A esquerda está repleta de seres assustados pela propaganda, que imploram por explicações no meio da confusão da situação da Venezuela. Em “Um país em colapso”, Vladimir Safatle usa das colunas da Folha de São Paulo para lavar as mãos, com um diagnóstico contra a esquerda que “não é a dele”, e um prognóstico ideológico que diz o que a esquerda deveria fazer em nosso continente.

É necessário se dedicar, ponto por ponto, às observações do filósofo.

Primeiro, devo contrastar o que aprendi estudando e o que vi em minha viagem para a Venezuela, ao lado do editor Pedro Marin, a algumas alegações de Safatle que seriam, segundo ele, o verdadeiro norte para o qual a esquerda latino-americana devia se orientar.

“O que Hugo Chávez vendia como socialismo do século 21 tinha muito pouco a ver com socialismo. (…) O modelo nunca se desdobrou em uma construção progressisva de dinâmicas de transferência do poder Executivo em prol de estruturas de democracia direta (..) Tratava-se de abandonar o modelo populista centralizado em sua dependência patológica da figura do líder, assim como abandonar essas formas híbridas de capitalismo fundadas no controle de empresas estatais – isto em prol de modelos de autogestão. No entanto, nada disso foi tentado”, diz Safatle.

“Socialismo do Século XXI”, diferente do que sugere Safatle, não era só uma etiqueta de venda de Chávez. Foi um movimento político dentro do chavismo, consolidado no PSUV, que se valia precisamente de um conjunto de concepções provenientes da nova esquerda.

No Primeiro de Maio de 2005, Chávez falou da necessidade de trabalhadores “controlarem”  seus próprios lugares de trabalho. A prática já estaria ocorrendo em duas empresas desapropriadas e na ALCASA, estatal produtora de alumínio.

Iain Bruce escreveu um livro sobre a Venezuela publicado em 2009 (The Real Venezuela – Making Socialism in the 21st Century, da Pluto Press), onde ele nos conta algumas coisas importantes. O autor visitou a fábrica de alumínio da ALCASA em Ciudad Guyana e chamou de “um dos mais ambiciosos experimentos de democracia no local de trabalho já tentados em qualquer lugar do mundo por pelo menos um quarto de século”, relatando que os envolvidos descrevem que muitas das características de controle pelos trabalhadores “estão no caminho da autogestão”, de forma diferente da cogestão da social democracia europeia (especialmente alemã).

Ocorreu também a ocupação da VENEPAL em 2005, em Carabobo. Ocupada pelos trabalhadores, expropriada e renomeada Invepal, Chávez chegou a apresentar seu programa “Alô Presidente” na fábrica um mês depois do Estado reconhecer a ocupação. O presidente recomendou aos trabalhadores formar suas próprias reservas militares, milícia, no intuito de defender a fábrica que agora controlavam.

Em 27 de Abril de 2005, a mesma coisa se passa em Los Teques, em uma fábrica de válvulas, depois de dois anos de ocupação.

Nos meses seguintes a Maio de 2005, o Ministério do Trabalho, chefiado por Maria Cristina Iglesías, identificou pelo menos 800 fábricas fechadas por seus donos que poderiam ser ocupadas por seus trabalhadores.

Em 2017, quando estivemos na Venezuela, nós ainda encontramos jovens da Universidade Bolivariana de Caracas pensando em ocupar uma fábrica de transformadores elétricos.

Em seu livro, Bruce narra ainda como conheceu um dos primeiros Conselhos Comunais do país, iniciado por dois cozinheiros jovens e um líder camponês mais experiente. Eles estariam ainda buscando o apoio relutante do prefeito local, chavista. Em Janeiro de 2007, Chávez anunciou “a explosão de poder comunal.”

Pude presenciar uma “assembleia constituinte de base” da comunidade da favela de San Augustín, com a participação de pessoas da comunidade e movimentos populares, de diversas idades e modos de vida. Apesar de tal experiência não ter me atraído muito, como não me atraí o discurso de democracia direta de Safatle, eu vi a assembleia acontecer, ouvi, observei, fotografei – ela existe concretamente, diferente da crítica de Safatle, que não me parece ter muitas bases na realidade.

Assembleia na comunidade de San Agustin. (Foto: Pedro Marin / Revista Opera)

Em Dezembro de 2007, na época do referendo, haviam mais de 25 mil conselhos comunais na Venezuela. Comunidades de 200 a 400 famílias nas áreas urbanas, ou mais de 20 famílias no caso das zonas rurais, se encontravam em uma assembleia aberta que elegia um conselho comunal com porta-vozes para cada área relevante para a comunidade. Esse conselho é executivo.

Em 2017, com nossa visita, fica evidente que mais do que nunca falam de superação da estrutura institucional burguesa, de superação das estruturas administrativas. Falam da “Revolução Comunal”, grafitam “La Comuna Madura”, de uma ofensiva final contra as instituições do estado. Jovens animados desenhavam no chão para nós como seriam as unidades políticas locais de democracia direta que reunidas formariam os novos conselhos comunais, o “verdadeiro poder popular” que não separa legislativo de executivo e nem política da economia; essa revolução atropelaria as instituições burocráticas e o autoritarismo do poder municipal. Muitos devem estar munidos com “Introducción al Poder Popular (El Sueño de Una Cosa)” de Miguel Mazzeo, que se multiplicam nas “livrarias populares bolivarianas” que vendem tudo a preço módico.

