Aparentemente eu não fui o único a concluir o mesmo. Em um artigo investigativo publicado na semana passada, Max Blumenthal chega na raiz do que é uma campanha bem moldada e executada de relações públicas em forma de causa humanitária, o que até tem lhe rendido ameaças anônimas.

O artigo tem uma conclusão simples: “The Syria Campaign” e “The White Helmets” são campanhas com um objetivo político especifico, e são financiadas por atores que têm parte no conflito.

São operações em grande parte financiadas com dinheiro da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) sob os auspícios do Gabinete de Iniciativas Transacionais e cuidadosamente planejadas e executadas pela empresa Purpose Incorporated em conjunto com sua empresa-irmã, a AVAAZ – hoje a maior porta-voz do chamado “intervencionismo humanitário” junto da sociedade civil internacional.

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Os “White Helmets” (ou Capacetes Brancos), que dentre as suas campanhas contam com uma de crowdfunding, asseguraram desde 2013 cerca de 23 milhões de dólares da USAID (cerca de 73,6 milhões de reais), o que é apenas uma pequena fatia dos US$ 339.6 milhões da agência que tem em sua missão oficial de “apoio de atividades que buscam uma transição pacifica para uma Síria democrática e estável”.

Os mesmos ainda asseguraram desde 2012 do Departamento para o Desenvolvimento Internacional através do UKAID, do Reino Unido, £15 milhões (cerca de 52,6 milhões de reais) em ajuda direta e treinamento para atividades de “busca e salvamento”. Assistência extra para serviços de relações públicas vem por meio do mesmo programa sob a designação de “ativistas online”, em um valor que entre 2012 e 2015 chegou aos £5.3 milhões (cerca de 18,5 milhões de reais).

Imagem: UK Foreign and Commonwealth Office, 1 de dezembro de 2015.
Imagem: UK Foreign and Commonwealth Office, 1 de dezembro de 2015.

Já a “The Syria Campaign” recebe fundos através da Asfari Foundation, do bilionário e diretor da gigante do petróleo britânica Petrofac Limited, Ayman Asfari, quem também é um dos principais patrocinadores financeiros e políticos da principal frente da oposição, a Coalizão Nacional Síria.

Filho de diplomata sírio, Asfari é também Conselheiro Sênior da Força-Tarefa para o Oriente Médio do “Atlantic Council”, think tank com conexões com a OTAN e o governo norte-americano, sediado em Washington.

Os grupos, que têm virado sensação entre correspondentes e ativistas online, declaram que são independentes, sem interferência estrangeira e que tem como objetivo levar ajuda humanitária e prestar socorros a todas as vítimas do conflito onde quer que seja.

Sendo essas premissas verdades, quem poderia se opor?

Mas, infelizmente, na guerra a verdade é de fato a primeira baixa.

O próprio aclamado documentário “Capacetes Brancos” lançado recentemente pela Netflix, embora bem produzido do ponto de vista visual e emocional, deixa mais perguntas do que respostas se feita uma análise fria de seu conteúdo.

Por que os Capacetes Brancos não operam fora da zona de controle da Jabhat an-Nusra (Frente Al Nusra)?

Onde estão os Capacetes Brancos em Fuaa’ e Kafraya, cidades sob cerco do “Exército Livre” há mais de um ano?

O que é feito das zonas atacadas pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, e que matam tanto quanto os ataques russos?

Por que a omissão do impacto da intervenção por parte da coalizão?
O que é feito das evidências que se amontoam de membros dos Capacetes Brancos que tomam parte direta no conflito armado?

O que está por trás da fabricação de evidências de armamentos utilizados em ataques do regime e russos?

O que é feito das evidências, que eu mesmo pude observar na Síria, sobre o papel do grupo no bloqueio à assistência humanitária da ONU em território controlado por rebeldes?

