O que segue é a quarta parte da série de artigos “Carta no Coturno.” A leitura dos artigos anteriores é recomendada: primeira parte, segunda parte, terceira parte.


Quinta-feira, 18 de outubro de 2018. A jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo, publica no site do jornal uma matéria informando que a campanha de Jair Bolsonaro tem sido beneficiada por empresários que compram pacotes de disparo de mensagens no WhatsApp para atacar o seu oponente, Fernando Haddad. O esquema, que contou com contratos de até R$ 12 milhões de reais, constitui crime por duas razões: primeiro porque as doações, não tendo sido contabilizadas pela campanha, são caixa dois. Segundo porque os bancos de dados que teriam sido utilizados não eram da campanha, mas sim das empresas contratadas – o que também é crime eleitoral.

Em seu Twitter, Jair Bolsonaro rebate a reportagem: “Apoio voluntário é algo que o PT desconhece e não aceita.” Ao acusar o PT de “não conhecer apoio voluntário”, Bolsonaro reconhece que o dito “apoio”, afinal, de fato ocorreu? E se tal “apoio” foi “voluntário”, porque não foi divulgado nas contas da candidatura? Talvez por ser absolutamente ilegal?

Essas perguntas poderiam ser feitas por jornalistas, por exemplo. Mas grandes veículos de comunicação do País simplesmente se calaram frente à reportagem da Folha, muitos deles se alinhando abertamente a Bolsonaro, ao tratar o caso como uma mera acusação do PT.

É evidente que o escândalo não levará a uma impugnação da chapa, tendo em conta que, como temos reiterado nos últimos três anos, a institucionalidade está corrompida – fato que o Partido dos Trabalhadores, apesar dos gritos de “fraude” que fazem ecoar desde a prisão de Lula, não leva a sério. Na reorganização do poder que se concretizou por fim em 2016, tudo o que não interessar aos que moveram as peças contra a Dilma será barrado, de uma maneira ou de outra; pela diplomacia ou pela força.

Mas seria a impugnação da chapa o único efeito possível da denúncia feita em 18 de outubro?

Pensemos com clareza: um capitão, um tanto paspalho e politicamente inapto, consegue angariar apoio em amplos setores da sociedade brasileira. Nos Estados Unidos, em 3 de agosto deste ano, seu filho Eduardo se encontra com Steve Bannon, antigo estrategista-chefe do presidente norte-americano Donald Trump, e afirma: “Sr. Bannon afirmou ser um entusiasta da campanha de Jair Bolsonaro e certamente estamos em contato para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural.” Posteriormente, em entrevista à revista Época, declara que “Bannon se colocou à disposição para ajudar. Isso, obviamente, não inclui nada de financeiro. A gente deixou isso bem claro, tanto eu quanto ele. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas.” O “Sr. Bannon” por sua vez declara em entrevista à Bloomberg, em 11 de outubro, que sua fundação, chamada “The Movement”, “não é só sobre a União Europeia. Ela é global em sua natureza”, e emenda: “Eu vejo o que está acontecendo no Brasil como parte desse movimento populista.” O que interessa não é compreender que Bannon auxilia a campanha de Bolsonaro, como seu filho já havia declarado em agosto – o que devemos compreender é que, se esse auxílio é real, ele é alinhado aos interesses externos norte-americanos. O que é reforçado por notícia deste 20 de outubro, que informa que o deputado republicano Dana Rohrabacher enviou uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, “pedindo ajuda do governo dos EUA para assegurar que as eleições no Brasil sejam livres e seguras.” Na carta, Rohrabacher declara que recebeu relatórios que dizem que “grupos e países, incluindo a Venezuela, o Irã e o Hezbollah, podem estar influenciando as eleições no Brasil”, e cita o atentado a faca sofrido por Bolsonaro.

Além de Bannon, a campanha de Bolsonaro firmou, como a Folha demonstra em outra reportagem, o apoio da maior parte dos 17 generais quatro-estrelas do Brasil, movimento possibilitado pelo lobby dos generais Augusto Heleno e Oswaldo Ferreira, que compunham o núcleo do programa de governo do capitão desde setembro de 2017, e em especial pelo apontamento de Hamilton Mourão como seu vice, neste ano. O que disseram os citados três generais a seus colegas, para “vencer a resistência” contra Bolsonaro entre o alto-escalão?

A cassação de chapa, hoje, pode não ser desejável aos generais, empresários, ruralistas e oligarcas da mídia que compõem as bases de Bolsonaro. Hoje. O escândalo do mentiroduto de Bolsonaro cria uma situação em que, caso seja eleito, a partir de 1 de janeiro poderá ser continuamente pressionado com a ameaça de investigação, no mínimo, ou derrubado por um impeachment, no máximo. Quem assume?