Maduro é em vários casos visto como um inconveniente, um acessório temporário, ou uma necessidade frente o que seriam as ameaças da direita. Chávez, por outro lado, é (como relatado no livro de Bruce e aparece em outro, o “Venezuela Speaks! – Voices from the Grassroots” conjunto de entrevistas realizadas por múltiplos autores) falado como uma espécie de “profeta do poder popular”, um companheiro revolucionário na luta contra o Estado, chamado de “comandante”.

O nível de ironia perante o texto do Safatle é tão grande que Bruce cita o caminho apontado pela esquerda chavista frente a desafios como a “dependência do caudilho”: “os pilares centrais da estratégia bolivariana para o socialismo do século XXI: democracia local direta ou poder popular, cogestão ou autogestão, e um novo partido socialista construído de baixo para cima.”

Bruce também descreve o tipo de esforço esquerdista no campo econômico que nos deparamos em 2017. Ele conheceu o jovem ativista de esquerda Moises Duran, responsável pela Missão Vuelvan Caras, incorporada no que era o Ministério da Economia Popular. A função da missão não era só capacitar desempregados com novas habilidades, mas estimular o que ele chama de “novas formas econômicas”, especificando que “não queremos criar empresas estatais, mas encorajar a formação de cooperativas pelos setores da sociedade que foram excluídos no passado”, tanto cooperativas de consumo como de produção (p. 46). Essas instituições estão repletas de jovens e de militantes com a mesma mentalidade de Moises, o que nós pudemos constatar indo até Miraflores, onde entrevistamos líderes da juventude envolvidos na Missão Robert Serra (que leva o nome do jovem deputado que foi assassinado e é voltada para formação de jovens). Nos listaram as diversas iniciativas envolvendo padarias e outros negócios autogeridos por grupos de jovens, nas favelas e no campo. É notável como esses negócios existem especialmente nas favelas chavistas.

Como os jovens do Vuelvan Caras disseram para Bruce e os jovens da Robert Serra disseram para nós, existe um objetivo de “retorno ao campo” como estratégia para insegurança alimentar de um país dependente de importações nesse setor (70% naquela época). Assim, os grupos de jovens organizados tinham acesso a estruturas como a da PDVSA para realizar treinamentos para produção rural e alguns se dirigem a lotes abandonados para produzir. Núcleos inteiros articularam bairros em questões econômicas e políticas, o que foi chamado de “desenvolvimento endógeno”.

Iain Bruce chega a formular o argumento dos socialistas-chavistas, tão crítico à direção estatal da economia quanto o próprio Safatle. Defende a alternativa das cooperativas e da autogestão, chegando a citar a influência do petista Paul Singer como forma de responder às críticas que apontam que o cooperativismo não superaria a lógica do mercado – “a promoção do planejamento central é inevitavelmente autoritária” – sendo a “economia solidária”, conceito tão caro aos venezuelanos, a solução.

Não faltaram críticos de dentro do chavismo que pediam “mais participação” e criticavam as tendências paternalistas e desenvolvimentistas.

Avaliando com meu companheiro de Revista, senti uma certa insuficiência deste tipo de iniciativa (ex. jovens que plantam melancias trocando com jovens que possuem uma pequena fábrica de tijolos) do ponto de vista do grande problema econômico, que diz respeito a grandes cadeias de produção alimentar e a industrialização. Empresas marginais de jovens marginalizados podem ser experiências fabulosas, mas mudam fundamentalmente a cadeia produtiva? Todo latino-americano deve ter um pé atrás com a autogestão por ela frequentemente significar operações econômicas locais e de pequena escala, em detrimento de visões maiores.

Dentro do chavismo, também ocorreram disputas nesse sentido, tanto com elementos mais apologéticos do capitalismo, como com alguns mais radicais no entanto céticos com as formas cooperativistas e autogestionárias, como o ex guerrilheiro Ali Rodriguez, que chegou a presidir a PDVSA. Essa posição também era compartilhada pelos assessores cubanos e se aproxima do pensamento de “controle estratégico” dos militares. A esquerda crítica argumenta que essas são as posições dos burocratas, do autoritarismo de esquerda, dos estalinistas, dos capitalistas de estado e assim por diante.

Não nos estendendo em detalhes sobre a história política do chavismo, o meu ponto aqui é que essas visões de Safatle não foram excluídas do horizonte bolivariano, experiência que ele tenta suprimir em uma definição simplista e tacanha do anti-populismo da esquerda acadêmica. A história se recolhe para abrir alas para a prognóstico de Safatle, que precisa do chavismo comprimido na velha etiqueta do “populismo” para fazer caber a si o papel de profeta esquerdista.

Safatle não quer abordar esses detalhes, as experiências que acompanharam o processo bolivariano, pois isso atrapalharia a afirmação de seu próprio posicionamento. Para tanto, ele reduz o processo a “um modelo político bonapartista e profundamente assentado na militarização do governo”. Essa redução não é obra de uma boa síntese filosófica, mas sim uma mutilação ideológica do movimento do real.

O velho conceito de “bonapartismo” aqui é genérico, sem condicionantes, apagando as peculiaridades da política venezuelana em prol de uma aproximação equivocada com regimes militares hierárquicos e produtos de quarteladas. O chavismo não é um gabinete de um poder executivo todo poderoso, imposto de cima para baixo e acima de forças sociais esgotadas pelo conflito; não é um governo militar conservador, de preservação da ordem, nem tão pouco uma espécie de regime de homem forte tecnocrata e reformador.

