A moral é, talvez, o principal componente da política. Teóricos da política, incluindo realistas, colocaram seus olhos sobre ela por anos, para tentar desvendar, afinal, qual seria seu espaço dentro do fazer político. No modelo da promulgação, por exemplo, a moral é a base sobre o qual a política é feita; ela é antes de tudo impulsionadora da organização, e sem ela não haveria razões para se movimentar. No modelo estrutural, a moral oferece restrições à estratégia, sendo portanto limitante do fazer político.

A raiz do problema é que ambos modelos estão corretos. É um fato inegável que são só a partir de razões morais que bases se mobilizam – e ela é assim impulsionadora das bases – mas é também verdade que aderir à moral é abrir mão, por outro lado, de determinadas práticas – e ela é portanto limitante da estratégia. Essa é a pergunta à qual essas considerações levam, se engolidas a seco: é melhor se enfraquecer perante as bases em nome da estratégia ou perder batalhas para não perder bases?

Do avançar sem restrições

Nos últimos três ou quatro anos tenho argumentado continuamente nesta revista sobre a necessidade da esquerda brasileira retomar a audácia. Primeiro, para impedir que Dilma fosse derrubada (isto é: deveria demonstrar força perante o avanço inimigo, não fraqueza; mobilizar-se no concreto e ignorar o abstrato, por onde o inimigo triunfava). Depois, para enfrentar Temer (ou seja; deveria incorrer no risco de semear o caos, ainda que indesejado, a preferir ser lentamente massacrada sob as fachadas democráticas). Por fim, nas eleições de 2018, defendia também uma posição mais audaciosa do que aquelas oferecidas pela disputa eleitoral (já que, afinal, o golpe de 2016 e o consequente crescimento do poderio limitar indicava que as elites preparavam uma “carta no coturno” caso tivesse de conceder a vitória a um candidato não-alinhado). Todas essas posições eram desenhadas a partir de considerações estratégicas, não morais.

E é agora, após a derrota completa, que essas posições começam a se popularizar. Disso decorrem dois problemas: primeiro, popularizam-se por vias morais, não estratégicas.¹ Segundo, popularizam-se em um momento em que o inimigo opera mais nas sombras, fragilizado, preparado para desabar, mas sim em um momento em que o inimigo enfim tem todas as vantagens estratégicas possíveis e espera ansiosamente para cumprir a promessa de usar a força.

Começarei pela segunda questão. Em 2015-2016, ainda que a popularidade do governo de Dilma Rouseff estivesse em pleno declínio (em grande parte pelas medidas econômicas adotadas por seu governo), era não só possível como indispensável que seu partido respondesse radicalmente, para além das fachadas institucionais (já que seus inimigos operavam sob elas, mas para além de suas premissas). Isso forçaria o inimigo a recuar, no melhor dos casos, ou a abrir guerra aberta, para além das instituições, no pior. De qualquer maneira, o inimigo teria que abdicar: ou de seus objetivos, ou de sua estratégia, sendo assim colocado na defensiva. Para além disso, o governo tinha ao seu lado, naquele momento, as premissas ideais; a legitimidade, o discurso anti-golpe (independente se real ou não), e a autoridade (independente se acatada por completo ou não), além de bases concretas relativamente prontas para se mobilizar.

No governo, Temer passou a ter algumas dessas premissas; em especial a autoridade de reprimir (que provavelmente seria acatada), mas tinha pouca legitimidade e apoio. Promover o caos, abertamente ou não (fortificando a greve dos caminhoneiros, por exemplo) era colocá-lo em uma posição em que deveria conceder ou radicalizar, abrir guerra. Se concedesse, se fragilizava no campo concreto; se usasse da espada, se fragilizava no campo moral.

Aos recuos táticos

A situação foi alterada, no entanto, com a eleição de Bolsonaro. Para além de ter todas as premissas ideais que Dilma tinha, ele conta com mais dois fatores a seu favor: 1 – relativa popularidade e boas bases (civis – incluindo setores-chave da burguesia, mas não só eles –  além de militares), e o espaço de respiro do “vamos ver no que esse governo dá”, que desestimula a adesão a mobilizações contra seu governo e 2 – o uso da força não só como possibilidade estratégica, mas como mote moral.

Ou seja: o atual governo não tem só todas as vantagens estratégicas concretas que poderia ter, estando assim numa posição muito mais desfavorável para sua derrubada ou fragilização do que a que enfrentava Dilma, como também tem o apoio de boa parte da sociedade (ou no mínimo a indiferença) no caso de ser empurrado a optar pela força.

Nisso implica que para derrotar Bolsonaro não basta não só não repetir os erros estratégicos cometidos por Dilma e o Partido dos Trabalhadores (a começar pela disposição infinita dos pactos, das concessões, e a confiança cega na institucionalidade), como também que as posições que eu então defendia também se desatualizaram. Demonstrar força concreta agora, na vanguarda, sem ter uma retaguarda fortificada, é um caminho para sucumbir.

