Bolsonaro sequer tomou posse, e ao que parece já virou moda comparar seu governo com o que foi um de seus alvos prioritários na campanha: os comunistas.

A revolução chinesa e o bolsonarismo

A vanguardista, neste caso, foi a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que assinou o artigo “O bolsonarismo repete a Revolução Cultural da China” no The Intercept. No artigo, a professora universitária argumenta, em linhas gerais, que o projeto Escola Sem Partido “repete linhas de ação da Revolução Cultural, movimento chinês igualmente obcecado com o fantasma da doutrinação ideológica e que, por isso, perseguiu professores, intelectuais e jornalistas entre 1966 e 1969.”

Para sustentar sua tese, Rosana lança mão de um recurso um tanto inócuo na política; compara-os a partir do método, para por fim argumentar que são similares. Diz ela que está convencida que, “para analisar o bolsonarismo, precisamos olhar não apenas os regimes fascistas do Ocidente, mas igualmente para o autoritarismo da própria esquerda”, sem dar ao leitor sustentação para compreender o porquê de tal convicção pessoal. Continua: “alteram-se os significados, mas mantém-se a estrutura: os objetos de discurso, os modos de autoridade e os métodos de intervenção e punição para atingir a unidade nacional. Se trocarmos as cores do inimigo e a palavra direitista por esquerdista, por exemplo, podemos descrever processos muito similares” –  uma argumentação um tanto mambembe. O assassinato de Boilesen, colaborador do regime militar, em 1971, nas mãos do MRT e ALN, é um processo “muito similar” ao assassinato de Marielle Franco, em 2018?  E se trocarmos “Carlos Lacerda” por “Rosana Pinheiro-Machado” também podemos descrever processos bastante similares? Mas Pinheiro-Machado reconhece que: “refiro-me, claro, aos métodos da prática e não aos valores, os quais não são nem comparáveis nem opostos simétricos” – pergunto-me então qual é o sentido de assinar um artigo que não só compara os dois movimentos, como diz, em título, que um repete o outro.

Mas deixemos de lado a fixação com o método – enquadramento pueril para qualquer adolescente que tenha lido Maquiavel e compreendido que estratégia, bases e moral são alicerces do movimento político que se determinam entre si – e passemos à história.

O primeiro ponto a se compreender, que distingue qualquer coisa que tenha sido feita na China pós-revolucionária do bolsonarismo, é que a China passou por uma revolução em 1949. Essa revolução consolidou o fim de uma disputa que se arrastava ao menos desde 1911, quando o movimento nacionalista derruba a dinastia Qing, que governara a China por quase três séculos.  O movimento nacionalista liderado por Sun Yat-sen tinha como um de seus componentes fundamentais o combate à tutela e a exploração econômica estrangeira na China, mas, nesse sentido, acaba esvaziado. Em 1913, Yuan Shikai estabelece uma ditadura com o apoio das potências estrangeiras, que tutelam a política nacional e amarram a revolução. Sun Yat-sen retoma o poder em 1916, mas tem sob seu controle somente uma pequena parte do território, visto que o restante se organizava em feudos. Em 1917 a China toma parte na guerra contra a Alemanha, esperando que, em troca, a influência estrangeira cessasse. Isso não ocorre; o Tratado de Versalhes não concede à China suas aspirações anticoloniais, e o movimento comunista neste momento tem um grande salto, em especial com o Movimento de Quatro de Maio. Essas aspirações são acatadas formalmente em 1922, com os “Tratados das Nove Potências”, mas espoliação estrangeira segue em curso. Em 1931, o Japão ocupa o território da Manchúria, o que leva a um pacto entre nacionalistas e comunistas, que concordam em se unir para combater a invasão. Em 1945, com o fim da segunda guerra e a libertação da China do domínio japonês, os nacionalistas lançam uma ofensiva contra os comunistas, e a guerra civil é reinstaurada.

Ou seja: o bolsonarismo não se distingue por essência dos comunistas chineses simplesmente pelo primeiro ser “reacionário” e os segundos serem “comunistas”; se difere também porque o primeiro representa um movimento de portas abertas ao imperialismo, enquanto o segundo se consolidou, após ao menos três décadas de combate, como um movimento anti-imperialista. Os “inimigos” tão citados por Pinheiro-Machado, no caso de Mao, combatiam efetivamente ao lado de potências imperialistas estrangeiras – os inimigos de Bolsonaro são supostos agentes comunistas que viraram professores e pretendem destruir a família com gayzismo, a mando da Venezuela e de Cuba. Aliás, é relevante relembrar que enquanto o “Escola Sem Partido” formalmente se apresenta como um movimento que defende a “neutralidade” na escola contra os ataques ideológicos de professores, a Revolução Cultural se apresentava formalmente como um movimento ideológico, com fim de combater resquícios ideológicos terceiros. De forma que se ambos são “obcecados com o fantasma da doutrinação ideológica”, o fato é que, ao contrário do bolsonarismo, a Revolução Cultural de fato enfrentava “fantasmas” (fantasmas que, décadas atrás, guerreavam contra os comunistas com armas reais) e, também ao contrário do bolsonarismo, a Revolução Cultural não se apresentava como “neutra”, mas como igualmente ideológica.

