O banqueiro admite: É preciso ler Karl Marx

por William Mitchell | Bill Mitchell Modern Monetary Theory - Tradução de Davi Jaehrig

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Eu sei que está na moda nos dias de hoje, particularmente em meio à esquerda, afirmar que classes não existem – que a questão não é mais essa – que o espectro esquerda-direita está morto – etc. Porém, trago aqui este interessante artigo da Bloomberg (29 de agosto de 2011) – Give Karl Marx a Chance to Save the World Economy – escrito por George Magnus, que está listado como conselheiro econômico sênior no UBS Investment Bank. Confuso? Por qual motivo um banqueiro invocaria os pensamentos do filósofo já morto há muito e usualmente vilipendiado (por banqueiros)? Para mim, é sempre uma parte normal do pensamento um retorno a Marx porque sua dissecação do capitalismo – a origem do lucro e a importância de ver além das superficiais relações de troca, assim compreendendo as relações de classe intrínsecas à produção – não foi, na minha visão, superada. E agora um banqueiro está sugerindo esta necessidade de se ler Karl Marx.

Até mesmo os assim chamados progressistas dos dias de hoje julgam elegante afirmar que as classes morreram – que não se trata mais de classes – e que o espectro direita-esquerda é obsoleto, etc.

Recordo-me de uma entrevista à US PBR no início de 2011, em que a fundadora do Huffington Post, inclinada ao Partido Democrata, disse em resposta à uma pergunta do site – agora propriedade da AOL – sobre percepções políticas, que:

“[….] Estou cansada de me ouvir dizendo – é tempo para todos nós no jornalismo irmos além de esquerda e direita. Sinceramente, este é um jeito obsoleto de olhar os problemas que a América está enfrentando.”

Imagino que seria obsoleto se você tivesse feito milhões às custas de trabalho não-pago. Porém, essa é uma posição típica nos dias de hoje. Os conservadores, é claro, sempre defenderam isso, porque buscam ofuscar o funcionamento da hierarquia de classes.

Eles têm um interesse velado em desenvolver o mito do “livre mercado” em que todos somos, essencialmente, livres comerciantes e livres produtores de coração, que concordam (auxiliados por forças de mercado) em se especializar na venda de força de trabalho ou fornecimento de capital. O mito continua dizendo que somos todos livres comerciantes – tudo é voluntário e todas trocas são mediadas por preços de mercado que entregam valores de uso equalizados a cada comerciante, para ser desfrutado após o término do mesmo.

Eu claramente não defendo esta visão – que esquerda e direita são uma dicotomia obsoleta. Enquanto penso que a dicotomia pode ser enriquecida adicionando outro eixo, de modo que forme um quadrante (como por exemplo o Political Compass), o eixo direita-esquerda ainda tem relevância.

A ideia de livre mercado de que tudo pode ser entendido na esfera das trocas cai num buraco quando focamos no mercado de trabalho. Afinal, trabalhadores não vendem trabalho – eles vendem força de trabalho (a capacidade de trabalhar). Isso invoca imediatamente uma necessidade hierárquica, administrativa. Por quê? Porque o valor de uso da força de trabalho é desfrutado (extraído) no interior da própria troca (isto é, enquanto os trabalhadores ainda estão trabalhando). O valor de uso, origem da riqueza, é incerto e uma função de controle é indicada.

Patrões têm de controlar a realização deste valor de uso em produção num ambiente onde a maioria dos trabalhadores preferia não estar. Este é um ambiente dinâmico muito diferente daquele em que entramos em uma loja e compramos uma bugiganga para ser apreciada mais tarde. Esquerda e direita são em essência, para mim, uma dinâmica de classe e aqui estou usando classe no sentido marxista. Sei que existem complexas camadas fora da distinção básica capital-trabalhador e, certamente, tais camadas são exploradas pelas elites para ofuscá-las ainda mais (por exemplo, gênero, sexualidade, raça, etc.), mas, quando a situação aperta, a luta pela distribuição da renda vinda da produção ainda é altamente significante.

