Como larvas que brotam da terra, surgiram, repentinamente, os homens das túnicas turvas nas dunas do Iraque. É o que faz parecer a cobertura midiática ocidental em relação ao Estado Islâmico: de uma hora pra outra, o grande inimigo global, capaz de destroçar cidades, deixou de ser a Al Qaeda, e novos inimigos surgiram no horizonte.

Há quem pense, no entanto, que o surgimento do EI não tenha sido tão repentino. Para jogar luz sobre o grupo, bem como sobre os reflexos de suas ações, entrevistamos o professor de Relações Internacionais da UNISINOS, Bruno Lima Rocha:

O que quer, e o que é o Estado Islâmico?

O Estado Islâmico tem origem como um racha da Al Qaeda, ele na verdade seria a continuidade da Al Qaeda no Iraque, mas com a autonomia do sheik al-Baghdadi, que se desvincula da linha sucessório e hierárquica dos herdeiros de Osama Bin Laden. Ele briga com o sheik al-Zawahiri e com isso ele ganha sua própria independência. O que quer o Estado Islâmico, ou alegadamente quer, é a construção de um califado, ou seja, um Estado com base na Sharia, na interpretação social da fé islâmica segundo uma doutrina conservadora e que não respeitaria as fronteiras estipuladas após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Essas fronteiras depois vão dar origem aos modernos estados no Médio Oriente e estados árabes em particular. Por exemplo: o Estado Islâmico que opera no Iraque, na região do Levante, que é a Grande Síria e o Monte Líbano, que depois do mandato francês vai ganhar o nome de Síria e de Líbano.

Então assim como a antiga Mesopotâmia, que é essa área de três províncias do antigo Império Otomano, vão ganhar o mandato britânico e os britânicos vão garantir a linha sucessória pra uma facção, um sub-clã do grande clã dos Hachemitas, que eram beduínos que os auxiliavam no mandato britânico na região. Assim se conforma os estados árabes, algumas tribos e beduínos vão recebendo a autonomia jurídica e política por parte da delegação dos britânicos e ingleses. O que querem os jihadistas do Estado Islâmico é construir um Estado onde o poder absoluto passe pela interpretação social da fé, e tem um teólogo que dirige essas pessoas, que é o sheik al-Baghdadi, que é um teólogo de bastante renome na região e que se politiza a partir da repressão, da presença dos EUA no Iraque. Ele vai preso para averiguação, passa cinco meses num campo de concentração, ele entra simpatizante em Abu Ghraib e sai fervoroso jidahista militante.

Assim surge a politização de al-Baghdadi e a aproximação dele com as forças sunitas que sobraram da derrota militar de Saddam Hussein, em especial ao último general do baralho de cartas que não fora capturado, e não foi capturado até hoje, que coordena a infantaria ligeira das forças do Estado Islâmico, que não são bons combatentes, por falar nisso, mas são muito cruéis e são muito convictos; então na superioridade numérica e bélica eles compensam o fato de seus soldados serem maus combatentes.

Uma coisa interessante que você disse é que o sheik al-Baghdadi veio de uma prisão resultante da invasão americana. Há um bom tempo tem quem diga que foi a ação militar americana que criou o Estado Islâmico – e aqui está incluso o ex-Diretor da Agência de Inteligência dos EUA, Michael Flynn. O que você pensa dessa afirmação?

Eu não tenho dúvida. Tem dois fatores bem concretos. O primeiro é o vazio de poder, porque a ação militar dos EUA na segunda guerra do Iraque e terceira Guerra do Golfo… há linhas de estudo que falam que a primeira Guerra do Golfo foi a guerra do Iraque, a segunda foi a guerra de Bush pai na invasão limitada do Iraque, pra recuperar o Kuwait e os campos de petróleo, e a terceira foi a tomada do Iraque e de seus campos de petróleo.

Mas quando a coalizão estadounidense toma o Iraque em 2003 eles se comprometem, de forma secreta, em reuniões feitas na Jordânia com altas autoridades do partido Ba’ath e do exército iraquiano, a preservar tanto o exército como o partido, e ao tomar conta de Bagdá, a única instituição estatal preservada é o Ministério iraquiano do Óleo e do Petróleo. Então nesse vazio de poder, e nesse abandono, isso em um território que é um país fictício e de culturas sectárias, onde a forma de ascensão era o pertencimento ao partido ou a facção militar de governo, proibir a presença de ex-membros do Partido Baath no governo provisório iraquiano é relegar as pessoas à própria sorte.

