Bolsonaro: farsa nacionalista e ufanismo de quinta categoria para gringo ver

por Estevam Vieira | Revista Opera

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Presidente Jair Bolsonaro e o vice-presidente Hamilton Mourão exibem uma bandeira nacional durante discurso no parlatório do Palácio do Planalto. (Foto: Marcello Camargo/Agência Brasil)

Cerca de 12 mil militares de várias forças armadas presentes, arame farpado com lâminas espalhadas por toda a Praça dos Três Poderes, mais de quatro barreiras de revistas, lançadores antiaéreos portáteis (feitos para abater aviões), doze lançadores de mísseis suecos RBS-70 e o russo IGLA-S, autorização para a FAB abater qualquer aeronave suspeita, 20 caças F3 e A29 Super-Tucano, centenas de agentes disfarçados na multidão, além de equipes de guerra-eletrônica (monitoramento de frequências de rádio, câmeras de segurança, monitoramento de internet) e franco-atiradores espalhados em vários pontos da Esplanada dos Ministérios. A posse presidencial de Bolsonaro ficou marcada por ser a que reuniu o maior esquema de segurança já visto em toda a história brasileira. A justificativa para isso? A segurança do presidente, uma vez que ele já sofreu um “atentado” (sobre o qual cada vez mais pairam dúvidas), prevenção a grupos terroristas (no Brasil de hoje não há nenhuma força política à esquerda com potencial de luta armada ou algo próximo disso) e “ameaças” de trolls na internet.

Sabemos que tudo isto é mentira. O rito de Estado que marca a posse de novos governos não tem outra intenção senão ostentar um exagerado “requinte”, uma visão de “estabilidade” (que no fundo está longe de existir) e um “esplendor” artificial, dessa vez sob o viés de uma parafernália militarista, que significa apenas a mais pura demonstração de força perante aos inimigos do novo governo. No nível doméstico, um recado para a esquerda, para os movimentos sociais, para a oposição e para os militantes populares. No nível externo, um recado claro para o governo de Nicolás Maduro, num óbvio tom de intimidação, inflando a moral das forças armadas (leia-se a vaidade do Alto Comando), exibindo suas novas e modernas armas, tanques, caças e tecnologias várias, criando uma atmosfera militarizante e belicista na região, de alinhamento com os demais líderes direitistas presentes (Netanyahu, Viktor Órban), mas principalmente os estadunidenses e os vizinhos golpistas latino-americanos. De quebra, um grande espetáculo para as massas atrasadas ali presentes, hipnotizadas por tanques de guerra, fardas e continências. Não havia ali o menor traço de cultura popular, apenas um grande show ufanista ao gosto da Rede Globo.

Como um autêntico governo bonapartista, cuja marca principal é o aprofundamento da militarização (33 anos após a ditadura, novamente a caserna volta ao centro do poder), o rito militarizante da posse talvez já aponte em seu horizonte a criação de uma grande campanha ufanista e militar no futuro, um governo que, no primeiro sinal de crise, dedicará seus esforços para militarização e rearmamento, criando uma grande ofensiva contra os movimentos sindicais, populares, camponeses e estudantis, pela via da judicialização e militarização (e para tanto se coloca Sérgio Moro na frente do “superministério” de Justiça) e posteriormente embarcando de cabeça numa possível aventura militar contra a Venezuela.

O discurso demagogo de Bolsonaro foi marcado pela repetição de pontos que já vinham sendo ditos por muito tempo: de violenta fala de “libertação do socialismo” e o obsessivo “combate ideológico” contra a esquerda e os partidos, a um falso “combate a corrupção”, passando pela “valorização da família”, o reforço dos valores judaicos-cristãos junto ao Estado, jogando pros ares definitivamente o lendário princípio de laicidade, ameaça aos direitos humanos quando da citação de um combate feroz à “ideologia de gênero” e aos “inimigos da pátria.” Reafirmou também o que ele chama de “retaguarda jurídica” para a livre ação dos policiais (permissão para matar), aceno para as forças armadas que agora terão papel de protagonismo. Na economia falou em basear sua condução nos princípios do livre-mercado e no rompimento com o “gigantismo estatal”, em reforma financeira (veremos a PEC de desvinculação do orçamento da União) e na política externa, a abertura de mercado para o comércio exterior.

Ou seja: o que Bolsonaro evoca como “nacionalismo” é apenas uma grande fantasia, não chega a nem ser algo próximo do nacionalismo-burguês/chauvinista dos generais conhecidos da história. É uma histeria ufanista e delirante feita para agradar bolsonaristas, “manifestoches” com camisas da CBF, contrários a “tudo que está aí”. O ufanismo de quinta categoria é bastante comum na história do país e sempre é utilizado politicamente pelas elites. O pseudo-nacionalismo de Bolsonaro foi cozinhado requentando paranoias anticomunistas da Guerra Fria, criando “pânicos morais” contra o “perigo vermelho”, e manipulando certos tabus presentes em nossa sociedade como o aborto e a diversidade sexual. Esse ufanismo também vem com uma intensa pregação ultraliberal em seu interior. Ao passo que coloca o Brasil de joelho aos imperialismos de toda ordem, entregando setores estratégicos do país (Embraer e Infraero, Petrobrás, Eletrobras, a camada Pré-Sal e demais fontes de petróleo, minérios e gás natural, e gigantescos recursos naturais, água, biodiversidade, os bancos públicos, as indústrias nacionais), o farsante fala em “proteção nacional” e uma falsa luta contra a corrupção, tal como em 1964 e 2016.

Em comparação, tomemos Getúlio Vargas (com ressalvas aos seus vários defeitos conhecidos na historiografia e sua condução política). é o exemplo clássico de nacionalista combatido pela elite parasitária e morto de forma covarde. Estadista firme, foi criador da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), Vale do Rio Doce, FNM (Fábrica Nacional de Motores), Petrobrás, Previdência Social e Ministério do Trabalho, companhias hidrelétricas. Instituiu o Salário Mínimo, reforçou a relação do governo com os trabalhadores, democratizando sua representação social, reconheceu o Trabalho como questão social e política, ampliando o Estado através da inclusão dos trabalhadores no pacto sociopolítico-institucional daquele momento. Operou uma primeira tentativa de organização das estruturas modernas do Estado brasileiro, sob o viés de um projeto desenvolvimentista nacionalista. Foi combatido pelas elites parasitárias dependentes dos EUA justamente por isto e não por suas posturas ditatoriais. Foi suicidado em 1954 ao se ver minado pelos golpistas, que também iriam derrubar Goulart dez anos depois, que, longe de ser um revolucionário, estava comprometido em implementar as Reformas de Base, inéditas no Brasil.