Não podemos de fato entender a crise a não ser que entendamos a oculta dinâmica de classe. É certo que frequentemente afirmo que crise é resultado de políticas governamentais ruins e um fracasso em empregar as ferramentas fiscais à disposição dos governos de forma apropriada. Mas a questão que se segue é: por quê? Por que nossos governos estão sob pressão para apertar ainda mais a política fiscal quando é claro que mais gasto é desesperadamente necessário e não há evidência alguma de que esse gasto virá do setor não governamental?

Para ser sincero, como é que o debate político em 2011 estava inundado por aqueles que querem enormes cortes de gastos num momento em que o desemprego e o subemprego na maior economia do mundo estava próximo dos 20%? Como é que ignoramos o fato de que, todos os dias, milhões de trabalhadores estão lentamente ou menos devagar esgotando toda a riqueza que acumularam ao longo de suas vidas profissionais apenas para viver uma vida básica, porque suas rendas secaram devido à falta de trabalho? Como é que ainda podem ser levadas a sério pessoas que dizem que os auxílios-desemprego deveriam ser cortados, agora que milhões de pessoas dependem deles?

Como é possível que, quando os maiores bancos de investimento de Wall Street e em outras nações, que agiram com tanto respeito à sociedade civil e às leis quanto contrabandistas e traficantes, iam à falência enquanto suas apostas explodiam em suas caras, o governo anunciava em poucas horas massivos resgates e, ainda assim, algo tão simples como criar empregos públicos a um salário mínimo ser considerado inalcançável?

Como é que milhares de criminosos ainda estão voltando ao trabalho dia após dia no setor financeiro e extraindo bônus massivos executando um trabalho totalmente improdutivo, quando milhares de indivíduos pobres (negros) estão sendo encarcerados todo dia por crimes pequenos contra propriedade e usualmente contra estes mesmos tipos?

Enfim, o que Marx tem a ver com tudo isso?

Nosso banqueiro George Magnus diz que:

“Legisladores se debatendo para entender a contenda do pânico financeiro, protestos e outros males afligindo o mundo, fariam bem em estudar os trabalhos do há muito morto economista Karl Marx. Quanto antes reconhecerem que estamos encarando uma crise nunca antes vista do capitalismo, melhor equipados estarão para encontrar um caminho de saída.”

Isto está sendo dito por um conselheiro de um banco de investimento e está sendo publicado pela Bloomberg.

A base do convite de Magnus para lermos Marx repousa em sua visão de que, enquanto a “análise do astuto filósofo sobre o capitalismo tinha muitas falhas… a economia global de hoje sofre de inquietantes similaridades às condições que ele previu.”

Estive envolvido na minha parcela de debates arcanos sobre o que Marx disse e se podemos reinterpretar suas previsões (queda da taxa de lucro, etc.) para alinhá-las com os fatos. Seja qual for a utilidade que possamos tirar desses debates populares, o ponto de partida é que os insights básicos de Marx ainda são relevantes.

E em notar que devemos começar a restabelecer atenção à classe.

George Magnus diz:

“Considere, por exemplo, a previsão de Marx sobre como o conflito inerente entre capital e trabalho se manifestaria. Como escreveu em “O Capital”, a busca de empresas por lucro e produtividade as levaria naturalmente a precisar de menos e menos trabalhadores, criando um “exército industrial de reserva” de pobres e desempregados: ‘Acumulação de riqueza num polo é, portanto, ao mesmo tempo acumulação de miséria.’”

George Magnus relaciona então este pensamento à presente situação nos EUA, onde “o esforço de empresas estadunidenses para cortar custos e evitar contratar tem impulsionado seus lucros corporativos como parte da produção econômica total para o maior nível em mais de seis décadas, enquanto a taxa de desemprego está em 9.1% e os salários reais estagnados.”

Já escrevi anteriormente sobre quem se beneficiou do crescimento incipiente nos EUA desde que a crise começou. Por favor, leia esse blog – The top-end-of-town have captured the growth – que mostra categoricamente que os trabalhadores empregados não desfrutaram de um crescimento real dos salários enquanto os lucros subiram astronomicamente, e os crescentes níveis de desempregados e subempregados não desfrutaram de nada.