A questão acaba por lembrar o caso do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH). Fundado em 2006 por Rami Abdulrahman (pseudônimo adotado por Osama Suleiman), que deixou a Síria em 2000, e sediado no Reino Unido, a operação-de-um-homem-só era a grande vedete da imprensa nos primeiros anos do conflito, sendo citado na maior parte dos relatórios “independentes” e artigos investigativos como organização humanitária, apesar do mesmo não ser uma organização de direitos humanos e não ter qualquer base metodológica em seus relatórios, o que muito frequentemente originou números fraudulentos, atualizações de campo fabricadas e ganhos da oposição inflados.

A intenção aqui não é minimizar as vidas que eventualmente são salvas pelo referido grupo ou relativizar a luta e o sofrimento alheio, mas expor a estratégia de usar a tragédia humana para benefício de uma causa que não diz muita coisa em prol do povo sírio, para o controle do discurso através de uma chantagem emocional vulgar e maquiar uma revolução que não existe enquanto pede por uma intervenção militar altamente destrutiva.

Você não pode resgatar pessoas de escombros enquanto faz campanha para a criação de mais escombros e argumentar com princípios humanitários.

É a desgraça humana em forma de produto. A fetichização da miséria.

E é justamente por ter estado lá durante o último mês e poder presenciar quais são os impactos diretos e devastadores que essa propaganda tem na vida dos sírios presos nesse pesadelo, e por conviver e trabalhar com refugiados há dois anos onde vivo, que escrevo esse texto.

E por que isso é relevante?

É relevante porque alimenta o conflito.

Pelo simples fato de, cada vez mais, o debate sobre o conflito sírio estar sendo tomado e gerido por campanhas do tipo e, cada vez mais, meios que deveriam estar encarregues de um debate honesto, estarem engajados nessas mesmas campanhas.

E isso vale tanto para os campos da oposição, quanto do regime.

Uns mais sofisticados, outros menos.

Uns escondidos por trás de uma faixada democrática em um processo eleitoral que beirou o ridículo, outros escondidos atrás de uma capa de humanitarismo universal e imparcial enlatado como um reality show.

Um forte sintoma dessa tomada de narrativas é a relação da batalha de Alepo-imprensa-opinião pública, e nesse embate a imprensa tem pendido para um lado, deixando de fora qualquer resquício de transparência e objetividade no processo de informar.

Meios de comunicação, analistas, “ativistas”, todos em uníssono repetindo ad nauseam o que parece ser mais um script, um press release, sem qualquer tipo de contextualização ou profundidade.

Aliás, que parece não. É.

Uma das coisas que pude observar, e que foi um dos maiores desgostos da minha vida, quando estive recentemente na Síria, é que existe um “speed-dial” para os correspondentes que queiram consultar ativistas, e que nesse “speed-dial” estão sempre ativistas ligados a essas campanhas especificas, embora existam inúmeras outras ONGs e indivíduos sírios e estrangeiros realizando o mesmo tipo de trabalho diariamente dos dois lados da trincheira.

A orientação é seguir a bandeira dos midiáticos Capacetes Brancos, porque vende. Porque é a agenda oficial.

O.M* é um fotojornalista sírio e correspondente para uma das maiores agências de notícias operando no país. Durante uma conversa no campo de refugiados em Lattakia o mesmo me confidencia: “Já é difícil ter que lidar com as dificuldades do trabalho em meio ao conflito, e a pressão dos escritórios centrais para apresentar a história certa, do ângulo certo, só torna a situação mais difícil”.

É claro que os bombardeios russos e do regime estão matando civis, é claro que a situação é trágica, é claro que crimes de guerra estão sendo cometidos por todos os lados e é claro que investigações independentes devem ser realizadas e punições aplicadas.

Essa tem sido a condição em boa parte da Síria nos últimos 5 anos.

Termos como “genocídio”, “holocausto”, “cerco”, “catástrofe humanitária”, comparações como “Gaza/Alepo” e números e estáticas simplesmente inverificáveis têm sido jogados e repetidos a torto e a direito e são um desserviço à informação e, principalmente, àqueles que sofrem diretamente com o castigo da guerra.

Afinal, o que acontece em Alepo?

