O artigo que segue foi publicado em 1981 no jornal “El País” por Gabriel García Márquez, na coluna “Memórias de Jornalista.” A tradução é de Pedro Marin.

Uma de minhas melhores lembranças como jornalista é a forma como o Governo revolucionário de Cuba se inteirou, com vários meses de antecipação, sobre como e onde se preparavam as tropas que iriam desembarcar na Baía dos Porcos. A primeira notícia foi conhecida no escritório central do Prensa Latina, em Havana, onde eu trabalhava em dezembro de 1960, e se deveu a uma casualidade quase inverossímil. Jorge Ricardo Masetti, o diretor-geral, cuja obsessão dominante era fazer da Prensa Latina uma agência melhor que todas as demais, tanto capitalistas quanto comunistas, havia instalado uma sala especial de teletipos somente para captar e posteriormente analisar em reunião de redação o material diário dos serviços de jornalismo do mundo inteiro. Dedicava muitas horas ao escrutínio dos larguíssimos boletins de notícia que se acumulavam sem parar em sua mesa de trabalho, avaliava a torrente de informação tantas vezes repetida por tantos critérios e interesses contrapostos nos despachos das distintas agências de notícia e, por fim, os comparava aos nossos próprios serviços. Uma noite, nunca se soube como, encontrou um boletim que não era de notícias, e sim do tráfico comercial da Tropical Cable, filial da All American Cable na Guatemala. Em meio às mensagens pessoais, havia uma muito grande e densa, escrita de maneira criptografada. Rodolfo Walsh, que além de ser um jornalista muito bom havia publicado vários livros de contos policiais excelentes, se empenhou em decifrar aquela mensagem com a ajuda de alguns manuais de criptografia que comprou em algum sebo de Havana. Conseguiu decifrá-la após muitas noites insones, e o que encontrou ali não só foi emocionante como notícia, mas também um informe providencial para o Governo revolucionário. A mensagem foi dirigida a Washington por um funcionário da CIA que trabalhava junto ao pessoal da Embaixada dos Estados Unidos na Guatemala, e era um informe minucioso dos preparativos de um desembarque armado em Cuba por parte do governo norte-americano. Se revelava, inclusive, o lugar onde se iam preparar os recrutas: a fazenda de Retalhuleu, um antigo cafezal no norte da Guatemala.

Ideia magistral

Um homem com o temperamento de Masetti não poderia dormir tranquilo sem investigar mais sobre aquela descoberta acidental. Como revolucionário e como jornalista congênito, se empenhou a infiltrar um enviado especial na fazenda de Retalhuleu. Durante muitas noites em claro, enquanto nos reuníamos em seu escritório, tive a impressão de que ele não pensava em outra coisa. Por fim, e talvez quando menos se pensava, concebeu a ideia magistral. A concebeu prontamente, vendo Rodolfo Walsh, que se aproximava através do corredor estreito dos escritórios com a sua caminhada um pouco dura e seus passos curtos e rápidos. Tinha seus olhos claros e risonhos atrás dos vidros de míope com armações grossas de casco de tartaruga, uma calvície incipiente com fios flutuantes e pálidos, e sua pele era dura e com velhas rachaduras solares, como a pele de um caçador em repouso. Naquela noite, como quase sempre em Havana, usava uma calça de pano muito escuro e uma camisa branca, sem gravata, com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Masetti me perguntou: “De que tem cara o Rodolfo?”. Não tive que pensar a resposta porque era demasiado evidente. “De pastor protestante”, respondi. Masetti replicou radiante: “Exato, mas de pastor protestante que vende bíblias na Guatemala”. Havia chegado, por fim, ao final de suas intensas elocubrações dos últimos dias.

Rodolfo Walsh

Como descendente de irlandeses, Rodolfo Walsh era um bilíngue perfeito. De modo que o plano de Masetti tinha muitas poucas possibilidades de fracassar. Se tratava de Rodolfo Walsh viajar no dia seguinte ao Panamá, e desde ali passar para a Nicarágua e Guatemala com um terno negro e uma camisa com a gola branca virada, predicando os desastres do apocalipse que conhecia de memória e vendendo bíblias de porta em porta, até encontrar o lugar exato do campo de instrução. Se conseguisse a confiança de um recruta, poderia escrever uma reportagem excepcional. Todo o plano fracassou, porque Rodolfo Walsh foi detido no Panamá por um erro de informação do Governo panamenho. Sua identidade ficou tão conhecida que ele não se atreveu a insistir em sua farsa de vendedor de bíblias.