O período neoliberal, com sua crise incluída, tem sido um ataque nas condições dos trabalhadores e na supressão das extremidades inferiores da distribuição da renda. Nesse blog – The origins of the economic crisis – eu esboço como a desregulação tem dramaticamente alterado a distribuição da renda nacional nos últimos 30 anos nas nações desenvolvidas com os governos como facilitadores.

George Magnus diz que em adição ao aumento dos lucros e desemprego enraizado:

“A desigualdade de renda nos EUA, por sua vez, está em algumas medidas mais perto de seu maior nível desde a década de 1920. Antes de 2008, a disparidade de renda era ofuscada por fatores como o crédito fácil, que permitiu às famílias pobres desfrutarem de um estilo de vida mais próspero. Agora o problema está vindo para casa, e para ficar.”

Curiosamente, o Escritório Australiano de Estatísticas liberou hoje os dados mais recentes para Renda Domiciliar e Distribuição de Renda, Austrália, 2009-10 que nos permite ver (parcialmente) o impacto da crise na desigualdade de renda.

Este gráfico traça o Coeficiente Gini (que o ABS – sigla em inglês para Escritório Australiano de Estatísticas – diz ser “uma única estatística que varia entre 0 e 1 e é um indicador sumário do grau de desigualdade, com valores próximos de 0 representando um grau menor de desigualdade, e valores próximos de 1 representando uma maior desigualdade”) para a Austrália de 1994-95 a 2009-10.

Para colocar em perspectiva, os valores para EUA e Reino Unido ultrapassariam o limite do gráfico. Mas a assim chamada terra “igualitária” da Austrália (um mito que nos é embutido desde a infância) está ficando cada vez mais parecida com os EUA, ano após ano. Houve uma trégua durante a crise, porém a tendência é clara.

O ABS mostra que o quintil inferior (20%) da distribuição de renda recebe 7.1% da renda total, o quintil seguinte (20-39%) recebe 12%; o próximo (40-59%) recebe 16.9%; o quarto quintil (60-79%) recebe 23.3%; e o quintil superior recebe 40.8% da renda total. O ABS também mostra que a distribuição de riqueza:

“[…] é muito mais desigual do que para a renda… 20% dos domicílios com o menor patrimônio líquido representavam apenas 1% do patrimônio líquido total, com uma média de patrimônio líquido de $31,829 por domicílio… os domicílios 20% mais ricos da Austrália detém 62% do patrimônio líquido total de domicílios, com um patrimônio líquido médio de $2.2 milhões por domicílio.

As distribuições de renda e riqueza nos EUA são mais desiguais que isso. O próximo gráfico mostra a partilha da renda total dos domicílios do quintil inferior (colunas azuis) e superior (colunas cinzas) da distribuição de renda. As linhas pretas retratam a regressão de tendência linear de cada uma das séries e a direção é óbvia.

Este dado é consistente com as mudanças dramáticas no coeficiente de participação no rendimento nacional. O dado acima é focado na unidade domiciliar. Coeficiente de participação baseia-se em “classe” no que tange ao salário e lucro. As duas perspectivas distributivas estão interligadas e oferecem diferentes visões das mesmas tendências subjacentes (com algumas complexidades).

Uma das características dos últimos trinta e tantos anos tem sido o dramático aumento da participação dos lucros (e a proporcional queda na participação do salário). O assalto na regulação e o ataque nos direitos dos trabalhadores trouxe uma crescente lacuna entre a produtividade do trabalho e o crescimento do salário real. O resultado tem sido uma dramática redistribuição da renda nacional em direção ao capital na maioria dos países. Por exemplo, nos países do G7, entre 1982 e 2005, houve uma queda de 6% na parcela da renda nacional paga em salários (ao contrário de juros e dividendos). Isto foi uma tendência global.

No passado, salários reais cresciam alinhados à produtividade, garantindo que as firmas pudessem realizar seus lucros esperados via vendas. Com salários reais estagnando aquém do crescimento da produtividade, um novo caminho teve de ser encontrado para manter os trabalhadores consumindo. O truque foi encontrado na ascensão da “engenharia financeira”, que empurrou uma dívida cada vez maior para o setor doméstico.

Os capitalistas descobriram ser possível manter as vendas e receber um bônus adicional na forma de pagamento de juros – suprimindo ao mesmo tempo o crescimento do salário real. As famílias, atraídas por baixas taxas de juros e implacáveis estratégias de marketing do setor financeiro embarcaram numa farra creditícia.

