SonyLeaks: as histórias que importam (ou: como a imprensa troca geopolítica por fofoca)

por Pedro Marin | Revista Opera

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Recentemente foram vazados milhares de emails e documentos pertecentes ao estúdio americano Sony Pictures. Os emails, publicados no site Wikileaks, obviamente conquistaram a atenção da imprensa: a Folha de São Paulo, por exemplo, publicou, depois de ter analisado as mensagens que contém a palavra “Brasil”, uma série de acontecimentos.

Entre estes figuram as conversas do cineasta brasileiro José Padilha com executivos sobre o filme “Robocop”, as análises da Sony em relação às preferências do público brasileiro, e um email no qual um funcionário compara a Presidenta Dilma Roussef aos bolcheviques, em ocasião da aprovação do Marco Civil da Internet.

Todas essas histórias, no entanto, não importam.

O vazamento dos emails da Sony ocorreu em decorrência de um ataque do grupo “Guardians of Peace”, em novembro de 2014. Alguns dias depois, a imprensa americana começou a especular em relação ao motivo do ataque. Da especulação veio a conclusão: o ataque partiu dos norte-coreanos, incomodados com o lançamento do filme “A Entrevista”, no qual dois jornalistas se envolvem em um plano para matar o Presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-Un.

Sony e a Coreia do Norte

O caso esquentou a relação política entre Washington e Pyongyang. Obama defendeu a Sony, enquanto a mídia e o FBI incriminavam a República Democrática Popular da Coreia pelo ataque.

No meio do caos instalado, algumas vozes divergentes começaram a aparecer; entre essas estava a de Marc Rogers, diretor de segurança da maior conferência hacker do mundo (DEFCON) e Chefe de Pesquisa em Segurança da CloudFlare, que disse em artigo em dezembro de 2014:

“[…] O que eles [o FBI] estão dizendo é que endereços de internet achados depois do ataque à Sony Pictures são endereços “conhecidos”, que já foram usados pela Coreia do Norte em outros ataques virtuais.

Para especialistas em segurança cibernética, a ingenuidade dessa afirmação implora por crença. Nota para o FBI: Só porque um sistema com um endereço IP específico foi usado em um crime virtual isso não significa que de agora em diante toda vez que você vir esse endereço IP você possa ligá-lo ao crime virtual. Além disso, enquanto algumas vezes os endereços IP podem ser ‘permanentes’, em outros casos eles duram somente alguns segundos.”

Em 20 de junho, Kim Myong-chol, diretor executivo do Centro para a Paz Norte-coreana-Americana, e um suposto porta-voz não-oficial do Governo, disse que “há uma ironia especial nessa trama, visto que ela mostra o desespero do governo e da sociedade americana […] Um filme sobre o assassinato de um líder estrangeiro espelha o que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque, Síria e Ucrânia.”

O que salta aos olhos é que, ainda em 18 junho de 2014 (portanto, cinco meses antes da invasão, e alguns dias antes da declaração de Myong-chol), o CEO da Sony, Michael Lynton, trocou uma série de emails com Bruce W. Bennett, funcionário do centro de pesquisas da Rand Corporation.

Bruce tem um passado longo em relação à Coreia:

“Eu fiquei no Japão durante dois anos (1973-1975) como um missionário Mormon, aprendendo a língua […] Eu trabalhei para ou com o governo japonês várias vezes nos últimos anos. Eu comecei a trabalhar na Coreia [do Sul] em 1989, sob pedido do Pentágono, e fiz contatos no lado coreano porque meu padrasto foi professor na Universidade Nacional de Defesa dos EUA, [na Coreia do Sul]. Desde então, eu viajei mais de 100 vezes à Coreia, sendo minha última viagem no começo de maio, quando eu aconselhei a 2ª Divisão de Infantaria e conversei com pessoas do alto escalão das Forças Armadas da República da Coreia sobre como deter a Coreia do Norte e assuntos relacionados”, diz Bruce Bennet em um dos emails.