Mas voltemos à história. No artigo de Pinheiro-Machado, Mao Tsé-Tung é uma figura quase onipotente desde 1949. Na realidade, havia no próprio seio do Partido Comunista da China uma luta pelo poder, em especial entre a ala pró-soviética de Liu Shaoqi e o grupo de Mao, que foi minoritário até os anos 60. A Revolução Cultural inseria-se neste contexto, e tinha como bandeira precisamente a luta contra o burocratismo e o autoritarismo do Partido Comunista da China, em defesa do poder das bases. “Desse modo, soa estranho que uma partidária crítica ao socialismo burocrático não reconheça que a fase inicial da Revolução Cultural Chinesa foi marcada por uma infinidade de surgimento de organizações de base que se confrontavam com a burocracia partidária/estatal em nome de uma democracia direta e participativa, além de questionamentos sobre as relações de poder, haja vista que esse tipo de prática faz parte de uma militância ativa e não passiva à verticalização das relações de poder”, escreve Luiz Eduardo Motta no Vermelho.

De forma que é absolutamente falso afirmar, como faz Rosana Pinheiro-Machado, que “a Revolução Cultural nasceu para conter as críticas, especialmente após o fracasso do Grande Salto Adiante, a política comunista de aceleração econômica que trouxe resultados catastróficos.” A Revolução Cultural não nasceu para conter as críticas – pelo contrário, tratou-se de um movimento crítico às burocracias estatais e partidárias, que abalou as estruturas do partido e do país, e que se inseria em um contexto de luta por poder. Não se tratava de “conter a mudança” ou o movimento, se tratava de mudar, de fazer mover. Se houve abusos, se foi acertada, se os meios justificaram os fins; isto tudo pode ser discutido. Mas comparar um movimento surgido no seio de um partido que lutou durante décadas contra a ingerência estrangeira, que foi perseguido internamente, que tinha como base operários, soldados e camponeses com um projeto a ser consolidado por um governo eleito com o apoio das elites e parte da classe-média, que tem entre suas bases principais militares anticomunistas e que quer perseguir – não a partir de comitês revolucionários populares, mas com o Estado – professores que “ensinam ideologia de gênero”: isto sim é jogar o bebê com a água no banho. Fazê-lo a partir da falsificação da história e de recursos retóricos mambembes do tipo “na essência são diferentes, mas no método são iguais” é canalhice.¹

Lênin e o bolsonarismo

Mas Rosana Pinheiro-Machado não está sozinha e, ao contrário, parece ter feito escola. O comediante Gregório Duvivier usou um episódio inteiro de seu programa “Greg News”, exibido na HBO, para estabelecer que Bolsonaro é, no fundo, comunista.

O primeiro argumento apresentado por Duvivier impressiona. “Sabe quem também odiava a esquerda? Lênin. Ele odiava tanto que escreveu até um livro chamado ‘esquerdismo: doença infantil do comunismo’ […] Lênin declara neste livro que os esquerdistas são os inimigos do projeto soviético, porque eles se opunham à ideia de ditadura do partido. Sim, os esquerdistas diziam que o poder devia ser do povo, e não do partido.”

Duvivier não leu Lênin antes de falar bobagens. “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” foi um estudo escrito em 1920 por Lênin, com o fim de expor a tática dos bolcheviques e advertir quanto aos erros que podem recair nos ombros dos partidos revolucionários. A principal lição retirada do livro é a de que a ação política normalmente depende de uma observação da realidade concreta específica de determinado período, e não pode ser movida sempre por princípios cristalizados: Lênin critica aqueles que agem sempre por “princípios”, ora “esquerdistas”, ora “direitistas”. Em alguns trechos, Lênin trata do “revolucionarismo pequeno-burguês”, ou “esquerdismo.” Para Lênin, este esquerdismo se assenta basicamente em três pilares: 1 – a incompreensão da força de classes quando se traça ação política (ex: insistir que determinado grupo de trabalhadores sejam mais “radicais” do que são, em um momento em que não podem sê-lo). 2 – “O reconhecimento do terror individual, dos atentados que nós, marxistas, rejeitávamos categoricamente.” 3 – “Ser ‘esquerdista’ consistia, para os social-revolucionários’, em rir dos pecados oportunistas, relativamente leves, da social-democracia alemã, ao mesmo tempo em que imitavam os ultra-oportunistas desse mesmo partido, em questões como a agrária ou a da ditadura do proletariado.”