É inconveniente para Safatle falar dos elementos populares que acompanharam o chavismo, dos episódios de luta de classes e o papel da luta política pelas ruas.

O que descrevemos brevemente sobre político em economia até agora já dificulta a tese de “bonapartismo” e também trás outro inconveniente, que é de encarar o chavismo como um movimento político composto por diversas forças de esquerda – por algum motivo ainda existem aderentes e aliados de esquerda.

Ademais, testemunhando contra uma análise bonapartista há o fator eleitoral e a distribuição das unidades federativas. Maduro não controla o PSUV como uma organização militar, que tão pouco é um partido homogêneo e as eleições ainda são disputadas, incluindo primárias, envolvendo arranjos políticos locais (e, no caso do PSUV, alianças com outros partidos; partidos de esquerda como o Pátria Para Todos, La Causa R e o Partido Comunista possuem seus próprios redutos eleitorais).

É uma política mais moderna, eleitoral, urbana e massiva.

Maduro inclusive era desde o Movimento V Republica representante de uma ala civil proveniente de movimentos de esquerda radical, junto com Tarek William Saab e o policial Freddy Bernal – ambos figuras importantes do “madurismo”. Por sua vez, o jurista El Aissami é chamado de segundo homem do regime e é também de origem civil e esquerdista. Maduro também promove elementos da ala jovem – e civil – do partido, como Hector Rodriguez, que governa o importante estado de Miranda.

Sim, os militares cumprem um papel central e têm sua própria concepção de bolivarianismo. Colocam a segurança nacional em primeiro lugar, entendendo que a soberania é constantemente ameaçada pelos Estados Unidos, na condição de ser maior reserva de petróleo. Na Venezuela existe uma idolatria aos heróis nacionais como Bolívar e Zamora, os caudilhos libertadores.

É verdade que a política do chavismo é problemática. Eu não considero o “modelo venezuelano” modelo de nada, para nadie. A Venezuela é sim um exemplo da complexidade dos conflitos políticos, da solidão do subdesenvolvimento, um aprendizado que deveria passar por cima dos dogmatismos produzidos no partido e na academia. Um exemplo de que existe muito mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode querer nos prescrever.

É importante o que Safatle quer nos dizer. “O verdadeiro desafio da esquerda latino-americana estava em outro lugar. Tratava-se de abandonar o modelo populista centrado em sua dependência patológica da figura do líder.”

Se o problema é uma patologia latino-americana, como delimitou Safatle, aonde está a esquerda esclarecida? No hemisfério norte? Na Europa?

Lembremos que Safatle em 2014 escreveu uma diatribe contra o governo petista em que falava do esgotamento do ciclo político na Europa, em que ele concluía:

“Olhem para a Espanha do Podemos! e a Grécia do Syriza: dois partidos de uma esquerda renovada que estão atualmente em primeiro lugar em todas as pesquisas.

Pois o que há de pior quando se está diante de um tempo morto é acreditar que todos os tempos são iguais.

Quem lê entende que é preciso olhar para esses partidos europeus como um horizonte de esperança. Olhem e vejam: o Podemos! e o Syriza estão mortos.

O Podemos! se desmancha e o Syriza há muito se perdeu perante a Troika e em gabinetes com a direita – para o horror do purismo da esquerda do PSOL, para o horror de um Safatle que reclamava do gabinete de Dilma nesse já distante 2014.

Talvez não seja difícil para os povos da América entender que aqui se conseguiu mais com nossos caudilhos do que com nossos intelectuais animados pela última moda europeia. A convergência de um movimento na figura de um líder e do poder executivo, ainda mais um líder militar, pode ser um caminho plebiscitário para concentrar forças contra o conservadorismo difundido e enraizado nas instituições.

No contexto da política venezuelana Chávez foi – e ainda é visto, inclusive por pessoas que não apoiam Maduro – como um símbolo que reuniu forças excluídas da sociedade contra os pilares do elitismo representados pelo Country Club Caracas. Chávez é o líder saído do rechaço das classes populares às velhas classes políticas, incluindo a repressão, a exclusão e as políticas neoliberais.

Quando em Caracas, nos aproximamos de uma mulher conservadora antichavista. Em um dos encontros ela levou uma amiga da mesma igreja (evangélica), mas de classe social mais pobre e marginalizada. Apesar da facilitadora do encontro exercer certa pressão misturada com influência – muito inteligente e de personalidade forte – a amiga nos explicou que as pessoas ainda são muito relutantes em se posicionar contra o chavismo por um “sentimento de gratidão”. Ela se referiu a sua mãe e a própria negritude, que “nos tempos da minha mãe seria inimaginável uma moça negra pobre como eu passeando em um shopping em Chacao”.

Chacao é um dos bairros ricos de Caracas, com status de município, palco de manifestações de direita e o que vem sendo divulgado nos últimos dias como “ruas tomadas contra Maduro”. E, por Deus, falando em oposição, a figura do líder falecido é tão poderosa que quase nenhum simpatizante da oposição consegue falar mal do regime sem fazer pelo menos um elogio a Hugo Chávez.

O caudilho é tão triunfante que até a oposição golpista reivindica a constituição desenhada por Chávez – viraram fiéis defensores da V República. As linhas de propaganda da guerra informacional de Washington deixam isso claro e indicam que se evite falar mal de Chávez, de preferência demarcando diferenças deste com Maduro.