Não há como saber, com base nos emails, o que exatamente a Sony buscava ao contatar o especialista. O que eles revelam é que os termos das conversas eram confidenciais, e envolveram funcionários do alto-escalão do governo americano: “Por conta da confidencialidade requerida aqui, [essas anotações] não foram revisadas por meus colegas”, diz Bennet em um dos emails. Em outra mensagem, Bennet sugere o contato com o Embaixador Bob King, enviado especial dos EUA para Direitos Humanos na Coreia do Norte.

Em um email de 25 de junho, o CEO da Sony diz ter conversado com outro membro do governo: “Falei com alguém de posição muito elevada no Estado (confidencialmente). Ele concordou com tudo o que você tem dito. Tudo. Vou te informar quando conversarmos”.

Hollywood contra a Palestina

Em outra série de emails, direcionada a diversos atores, produtores, empresários e diretores de Hollywood, discute-se a questão da Palestina e o estado de Israel. Os emails, direcionados a figuras que seriam pró-Israel, buscam dar resposta às críticas feitas por atores e diretores contra o posicionamento do país em relação à Palestina, e revelam as redes de poder dos bilionários.

“Eu inclui [na lista de emails] Kobi Marom, um Comandante aposentado do exército israelense. Kobi fez a gentileza de prover a mim e a minha família um tour de Jeep durante nossa viagem a Israel, em junho. Ele também nos levou a uma base do exército na fronteira de Israel com a Síria, uma área que tem aparecido nas notícias ultimamente. Difícil imaginar que as “crianças” que nós encontramos na base provavelmente estão envolvidos no combate contra nossos inimigos.

Kobi trabalha estreitamente com o “Amigos das Forças Defensivas de Israel (FIDF)”, que necessita de doações […] Esse diálogo é muito necessário, mas nós também devemos ir a fundo na ajuda à constante luta pela sobrevivência de Israel”, diz George Perez, presidente da Jaoli Entertainment, em um dos emails.

Em outro email, Ryan Kavanaugh, produtor, CEO da Relativity Media, e 19º lugar na lista da Forbes dos mais jovens bilionários de 2013, diz:

“O que é mais preocupante são membros de Cannes por aí defendendo o boicote a qualquer coisa israelense ou judia […] Os estúdios e redes devem se juntar e boicotar Cannes. Se não o fizermos, estaremos mandando a mensagem de que outro holocausto é aceitável em Hollywood contanto que sejam negócios como sempre.”

Departamento de Estado e a propaganda terceirizada

Outra história de destaque, também ignorada pelos grandes veículos brasileiros, são os emails trocados entre um funcionário do Departamento de Estado americano e o CEO da Sony. Nos emails, Richard Stengel, um oficial do Departamento de Estado, pede a ajuda do CEO da empresa, Michael Lynton, para criar peças de contra-propaganda em relação à Rússia e o Estado Islâmico:

“Como você pôde ver, nós temos muitos desafios no que se refere a contrariar as narrativas do EI no Oriente Médio e as narrativas russas na Europa central e oriental […] E não é algo que o Departamento de Estado possa fazer por si só, de maneira nenhuma.

Seguindo com a nossa conversa, eu adoraria reunir um grupo de executivos da mídia que possam nos ajudar a pensar em melhores formas de responder a ambos os imensos desafios. Trata-se de uma conversa sobre ideias, sobre conteúdo e produção, sobre possibilidades comerciais. Eu lhe prometo que será interessante, divertido, e recompensador”, escreveu o oficial Stengel ao CEO da Sony em 17 de abril do ano passado.

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23 anos, é editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. Tem artigos publicados em sites como Truthout, Russia Insider, New Cold War, OffGuardian, Latin America Bureau, Konkret Media e Periferia Prensa. É autor de "Golpe é Guerra - Teses para enterrar 2016".