A última semana foi marcada por fatos políticos de grande envergadura. No Brasil, tivemos uma grande mobilização acompanhada de greves, como não se fazia há anos, contra o desmanche da Previdência; no cenário internacional, temos a guerra de caças entre o exército sírio e Israel, atentados em Damasco e provocações militares na Península Coreana.

Ainda assim, o grande fato político da semana foi a Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal na última sexta-feira (17) contra grandes frigoríficos no país, que estariam adulterando as carnes vendidas, pagando propinas a fiscais do Ministério da Agricultura, utilizando ingredientes prejudiciais à saúde no processamento de carnes em quantidades superiores às permitidas, etc.

Desta operação surgiu, no campo da esquerda, duas “grandes teorias”: 1 – a de que a Operação Carne Fraca é um movimento do imperialismo norte-americano para destruir parte importante da economia brasileira, como a Lava Jato fez com a Petrobras e as grandes construtoras; 2 – a de que a posição anterior é recuada, defende as grandes empresas de carne e o latifúndio, e que não há interesses estrangeiros na operação.

Ambas as posições partem de um erro original: as informações sobre a própria Operação Carne Fraca são, até o momento, escassas. A posição de que a Carne Fraca não passa de um movimento do imperialismo contra nossos “grandes campeões” da carne tem problemas estruturais: 1 – a indústria da carne no Brasil, nos moldes atuais, é parte constituinte da do sistema de dependência do imperialismo no nosso país, já que é baseada no latifúndio e nos coloca na vergonhosa posição de exportador de commodities. O setor surge como um setor complementar de economias do centro, especialmente dos Estados Unidos (vide 3).

2 – Não há comparação cabível entre a “indústria” da carne e a Petrobras ou as construtoras: a Petrobras é uma empresa estatal (faço tal afirmação correndo o perigo de estar desatualizado em poucos meses) com fundamental importância estratégica para o país e uma reserva enorme de petróleo, ao passo que as grandes construtoras estavam envolvidas em grandes projetos internacionais em países não-alinhados.

3 – Os Estados Unidos importam mais produtos animais do que exportam, ou seja; o Brasil dificilmente seria um concorrente. O desequilíbrio na balança comercial pode ser considerado irrelevante pois as compras são feitas em dólares, é claro, mas se fosse um objetivo desestabilizar a economia brasileira, seria mais prudente começar pelo setor de grãos, responsável por mais de 15% de nossas exportações, ou de minérios. (Em comparação; os produtos vegetais brasileiros representam 35 bi de dólares, os minérios 32 bi, ao passo que os produtos animais representam somente 14 bi. Ao mesmo tempo, os EUA exportam 63 bi em produtos vegetais, 111 bi em minérios e somente 25 bi em produtos animais).

4 – Por fim, e mais importante: deflagrar tal operação sob um governo ajoelhado ao capital estrangeiro, representante raça-pura dos interesses imperialistas no Brasil, seria burrice.

Há de se fazer ressalvas também, no entanto, a certos discursos contra a tese anterior, que têm inclusive, em muitos casos, tomado a forma de “crítica ao nacionalismo”:

1 – Tanto a BRF quanto a JBS, as duas maiores empresas do setor no Brasil, têm como grandes acionistas fundos de previdência de grandes estatais ou de bancos estatais. A BRF, por exemplo, tem como acionistas a Fundação Petrobrás de Seguridade Social e a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. A JBS, por sua vez, tem 21% de suas ações nas mãos do BNDES e quase 5% nas mãos da Caixa Econômica Federal. Um ataque às empresas, e mais especificamente contra a JBS, teria também reflexo nas estatais.

2 – No final do ano passado, o BNDES vetou a reorganização societária da JBS, maior produtora de carnes do mundo, que previa a criação da JBS Foods International, que seria listada na Bolsa de Nova York. O BNDES argumentou que a reorganização iria desnacionalizar a JBS. Ou seja, a gula por carne de alguns investidores estrangeiros foi frustrada recentemente.

3 – A Operação Carne Fraca, como apontou o jornalista Luís Nassif, pode ser inserida em um contexto de disputa interna na Polícia Federal.

Não sabemos, ainda, qual foi a gravidade do caso. Antes de tudo, isso deve ser esclarecido. A partir disso poderemos de fato sustentar se a Operação Carne Fraca foi demasiadamente espetacular – e se foi, era para cumprir objetivos políticos, quer sejam disputas internas na PF, nas empresas ou ainda disputas internacionais. Pelo mesmo motivo, é um erro assumir o tom de denúncia contra o imperialismo em um momento desses; um erro que pode nos colocar na posição de defesa de grandes oligopólios que não têm preocupação sequer com a saúde de nosso povo e do Governo Federal, que agora tanto se apressa para defender a indústria da carne da operação.

O que temos de concreto até o momento? – Que o mercado da carne é sujo e sustentado pelo sistema de latifúndios desse país. Mas disso já sabíamos. Ele deve ser alvo do combate das esquerdas por si só, por existir nos moldes atuais. O uso de práticas sujas no setor é um detalhe que, se comprovado, deveria ser usado para fortificar campanhas e ações sérias contra o latifúndio, não discutido com base em achismos. O mesmo vale para eventuais campanhas imperialistas em nosso país. Avancemos contra os grandes oligopólios, contra o imperialismo, contra o latifúndio; não choremos pela carne estragada.