Então sim, eu concordo. Antes de os Estados Unidos invadirem o Iraque, o país já não tinha mais armas de destruição em massa, e tampouco havia a Al Qaeda no Iraque. Após a invasão, passou a haver a Al Qaeda no Iraque, e seu racha, o Estado Islâmico, e também a desconstituição da sociedade iraquiana – que já não era grande coisa, aí virou coisa nenhuma, esse é o problema. A instabilidade na região é no mínimo uma previsibilidade do que possa ocorrer, e não havendo instituições mínimas, a luta sectária é eminente. A única força que propõe algo que vai além das formas de convívio ou absolutamente sectárias ou teocráticas, [e fora dos] arranjos feitos pela potência francesa ou inglesa na região, é o confederalismo democrático do Curdistão.

Falando no Curdistão, o governo turco, sob o pretexto de combater o EI, recentemente lançou uma ofensiva contra os curdos. Não é contraditório que um governo que planeje combater os jihadistas combata também a principal força que luta contra eles?

Olha, eu não quero parecer panfletário, mas o que te falo eu escrevo publicamente, pelo menos em redes sociais, ou quando me perguntam, até pra veículos grandes. O governo turco alega combater o Estado Islâmico mas no meu entendimento o que o governo turco quer fazer realmente é retirar as possibilidades de vitória militar e por consequência vitória social no norte da Síria ou no Curdistão sírio, e pra isso ele também quer, de qualquer maneira, combater a existência da esquerda do Curdistão – que não é só a esquerda curda – que ultrapassou a barreira de votos no Parlamento turco e agora tem condição de se expressar publicamente.

Pra isso, eles precisam criar duas situações bastante concretas. Uma: acabar com a reserva estratégica do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão], que fica nas montanhas curdas – aliás o provérbio curdo é este; “os curdos não têm nenhum amigo, a não ser suas montanhas” – e atacando as reservas do PKK nas montanhas do Curdistão iraquiano ou na fronteira turca (antigo Iraque) que agora pertence a uma soberania de fato do governo regional curdo, que está sob o comando de um clã corrupto, o clã dos Barzani, do Partido Democrático do Curdistão, que é um partido irmão do AKP (Partido Islamita Turco) – ou seja, há uma aliança partidária entre Barzani e Erdogan, pra simplificar – eles conseguem fortalecer a direita do Curdistão, fazer graça para as empresas de petróleo, que estão investindo no Curdistão iraquiano, atacar a reserva estratégica do PKK e ao mesmo tempo alegar pra OTAN que eles [as Forças Armadas turcas] querem operar criando uma faixa exclusiva, uma faixa de tamponamento militar – uma buffer zone – de cem quilômetros entre a fronteira da Turquia e a fronteira do Estado falido da Síria.

Ao aplicar essa faixa de fronteira sob controle turco, acabou Rojava, acabou a revolução social curda. Então eles estão forçando uma guerra em larga escala que pode gerar inclusive uma guerra civil dentro da Turquia. O PKK tem uma trégua que poderia avançar para um acordo de paz, democratizando o Estado turco, garantindo a autonomia regional para o Curdistão dentro da Turquia. Radicalizando as posições das Forças Armadas da Turquia – que são membro da OTAN – a tendência é um conflito em larga escala.

Às vezes passa-se a impressão de que o EI tem um ódio especial contra os curdos, dada a crueldade perpetrada em Rojava. Esse conflito é realmente contra os curdos, ou com o fato de eles se organizarem de uma maneira alternativa – por exemplo promovendo direitos às mulheres?

Bom, vamos por partes. Primeiro, existe um conflito de fato entre os curdos como um todo, sejam eles oligárquicos, como os que estão sob o comando de Barzani, sejam eles socialistas, como os que estão sob a hegemonia do PKK, com o Estado Islâmico. Agora, o Estado Islâmico não é um califado árabe – ele é um califado islâmico arabizado, há combatentes não-árabes no Estado Islâmico, isso é muito importante falar. Então não é pelo fato de os curdos não serem árabes.