Lênin cita um momento específico em que os marxistas na Rússia se confrontaram com o que chama de “esquerdistas”: em 1908, quando estes últimos foram expulsos do partido por se negarem a participar do parlamento; isto é, argumentavam que um partido revolucionário não podia participar, qualquer fosse a situação e por princípio, da política parlamentar. Nesse cenário, Lênin defendia a combinação das formas legais e ilegais de luta, enquanto os esquerdistas defendiam que o partido devia mover somente a luta ilegal, boicotando e abdicando das formas legais.

A polêmica de Lênin com o “esquerdismo” não se trata de “poder do partido” ou “poder das bases” e, ironicamente, é justamente a posição dos esquerdistas denunciados por Lênin que mais horrorizariam essa esquerda iluminada (sabe-se lá de que tipo de luz) do Leblon. A polêmica referente ao “povo” e “partido” de que Duvivier fala simplesmente não existe; trata-se na verdade da polêmica entre “ditadura dos chefes” e “ditadura das massas”, no Partido Comunista da Alemanha, exposta no capítulo 5 de “Esquerdismo: doença infantil.” Lênin fala da disputa aberta por uma fração do Partido Comunista da Alemanha, que atacava o Comitê Central do Partido por defender uma coalizão com o Partido Social-democrata Independente da Alemanha no Parlamento. Ou seja: os esquerdistas defendiam que as massas eram tão radicais que não concordavam com o uso de formas legais de luta (em contraponto aos “chefes” do partido, que seriam na verdade traidores por defenderem uma coalizão). Por isso falavam de “chefes” e “massas”; porque como Lênin definira anteriormente, defendiam exatamente os três pilares do “esquerdismo infantil.” Diz Lênin, por fim:

“O mais engraçado é que, de fato, em lugar dos antigos chefes, que se limitavam a ideias comuns sobre coisas simples, destacam-se (dissimulados pela palavra de ordem ‘abaixo os chefes’) chefes novos, que dizem supremos disparates e asneiras.”²

Duvivier continua: “Bolsonaristas amam uma farda, assim como Lênin. Aliás, foi Lênin quem criou o Exército Vermelho e se voltou contra as ideias dos social-democratas, que defendiam uma desmilitarização da sociedade.”

Em verdade, quem dirigiu a criação do Exército Vermelho foi León Trotsky. Mas de que “social-democratas” fala Duvivier? Do Partido Constitucional Democrata, de Pavel Miliukov, que defendia a implantação de uma monarquia constitucional na Rússia? Provavelmente de Alexander Kerensky, o advogado que liderou o governo interino após a revolução de fevereiro, e que foi derrubado pelos bolcheviques por não ter cumprido a principal demanda popular em 1917: o fim da guerra.

E não para por aí. “Temos outra prova irrefutável do comunismo de Bolsonaro: ele adora uma doutrinação. Uma revolução cultural a la Mao Tsé-Tung, uma boa tomada das escolas. Ele sempre chama atenção, inclusive, para a importância da educação para a consolidação de seu projeto político, e sabe quem ele cita? Lênin.”

O irônico é que quando Bolsonaro citou “Lênin” (“não tome quartéis, tome escolas” – a frase na verdade é atribuída a Antonio Gramsci), ele não se referia ao Escola Sem Partido, mas, ao contrário, a uma imaginária “doutrinação marxista” nas escolas. Ou seja, repito: o Escola Sem Partido promete uma pretensa “neutralidade” ideológica; os comunistas, ao contrário, sempre se expuseram como “ideólogos.”

O bolsonarismo e Kim Jong-Un

Por fim, há um caso recente um tanto mais preocupante, por ter sido movido justamente por um veículo “tradicional” da “esquerda” brasileira. Na última quinta-feira a Revista Fórum noticiou que o Itamaraty convidou a delegação norte-coreana para a posse de Bolsonaro. A notícia é ilustrada por uma foto de Bolsonaro, de um lado, e outra de Kim Jong-Un e Trump dando as mãos, como que para tentar reforçar que na verdade todos são iguais, “ditadores.” Mais abaixo: “Na gestão de Kim Jong-un, neto do fundador do país, Kim Il-sung, a Coreia do Norte coleciona polêmicas sobre direitos humanos e atritos diplomáticos, especialmente com a vizinha Coreia do Sul. Entretanto, desde junho, Kim Jong-un tem dito (sic) uma aproximação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que mudou o tom das críticas para a cordialidade com o líder supremo coreano.”