Sendo justo com Safatle, é verdade que ele não é exatamente um fã de partidos. Prega a superação deles, é fiel a Badiou, pensa nos momentos, na ação política algo espontânea, no acontecimento autêntico, genuíno, que desamarra as instituições e o “realmente existente”, tudo aquilo que amarra a política – o que só pode acontecer na ação revolucionária verdadeira, a participação popular sem limitações e que intervém como poder instituinte soberano.

Mas é trágico que na história tão logo comecem as situações extraordinárias, uma parte considerável dos intelectuais tidos como os mais radicais logo se encolham em seus gabinetes, chegando a se refugiar na respeitabilidade burguesa – no caso de Safatle, qual é a mudança efetiva do discurso dele no coro uníssono na mídia brasileira?

Pasmém, esta “reflexão filosófica” não é sequer tão poderosa quanto um suplemento informativo sobre o que está em jogo na Venezuela. O filósofo se preocupa tanto com a autenticidade que se converte em inautêntico.

É precisamente nos momentos em que a história acontece que eles parecem se afastar.  Independente de nossas predileções, a Venezuela passou por uma processo singular nas últimas duas décadas. Foi com Chávez que amarras foram desfeitas, que ocorreu uma explosão das massas e uma correspondente oposição imperial.

Uma parte do que chamam populismo e caudilhismo na América Latina não foram trapaças capitalistas contra as classes dominadas, mas expressões autênticas de nosso processo histórico e canalizadores da política popular. Os intelectuais têm sede pelo “momento revolucionário”, pela rebelião das massas, a ruptura política, mas viram o rosto e se recusam quando este movimento se concretiza na relação dialética das massas populares com líderes e na composição entre caudilho, exército e povo. E não é natural que um processo político que coloque em risco velhas correntes de subordinação internacional tenha que se armar para se defender?

Os caudilhos libertadores eram mais do que militares quando lideravam suas tropas no campo de batalha. Os operários descamisados transformaram Péron em um general diferente de todos os outros oficiais argentinos.

Na Venezuela, o caudilhismo libertador foi a forma como a história varreu pilares sociais que pareciam se eternizar no colonialismo, varrendo e transformando a elite criolla.

Chávez teve o poder delegado pelo povo venezuelano para reposicionar a Venezuela internacionalmente, depois de anos de políticas que foram entendidas como explotadoras, hostis a soberania, o que fundamenta uma vocação militar da revolução bolivariana.

Talvez seja a armadilha do intelectual universitário hiper-socializado, dependente, mas distante dos acontecimentos: o impulso do rebelião parece se converter em um nada, um vazio, nesse caso um discurso que pretende defender o político mas no fim retrocede ao niilismo.

O que acontece com a reflexão do filósofo frente as massas tomando as ruas para restituir Chávez ao poder em 2002? Aquilo não foi uma decisão de uma cúpula militar, mas um movimento popular que desafiou militares golpistas, com sua realização simbólica no desafio colocado por peitos desnudos em barricadas, quando muito com pistolas nas cinturas contra a ameaça de fuzis e canhoneiras.

O texto confirma, pela esquerda, o que vem até agora sendo o discurso da direita e do intervencionismo – de que o problema da Venezuela é o “fracasso de um modelo”.  Essa postura de esquerdista democrático é comparável a um certo “voluntarismo estalinista” – não é o petróleo, a história venezuelana, a dura situação econômica, a estrutura econômica (as crises que remontam aos anos 80), a sabotagem (fuga de dólares, sanções, guerra cambial, destruição de infraestrutura, etc), mas um problema de linha política e os defeitos dos quadros da esquerda latino-americana que explicam a situação.

A referência à”dependência patológica” evoca uma disciplina psiquiátrica. O direitismo venezuelano tem predileção por tratar o chavismo como uma “patologia”, uma “loucura das massas”, o que por extensão justifica intervenções autoritárias em nome da razão.

E é esse um problema da “esquerda latino americana” ou Safatle dirige isso aos movimentos que tiveram algum sucesso e, em última instância, as massas do continente? Pois não é difícil nos lembrarmos que a esquerda latino-americana de extração universitária denuncia o populismo desde antes de Safatle nascer – provavelmente piorou depois da onda de doutorados na França, mas já era algo compartilhado pelas mentalidades moldadas em Moscou e leais ao Partido Comunista.

De toda forma, cabe relembrarmos aqui os problemas que pontuamos ao falar da economia venezuelana: não é um problema de controle estatal, dos trabalhadores ou privado. É um problema que:

a – diz respeito a uma política executiva nacional, fora do alcance da democracia direta e da autogestão.
b – diz respeito ao desenvolvimento nacional e ao problema da industrialização, a ruptura com a dependência do petróleo.

Esse não é um problema que se coloca para a “esquerda” latino-americana, mas para todas nações da América Ibero-Tropical. É o problema central da independência.

Não que eu acredite em estatismo puro ou numa forma de politicismo que exclui a expressão do popular. O problema é que a intelectualidade voltada para o mar, litorânea, tem um sério problema de compreender qualquer expressão “caudilhesca” ou populista como popular ou latino americana, como expressão de movimentos de massa e a realização de lutas por direitos dos trabalhadores. Para bem ou para mal, o peronismo na Argentina – esse movimento “populista” e “bonapartista” por excelência – foi um dos maiores assaltos populares à política na América Latina.

Peronismo que foi logo atacado por hostes de professores universitários que se juntaram a John Foster Dulles em sua preocupação com o “subdesenvolvimento” e a necessidade de educação dessas massas “presas” do populismo.