Masetti não renunciou nunca da ideia de que as agências ianques tinham correspondentes próprios na fazenda Retalhuleu, enquanto a Prensa Latina tinha de se conformar com seguir decifrando as mensagens secretas. Pouco antes do desembarque, ele e eu viajávamos a Lima, desde México, e tivemos de fazer uma escala imprevista para mudar de avião na Guatemala. No sufocante e sujo aeroporto de Aurora, tomando cerveja gelada debaixo dos oxidados ventiladores de pás daqueles tempos, atormentado pelo zumbido das moscas e dos eflúvios de fritura das cozinhas, Masetti não teve um instante de sossego. Estava empenhado a alugar um carro, escapar do aeroporto e ir escrever a grande reportagem sobre Retalhuleu. Naquela altura já o conhecia o bastante para saber que era um homem de aspirações brilhantes e impulsos audaciosos, mas que, ao mesmo tempo, era sensível à crítica razoável. Naquela vez, como em algumas outras, consegui dissuadir-lo: “Está bem, che”, me disse, convencido à força. “Você já me ferrou com o seu senso comum.” E logo, respirando pela ferida, me disse pela milésima vez: “Você é um liberalzinho tranquilo.”

Em todo caso, como o avião demorava, lhe propus uma aventura de consolo que ele aceitou encantado. Escrevemos a quatro mãos um relato pormenorizado com base nas tantas verdades que conhecíamos graças às mensagens cifradas, mas fazendo parecer que era uma informação obtida por nós sobre o terreno, durante uma viagem clandestina pelo país. Masetti escrevia morrendo de rir, enriquecendo a realidade com detalhes fantásticos que ia inventando no calor da escrita. Um soldado índio, descalço e magro, mas com um capacete alemão e um fuzil da guerra mundial, acenava ao lado da caixa de correio, sem tirar o olhar abismal de nós. Mais a frente, em um parquezinho de palmeiras tristes, havia um fotógrafo de câmera de gaveta e pano negro, daqueles que tiravam retratos instantâneos com uma paisagem idílica de lagos e cisnes no pano de fundo. Quando terminamos de escrever a história, adicionamos algumas diatribes pessoais que vieram da alma, assinamos com nossos nomes reais e nossos títulos de imprensa, e depois tiramos algumas fotos de depoimentos, mas não com o fundo de cisnes, mas em frente ao vulcão acezante e inconfundível que dominou o horizonte ao pôr do sol. Uma cópia dessa foto existe: está em posse da viúva de Masetti em Havana. Por fim, metemos os papéis e a foto em um envelope dirigido ao senhor general Miguel Ydígoras Fuentes, presidente da República da Guatemala, e em uma fração de segundo, quando o soldado de plantão se permitiu ser vencido pela sonolência do cochilo, jogamos a carta na caixa de correio. Alguém havia dito publicamente nesses dias que o general Ydígoras Fuentes era um ancião inútil, e ele foi à televisão vestido de atleta aos 69 anos, izera rondas no bar, levantava pesos e até revelava algumas façanhas íntimas de sua masculinidade para mostrar aos seus espectadores que ele ainda era um militar. Em nossa carta, é claro, não faltaram parabéns especiais pelo ridículo.

Masetti estava radiante. Eu estava menos, e cada vez menos, porque o ar se saturava de um vapor úmido e gelado e nuvens noturnas começaram a se concentrar sobre o vulcão. Então me perguntei, espantado, o que seria de nós se caísse uma tormenta imprevista e se cancelava o vôo até o dia seguinte, e o general Ydígoras Fuentes recebia a carta com nossos retratos antes que tivéssemos deixado a Guatemala. Masetti se indignou com minha imaginação diabólica. Mas duas horas depois, voando até o Panamá, e a salvo dos riscos daquela travessura pueril, acabou admitindo que nós, liberalzinhos tranquilos, às vezes tínhamos uma vida mais longa, porque tomávamos em conta os fenômenos menos previsíveis da natureza. Ao cabo de vinte e um anos, a única coisa que me inquieta daquele dia inesquecível é não ter sabido nunca se o general Ydígoras Fuentes recebeu nossa carta no dia seguinte, como havíamos previsto durante o êxtase metafísico.