A dinastia Alckmin: a herança da ditadura militar

por Norberto Liberator | Revista Opera

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(Foto: Edu Parez)

Parte I – Quem é quem no clã Alckmin

Não é raro que Geraldo Alckmin diga que “não é fruto de dinastia política” e que “nasceu do povo”. A afirmação, no entanto, não poderia ser mais falsa. A história da família Alkmin ou Alckmin (a grafia varia, mas é o mesmo sobrenome) como uma poderosa oligarquia vem de longa data e começa com o folclórico político mineiro José Maria Alkmin, filho de um proprietário de terras de origem árabe, que decidiu fazer da política seu novo negócio após a decadência de seu pai.

Agregado ao clã Kubitschek (casou-se com Maria Kubitschek da Fonseca), aproximou-se de Juscelino, de quem foi secretário de Finanças no governo de Minas e, mais tarde, ministro da Fazenda no governo federal. No entanto, traiu o antigo amigo e apoiou o golpe de 1964, que veio a cassar JK e seus aliados políticos. Assim, tornou-se vice-presidente da República no governo do marechal golpista Humberto Castello Branco.

Seus sobrinhos paulistas eram membros influentes do partido de extrema-direita UDN (União Democrática Nacional), que “denunciava” uma suposta “infiltração comunista” no Brasil. André Alckmin foi duas vezes vereador em Guaratinguetá pela legenda, e Geraldo José Alckmin era um conhecido militante do mesmo partido, embora nunca tenha se candidatado a cargos públicos.

Após o fim do mandato de Castello Branco, Alkmin emendou várias candidaturas ao Congresso pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partido pró-regime militar. Não satisfeito individualmente com a carreira política, também usou de sua influência para que o general Emílio Garrastazu Médici, o mais sanguinário dos ditadores militares do Brasil, nomeasse outro sobrinho, José Geraldo Rodrigues de Alckmin como ministro do STF em 1972.

O filho de José Geraldo é Eduardo Rangel Alckmin, um influente jurista e proprietário da Alckmin Advogados, com sede em Brasília. Foi ministro do TSE entre 1996 e 2001. É herdeiro do capital jurídico do pai e seu escritório cobra altas quantias por serviço, o que em si não é algo imoral, mas contraria totalmente as afirmações de Geraldo quanto a não pertencer a uma oligarquia.

Parte II – Geraldinho

Nascido em Pindamonhangaba em 1952, o sobrinho de José Geraldo leva o nome do pai, Geraldo José. Geraldinho, como é chamado carinhosamente, dividiu os estudos em Medicina com seu primeiro mandato como vereador, com apenas 19 anos, em cuja eleição obteve recorde de votos. Algo estranho para alguém que, segundo ele, não tinha influência política.

Ainda foi eleito presidente da Câmara municipal e, em 1976, prefeito da cidade. Empossado, nomeou como chefe de gabinete ninguém menos que Geraldo José Alckmin, seu próprio pai. Em 1982, aos 30 anos, é eleito deputado estadual e, quatro anos depois, federal. Todas essas candidaturas foram pelo MDB. “Ter um Alckmin no MDB era um trunfo”, disse à Folha seu padrinho político Paulo de Andrade.

Apesar da filiação ao MDB, Geraldo não escondia seu apreço pelos generais-presidentes. Em carta ao tirano Médici, em 1973, ele afirma que “justa seria a providência do 3º Governo Revolucionário em favor dos funcionários civis e militares de todo o Brasil, nos âmbitos federal, estadual e municipal, em mais um ato do ínclito Presidente Médici, que tem se mostrado sensível aos problemas sociais, trabalhistas e previdenciários dos que trabalham para a grandeza do Brasil”.

A dinastia prosseguiu. Myriam Alckmin, sobrinha do candidato tucano à Presidência, foi vereadora e vice-prefeita de Pindamonhangaba (gestão de João Ribeiro). Derrotada na disputa pela prefeitura da cidade em 2016, volta a concorrer às eleições em 2018, como deputada estadual.

Parte III – Misticismo e Opus Dei

Vira e mexe, fala-se da relação de Alckmin com a seita católica de extrema-direita Opus Dei. É sabido que ele já abriu as portas do Palácio dos Bandeirantes para palestras da organização e tem em Carlos Alberto Di Franco, membro oficial da mesma, um de seus conselheiros. Mas a ligação é ainda mais profunda do que se pode pensar.

A família Alckmin é profundamente ligada à Opus Dei, cuja fundação se deu pelo fascista espanhol José Maria Escrivá, o qual era um notório apoiador do ditador Francisco Franco. Escrivá ganhou de Geraldo uma homenagem com o batismo de uma rua em Pindamonhangaba, durante seu mandato como prefeito. “Caminho”, de autoria do religioso europeu, é o livro de cabeceira de Alckmin. O ensinamento “acostuma-te a dizer que não” é um dos favoritos do governador licenciado.

Sua prima Maria Lúcia Alckmin é numerária (nomenclatura dada a filiados) da seita, que exige, entre outras coisas, o celibato e a autoflagelação. Além dos numerários, há os supernumerários, membros não-oficiais que têm como meta divulgar e colocar em prática os ideais da Opus Dei. O primeiro supernumerário do Brasil foi justamente o ministro José Geraldo Alckmin. Apesar disso, “Geraldinho” nunca se declarou como supernumerário publicamente, mas todos os indícios apontam para isso.

Maria é constantemente procurada pelos familiares para dar conselhos em suas vidas. Há rumores, não confirmados, de que Geraldo Alckmin usou de sua influência na ordem para interceder junto ao Vaticano, para que anulassem o primeiro casamento de sua esposa Lúcia. Em entrevista à Revista Época, o ex-numerário José Geraldo Alckmin, que é primo do tucano, afirmou que Lu “descobriu que o antigo marido vivia em uma comunidade hippie” e por isso o abandonou. “Foi aí que entrou o Opus Dei”, disse em entrevista.