A crescente parcela da produção real (renda) embolsada pelo capital se tornou a ficha de aposta para um setor financeiro desregulado e em rápida expansão. Os governos alegaram que isso criaria riqueza para todos. E por um período, a riqueza nominal de fato cresceu – embora sua distribuição não tenha se tornado mais justa. Contudo, a ganância extraiu o melhor dos banqueiros, enquanto eles empurravam dívidas cada vez mais arriscadas em pessoas que já estavam claramente suscetíveis ao calote. Esta foi a origem da crise imobiliária do subprime de 2007-08.

É a isso que George Magnus se refere quando fala sobre como o “crédito fácil, que permitiu aos domicílios pobres desfrutarem um estilo de vida mais próspero” obscureceu a dinâmica subjacente da desigualdade.

Mais além George Magnus invoca Marx quando fala sobre o “Paradoxo da Superprodução”:

“Marx também apontou o paradoxo da superprodução e do subconsumo: Quanto mais as pessoas forem relegadas à pobreza, menos aptas estarão a consumir todos os bens e serviços que as empresas produzem. Quando uma empresa corta custos para aumentar seus ganhos, é inteligente, mas quando todas fazem isso, elas minam a formação de renda e demanda efetiva da qual dependem para obter suas receitas e lucros.

Este problema, também, é evidente no mundo desenvolvido de hoje. Nós temos uma capacidade substancial para produzir, mas nos grupos de renda média e baixa encontramos insegurança financeira generalizada e baixas taxas de consumo. O resultado é visível nos EUA, onde a construção de novas casas e venda de automóveis permanecem entre 75% e 30% abaixo de seus picos de 2006, respectivamente.

Como Marx diz no Capital: ‘A razão última de todas as crises reais sempre permanece na pobreza e no consumo restrito das massas.'”

Este é um tema no qual gastei muito tempo pensando e escrevendo sobre. Cobrimos isso em nosso livro de 2008 – Full Employment abandoned.

Keynes usou a incapacidade dos economistas neoclássicos em explicar a realidade da década de 1930 para introduzir o conceito de desemprego involuntário. Compreender o significado de desemprego involuntário exige um conhecimento prévio de como o conceito de demanda efetiva foi introduzido na análise. O objetivo era negar a visão clássica de que os resultados reais da economia eram determinados pelo equilíbrio do pleno-emprego alcançado no mercado de trabalho. Em outras palavras, a demanda agregada – ou mais corretamente – demanda efetiva, importa.

Pós-keynesianos normalmente começam com a Teoria Geral (1936) de Keynes na explicação do princípio da demanda efetiva. Entretanto, os elementos essenciais sustentando a crítica de Say e o entendimento moderno de desemprego involuntário numa economia capitalista monetária pode ser encontrado em Marx, particularmente em Teorias da Mais-Valia (1863). Especialmente no Capítulo 17 existem várias discussões sobre a negação clássica (Ricardiana) da possibilidade de superprodução generalizada e como aquela visão errônea é baseada na ideia de que produtos são trocados por produtos. Isto está no coração da neutralidade clássica que, em última instância, é a versão moderna da afirmação de que políticas monetárias e fiscais não podem alterar favoravelmente as condições reais na economia.

Em Teorias da Mais-Valia Vol. 2, Capítulo 17 (p. 705) lemos: ((p. 478 pdf lado direito))

“A concepção (na verdade pertencente a [James] Mill), que Ricardo tomou emprestada do enfadonho Say (a qual voltaremos quando discutirmos essa figura lastimável), de que a superprodução não é possível ou ao menos que nenhuma saturação geral do mercado é possível, é baseada na premissa de que produtos são trocados por produtos, ou como Mill coloca, no “equilíbrio metafísico de vendedores e compradores”, e isso levou [à conclusão] de que a demanda é determinada somente pela produção, ou também que a demanda e oferta são idênticas. A mesma premissa existe também na forma, a qual Ricardo particularmente gostava, de que qualquer quantia de capital pode ser empregada produtivamente em qualquer país.”

