O memorando que ajudou a matar meio milhão de pessoas na Síria

por Daniel Lazare | Consortium News - Tradução de Mariana Braghini para a Revista Opera

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(Foto: Departamento de Estado dos EUA)

Um memorando enviado para Hillary Clinton, que o WikiLeaks tornou público em 2016, não tem tido a atenção que merece. Agora é a hora. Depois que o presidente Donald Trump twittou que estaria retirando as tropas americanas da Síria, Clinton se juntou aos vociferos críticos que querem mais guerra no país.

“Ações têm consequências, e estando ou não na Síria, as pessoas que querem nos machucar estão lá e em guerra”, Clinton twittou em resposta a Trump. “Isolacionismo é fraqueza. Empoderar o Estado Islâmico é perigoso. Jogar junto à Rússia e ao Irã é burrice. Este Presidente está colocando nossa segurança nacional em grande risco.”

De fato, ações têm consequências.

O memorando mostra o tipo de conselho que Clinton recebia enquanto Secretária do Estado para mergulhar mais fundo na Guerra Síria. Ele nos leva de volta a 2012 e à fase inicial do conflito.

Naquele momento, a Siria era um problema interno, ainda que exportações de armas sauditas estivessem exercendo um papel cada vez maior no reforço das forças rebeldes. Mas, uma vez que o Presidente Barack Obama eventualmente decidiu em favor da intervenção, sob pressão de Clinton, o conflito foi rapidamente internacionalizado, enquanto milhares de jihadistas adentraram o país, que vinham até desde a China ocidental.

O memorando de 1.200 palavras escrito por James P. Rubin, diplomata sênior no Departamento de Estado de Bill Clinton, para a então Secretaria de Estado Hillary Clinton, o qual Hillary pediu que fosse impresso duas vezes, começa com o assunto “Irã”, um importante patrono da Síria.

O memorando descarta qualquer ideia de que conversas acerca da questão nuclear iriam fazer com que o Irã parasse “de aperfeiçoar parte do programa de qualquer armamento nuclear – a capacidade de enriquecer Urânio.”  E, se conseguisse a bomba – continua – Israel sofrerá um atraso estratégico já que não poderá mais “responder às provocações com ataques militares convencionais na Síria e Líbano, como atualmente pode.” Negada a habilidade de bombardear à vontade, Israel poderia deixar de fora alvos secundário e atacar o inimigo principal em vez disso.

Consequentemente, o memorando afirma que os EUA deveriam derrubar o governo Assad, tanto para enfraquecer o Irã bem como para acalmar os medos de Israel, que há muito nomeou a República Islâmica como seu principal inimigo. Como coloca o memorando:

“Derrubar Assad não seria apenas uma bênção à segurança de Israel, mas também acalmaria o compreensível medo de Israel de perder seu monopólio nuclear. Então, Israel e Estados Unidos poderiam desenvolver uma visão comum sobre quando o programa do Irã se tornar tão perigoso que uma ação militar possa ser garantida.”

Este documento, advogando armamentos aos rebeldes sírios, pode ter sido altamente ignorado por conta da confusão com suas datas, que parece imprecisa.

O marca da data no e-mail é “01/01/2001 – 03:00”, apesar de Clinton ainda ser somente uma senadora eleita naquele momento. A data também está fora de sincronia com a linha do tempo das negociações diplomáticas com o Irã.

Mas o corpo do documento fornece ao Departamento de Estado um caso e uma numeração de documento com a data de 30/11/2015. Isso, no entanto, também está incorreto, pois Hillary renunciou como Secretária de Estado em 1 de fevereiro de 2013.

Central ao Grande Debate

Consequentemente, qualquer um que tropece no memorando nos arquivos do WikiLeaks pode ficar confuso sobre como isso se encaixa no debate quanto ao uso da força para derrubar o Presidente da Síria, Bashar al-Assad. Mas pistas textuais fornecem uma resposta. O segundo parágrafo se refere a conversas sobre as conversas sobre a questão nuclear com o Irã “que iniciaram em Istambul neste mês de Abril e irão continuar em Baghdad em Maio,” eventos que ocorreram em 2012. O sexto parágrafo invoca uma entrevista com a repórter da CNN Christiane Amanpour, esposa de Rubin, conduzida com o então Ministro de Defesa israelense, Ehud Barak; “semana passada.” Como a entrevista ocorreu em 19 de Abril de 2012, o memorando pode portanto estar datado à última semana de Abril. (Depois de ser enviado como um memorando para Hillary, Rubin publicou uma versão dele na Foreign Policy em 04 de Junho de 2012.)