Considerada como a força motriz da indústria síria, Alepo é tida como de extrema importância para o regime e militarmente fundamental por parte dos rebeldes.

Sozinha, Alepo era responsável por mais de 70% das exportações sírias nas áreas têxtil e farmacêutica, e atendia boa parte do mercado interno para material de construção e manufaturados. Geograficamente, a cidade localizada na região noroeste do país tem importância por conta dos abundantes recursos hídricos, terras férteis e pelo potencial em ligar os bolsões rebeldes com território turco.

Alepo sempre foi uma cidade consideravelmente pró-regime, não só pela componente tribal, e a situação de destruição que se vê hoje é derivada diretamente de um processo de tomada por parte de forças rebeldes que ocorre desde 2012. Em 2013, durante a campanha rebelde para tomar Alepo, as próprias lideranças da oposição colocavam a cidade em algo como “70% pró-regime”.

Muito importante levar em consideração que a composição demográfica de Alepo na altura era formada por mais de 80% de sunitas, tinha uma fatia significante de cristãos (13%), e ainda era lar de um considerável número de minorias como os curdos, armênios e assírios.

Alepo antes do conflito contava com cerca de 2.1 milhões de habitantes em um espaço de 190 km² e com uma densidade demográfica que rondava a casa dos 210 habitantes por km², sendo a maior cidade síria em termos de população, e uma das mais jovens, com 40% na faixa dos 14 anos ou menos.
Da população de Alepo, atualmente 1.5 milhões se encontram na porção ocidental, sob controle do regime, e cerca de 250.000 em território controlado por milícias da oposição.

Hoje, a área contestada – ou seja, onde ocorre o conflito de fato e alvo dos ataques aéreos – é limitada à porção oriental e estimados em torno de 24 e 30 km².

Para se ter uma melhor noção desses números: Curitiba, por exemplo, conta com 1.8 milhões de habitantes, 430 km² de área e tem uma densidade de 4.025 habitantes por km², proporcionalmente seria como se área sob controle de rebeldes fosse equivalente à região da Cidade Industrial.
Créditos: Thomas Farran

Atendem atualmente essa área uma série de “corredores” formada por um sistema de “7 mais 1”.

Sete corredores são controlados por forças do regime que, sob supervisão russa, teoricamente permitem a entrada e saída de bens essenciais, ajudas humanitárias e pessoas, já o corredor extra permite saída de pessoas, sem a prerrogativa do desarmamento – incluindo assim combatentes que desejem se retirar.

Se por um lado é verdade que o regime recorre ao constante atraso na liberação dos carregamentos humanitários para as áreas afetadas em Alepo no que é um padrão do emprego da fome como tática de guerra, é verdade também que as forças rebeldes não têm permitido aos residentes das áreas sob seu controle que usem esses corredores para deixar o terreno, e têm dificultado a distribuição de assistência uma vez esses carregamentos cheguem ao seu destino, empregando exatamente a mesma tática.

A mesma coisa serve para o uso de recursos essenciais como armas de guerra: se de um lado temos uma central de bombeamento de água danificada por conta dos sucessivos ataques aéreos e terrestres (al-Nayrab) que coloca em risco os 250.000 habitantes da porção oriental, temos grupos que fecham o abastecimento de outra estação de bombeamento (Suleiman al-Halabi) para os 1.5 milhão que estão na porção ocidental.

Para entender o que se passa em Alepo hoje e como o nível de destruição chegou ao atual, temos que voltar até 2012, quando pela primeira vez grupos rebeldes anunciaram o que seria o início de uma campanha para a tomada da cidade. Esses grupos, na época liderados pela então Jabhat an-Nusra (braço sírio da al-Qai’da), eram oriundos da província de Idlib e do interior da própria província de Alepo. À exemplo de Damasco e Yarmouk, o primeiro lugar atacado e ocupado foi o campo de refugiados palestinos de Handarat, que acabou sendo o canal de entrada dos rebeldes para o restante da cidade.