Essa luta sectária, por exemplo, existe entre turcos e curdos; os turcos não reconhecem a existência cultural dos curdos, ou árabes e curdos; pelo fato de os curdos não serem árabes nem arabizados, eles são considerados – ou eram, na Síria da família Assad, cidadãos de segunda categoria, e no Iraque, de Saddam Hussein, de terceira categoria… Realmente era uma dificuldade muito grande.

O que eu acho que ocorre entre o EI e a esquerda do Curdistão é que as propostas de sociedade da esquerda do Curdistão são a negação completa do próprio Estado Islâmico, como por exemplo o ecumenismo religioso, a questão das mulheres; a luta feminista, a emancipação da mulher, o fim do pátrio poder, [o fato] dos postos eletivos serem revogáveis a qualquer momento, os cargos executivos serem sempre feitos por homens e mulheres e por distintos grupos étnicos-culturais, ou seja, se a gente traduzir pro Ocidente, é uma relação inconciliável, inegociável entre nazifascistas e anarquistas, eu diria isso. Pra dimensão do Oriente Médio seria isso. O confederalismo democrático é uma versão de uma extrema-esquerda democrática pro Oriente Médio, sua própria versão, contra o wahhabismo salafita do Estado Islâmico, que é o pior do pior numa região que já tem um universo de ideias muito ruins.

Qual o papel do barbarismo nos vídeos do EI? Sabemos que eles têm fins de propaganda, mas essa propaganda é efetiva?

Olha, pelo visto sim. Porque ao mesmo tempo que deixa o mundo de cabelo em pé – e realmente deixa – não é o caso de relativizar que “ah, veja bem, as potências coloniais tinham campos de concentração”, como posso dizer? Não há termo de comparação para esse tipo de crueldade, porque parece que estamos vendo um filme, na cronologia histórica do Ocidente, equivalente à Idade Média, dos suplícios medievais. É muito importante para um grupo que quer gerar o terror societário, ele ser também uma forma de certeza, porque veja bem: pessoas desesperadas, famintas, famélicas, e com um pensamento muito conservador e pobre, humilde, mas conservador; podem ver nestas pessoas a sua única saída, ou pelo menos a sua única forma de sobrevivência.

E também há uma dupla propaganda, porque o que eles prometem pros mujahidins [combatentes] é outra coisa, é uma vida de luxo. A propaganda que circula na França é uma vida de luxo: “venha tomar banho de piscina em pleno deserto”, “seja bem remunerado”, “monte o seu pequeno harém”, “se você for martirizado você vai pro paraíso, [onde] tem quarenta virgens te esperando”… Ao mesmo tempo, eles manifestam, mediante aqueles vídeos horrorosos, aquele barbarismo via web, a materialidade de suas palavras, e isso é muito relevante para a política. Isso em castelhano tem o nome de “consecuencia”. E essa consequência aumenta o grau de certeza das populações sobre as quais eles estão disputando o controle. Enquanto choca o mundo, por incrível que pareça, aumenta o número de fiéis, o nível de jovens desesperançados, por exemplo de comunidades islamitas ou islamizadas da Europa – o que acontece muito – e também [há um efeito sobre] seus financiadores… “eles não estão brincando”.

O EI também recebe pessoas que estão muito acostumadas a viver em situações de crueldade; a gente sabe que quando se desumaniza o preso, quando ele fica em uma sala em que cabem 15 e moram 60, e o cara fica de cara pro boi, naquele buraco da vala, onde os presos defecam, no fundo da cela, ele aprende a matar ou morrer até aderir à facção: agora imagine a Arábia Saudita liberando presos sociais, ou presos por crimes comuns, como eles liberam, dando a opção deles irem pra Síria e lutarem junto com o Estado Islâmico. Tem um efeito multiplicador da perversidade e da geração do caos, e isso é friamente calculado: eles não são loucos. Pode ser uma demência ideológica, mas eles não são loucos de fazerem algo sem refletir nas consequências, não, é pior: eles refletem nas consequências. Tanto é que o decreto, a fátua, o decreto religioso do al-Baghdadi veio primeiro do que a ação desumana, cruel e bárbara que eles estão cometendo pela internet.

Como o EI se mantém hoje, financeiramente?