Marx realmente se debruçou sobre Say. Este parágrafo destaca também por que o uso de exemplos de “economia de troca direta” é profundamente falho. Uma economia monetária tem dinâmicas que não são captadas num mundo de escambo, onde produtos são trocados por produtos diretamente.

Se mapeássemos a atual posição (e da maior parte da economia convencional) conservadora (neoliberal) de volta às premissas clássicas que Marx estava atacando, encontraríamos uma correspondência próxima de 100% em termos de conceitos e implicações.

Eles estavam errados na época e por extensão lógica estão errados agora. A existência de um disjuntor na forma de estoques de dinheiro ocioso (reconhecendo que o dinheiro é mais do que um meio de troca, mas também uma forma de mercadoria independente) levou Marx a concluir que havia a possibilidade da estagnação, definida como um conflito entre compra e venda (ver Teorias da Mais-Valia Vol. 2, Capítulo 17, p. 710-711).

Curiosamente, em TSV (Vol. II, C. XVII, p. 712) Marx também antecipou a distinção moderna entre demanda nominal e efetiva que reside na compreensão da real contribuição de Keynes. Marx notou que, ao negar a possibilidade de uma saturação generalizada, Ricardo apela a necessidades ilimitadas de consumidores por mercadorias e qualquer saturação particular seria rapidamente superada por uma maior demanda por outras mercadorias.

Ele então (TSV, Vol. II, C. XVII, p. 712) pediu retoricamente por uma explicação da conexão entre ‘superprodução’, ‘necessidades absolutas’ e produção capitalista, e citou a negação de Ricardo da “possibilidade de uma saturação generalizada no mercado”:

“Pode-se produzir muito de uma mercadoria particular, da qual pode haver tal excesso no mercado, que não pague o capital investido; mas esse não pode ser o caso no que diz respeito à todas as mercadorias; a demanda por cereais é limitada pelas bocas que o comem, por sapatos e casacos pelas pessoas que os vestem; mas embora uma comunidade, ou parte de uma comunidade, possa ter tanto cereal e tantos chapéus e sapatos quanto forem possíveis ou desejáveis consumir, o mesmo não pode ser dito de toda mercadoria produzida pela natureza ou pela técnica. Alguns consumiriam mais vinho, se tivessem a capacidade de obtê-lo. Outros tendo vinho suficiente, desejariam aumentar a quantidade ou melhorar a qualidade de seus móveis. Outros talvez desejem enfeitar suas terras, ou aumentar suas casas; O desejo de fazer todas ou algumas dessas coisas está plantado no coração de todos os homens; nada é exigido senão os meios, e nada pode propiciar os meios, a não ser um aumento da produção…”

Marx devolveu:

“Poderia existir um argumento mais infantil? Funciona assim: mais de uma mercadoria particular pode ser produzida do que consumida; mas isso não pode se aplicar a todas as mercadorias ao mesmo tempo. Porque as necessidades, que as mercadorias satisfazem, não têm limites e todas essas necessidades não são satisfeitas no mesmo instante. Ao contrário. A satisfação de uma necessidade gera outra, por assim dizer, em potencial. Portanto nada é necessário, a não ser os meios para satisfazer essas necessidades, e esses meios só podem ser fornecidos através de um aumento na produção. Por isso uma superprodução generalizada não é possível.

Qual é o propósito de tudo isso? Em períodos de superprodução, uma grande parte da nação (sobretudo a classe trabalhadora) está mais do que nunca mal provida de cereais, sapatos, etc., para não falarmos de vinhos e móveis. Se a superprodução só pudesse acontecer quando todos os membros de uma nação tivessem satisfeito pelo menos suas necessidades mais urgentes, nunca poderia, na história da sociedade burguesa até o momento, ter existido um estado de superprodução generalizada ou até mesmo parcial. Quando, por exemplo, o mercado está saturado de sapatos, ou roupas, ou vinhos, ou produtos coloniais, talvez isso signifique que quatro sextos da nação satisfizeram mais do que suas necessidades em sapatos, roupas, etc.? O que afinal tem a superprodução a ver com necessidades absolutas? Trata-se apenas de demanda que é apoiada por capacidade de pagamento. Não é uma questão de superprodução absoluta – superprodução como tal em relação à necessidade absoluta ou o desejo de possuir mercadorias. Neste sentido, não há superprodução nem parcial nem geral; e uma não se opõe à outra.”