Um dos marcos dessa campanha para a tomada de Alepo foi a destruição do hospital al-Kindi em um duplo-atentado suicida que envolveu o uso de caminhões carregados com 12 toneladas de explosivos em dezembro de 2013.

Cinicamente, as imagens do mesmo hospital destruído hoje estão de volta como “resultados da campanha de ataques aéreos russos em Alepo”.

Na altura, não houve nenhum alarme por parte da imprensa internacional relativo à brutalidade da campanha para a tomada de Alepo e as consequências de tal escalação, que envolveu ataques contra escolas, hospitais, cercos, corte de água, sequestros, tortura, imposição violenta de uma versão extremada da Shari’ah, destruição do patrimônio histórico, pilhagem, perseguição de minorias, ataques contra jornalistas, execuções sumárias de prisioneiros e bombardeios indiscriminados contra áreas residenciais por 4 anos ininterruptos.

A resposta do regime para a tomada da cidade foi igualmente brutal, com boa parte da campanha sendo tomada pela carnificina promovida por ataques aéreos e “bombas-barril”, embate que resultou na atual situação de destruição massiva e na iminente retomada do controle e que explica o sentido de urgência repentino. Por outro lado, o recuo das forças rebeldes em Alepo – onde Jabhat an-Nusra e afiliados contabilizam cerca de 40% do número total de combatentes, e que já contou inclusive com unidades do Da’esh – trouxe alívio para boa parte da cidade, e muitos habitantes começam a retornar para suas casas.

Mais do que apontar dedos, esse é um demonstrativo do grau de destruição pelo qual os sírios – não só de Alepo – passam todos os dias. Raqqa e Deir ez-Zur, objetos de intervenção da coalizão internacional em sua campanha contra o Da’esh, não são nada diferentes de Alepo e Daraya, que é o símbolo maior dessa política mútua de punição coletiva.

Os mais de 300.000 que deixaram Alepo desde então lotam os hotéis, os campos de refugiados e as ruas de Lattakia e Damasco. Muitos ainda visitam regularmente Alepo para checar imóveis, família e negócios.

Com o colapso do recente ‘cessar-fogo-que-nunca-foi’, principalmente pela inabilidade dos Estados Unidos em assegurar que as dezenas de grupos armados do qual foi responsável em supervisionar respeitassem o acordo, a situação em Alepo e Hama se deterioraram em uma escala fora do comum. Num passe de arrogância típico da política externa norte-americana, provou-se finalmente o pouco jogo que Washington tem na Síria, ao tentar controlar um apanhado de grupos que para além do regime, dos curdos e do Da’esh, estão em disputa entre si.
O conflito armado entre facções do “Exército Livre”, Jabhat Fateh ash-Sham, Ahrar ash-Sham e Jund al-Aqsa em Idlib, Hama e Alepo, é um demonstrativo desse canibalismo das forças rebeldes. Muito destes grupos, inclusive do imaterial “Exército Livre” no norte do país, sequer aceitaram o acordo proposto, outros – como as FDS compostas por árabes, curdos, cristãos, armênios e assírios – hoje lutam ao lado do regime. Como resultado, nas primeiras 48 horas desde que o acordo entrou em vigor, mais de 300 violações foram registradas.

Para o regime do ditador Bashar al-Assad, é imperativo que se aperte as duas frentes em Alepo e que se retome o controle completo da cidade antes do final de Janeiro do próximo ano, quando prevê-se que Hillary assumirá a presidência dos Estados Unidos e escalará o grau de intervenção na Síria.

Com o desmoronar do cessar-fogo, Damasco decidiu acelerar a primeira fase para tomar o controle de Alepo oriental, prevendo que a segunda fase – em zona mais urbanizada – levará muito mais tempo para ser concluída.

Pode-se interpretar a intensidade nessa primeira fase como um elemento dissuasor para os rebeldes na cidade, afim de se evitar essa segunda fase – motivo pelo qual o regime e russos já propuseram um acordo para a anistia e retirada de rebeldes para Idlib, nos mesmos moldes de Daraya e Homs. Esse acordo, que recebeu apoio do Enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, foi prontamente rejeitado por grupos rebeldes e pela oposição em forma de Governo Transicional que anunciou o rompimento do diálogo com Mistura, e pediu publicamente sua demissão.

