No dia 4 de dezembro de 1969, o líder dos Panteras Negras de Illinois, Fred Hampton, e Mark Clark, membro do partido à época com 22 anos, foram brutalmente assassinados na residência de Hampton pela polícia de Chicago em uma operação conjunta com o FBI. A operação foi realizada através do sombrio COINTELPRO, um programa de contrainteligência criada por J. Edgar Hoover, cuja “expertise” operacional incluía todo tipo de ilegalidades possíveis e imagináveis, para contornar os “empecilhos” legais impostos pela justiça americana.

Clandestinidade, infiltração em movimentos pacifistas, roubos, escutas telefônicas, invasão domiciliar, violência e assassinatos foram algumas de suas ferramentas abrutalhadas mais usuais.

A ignomínia operação foi orquestrada pelo escritório do Procurador do Estado do Condado de Cook, Edward Hanrahan, que havia sido criticado pelo jovem líder dos Panteras a respeito de sua fala reacionária de “guerra contra as gangues”, que na concepção de Hampton era um retórica clara para deflagrar uma “guerra contra a juventude negra”.

Até então era o que se sabia sobre o infame assassinato patrocinado pelo Estado norte-americano contra o pujante líder social.

Porém, em outubro último, uma nova, lamentável e surpreendente página sobre o cavernoso homicídio de Hampton foi descortinada. Eclodiu como agulha no palheiro, durante a abertura de 19.045 mil documentos adicionais, liberados pela administração Trump em 26 de abril, dos arquivos sobre o assassinato ex-presidente John F. Kennedy.

O embaraçoso tsunami imoral, revelado, recaí sobre os ombros do co-fundador da Anistia Internacional – laureada com o Nobel da Paz em 1977 – e criador do World Habeas Corpus, Luis Kutner, falecido em março de 1993, que teria atuado em conluio com o FBI, e colaborado de forma decisiva como informante no caso do assassinato de Hampton.

Corpo de Fred Hampton é velado, em 1969.

Vale lembrar que Kutner era um notório e célebre ativista e advogado de Direitos Humanos, um dos mais relevantes do século passado, tendo atuado ativamente em casos ilustres; Dalai Lama, no Tibet, József Mindszenty, Ezra Pound, Moise Tshomb, o que acentua e muito os contornos dramáticos do nebuloso caso envolvendo o co-fundador da Anistia Internacional e coloca em xeque a organização de Direitos Humanos que ele próprio havia criado 8 anos antes de colaborar com o FBI no caso Fred Hampton.

As informações contidas na página de número 191 do arquivo em questão trazem a estarrecedora perfídia de Luis Kutner em uma sinistra linha temporal no desenrolar dos fatos. Basicamente Kutner assistiu a um dos últimos discursos de Fred Hampton, em 23 de novembro de 1969, duas semanas antes de seu assassinato, dando ao FBI detalhes sobre o evento.

De maneira que em 1 de dezembro Kutner relatou Hampton ao FBI; e em 4 de dezembro – apenas 3 dias após ser “dedurado” – o proeminente líder dos Panteras foi covardemente assassinado a tiros, pelas mão do Estado, aos 21 anos. Hampton se encontrava deitado em sua cama, com sua noiva grávida ao lado, que foi poupada. Ao menos 90 disparos foram realizados pela polícia contra os Panteras, que por sua vez só realizaram um disparo.

Segundo consta no documento, Kutner queria encontrar uma maneira legal para barrar o partido dos Panteras Negras. Kutner relatou ao FBI que Hampton se apresentava como “ministro da defesa” dos Panteras e que havia declarado que os Panteras Negras eram um partido revolucionário, que tinham armas para serem usadas “pacificamente” e para autodefesa.

Reportou ainda que o líder dos Panteras Negras considerava que Nixon era um traidor da nação e representante do establishment capitalista e “precisava morrer”; talvez essa “ameaça” tenha sido o pretexto perfeito para a decisão de executar Hampton.

O co-fundador da Anistia Internacional informou também ao FBI que “oradores como o líder do Panteras Negras”, eram “psicóticos” e “apenas quando defrontados com ações judiciais” paravam de “vociferar e delirar”. De acordo com o documento, Kutner tinha um interesse pessoal pelo Partido dos Panteras Negras, e planejava abrir uma ação legal para silenciá-lo.

A grande mídia internacional praticamente se calou diante desse nefasto caso, um escândalo em verdade. Talvez muito por conta de poupar a ilibada imagem da Anistia Internacional e da persona de Luis Kutner, que não poderia se defender. A rede estatal russa RT foi uma das raras exceções e deu atenção especial ao caso.

Anistia Internacional em xeque

O advogado britânico Peter Benenson, idealizador e fundador da Anistia Internacional, ficou seis anos à frente da organização, sendo considerado uma personalidade audaciosa, inovadora e eventualmente imprudente, colocando a Anistia Internacional em situações embaraçosas e de descrédito. A Anistia foi acusada de ser financiada pelo governo Britânico.

Ao deixar o cargo de presidente em 1967, ele admitiu que seu escritório estava infiltrado pelo serviço secreto e que a Anistia recebeu dinheiro do governo britânico – a Anistia negou veementemente conhecimento desse fato.

Na juventude, Benenson foi um ex-oficial da inteligência britânica e trabalhou para o Ministério da Informação em seu país.

É evidente que o trabalho humanitário inquestionável de organizações pró direitos humanos como a Anistia Internacional é louvável, mas o caso Kutner não foi ato isolado no que tange a própria Anistia Internacional. Aparentemente a colaboração com serviços secretos foi uma vergonhosa prática perpetrada por dois de seus líderes fundadores.

*Observação: a redação entrou em contato com o escritório da Anistia Internacional no Brasil, pedindo um posicionamento oficial da organização sobre o caso, mas até o momento da publicação dessa matéria nenhuma resposta foi dada.