Observe a referência ao mercado capitalista se tratar “apenas de demanda que é apoiada por capacidade de pagamento. Não é uma questão de superprodução absoluta – superprodução como tal em relação à necessidade absoluta ou o desejo de possuir mercadorias.”

Incito-o para que leia a seção inteira no Teorias da Mais-Valia porque sua sabedoria reside no coração do problema contemporâneo do alto desemprego e crescimento estagnado. Keynes não ofereceu muito mais do que o que você pode encontrar neste trabalho de Marx.

George Magnus diz que a mensagem de Marx na crise atual é que:

“[…. legisladores têm de colocar o emprego no topo da agenda política, e considerar outras medidas não ortodoxas. A crise não é temporária, e certamente não será curada pela paixão ideológica do governo por austeridade.”

Ele lista “cinco grandes tábuas” para a renovação:

  1. “nós temos de sustentar a demanda agregada e o crescimento da renda” e os governos “devem fazer da criação de empregos o teste decisivo da política”.
  2. “mitigar o fardo da dívida das famílias”. Ele considera que os governos devem auxiliar famílias de baixa renda a “reestruturar a dívida hipotecária, ou trocar algum perdão de dívida por pagamentos futuros a credores a partir de qualquer valorização no preço da casa”. Neste blog em 2009 – When a country is wrecked by neoliberalism – descrevi uma iniciativa política desejável para ajudar donos de casa que estavam enfrentando despejo de suas casas porque não podiam mais honrar suas dívidas. É similar àquilo que está sendo defendido por George Magnus agora.
  3. ajudar bancos “a assegurar novo fluxo de crédito para pequenas empresas, especialmente”, flexibilizando as regras de adequação de capital e “gasto [público direto] em financiamento indireto do investimento nacional ou programas de infraestrutura”. A natureza exata da intervenção é discutível, mas a intenção não é. A solução deve consistir em demanda agregada sendo estimulada e com baixos gastos não governamentais, a responsabilidade por impulsionar o gasto fica com o governo.
  4. “para aliviar o fardo da dívida soberana na Zona do Euro, credores europeus têm de ampliar as baixas taxas de juros e prolongar os prazos de pagamento recentemente propostos à Grécia”. Enquanto isso daria um alívio temporário, não vai ao cerne da questão, que é o desenho falho (e disfuncional) do sistema monetário em geral. Tal “alívio” não resolveria o problema inerente.
  5. “para construir defesas contra o risco de cair em deflação e estagnação, bancos centrais deveriam olhar para além dos programas de compra de títulos, e ao invés disso almejar uma taxa de crescimento da produção econômica nominal”. Eu não apoio o Banco Central como principal agente numa política de contra estabilização. Escreverei sobre isso em mais detalhes outra hora.

Conclusão

Achei interessante que uma pessoa que aconselha mercados financeiros sugerisse que Karl Marx se mantém relevante. É claro que o capitalismo alcançou um ponto de crise após três décadas de desregulação, privatização, cortes de bem-estar, etc., que diziam que iria melhorar sua performance. Estava claro que o que toda essa legislação neoliberal fez foi dar mais poder ao capital, redistribuir a renda real para longe dos trabalhadores, e reduzir a capacidade política dos governos para usar política fiscal e regulação para mediar a luta de classes e sustentar o pleno emprego.

O capital nunca gostou de pleno emprego. Marx sabia disso. Os últimos 30 anos têm visto os ganhos feitos pelos trabalhadores e seus sindicatos ao longo de um século de luta corroerem pelo ataque incessante a seus direitos e condições de vida.

A luta de classes está viva e dominante nessa crise. Gostaria de acrescentar que hoje na Murdoch Press na Austrália aparecem artigos que culpam os sindicatos pela crise econômica e alegam que a decisão do governo australiano de retirar algumas das piores leis de relações industriais que o governo conservador anterior tinha decretado – e que deram um poder massivo aos empregadores – também fez com que a economia desacelerasse. Fique ligado para mais ataques de classe como esses.