Para as lideranças rebeldes, perder militarmente em Alepo é terminar o conflito armado e ter que confiar em esforços diplomáticos mediados por terceiros para atingir seus objetivos, coisa que o Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, já sinalizou como possibilidade em reunião com um seleto grupo de cidadãos sírios, e é disso que se trata essa repentina preocupação da imprensa com o que se passa em Alepo, e é também disso que se tratam as inúmeras reuniões de emergência e alertas de países árabes do Golfo.

Entretanto, as respostas mais frequentes para os reveses rebeldes têm sido a volta do bombardeio indiscriminado usando os infames “hell canons” e morteiros contra as zonas residenciais de Zahraa, Midan, Sheikh Maqsoud e Ramouseh e contra infraestruturas públicas civis como universidades que, não por acaso, são áreas com considerável presença de minorias curdas, armênias e alauitas.

O peso das recentes perdas na zona rural de Damasco, Homs e Hama, tem um grande impacto no nível de resposta que é esperada dos rebeldes uma vez que se inicie a segunda fase da campanha do regime.

O que está ruim, tem uma enorme possibilidade de ficar pior.

É também aquela época do ano que oposição tenta através de suas campanhas, e a qualquer custo, empurrar a fantasiosa “zona de exclusão aérea” (‘no-fly zone’ em inglês) na opinião pública através de seus canais de relações públicas e suas populares campanhas: The “Syria Campaign” e “The White Helmets”. Uma zona de exclusão aérea é sinônimo de mudança de regime, de escalação da violência e sinônimo de vácuo de poder.

Para esses, “mais intervenção” é a solução, não importa o quão danoso ou impraticável seja, desde que seja militar.

Nesse ponto, é de essencial importância entender quais as componentes de cada um dos lados dessa catástrofe, já que o cenário é muito mais complexo que “regime x povo”.

Na porção ocidental e ao norte temos forças do regime compostas pelo exército regular, pelo grupo Liwa al-Quds (formado por palestinos de Alepo, majoritariamente oriundos do campo de Handarat), por 4 pequenos batalhões do Hizb’ullah, e pelas FDS (Forças Democráticas Sírias) através de batalhões do predominantemente curdo YPG.

Essa reaproximação entre alas do regime e as FDS, apesar de ainda frágil e volátil, tem sido catalisada pelo envolvimento turco e feita tanto no campo militar quanto no político. Recentemente o parlamentar sírio Mohammad al-Rabi’, de Alepo, atendeu a formatura de recrutas do YPG na cidade de Manbij, a primeira reunião entre curdos e regime sobre a implementação do federalismo na região do Rojava foram anunciadas em Lattakia, e outro compromisso entre YPG e regime para a administração de infraestrutura pública em Hasakeh foi firmado (foto).

Os ataques aéreos são coordenados e executados em grande parte pela Força Aérea Russa, com base em inteligência no terreno, embora existam muitas evidências que alguns desses ataques sejam realizados de forma indiscriminada e que armamento incendiário e de fragmentação possa ter sido usado.

Já na frente oriental, cerca de uma dezena de grupos sob coordenação do guarda-chuva Jabhat al-Islamyiah (Frente Islâmica) e da Jabhat Fateh ash-Sham (Jabhat an-Nusra rebatizada), formam o que é o bastião da ocupação rebelde em Alepo.

Fazem ainda parte dessa formação grupos como Ahrar ash-Sham, Jaish an-Nasr, Harakat Nour ad-Din az-Zenki, e a grande componente ideológica é o salafismo, seja jihadista ou wahabista – certamente todos muito moderados, como afirmaram os analistas de think tanks que avaliaram positivamente o financiamento de atividades desses grupos.