Fazem uns quatro ou cinco meses, eu observei no Departamento do Tesouro, site oficial do governo dos EUA, que o Tesouro dos EUA localizou quinze grandes financiadores do Estado Islâmico. São autoridades religiosas ou fundações de amparo, do tipo “Fundação de Amparo e Caridade Muçulmana”, e esses financiadores se localizavam na Indonésia e nos países das monarquias do golfo pérsico, em suma: elite da Indonésia, sauditas, catares, Emirados Árabes, Omã, Bahrein… os mesmos que financiam a Al Qaeda. Há uma disputa por financiamento.

Uma outra possibilidade, que é muito comentada, é a venda de petróleo não-refinado, só extraído, em forma crua, como contrabando. Isso geraria uma receita bastante alta, já chegaram a falar que seriam 2 bilhões de dólares por mês. O que é muito para um grupo, e é muito pouco para a venda de petróleo. Mas aí a gente fica pensando: como é que se compensa esse dinheiro? Como fazem com que essa negociação – que certamente não é em dinheiro vivo – como é que compensa isso? Tem de ter relações de grupos de inteligência dos países árabes por trás, não tem outra explicação.

Assim como a gente também tem de reconhecer que aqueles sociedades daqueles grupos tribais sunitas têm uma economia de sobrevivência, têm uma economia de subsistência, que ajuda também a fortalecer o Estado Islâmico. E na região, infelizmente – para a desgraça dos povos do Oriente Médio, árabes ou não-árabes – a existência de armamento é endêmica. Tem tanto armamento no Oriente Médio como tem chinelo em uma praia brasileira. Infelizmente é verdade.

Então seriam estes fatores: a venda de petróleo por contrabando, o financiamento de grupos conservadores islamitas, que dividem sim o apoio à Al Qaeda e o apoio ao Estado Islâmico – e aí estão triangulando aparelhos de inteligência dos países que são de credo wahhabita, embora sejam aliados dos EUA, a começar pela própria Arábia Saudita, pelo Catar – e também tem o apoio direto ou indireto de populações pobres mas conservadoras, que conseguem aportar recursos para esse grupo wahhabita.

No último dia 3 a Rússia divulgou um plano para combater o EI, que inclui uma frente única com o Iraque, a Síria e os curdos. O que você pensa deste plano?

Eu fico muito temeroso quando falam “os curdos”. Eu não posso imaginar que a diplomacia do Kremlin não saiba que existem pelo menos dois partidos curdos que são rivais e já guerrearam por cinco anos – e um deles é aliado Ocidental. Mas eu entendo que, caso sejam respeitadas as fronteiras ou divisões de autonomia territorial do Curdistão, qualquer frente anti-Estado Islâmico é bem-vinda. E eu também entendo que uma solução razoável para a questão de Rojava já está em sua própria constituição, que diz que o Curdistão oeste é parte indivisível e inseparável do Estado sírio – desde que este seja um Estado confederal. Então o combate ao EI necessariamente implicaria em uma assembléia nacional constituinte, pelo menos na Síria.

Mas não quero dar aula de geopolítica e ser inocente: sinceramente, seria uma forma da Rússia se legitimar, de participar do esforço de seus aliados da região – que hoje é o Irã, o Irã foi rival da União Soviética, rival da Rússia, mas hoje é aliado – e do Irã para os seus grupos satélites e seus governos aliados, seja até por lealdade religiosa, como é caso da minoria alauita da Síria que é um ramo do xiismo – um ramo até tranquilo do xiismo por falar nisso.

Então também é uma forma de fazer uma disputa; já que a OTAN forma uma coalizão com monarquias árabes produtoras de petróleo e de base sunita, alegando combater o Estado Islâmico, a Rússia, como potência rival na região, faz o mesmo com seu campo de aliados. Eu entendo que é isso, uma disputa por combate contra o EI. Só tem uma diferença, essa diferença tem de ser ressaltada: não é que os aliados da Rússia sejam melhores ou piores no sentido humanitário, mas é que o xiismo é previsível, e o sunismo wahhabita é imprevisível. E o sunismo wahhabita é a ideologia de fundo das monarquias árabes produtoras de petróleo, então também é uma forma de reforçar o conflito entre sunitas e xiitas, e em última instância entre a Arábia Saudita e Turquia, aliados dos EUA, e o Irã, aliado da Rússia.