chefes fez uma declaração pública ameaçando opositores. Implicado em ameaças, torturas e sequestros, em 2017 o SBU extorquia famílias de pessoas presas para poder trocá-las por prisioneiros ucranianos das repúblicas separatistas do leste do país.

O SBU de Kharkov já foi acusado de tortura antes, como no caso do Padre Vladimir, ativista separatista que chegou a sofrer danos no cérebro.