A figura do líder se converte em núcleo de um movimento de massas populares na proporção inversa que atrai a denúncia e o rechaço unânime das classes antinacionais.

Massas organizadas conectadas por suas emoções a um líder carismático não só criaram movimentos de ameaça ao sistema e trouxeram progresso social, mas pensando de acordo a virtude dos fins, marcou de fato um momento de florescimento independente de nossas comunidades.

O liberalismo sempre se reivindicou republicano contra o populismo e o caudilhismo, sem perceber o caráter eminentemente republicano desses momentos.

Independente da saúde mental da esquerda latino-americana, Safatle termina se referindo a um “cenário ideal” quando temos um cenário concreto que beira a uma guerra internacional disfarçada de guerra civil ocorrendo na América do Sul e que trará consequências desastrosas para todo o continente.

Já existem “ações imperialistas abertas.” Ninguém começa uma guerra em um ato único, como um botão que se aperta – a guerra se constrói através de um conjunto de ações que incluem a desestabilização e as sanções econômicas (a Guerra do Iraque pode ter começado com Bush em 2003, mas centenas de milhares de crianças já tinham suas vidas ceifadas pelas sanções de Clinton-Albright nos anos 90). Reconhecer em pouquíssimo tempo um presidente auto-proclamado, que sequer tomou parte nas eleições, já é uma ação aberta. O que Safatle chama de “perigo” já é uma realidade de anos.

Publica e oficialmente os Estados Unidos gastaram somente entre 2000 e 2005 mais de 27 milhões de dólares através do NED e do USAID para apoiar grupos opositores na Venezuela.

Já faz anos que a presidência dos EUA, a Secretaria de Estado, a CIA e o Comando Sul-Americano (SOUTHCOM) expõem um tanto abertamente seu intervencionismo. O SOUTHCOM, que é um comando militar, está efetivamente envolvido nos novos planos de deposição de Nicolás Maduro.

Em verdade, os acontecimentos atuais na Venezuela são a continuação de uma estratégia militar dos Estados Unidos para a região que remonta a, pelo menos, o governo George W. Bush – sendo a Rússia que representou o maior problema para a política externa norte-americana nos últimos anos e a Turquia um aliado “rebelde” que abre as asas com a decadência da hegemonia da super potência atlantista. Na primeira década do chavismo essa estratégia se orientava para a internacionalização do conflito colombiano, incluindo reconhecimento tácito às forças paramilitares direitistas que causavam um desastre humanitário na Colômbia com uma guerra punitiva contra comunidades camponesas e que ameaçavam se estender até o país vizinho para assassinar Hugo Chávez.

A Colômbia, depois de anos com um presidente amigo dos paramilitares, depois de um teatro de desarmamento da AUC (o maior grupo paramilitar), viu o paramilitarismo reaparecer na forma de grupos ainda mais difusos, ousados, politizados e dispostos a tirar proveito do desfalque dos cartéis colombianos. Muitos falam de narco-estado, mas outra palavra que passa a definir o espaço colombiano é a para-política. Em violação aos acordos de paz, paramilitares se dedicam a caçar guerrilheiros ressocializados e organizados em partidos políticos na Colômbia, mas o fim do conflito militar com as FARC permitiu que muitas forças de direita dirigissem sua atuação para a Venezuela.

Em estados como Zulia e Táchira paramilitares colombianos circularam com liberdade considerável, ostentando armas e entrando em conflito contra forças venezuelanas. Mesmo em Caracas era possível sentir o clima tenso nas eleições devido a uma presença oculta de paramilitares, às vezes quase identificáveis por sua atitude e tatuagens específicas.

No período Chávez, o governo direitista do estado de Zulia (rico, 40% das reservas de gás e petróleo) ameaçava sedição e secessão.

Tal era a internacionalização do conflito que o paramilitarismo contava com assessores israelenses. Israel, tão distante, desempenhou na América uma espécie de função de “Cuba contrarrevolucionária”, auxiliando na repressão sangrenta em que se especializaram na condição de projeto colonial e no seu confronto existencial com os palestinos. É especialmente relevante mencionar esses fatores quando o clã Bolsonaro possui sua própria predileção pelo paramilitarismo brasileiro (as milícias cada vez mais politizadas) e pelo sionismo internacional.

O petróleo é uma prioridade da geoestratégica dos Estados Unidos. Isso é declarado abertamente e foi tratado no nosso pensamento nacional na obra de Moniz Bandeira (“preserve access to a reasonably priced and secure supply of oil”, como elencou Robert J. Art como terceiro dos interesses prioritários dos Estados Unidos em seu “Grand Strategy for Contemporary America”, da Century Foundation). O petróleo do continente e mais especificamente o venezuelano já se convertia em uma prioridade na estratégia da Secretaria de Estado Hillary Clinton e o desengajamento no Oriente Médio.

Os cálculos geopolíticos vão além de petróleo, não obstante.

Os Estados Unidos estão lidando com novas realidades globais, sua incapacidade ser um hegemon dominador absoluto, a inviabilidade política e estratégica de grandes espaços econômicos, a crise nos centros de decisão do Primeiro Mundo, a incidência de variáveis demográficas globais, a ruptura da coalizão atlantista (incluindo a projeção independente de interesses britânicos na América do Sul), a configuração de novos polos regionais, a evolução relativa dos poderes militares.

