Ucrânia: desejos traídos ou golpe de casta?

por Pedro Marin | Revista Opera

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Em 21 de novembro de 2013, na Praça da Independência, em Kiev, manifestantes se reuniam para protestar contra a decisão do governo ucraniano de se aliar economicamente à Rússia, ao invés da União Europeia. Três meses depois do começo do movimento que ficara conhecido como Euromaidan, em 22 de fevereiro de 2014, o então Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovitch, era deposto inconstitucionalmente, cerca de um ano antes das próximas eleições.

Yanukovitch foi substituído por Arseniy Yatsenyuk, ex-Ministro da Economia e das Finanças durante o Governo Yushchenko, e personalidade importante nas manifestações.

Yatsenyuk é pai da fundação OpenUkraine, uma instituição que tem entre seus parceiros a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o Departamento de Estado Americano, o NED (National Endowment for Democracy) e a International Renaissance Foudation, de George Soros.

Ainda no começo de fevereiro de 2014, vaza uma conversa telefônica entre Victoria Nuland, Secretária de Estado Americano para questões da Europa e Eurásia, e Geoffrey Pyatt, Embaixador dos EUA na Ucrânia. Na conversa, Arseniy Yatsenyuk é apontado como favorito para liderar o Governo.

Finalmente, em 25 de maio de 2014, ocorrem as eleições ucranianas. O escolhido para a presidência é Petro Poroshenko, um grande magnata do chocolate e dono do canal de televisão 5 Kanal. Arseniy Yatsenyuk coincidentemente assume como Primeiro-Ministro.

Enquanto tudo isso ocorria em Kiev, no Leste e no Sudeste da Ucrânia a situação se degradava. Grupos fascistas e neonazistas que haviam se unido às manifestações do Euromaidan destruíam sedes de partidos de esquerda, espancavam militantes e, finalmente, em 2 de maio, pelo menos 42 pessoas foram queimadas vivas pelos fascistas, dentro de um sindicato em Odessa. O “Massacre de Odessa”, como ficou conhecido o episódio, acendeu ainda mais a luta no Leste e Sudeste.

A questão da corrupção, levantada durante o Euromaidan, foi jogada na lata do lixo da história. No lugar de soluções, o que os ucranianos tiveram como resposta foi um novo governo formado por velhas personalidades políticas, estrangeiros, ex-funcionários do Departamento de Estado dos EUA e amigos próximos de grandes magnatas.

De acordo com um censo de 2001, o número de ucranianos étnicos no país é de 77,5%. Outros 17,2% são russos étnicos. No Leste e Sudeste da Ucrânia, boa parte da população é formada por russos étnicos.

Além disso, apesar das regiões Leste e Sudeste no geral terem médias salariais melhores do que as do Oeste, a vida nelas é pior. São nessas regiões onde se concentra o coração econômico-industrial da Ucrânia, e nelas a expectativa de vida é menor, enquanto as taxas de óbito são maiores.

As revoltas em Kiev contra a decisão de Yanukóvytch bateram de frente com o desejo da maior parte dos ucranianos. Uma pesquisa feita em 2012 pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) teve 37% dos entrevistados a favor de melhores relações econômicas com a Rússia. 27% preferiam a Europa, e 26% consideraram importante manter relações econômicas com os dois blocos.

Evidentemente, houveram variações de região para região. Em Kiev, 51% estavam a favor das relações com a Europa, e em todo Oeste, o número ia para 57%. Já na Crimeia, 71% disseram querer melhores relações com a Rússia. Em todo o leste, o número foi de 53%. Na região central da Ucrânia, por sua vez, 37% escolheram a Rússia, contra 23% favoráveis ao Euro.

Outro dado fundamental levantado pela pesquisa é a porcentagem de confiança em líderes. Enquanto 59% dos entrevistados afirmaram ter pouca ou nenhuma confiança no ex-Presidente Viktor Yanukovytch, 64% disseram o mesmo sobre o atual Primeiro-Ministro, Arseniy Yatsenyuk. O líder do partido de ultra-direita “Svoboda”, Oleh Tyahnybok, outro personagem que aparecia em cima de carros de som durante o Euromaidan, tinha 18% de aprovação.

O que levaria a uma mudança tão abrupta?

Existem várias hipóteses para responder a essa pergunta que podem, inclusive, se somar.

A primeira delas, e a mais óbvia, é de que o Euromaidan não foi um movimento representativo da maior parte da sociedade ucraniana. Essa hipótese se sustenta no trabalho “Quem eram os manifestantes do Maidan?”, da pesquisadora Olga Onuch.

Olga afirma em sua pesquisa que as maiores manifestações ocorreram em Kiev e em Lviv, no Centro e Oeste da Ucrânia. Na pesquisa, a maior manifestação citada teve cerca de 800 mil participantes. A população ucraniana, por sua vez, corresponde a 45 milhões de pessoas. De acordo com essa pesquisa, a maior parte dos manifestantes era de classe-média, e não tinham tido experiências com movimentos sociais antes.

A segunda hipótese é a de que o desejo dos manifestantes tenha sido traído. Essa hipótese também se confirma no trabalho de Olga: “Aqueles entre 30 e 50 anos (o maior grupo) se focavam mais no desejo de uma ‘segurança econômica’ e na chance de viverem numa Ucrânia que fosse uma ‘democracia europeia normal’”. Essa hipótese também se confirma na pesquisa da USAID, que demonstrava que a confiança dos ucranianos em algumas figuras políticas que hoje ocupam o governo chegavam a ser menor do que em Yanukovitch.

Ao invés disso, o que ocorreu desde então foi a total desvalorização da Hryvnia (moeda ucraniana), o crescimento e fortalecimento de grupos fascistas, o nepotismo político na distribuição de Ministérios, o início de uma guerra que, até fevereiro, deixou mais de 6 mil mortos, e o entreguismo completo, feito em forma de empréstimo pelo Fundo Monetário Internacional e os EUA.