No momento, Bolsonaro é mais forte e se encontra em posição mais estável do que qualquer outra força, seja no campo estratégico ou no moral. Por outro lado, conceder moralmente, por um certo “pragmatismo” que não oferece vantagens concretas, é incorrer no risco de se fragilizar perante as bases, ao mesmo tempo fortalecendo o inimigo. Eu já ouvi falar que “é melhor um pássaro na mão do que dois voando”, mas nunca que “é melhor entregar seu pássaro para o inimigo degolá-lo, e ficar com suas penas cadavéricas”, nem que “é melhor voar bem alto junto dos pássaros, tentando desviar dos balaços dos caçadores.”

Recuos táticos serão necessários, mas devem ser acompanhados por avanços estratégicos: é o conselho dos princípios da Guerra de Guerrilhas recuar quando o inimigo avança, mas abrir novas frentes, operar em outros terrenos, conquistar novas bases também o são.

E é por essa razão que os grandes debates quanto à eleição para a Presidência na Câmara parecem se desenvolver em meio ao moralismo vazio, por um lado, e pelo pragmatismo inútil, do outro.

Muitos são os que falam sobre a “traição” que é apoiar Maia, argumentando no campo moral – mas essa opção moral é capaz de levar a uma vitória ou um ganho concreto, a médio ou longo prazo? Não pergunto só em relação à Presidência da Câmara, que não pode ser vencida por partidos que, no melhor dos casos, agrupam 136 cadeiras, a questão é mais ampla: essa “demonstração de força” é concreta? Agrupa bases de apoio, fragiliza o inimigo, abre novas frentes? Tem força sequer para virar propaganda? Acima de tudo, esse principismo moral será tomado como regra geral, ou haverá espaço afinal para eventuais recuos? Se houver, é portanto necessário começar desde agora a tratar de questões estratégicas como são, não como morais.

Mas outros, do alto dos manuais estratégicos de Péricles², defendem conceder na moral, apoiando Maia, para colher ditos benefícios estratégicos, que incluem a impressionante promessa de Maia (que pode ser simplesmente quebrada, a propósito, ou acatada só sob exigências até aqui não mencionadas) de conceder à base “de esquerda” que apoiá-lo uma vaga na Mesa Diretora da Câmara. A Mesa Diretora conta hoje com um secretário do PSB (JHC), um suplente do PDT (Dagoverto Nogueira) e outro suplente, do PT (Pedro Uczai). Quão efetivo foi tê-los na Mesa Diretora nestes últimos anos para barrar os avanços de Temer? Esta é a pergunta que deve ser feita por aqueles que, como eu, veem nesse tipo de “pragmatismo” um caminho funesto.

Não se trata portanto, de novo, de um problema moral, mas sim estratégico: o problema não é conceder na moral, é não avançar estrategicamente com isso. Preocupações, dos dois lados, que poderiam ter alguma justeza, não fossem elas aparentemente as únicas preocupações.

Demarcar posição seria justo (mas essa posição é demarcada com qual figura? a do “revolucionário” Marcelo Freixo?) se houvesse, aliado a isso, um trabalho sério de organização. Afinal, se é um pecado tão grave abdicar da moral em nome dos acordos, não seria igualmente grave ignorar o fato de que se está em uma posição em que negar ou fazer acordos não fazem diferença alguma?

Também seria justo conceder; mas quem concede só pode fazê-lo, igualmente, de uma posição de força, com bases fortes, para garantir em retorno um benefício que tenha alguma importância.

Voltemos: é melhor se enfraquecer perante as bases em nome da estratégia ou perder batalhas para não perder bases?

É melhor ter bases fortes, para perante delas poder se enfraquecer ou abrir mão de batalhas que poderiam ser vencidas com elas. Do contrário, ambas as opções não são, de fato, opções: são cálculos vazios de quem sonha com a velhice na infância.

Adquira já “Golpe é Guerra – Teses para enterrar 2016”, de Pedro Marin

Notas:

[1] –  Agora os radicais atrasados entendem que é preciso demonstrar força porque “esse governo não dá pra aguentar”, “com esse governo não tem conversa”, não porque isso seja uma forma efetiva de derrotá-lo. Pergunto-me se era possível tolerar um governo ilegítimo e que avançava como nosso povo entregando nosso País, como foi o de Michel Temer, ou se era possível tolerar militares ensaiando pronunciamentos pelo Twitter. Pergunto porque, afinal, isso é o que foi feito.

[2] – Em uma batalha na Guerra do Peloponeso, Péricles ordenou que suas tropas recuassem de volta a Atenas, onde em tese estariam protegidas pelos muros. Os espartanos cercaram a cidade e a isolaram, matando 100 mil.