São uma conjunção de fatores que colocam a potência em uma trajetória declinante, infundindo a crença, nos estrategistas, de uma reformulação do papel externo dos EUA, o que muitos entendem como uma era de “selective engagement” no campo militar (vide Robert J. Art novamente). Tentam transformar sua relação com a ONU e, no caso dos republicanos, o retorno ao pan-americanismo, ao big stick, uma política mais direta de intimidação pela força e a renovação de um excepcionalismo evangélico-calvinista (Make America Great Again).

A Bacia do Caribe ocupa um papel central nessas considerações. A começar pelo enclave representado por Cuba (ou a ditadura cubana, na fala de Safatle), pequena ilha que selou o destino da estratégia dos Estados Unidos para o resto da América por toda metade do século XX. A Venezuela renovou essa preocupação quando o caudilho Chávez sentou na gigante reserva de petróleo, foi contra o Consenso de Washington e Neoliberalismo, misturando retórica militar-bolivariana com socialismo e cristianismo. Pior do que isso, o caudilho iniciou uma política de expansão militar, compra de equipamentos, criação de novas forças e distribuição de armamentos, adotando uma doutrina militar francamente anti-intervencionista e uma política contrária a expansão militar gringa na América Latina (vide Plan Colombia).

Eles não podem tolerar que a Venezuela seja uma praça de armas. Isso tem significados muito graves para a América do Sul e as dinâmicas de multipolaridade. Mesmo que os dirigentes venezuelanos tenham feito concessões diversas, os estrategistas norte-americanos pensam no pior dos casos. Não derrubaram Saddam Hussein no Iraque para ter outro aqui – precisam do petróleo sul-americano como garantia perante o caos do Oriente Médio.

No período Chávez, a Venezuela se converteu em um centro de interesse estratégico de interesse global, com uma proposta de integração regional sul-americana bancada com armas e petróleo. No exercício da influência ideológica (ou do que chamam de “soft power“), a Venezuela afirmava os valores positivos de sua “Revolução Bolivariana” enquanto esta desmantelava o velho sistema político, ressuscitava a solidariedade terceiro-mundista, chegando ao ponto de usar a PDVSA para manter um programa assistencial que beneficiou mais de 1,7 milhões de pobres de Washington, no coração dos Estados Unidos. A diplomacia do petróleo também serviu para fortalecer aliados que pipocavam no continente, na Bolívia, no Equador, na Nicarágua e, claro, Cuba.

De maneira mais trivial, uma vitória contra a Venezuela poderia se estender em uma vitória contra Cuba, o que seria crédito para o enfraquecido governo de Donald Trump. A ofensiva é liderada por políticos republicanos neo-protestantes da máfia cubana de Miami, com largo histórico de envolvimento com o terrorismo. Os venezuelanos pertencentes a rede de apadrinhamento dos Democratas, com estética mais preocupada com os “Direitos Humanos”, vão atrás.

No pior dos casos, a estratégia norte-americana sai do neo-expansionismo republicano, preocupado em espalhar “democracia, mercado” e modelos institucionais próprias, para assumir a forma radical quase apocalíptica dos strausserianos e alunos do falecido Almirante Cebrowski, que acreditam no desmantelamento dos estados nacionais fora dos países centrais, a criação de stateless zones, no caos e na destruição como estratégia. Se inviável que todos sejam ricos, que os pobres sejam inviabilizados – esta seria uma resposta “razoável” aos fatores de declínio. De toda maneira, as duas visões tem como foco “minimizar a capacidade de ação de Estados de fora do círculo da democracia e do livre mercado”.

A estratégia formulada por Cebrowski e Donald Rumsfeld durante o governo Bush incluía a famosa lista de países árabes a ser atacados para “mudar a balança de poder no Oriente Médio” – a segunda fase seria a Bacia do Caribe. John R. Bolton, o atual conselheiro de segurança nacional de Trump e que veio visitar Bolsonaro, fazia parte do grupo de Rumsfeld no núcleo de relações externas do Governo Bush, ardoroso aderente dessas doutrinas e que vem desde o ano passado discursando sobre a “necessidade” de se destruir a “Troika da Tirania” (Havana-Managua-Caracas), “ninho do comunismo no hemisfério ocidental.”

Infelizmente, a posição política de esquerdistas como Safatle trás um deslocamento da geopolítica, que vai para o escanteio. Pensar na dominação como um sistema internacional com atores políticos específicos (não no “capital” difuso) nos leva a refletir sobre a dimensão revolucionária do estado, do nacionalismo e do exército.

Imaginação em tempos de guerra

Ao invés de dependermos da imaginação, ainda mais da imaginação de Safatle (que não propõe nada concreto, de toda forma), podemos pensar no que já existe, no que está dado. Por enquanto, está dado que há quem queira uma guerra na Venezuela, e isto é péssimo para nosso país.

De negativo temos isso, existe algo minimamente positivo?

Desde as manifestações violentas de 2017 – com repressão correspondente – existe um arranjo institucional de negociações, incluindo uma mesa internacional de diálogo na República Dominicana. Na prática, isso é reconhecer que existem forças beligerantes.

Esclarecer isso já seria um salto para o público da Folha, que deve entender que a alternativa a política aventureira de Bolsonaro é ser “Madurista”. A Igreja Católica compreende isso e endossa os esforços pacificadores. Estes são os tempos que vivemos: o cardeal oferece mais do que um filósofo.

