Assassinando o mensageiro: o crescimento das mortes de jornalistas por conta de sua profissão

por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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No começo de outubro, Viktoria Marinova, de 30 anos, foi encontrada morta em um parque, às margens do rio Danúbio, em Ruse, uma cidade no norte do país da Bulgária. Segundo o Ministério do Interior do país do Leste Europeu, o corpo de Marinova apresentava sinais de violação sexual e estrangulamento. A jovem levou pancadas na cabeça e depois estuprada[1].

Viktoria Marinova era jornalista. Não era correspondente de guerra, mas responsável administrativa e apresentadora da TVN Ruse, uma emissora televisiva regional[2]. E o assassinato dela aconteceu dias após entrevistar dois outros jornalistas investigativos, o búlgaro Dimitar Stoyanov e o romeno Attila Biro, que estavam apurando um suposto escândalo de corrupção envolvendo desvio de fundos da União Europeia com implicações no governo búlgaro.

A morte causou uma verdadeira comoção no país e alimentou pressões internacionais em defesa de uma investigação transparente do caso. Flores, velas e fotografias em memória de Marinova encheram o Monumento da Liberdade em Ruse. A Comissão Europeia e o governo alemão cobraram uma resposta do governo búlgaro, e a vice-presidente da comissão, Frans Timmermans, declarou: “Mais uma vez uma jornalista corajosa cai na luta pela verdade e contra a corrupção. Os responsáveis devem ser imediatamente entregues à Justiça pelas autoridades búlgaras”[3].

Marinova se soma a mais dois jornalistas europeus assassinados em período de menos de um ano. Em fevereiro deste ano, o repórter eslovaco Ján Kuciak foi morto a tiros com a sua noiva e, em outubro do ano passado, já tinha sido assassinada a jornalista investigativa maltesa Daphne Caruana Galizia por um atentado a carro-bomba, enquanto investigava a corrupção envolvendo a elite política de Malta e o caso Panama Papers. A morte de Marinova alterou a tendência, novamente, para o aumento do risco de se ser jornalista em território europeu e no resto do mundo[4].

A norma de assassinar o mensageiro

As circunstâncias da morte de Marinova continuam obscuras, porém os temores de que a morte esteja ligada ao seu trabalho ressaltam uma das realidades sombrias do jornalismo recentemente: enquanto os repórteres mortos em zonas de guerra ficam gravados na memória coletiva, outros jornalistas são assassinados em seus próprios países por seus trabalhos expondo a corrupção e a repressão de governos[5].

De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, dos 1.322 jornalistas cujas mortes estão ligadas à sua profissão desde 1992, 848 foram assassinados, enquanto 298 foram mortos em fogo cruzado[6]. É mais raro que jornalistas sejam assassinados na União Europeia, mas Marinova foi o terceiro caso no ano passado.

De acordo com a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), houve 82 jornalistas mortos em 2017 – o menor número de mortes em uma década, segundo a organização –, porém as flutuações anuais refletem os conflitos temporais[7]. Os números haviam disparado no início até meados da década de 90, quando houve guerras civis na Argélia, na antiga Iugoslávia e em Ruanda, mas os analistas dizem que o número mais baixo do ano passado não é necessariamente motivo de alívio, já que houve uma mudança nas razões pelas quais os jornalistas morreram.

O Brasil é sétimo país do mundo em número de jornalistas assassinados, segundo o levantamento Tendências mundiais em liberdade de expressão e desenvolvimento de mídia, da Unesco[8]. Já a ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras aponta o Brasil como o segundo país da América Latina com o maior número de jornalistas mortos entre 2010 e 2017[9]. Durante esse período, foram 26 repórteres mortos por conta de sua profissão, e o país está apenas atrás do México no continente.

Além dos crimes de assassinato, também há a preocupação com o número de ameaças e intimidação contra profissionais de imprensa. Só em 2017 foram 99 casos pelo país, e a violência colocou o Brasil na 102ª posição entre 180 países do ranking mundial que avalia a liberdade de imprensa. A Repórteres Sem Fronteiras considera que os principais motivos para a baixa posição do Brasil são a concentração da propriedade dos meios de comunicação e a falta de amparo público aos profissionais.

