A assinatura do Acordo Final entre o governo colombiano e as FARC-EP na última segunda-feira (26) foi marcada por uma cena que traduz o horror da guerra. Enquanto o chefe máximo da insurgência, Timoleón Jiménez, discursava – momento histórico em que talvez pela primeira vez as FARC tenham voz – um avião de guerra fez uma demonstração de falha do cerimonial. Timochenko ficou segundos em silêncio observando as acrobacias, e depois completou: “pelo menos veio saudar a paz e não jogar bombas”.

O episódio foi constrangedor não só pela interrupção da fala, como também pelo desfile ensurdecedor de uma arma de guerra no meio de um evento onde a estrela era a paz. Para quem viveu bombardeios, o ruído do avião pode ser aterrador, e é algo que desde o cessar fogo bilateral os combatentes não escutam. A rotina deles mudou bastante e a palavra que mais utilizam para descrever esse momento novo é “liberdade”.

Ramiro já está na guerrilha há sete anos. Diz que seu interesse surgiu ainda na adolescência ao ter contato com guerrilheiros e ler sobre a revolução. A família queria que ele fosse seminarista, mas ele logo se candidatou a integrar as fileiras das FARC-EP. “Os comandantes não queriam me aceitar, me deixaram pensando sobre o assunto por 15 dias em uma casa”, conta.

Neste tempo em que está na guerrilha já participou de diversos combates – ou “ordem pública”, como os chamam – e carrega memórias dos tempos mais difíceis. “Tenho um estilhaço de granada no braço”, destaca. Aos 23 anos, integra a Frente 14 do Bloco Sul, e lamenta a morte de companheiros em um combate de mais de quatro horas contra o exército. “Meu amigo foi atingido e eu tive que deixá-lo. O mais duro é que ele era como um irmão”, justifica.

Combatente do Bloco Sul das FARC-EP. (Foto: Mariana Ghirello / Brasil de Fato / Revista Opera)
Combatente do Bloco Sul das FARC-EP. (Foto: Mariana Ghirello / Brasil de Fato / Revista Opera)

Os diálogos de paz se iniciaram oficialmente em setembro de 2012, mas se engana quem pensa que esses quatro anos foram marcados apenas por combates de ideias. As negociações aconteciam em meio a enfrentamentos e ações militares pelos dois lados. “Estávamos sempre de guarda e muito atentos aos ruídos dos aviões exploradores o tempo todo”, diz Ramiro ao contar o que era sua vida antes do cessar fogo bilateral.

A vida era escura e silenciosa. A partir das 18h nada que produzisse som, luz ou calor era permitido. As habilidades adquiridas são utilizadas até hoje; eles caminham por todo acampamento sem precisar de lanternas. “Acostuma a vista”, comenta Ramiro. Mas o que ele mais sentia falta era de poder ouvir rádio. Durante a noite, o ruído de pássaros voando assustados os despertava quase como um aviso de que havia gente por perto. “Acordávamos, colocávamos o jaleco de balas e nos sentávamos na ‘caleta’ a esperar”, conta.

Sem cores

A rotina da guerra também não permitia roupas coloridas ou peças que tivesse algum brilho. “Não podíamos estender roupa”, comenta Antônio, integrante da Frente 15 do Bloco Sul. “Também era um risco rir ou falar alto, e cortar madeira”, explica o guerrilheiro. Os deslocamentos não podiam ser feitos em moto ou carro, o que transformava a vida em longas caminhadas.

“Agora a gente tem mais tempo para estudar, podemos jogar futebol e compartilhar mais com os companheiros”, destaca ele. Os exercícios físicos voltaram à rotina bem como os tempos de descanso. A vida agora é não tem cronômetro, se come sem pressa e o bater de pratos já os aproxima da vida civil. Desde os 12 na guerrilha, Antônio diz que sempre que é permitido mantém contato com a família.

Jaison, combatente mais experiente, pertence a Frente 44 do Bloco Leste. Ele não teve a mesma sorte e se integrou à guerrilha quando ainda era adolescente, depois de quase toda sua família ter sido assassinada por paramilitares. “Nunca ficávamos muito tempo no mesmo lugar [antes do cessar fogo]”, disse. O lugar onde ficava sua “caleta” estava sempre com o chão varrido.

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Jaison, combatente da Frente 44 do Bloco Leste. (Foto: Mariana Ghirello / Brasil de Fato / Revista Opera)

“As ‘caletas’ ficavam mais distantes umas das outras e usávamos pedaços de botas velhas para amarrar as redes e não deixar marcas nas árvores”, explica. Nada que tivesse chips eram permitidos e tudo que entrava era revisado para evitar que qualquer coisa que emitisse ondas pudesse fazer com que bombas caíssem sobre suas cabeças. E era a obediência a estas regras que os mantinham vivos.

Ramiro resume: “agora a gente tem mais liberdade”, diz sorrindo e olhando para outros que comentavam entre si quais artistas estariam no palco naquela noite.

Dança durante show na 10ª Conferência Nacional Guerrilheira das FARC-EP. (Foto: Mariana Ghirello / Brasil de Fato / Revista Opera)
Dança durante show na 10ª Conferência Nacional Guerrilheira das FARC-EP.
(Foto: Mariana Ghirello / Brasil de Fato / Revista Opera)