A primeira vez que vi de perto o sistema de ensino de gente rica foi quando entrei na USP. Primeiro, através das pessoas que estudavam lá, e depois dando aula pra os jovens príncipezinhos da aristocracia do Tucanistão.

Conhecer essa galera sempre me deixava duplamente intrigado. Por um lado, me impressionava muito eles terem lido tanto Durkheim e Hobsbawm no fundamental, estudado inglês na Inglaterra, saberem esgrima, etiqueta, latim e equitação antes de conseguirem cultivar um bigodinho de cobrador. Ao mesmo tempo, era muito confuso entender como tinham tido um ensino tão bom e, ainda assim, falavam tanta besteira.

Quando entendi como era fabricada essa gente, meu fascínio só aumentou. Eu via aquele ambiente lúdico e salúbre, os moleques estudando em laboratórios ultra hi-tech, usando computador na sala de aula, fazendo viagens pela europa, tendo professores excelentes, aula particular, lifecouching, piscina e quadra de tênis e, ao mesmo tempo, ao ler os textos que eles escreviam não conseguia acreditar na discrepância. Olhava aquele luxo, lia aquele lixo, e pensava: “se eu tivesse tido metade disso, no mínimo seria hoje um neurocirurgião trompetista de jazz com olhos de raio laser”.

Aí a gente abre o jornal e descobre que uma madamezinha pagou cento e oitenta mil reais pra trapacear em uma prova. É o valor equivalente à dezessete anos de trabalho de quem recebe salário mínimo. Dezessete anos do sangue e suor dos empregados do papai gastos para trapacear em uma prova na qual a esmagadora maioria dos concorrentes era gente em situação muito pior do que eu e que estudou em colégios muito mais precários do que o meu.

Cento e oitenta mil reais. Cara, eu nem sei direito o que se compra (além do ENEM) com cento e oitenta mil reais. É tanto dinheiro que dá vontade de ficar escrevendo de novo: cento-e-oitenta-mil-reais, de tão comprida que fica a frase.

Para e pensa por um minuto: tem gente, no Brasil em crise, que tem R$180.000,00 sobrando no bolso pra fraudar uma prova, enquanto que uma porrada de gente não pode prestar o vestibular honestamente porque a Fuvest cobra absurdos R$160,00 de taxa de inscrição.

E aí você é obrigado a se perguntar: quanto custa pra se graduar? Quanto essa gente paga por um mestrado, um doutorado, uma OAB, uma vaga de juiz sem ter tido que abrir um livro sequer em toda a vida? Quanto se paga por um título de Vossa Excelência? Pelo poder de mandar pra cadeia quem lhe desacate? Pelo poder de brincar com as leis de um país e com a vida de gente inocente? Será por isso que todos os dias aparece uma notícia nova de algum meritíssimo bancando o mafioso? De alunos de medicina se fantasiando de Klu Klux Klan? De algum playboy atropelando pobre e pagando com meia dúzia de cestas básicas?

Dá um desanimo enorme entrar numa universidade sabendo que, se seu colega for rico, ele pode se dar ao luxo de ser burro, preguiçoso, medíocre e, ainda assim, provavelmente vai ter uma cadeira garantida nos lugares em que você vai ter que rebolar muito pra ser aceito de nariz torcido. E nem precisa ser ativamente desonesto, comprar gabarito de provas ou subornar ninguém, porque o pedigree fala por si. Balzac já avisava que atrás de toda fortuna há um crime. Rico, se não é bandido, no mínimo já nasce cúmplice.

Provavelmente parte dessas pessoas nem sabe o quanto a vida delas é fácil, como muitas vezes não entendem que são ricas, o que é sempre um pouco engraçado de um jeito meio triste.

Pelo menos existe o pequeniníssimo consolo de saber que, mesmo que seu colega rico conheça o gosto e a pronúncia correta de foie gras e tenha mais carimbos no passaporte do que você tem na carteira de trabalho, os filhos da elite ainda precisam gastar mais cento e oitenta mil reais além de toda a fortuna desperdiçada no adestramento de seus filhotinhos para, muito male-male, se garantirem num jogo que você tá enfrentando a vida inteira na raça e na coragem, sem padrinho nem sobrenome. Mérito de rico é hipocrisia. Eles são feitos de um material mole.