A Folha de S. Paulo, ao que parece, tem memória curta. Invoca a memória do cinegrafista Santiago de Andrade em “Fascistas à solta”, editorial publicado nesta sexta-feira (2), para atacar os manifestantes que em resposta à repressão da Polícia Militar em São Paulo reagiram, quebrando bancos e atacando o prédio do pasquim.

Esqueceram-se, no entanto, de sua própria repórter, Giuliana Vallone, que foi baleada no olho pela Polícia Militar em junho de 2013 (poucas horas após o pasquim em questão soltar editorial pedindo a “retomada” da Paulista), ou do fotógrafo Sérgio Silva, que não só perdeu a visão de um olho para as mãos da PM, como também foi considerado culpado recentemente pela perda de sua própria visão.

Ocorre que não há de se recorrer a 2013 para tratar da repressão empregada hoje pelo governo Alckmin. Na última quarta-feira a estudante Deborah Fabri, de 19 anos, também perdeu a visão, graças à chuva de bombas de efeito moral que a PM fez cair sobre a manifestação. Uma polícia que ataca uma manifestação pacífica e cega uma estudante de 19 anos contribui com o caos, não o combate.

No penúltimo parágrafo do editorial, no entanto, a Folha toma uma postura muito mais preocupante que, na prática, equivale a um chamado para a aplicação da Lei Antiterrorista: “Grupelhos extremistas costumam atrair psicóticos, simplórios e agentes duplos, mas quem manipula os cordéis? O que pretendem tais pescadores de águas turvas? Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei.”

Enfim, o pasquim demonstra que não sofre somente de amnésia, mas também de astigmatismo, ao comparar o governo Temer com a República de Weimar e os manifestantes com as tropas da SA. Esquecem-se que, como Hitler, Temer é quem apostou na instabilidade do Brasil para chegar ao poder. Esquecem-se também que cabe aos manifestantes pró-impeachment a alcunha fascista; foram eles que atacavam qualquer um que vestisse vermelho, são eles que guardam armas brancas em seus acampamentos, são grupos deles que pedem a volta da ditadura militar.

A nós, resta não esquecer o editorial do pasquim mencionado em setembro de 1971: “Um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama.”