Muitos desses grupos não reconhecem a autoridade do regime, não reconhecem a autoridade da oposição na forma do Conselho Nacional Sírio, renunciam o processo democrático e recusam qualquer tipo de acordo que envolva uma pausa no conflito armado, já que são excluídos das negociações políticas. São grupos em sua maioria patrocinados por Arábia Saudita, Turquia e Qatar e atualmente contam em seu portfólio com frotas renovadas, tanques, lançadores de foguetes BM-2, antitanques BGM-71E atualizados, e lançadores portáteis de misseis antiaéreos FN-6.

Esses últimos são fornecidos por patronos árabes apesar das insistentes objeções da Casa Branca.

Lançadores portáteis de mísseis antiaéreos (MANPADs) estão longe de ter o poder de mudar o jogo na Síria, uma vez que que não estamos mais na década de 80, e caças russos contam com dispositivos anti-MANPAD, sendo ainda que ambos russos e sírios já voam em alta altitude fora do alcance dessas armas e os helicópteros já não desempenham um papel tão grande nas operações.

Por outro lado, MANPADs em mãos erradas podem ser muito efetivos se utilizados contra aeronaves civis nas proximidades de aeroportos, como por exemplo em Damasco, em Beirute, em Istambul ou em Arbil.

A questão dos MANPADs tem importância no contexto de Alepo, porque para além da aplicação das zonas de exclusão aérea, o fornecimento desse tipo de armamento tem feito parte da agenda levantada pela oposição durante a ofensiva.

Em suma, o que se passa na cidade é um sintoma do que é o conflito sírio.

Uma versão mais nebulosa do “Acordo das 4 Cidades”, onde o regime tem sob cerco as cidades de Zabadani e Madaya, enquanto os rebeldes aplicam a mesma tática às cidades de Fuaa’ e Kafraya. O que é feito de um lado, é retribuído do outro.
Sejam agressões, seja assistência.

A outra frente de batalha

A mídia árabe tem desempenhado um papel crucial para a manutenção dessas agressões.

A guerra pela opinião pública é um dos maiores fronts dessa guerra, e seus atores usam como podem seus respectivos meios de comunicação para infestar a opinião pública e inflar os sentimentos nas ruas.

Do lado do regime canais como a Al Ikhbaryia, que propagam o discurso que criminaliza o mínimo sinal de subversão. São empregadas, de forma generalista e vaga, termos como “terroristas”, “infiltrados” e “colaboradores”. Como resultado, as corruptas milícias assadistas, ou shabiha, têm aval para agir como júri, juiz e carrasco e seguem impunes na prática lucrativa – e agora endêmica – de sequestros sem qualquer tipo de interferência. Em lugares como o centro histórico de Damasco, o papel da mukhabarat (aparato de inteligência síria que conta com mais de uma dezena de ramificações) acaba por ser potencializado por um clima de paranoia e medo, onde uma simples conversa em um táxi pode valer como destino a uma das prisões do regime.

Medo esse que, mais de uma vez, me foi exposto por moradores de distritos mais afastados do centro histórico, como Masaken Barzeh e Dummar.

Do lado da oposição, canais como Al Jazeera e Al Arabyia, mantidos por Qatar e Arábia Saudita respectivamente, e apresentadores extremamente populares como Faisal al-Qasim, engajam regularmente em discursos clamando por limpeza étnica e completa destruição de vilas alauitas e curdas, em um comportamento que só pode ser classificado como fascista.

O que contrasta, e muito, com os serviços da Al Jazeera em inglês e o canal alternativo AJ+, que tem um tom mais ‘progressista’ e é referência inclusive dentro de movimentos da esquerda internacional juntamente com a sua estrela principal: os Capacetes Brancos.
Como resultado, a normalização e racionalização da violência sectária amplamente praticada pelos “revolucionários”  acaba por fazer parte do ideário de quem se alinha com a oposição, e se tornou comum em qualquer conversa mais privada se deparar com argumentos que soam cada vez mais com teorias da conspiração onde o Irã e seus aliados alauitas são os responsáveis por toda e qualquer desgraça que caia sobre a Síria e devem ser eliminados.