Liberdade de imprensa sob ameaça global

O caso de Marinova na Bulgária também se soma à brutal morte do jornalista saudita e colunista do Washington Post, Jamal Khashoggi, que desapareceu dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul. Segundo autoridades turcas, o corpo de Khashoggi foi esquartejado e dissolvido em uma substância química. Os criminosos formavam um comando de aproximadamente 15 agentes enviados por Riad, e o príncipe-herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, é apontado pelo governo turco como o mandante do crime[10].

Segundo o vice-diretor executivo do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Rob Mahoney, o assassinato bárbaro de Marinova e Khashoggi são evidências da deterioração da atmosfera política para o jornalismo no mundo. “Mesmo aqui nos Estados Unidos, vemos um forte sentimento anti-imprensa vindo diretamente do topo. Os líderes de todo o mundo que estão felizes em fechar o espaço para uma imprensa livre se apegaram à retórica de Trump de ‘fake news’ para encerrar as histórias de que não gostam”, disse ele.

De acordo com Mahoney, em cada 10 casos, nove dos que ordenam o assassinato de jornalistas conseguem escapar em liberdade. O vice-diretor destaca que, desde que Caruana Galizia foi morta, houve pouco progresso na investigação: “Isso envia um sinal muito forte para as pessoas de que esse é um trabalho perigoso, e você pode não estar protegido”.

Mahoney também ressalta que os assassinatos de jornalistas ocidentais investigando corrupção, como na Bulgária, Malta e Eslováquia, são parte de um quadro maior: “Às vezes, são presos o pistoleiro, mas o que observamos é a completa impunidade de como o verdadeiro assassino, a pessoa que ordenou a morte, não vai parar na Justiça”.

Uma pesquisa da Transparência Internacional mostrou uma forte correlação entre a corrupção em um determinado país e o risco para os jornalistas que lá trabalham. A partir dos dados do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, eles descobriram ainda que, desde 2012, nove entre 10 jornalistas assassinados foram mortos em países considerados altamente corruptos[11].

O Índice de Percepção da Corrupção considera a Bulgária como o membro mais corrupto da União Europeia, enquanto o Repórteres sem Fronteiras classifica o país em 111º lugar em um ranking de 180 em seu índice anual de liberdade de imprensa mundial[12]. Quando a Bulgária aderiu à União Europeia em 2007, ficou em 51º lugar em 169 no índice[13]. A União Europeia submeteu a Bulgária e a Romênia a um acompanhamento especial para monitoramento da corrupção e do crime organizado.

Marinova era o apresentadora do programa de televisão “Detector”, que havia sido relançado recentemente. Durante sua aparição final no programa em 30 de setembro, Marinova fez um alerta que se tornaria sua mensagem derradeira: “O número de assuntos proibidos [na Bulgária] está crescendo o tempo todo. Os jornalistas investigativos estão sendo sistematicamente removidos”[14].

Fontes:

[1] – http://g1.globo.com/globo-news/videos/v/jornalista-viktoria-marinova-foi-estuprada-e-morta-na-bulgaria-apos-investigar-corrupcao/7074759/

[2] – https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,jornalista-e-encontrada-morta-na-bulgaria-e-causa-indignacao-na-europa,70002540046

[3] – https://www.theguardian.com/world/2018/oct/08/european-commission-bulgaria-to-find-journalist-viktoria-marinova-killers

[4] – https://ionline.sapo.pt/629679

[5] – https://foreignpolicy.com/2018/10/10/corruption-when-killing-the-messenger-becomes-the-norm-bulgaria-journalist-viktoria-marinova/

[6] – https://bit.ly/2wdtJz4

[7] – https://www.bbc.com/news/world-43961380

[8] – https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1930121-brasil-e-o-setimo-pais-do-mundo-em-numero-de-jornalistas-assassinados.shtml

[9] – https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/04/brasil-e-segundo-pais-da-america-latina-com-mais-jornalistas-mortos-diz-ong.shtml

[10] – https://veja.abril.com.br/mundo/corpo-de-jornalista-saudita-foi-desmembrado-e-dissolvido-diz-jornal/

[11] – https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2017

[12] – https://rsf.org/en/ranking

[13] – https://rsf.org/en/worldwide-press-freedom-index-2007

[14] – https://www.occrp.org/en/daily/8711-bulgarian-journalist-viktoria-marinova-violently-murdered