Maduro mantém uma postura mais pacifista enquanto a oposição radical mantém outra; de distensão, tentando usar a violência como ingrediente para a desordem, o que deve ser indicativo da correlação de forças. Maduro pelo menos sabe que ainda tem bases de apoio e provavelmente calcula que o exército é relutante em assumir tarefas diretas de repressão – seu ministro da defesa, Vladimir Padrino López, se preserva publicamente.

Minha imaginação não deixa de apontar que, se realmente Maduro se degradar demais, serão os militares chavistas que intervirão como pacificadores nacionais e defensores do bolivarianismo. Daí talvez possamos falar de bonapartismo.

O apologeta do professor pode me responder que sim, Safatle se referiu à violência “dos dois lados”, de que “com Maduro ou oposição haverá banho de sangue”. O problema é que nesse caso o filósofo não tece considerações verdadeiramente políticas, mas tão somente moralistas e individuais. Está determinando que ele, o filósofo, não vê nada na Venezuela a altura de suas ideias avançadas e seu humanismo imaculado.

Filósofos também tomam decisões políticas, mas o texto de Safatle não parece decidir nada, nem dizer nada que já não foi dito, além de engrossar a sinfonia de “lamentos pela situação venezuelana” com uma estética de esquerda. No fim, não sei se leio uma coluna de um filósofo ou a coluna de um servidor público afundado em uma espécie de distância complacente do que ele pretende comentar – “ah sim, Venezuela, entre dois lados terríveis, fico comigo mesmo, é uma pena cavalheiros, e isso é tudo que tenho para dizer”.

Do alto de sua montanha moral, Safatle aponta o dedo e sugere que certos setores da esquerda nacional apoiam um governo que atira em manifestantes – como se isso fosse uma política de governo e a posição de seus adversários fosse redutível a isto.

Completa: “a violência fascista não é combatida com métodos fascistas de violência”.

Não frequentei as aulas de lógica do Departamento de Filosofia, mas se eu entendi, ele está reconhecendo a oposição como fascista e violenta. A título de curiosidade, se combate como? Citando Adorno?

O texto não denuncia a oposição e nem tão pouco o intervencionismo imperialista, só paga um pedágio nesse caminho de afirmação da independência e superioridade moral do autor. Não passa pela cabeça do filósofo que é possível desprezar Maduro e denunciar os radicais da oposição que apostam em uma crise internacional.

O filósofo às vezes fala de ilegalidade, de violência, de caos, muito confiante e revolucionário. “O caos é superestimado”. Tão logo os pentes começam a tilintar na encruzilhada da história, no momento constituinte primal, acima de qualquer formalidade, que o entusiasmo revolucionário desaparece.  As categorias idealistas de Safatle aqui se tornam mais problemáticas do que as usadas na hora de criticar a esquerda. “Carnificina haverá com governo ou com oposição”; pode parecer uma formulação concreta e específica, mas não é.

Qual posição está mais favorável à conciliação e manutenção da estabilidade? O que ele acha que se seguirá de um assalto ao poder de uma oposição apoiada por paramilitares e uma intervenção bélica estrangeira? Maduro sequer deu um auto-golpe. Não existe ilegalidade massiva. As manifestações do dia 23 foram reprimidas com bombas de gás. Sua política é evitar o escalar do conflito, sabendo do que ocorreu na Síria, por exemplo.

Que tipo de carnificina seguiria uma mudança de regime nesses termos? Se Maduro até agora concorre eleições com os opositores, que de forma geral estão para lá e para cá se encontrando com diplomatas estrangeiros, em alguns casos sendo judicialmente assediados. Não é razoável dizer que no curto prazo esse é o mesmo tipo de “carnificina” que se seguirá a um assalto ao poder por um grupo revanchista que pede auxílio ao estrangeiro em oposição às próprias Forças Armadas.

Não seriam só os bombardeios sangrentos, mas os expurgos que se seguiriam. A aposta aventureirista de uma oposição que usa táticas de contras,  de aumento da violência para causar distensão, tem implicações muito sérias em um país que tem chavistas de cima abaixo.

Se a preocupação dele é com a paz, com a ideia de que a política existe para defender a paz frente à possibilidade do conflito armado, ele poderia ter usado seu espaço para defender a estabilidade na Venezuela, incluindo as instituições de diálogo e negociação que citamos, como faz o Vaticano.

Ele poderia ter denunciado as operações psicológicas dos Estados Unidos e a escolha do 23 de Enero, data comemorativa que sempre conta com manifestações públicas, como escolha oportunista para ter as ruas cheias no dia do anúncio da revolta. Poderia ter denunciado a irresponsabilidade da aventura golpista.

Acima de tudo, poderia ter denunciado o governo brasileiro por apoiar os aventureiros da oposição e o intervencionismo externo, ao invés de usar sua influência para estimular a pacificação do país vizinho.

Golpistas anunciaram animados que realizaram um encontro com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, para “definir ações contra a ditadura de Maduro”, pouco antes da crise estourar. O encontro foi com Júlio Borges, Antonio Ledezma e Carlos Vecchio. Os três são radicais, sendo Ledezma um líder histriônico de um partido há anos inexpressivo no campo eleitoral e Vecchio coordenador do Voluntad Popular, que agora foi escolhido como representante de Guaidó em Washington. Ledezma estava na prisão por “conspirar com os EUA para derrubar o governo” (bom, provavelmente só começou a conspirar depois que fugiu, não é mesmo?)

O filósofo já imaginou que, se o Brasil entrar em estado de guerra, a nossa Constituição permite a aplicação da pena de morte? Fora todas as outras consequências no ambiente interno.