No Ocidente, o comportamento por parte da oposição considerada moderada nunca gerou qualquer tipo de alerta ou precaução por parte da imprensa, que agora vê a oportunidade perfeita para se comprometer em uma forte campanha anti-Rússia e repetir seja o que vier dos escritórios da oposição síria.

O mesmo tipo de preocupação não é demonstrado com relação às sanções e embargos, um cerco oficializado, por parte dos Estados Unidos e da União Europeia e que tem prejudicado exponencialmente e diretamente de modo profundo a população síria, segundo levantamento da ONU que foi vazado nessa recentemente pelo The Intercept.

Não faz parte da pauta.

Assassinar e prejudicar sírios não levanta objeções desde que o “lado certo” o faça.

Talvez hoje o maior exemplo dessa promiscuidade em forma de jornalismo seja o inglês The Guardian.

Como era de se esperar, essa imprensa internacional e governos que empurram por uma intervenção trabalham ativamente para que seus planos ganhem suporte da sociedade civil e dominem a opinião pública. Balanços no debate não são apenas raros, com também constantemente censurados.

Um exemplo mais atual é o fato de, no dia 28 de setembro, a representação francesa da ONU ter publicado em seu Twitter oficial uma chamada para alegados ataques contra dois hospitais em Alepo, embora naquela data já não haviam hospitais oficiais ativos na área sob domínio dos rebeldes, e para ilustrar o ataque foi usada uma foto de um dos supostos hospitais destruídos.

Um olhar mais atento é capaz de identificar a imagem como sendo na verdade de dois prédios residenciais em Beit Lahia, na Faixa de Gaza, bombardeados por Israel durante a designada “Operação Margem Protetora” em agosto de 2014, que matou mais de 2,000 palestinos, entre os quais 547 crianças, segundo o relatório independente da Defense for Children International.

É um tanto revelador o contexto da foto de 2014, real e verificável, não ter gerado a comoção nas delegações que hoje agitam tão entusiasticamente a bandeira do humanitarismo.

Esse comportamento pode ser considerado um padrão, observado vezes no proposital uso de imagens que não correspondem à narrativa, e vezes fazendo uso de malabarismos estatísticos e omissão de dados que seriam vitais para um melhor entendimento da situação.

Imprensas de países periféricos e sem relevante produção em assuntos do Oriente Médio, como o Brasil, acabam por virar câmaras de eco das grandes mídias europeia e norte-americana – e ferramentas extremamente eficientes para a exportação de agendas.

Não existe o compromisso com os sírios, com a verdade ou com aqueles que de fato querem e trabalham para pôr um final à essa guerra que já se arrasta por 5 anos.
Não existe consideração seja com aqueles que sofrem em Damasco, Alepo, Hama, Raqqa, Deir ez-Zur e Hasakeh, ou seja com aqueles que morrem ao decidir enfrentar o Mediterrâneo em um bote inflável em busca de segurança.

Não existe nada de revolucionário, ou de resistência anti-imperialista no que acontece na Síria.

Ignorar que existem pessoas que, lá em 2011, se manifestaram com pautas legítimas contra um regime extremamente opressivo e cleptocrata que falhou miseravelmente em suas reformas econômicas neoliberais, no que foi um esboço do que poderia ter sido uma revolução de fato, é o equivalente em se ignorar que existe hoje uma enorme parcela da população síria que – por motivo ou outro – apoia o regime, razão pela qual o mesmo está de pé e é funcional mesmo após 5 anos de uma guerra generalizada.

Ambos fazem parte da sociedade síria, e ambos não irão a lugar nenhum e terão que fazer parte do futuro da Síria em uma solução inclusiva e democrática.

Ao mesmo pé que o regime e a oposição sancionada pelo Ocidente são dois lados que tem a população como refém, em busca do controle e da última palavra apenas para vender uma nação a quem pagar mais e, no longo prazo, não poderão fazer parte daquele mesmo futuro para uma Síria saudável.

É guerra. É suja. É cinzenta.

E no final, até os capacetes estão vermelhos e não importa o quanto se tente branqueá-los.