Ou seja: a Revista Fórum adota a linha de certos Democratas norte-americanos que, para defender uma política belicista contra a República Popular Democrática da Coreia, atacam a aproximação diplomática entre o país, a Coreia do Sul, e os Estados Unidos. Tentam criar uma aproximação ideológica entre Bolsonaro, Trump, e Kim Jong-Un. E é claro que para isso deixam algumas coisas menos importantes de lado, como o fato da aproximação só ter sido possibilitada pela eleição de Moon Jae-in na Coreia do Sul, e também coisas bastante importantes, como o fato dessa reaproximação – um movimento em direção à paz, em uma região traumatizada pela guerra -, ter sido imposta a Trump, não “idealizada” por ele. Trump passou à cordialidade depois de ser dobrado: primeiro pelos testes de mísseis norte-coreanos, segundo pela aproximação entre as duas Coreias.

O social-liberalismo como tendência

É grave que, em um momento em que militares anticomunistas se aproximam do poder, prometendo usar os “profissionais da violência” para “acabar com os vermelhos”, certos setores “progressistas” estejam tão abertos a fazer lado com estes mesmos militares no ataque ao comunismo. É isso o que fazem: se descrevem Bolsonaro como um inimigo, e dizem que, na verdade, ele é comunista, efetivamente descrevem os comunistas como inimigos. Ninguém solta a mão de ninguém – a não ser que seja para bater nos vermelhos, usando das mesmas armas do inimigo: a mentira e a falsificação³. E dada a recorrência, esse movimento parece se desenhar como tendência.

E em troca de que fazem isso? O fazem por uma “ironia”, para mostrar uma “contradição”, que compara figuras como Gregório Bezerra, Carlos Marighella e Olga Prestes com aqueles que os mataram. E o fazem por meio da falsificação da história; ora com certo requinte, como é o caso de Rosana-Pinheiro, ora com estupidez plena, com é o caso de Duvivier, ora com oportunismo digno das “fake-news” do Whatsapp, como é o caso da Revista Fórum.

Tudo isso corresponde, como já foi dito, a uma certa tendência internacional, já prevista em um artigo anterior. Os social-liberais brasileiros tomam as ferramentas dos Democratas norte-americanos; os nossos contra Bolsonaro, os de lá contra Trump. Dado que os Democratas não são, efetivamente, tão diferentes dos Republicanos alinhados a Trump, sobrou para eles a crítica ao “autoritarismo.” Os nossos social-liberais, copiando os norte-americanos, tentam replicar esse conceito, denunciando que os “radicais de esquerda” (praticamente irrelevantes aqui, a bem da verdade) são de fato como os “radicais de direita.” Assim, já soltaram a mão de alguém; a propósito, soltaram a mão de um alvo prioritário de Bolsonaro, do bode expiatório perfeito.

Há também uma certa tendência política desses setores, quase “mercadológica.” Gostariam de denunciar Bolsonaro às massas, mas isso, além de custar certos sacrifícios (pisar com seus sapatos novos na lama, por exemplo, ou aprender a falar com gente normal) demanda tempo, dado que boa parte do povo brasileiro efetivamente deu um voto de confiança a Bolsonaro. Assim, voltam-se a seus pares, seus familiares, seus amigos de classe. Poderiam denunciar Bolsonaro pelo o que é: um entreguista anticomunista com mania de perseguição, que tocará (ou melhor; que deixará que seu “noivo” Paulo Guedes toque) um projeto neoliberal irrestrito. Como seus pares não se preocupam muito com os bens da Pátria, e como muitos até gostam do projeto de Guedes, começam a estabelecer comparações absurdas na categoria do “autoritarismo” – porque isso sim preocupa os frequentadores de butique.

Notas:
¹ – Pelo método de Rosana Pinheiro-Machado, poderia-se dizer que bebês e água são na verdade a mesma coisa. Já imagino um poema pós-moderno: “Ele saiu da água. Ela banha ele, ou ele banha ela? BEBÊS.”

² – Não deixarei de notar que, no caso brasileiro, o mais engraçado é que comediantes abobalhados ataquem presidentes abobalhados por falarem bobagens… falando bobagens.

³ – Portanto na verdade Duvivier é Steve Bannon. Ou Bolsonaro. Ou o satã, que, como Duvivier, também tem duas pernas. Ou Jesus, que teria barba. No fim tudo é tudo, nada é nada.

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