Safatle preferiu fazer apenas mais um texto de intelectual denunciando a “falência do populismo”, para dizer que não gosta de ninguém e que gostaria de coisas bonitas saídas do mundo da imaginação. Nem o PT, participante do jogo eleitoral, foi tão inconsequente.

Talvez “certos setores da esquerda nacional” só estejam mais preocupados com uma intervenção imperialista na América do Sul. Guaidó não só fez uma manobra questionável ao reivindicar a presidência depois das eleições, mas assumiu uma postura iminentemente belicista de convite a um ataque estrangeiro conduzido pelos Estados Unidos, “autorizando” a entrada de navios ianques em águas venezuelanas.

O filósofo convoca nossa imaginação, mas é difícil de usar a imaginação debaixo de bombas e no meio da sinfonia infernal da crepitação metálica dos fuzis automáticos. Nessas horas, o cérebro se dedica a humaníssima tarefa de não morrer.

É mais difícil ser intelectual nas condições de guerra, ser criativo. Falo por experiência própria, dado que reconheço meu fracasso em produzir nas condições desfavoráveis da Guerra Ucraniana.

Vida ou morte. No fundamental, é esta dualidade que está se colocando para várias forças políticas venezuelanas, criando uma situação que beira ao insustentável e que leva os nossos intelectuais a discutirem aporias enquanto nosso continente beira a uma guerra destruidora. A esquerda brasileira, infelizmente, sequer compreende que golpe é guerra e insiste em projetar as questões em termos ideológicos, como diferenças programáticas, discursivas, narrativas.

A Venezuela está experimentando a verdade de que, em última instância, a política é conflito militar.

É uma situação de poderes constituintes em que diferentes forças políticas reivindicam o reconhecimento internacional e disputam o monopólio da violência. Acima desse retrato nacional, existe uma configuração global do conflito.

Em 2002, cérebros ianques coordenaram para um golpe de estado coincidir com manifestações de massa contra Chávez, golpe que contou com a participação direta de militares da alta cúpula e a não-oposição de outros. O jogo só virou quando o povo, principalmente dos barrios, das favelas, foram em massa para a rua defender a legitimidade Hugo Chávez, o que abriu espaço para a ação de unidades militares lealistas e coincidiu com o desagrado que o golpista Carmona causou nos militares que até então consentiam ou posavam de “neutros”.

Se Safatle quisesse fazer jus ao título do seu artigo e descrever um país em colapso, explicaria os pormenores deste conflito, ao invés de fazer um discurso ideológico sobre o que a esquerda deveria fazer no continente. A tertúlia venezuelana atualmente é na base do fogo.

Já em 2005, segundo Harold Trinkunas², atores políticos e eleitores venezuelanos começavam a ver a polarização política como ameaça existencial mútua – como uma inimizade que a qualquer momento poderia descambar em guerra civil. O livro Venezuela Speaks! contém relatos que não são difíceis de ouvir em Caracas, com membros do Centro Cultural Simon Rodriguez narrando as perseguições, castigos e desaparecimentos da época do Punto Fijo, quando os partidos AD e COPEI nomeavam chefes civis responsáveis por reprimir paróquias locais, aparelhando também a Guarda Nacional, a polícia e a inteligência militar.

Coisa parecida ouvimos de professores universitários da Universidad Simón Rodriguez, que também condenavam Maduro por fazer acertos com grandes monopolistas e velhos oligarcas como os donos da Polar (o que também nos foi narrado por um jovem engenheiro de origem humilde, que já perdia simpatias pelo chavismo, apesar de ser mais do tipo apolítico), mas temiam a oposição mais do que tudo.

Esquerdistas foram mortos e perseguidos durante muito tempo na democracia do Punto Fijo. Muitas pessoas da política de esquerda e das favelas ainda se recordam do Caracazo, mais recente, se recordam dos assassinatos, dos desaparecidos, do exército saqueando as favelas e punindo os moradores.

Para alguns, é evidente que por morarem em comunidades historicamente marginalizadas, eles não se importam de receber comida pelos CLAPs, por um sistema assistencial, não se importando com a crise de abastecimento no mercado comum por se recordar de passar fome nos anos 90 (ou antes), não conseguindo comer ou consumir nada de toda maneira (outros, no entanto, se lembram da explosão de consumo do período Hugo Chávez e ressentem a atual crise).

Conhecemos simpatizantes da oposição totalmente receosos de pisar em áreas chavistas. Conhecemos chavistas repletos de medo de ser incendiados por guarimberos oposicionistas (como fizeram com pessoas inocentes no meio de 2017). Visitamos também um centro cultural que foi atacado e completamente incendiado por guarimberos, oposicionistas radicais.

A antecipação de violência é real.

Também reconheço uma espécie de fracasso nessa viagem da Venezuela, o fracasso da insistência de fazer jornalismo com limitação de recursos. Nossa falta de dinheiro não nos impediu de aprender algumas coisas, que sempre prezamos por passar para nossos leitores-associados – no caso venezuelano, a de não decretar sentenças absolutas a partir de nossos cumes ideológicos ou cadeiras universitárias.

Nossa América é um campo de batalha, não um auditório.

Notas:

¹Tomei a liberdade de usar o termo brasileiro para me fazer mais claro, sem confusões.

² “Crafting Civilian Control of the Military in Venezuela – A Comparative Perspective”, The University of North Carolina Press, 2005.