O memorando sincroniza com as posições de Clinton sobre a Síria, tanto por pedir pela derrubada de Assad e continuar a pressionar por uma zona de exclusão aérea, em seu último debate com Donald Trump – mesmo depois do General Joseph Dunford ter testemunhado ao Comitê de Forças Armadas do Senado, dizendo que isso poderia significar uma guerra com a Rússia.

O memorando foi enviado à Hillary pouco tempo antes dela ter somado forças com o então Diretor da CIA, David Petraeus, para pressionar por um agressivo programa de assistência militar aos rebeldes.

Desnecessário dizer que o ceticismo do memorando sobre as negociações com o Irã provou ser injustificado, já que o Irã eventualmente concordou em encerrar seu programa nuclear. O memorando, cuja impressão Hillary requisitou duas vezes, deixa claro que a Segurança israelense deixa de lado todas as outras considerações, mesmo que isso signifique incendiar uma região que já foi queimada mais de uma vez.

Mas o memorando ilustra ainda mais: uma crença descuidada e descolada da realidade, quase mística, de que tudo irá se encaixar nos devidos conformes assim que os EUA flexione seus músculos. Derrubar Assad não seria nada mais que “transformativo”, diz o memorando.

“…O Irã estaria estrategicamente isolado, incapaz de exercer sua influência no Oriente Médio. O regime resultante na Síria irá ver os EUA como um amigo, não inimigo. Washington ganharia um reconhecimento substancial lutando pelo povo no mundo Árabe, não os regimes corruptos. Para Israel, a justificativa para um ataque das forças de Coalizão contra as instalações nucleares iranianas seria suavizada. E um novo regime sírio pode muito bem estar aberto para as negociações de paz com Israel agora congeladas. O Hezbollah no Líbano seria cortado de seu patrocinador iraniano, já que a Síria não seria mais um ponto de trânsito iraniano para treinamento, assistência e base de mísseis.”

Era uma “abordagem de baixo custo e altos ganhos”, diz o memorando, que iria eliminar um inimigo, enfraquecer mais dois e gerar tamanha harmonia entre o povo sírio que as conversas de paz entre Damasco e Tel-Aviv ganhariam vida de novo. Os riscos aparentavam ser nulos. Já que “a operação na Líbia não teve consequências duradouras para a região,” supõe o memorando, se referindo à derrubada do governante Muammar Gaddafi seis meses antes, a operação síria também não iria. Em uma passagem que pode ter influenciado a política de Hillary sobre a zona de exclusão aérea, apesar do aviso de Dunford, o memorando diz:

“Alguns dizem que o envolvimento dos EUA arrisca uma guerra mais ampla com a Rússia. Mas o exemplo de Kosovo [no qual a OTAN bombardeou a Sérvia, aliada da Rússia] mostra o contrário. Nesse caso a Rússia tinha genuínos laços étnicos e políticos com os sérvios, o que não existe entre a Rússia e a Síria, e até mesmo a Rússia fez pouco mais do que reclamar. Oficiais russos já reconheceram que não vão ficar no caminho se uma intervenção vier.”

Então, não havia com o que se preocupar. Sessenta e cinco anos de conflito Árabe-Israelense ficariam de escanteio enquanto a Rússia permaneceria seguramente marginalizada.

O resultado

Este, no entanto, não foi o resultado. Naquele momento, a Líbia parecia sob controle. Mas três ou quatro meses depois o país explodiria, com milícias islâmicas apoiadas pelo Ocidente atirando-se umas contra as outras, impondo uma estrita legislação religiosa, reinstituindo a escravidão e voltando décadas atrás em progresso social. Uma vez que o Presidente Barack Obama aprovou uma versão modificado do plano de Clinton e Petraeus, a Síria cairia no mesmo abismo, enquanto jihadis financiados pela Arábia Saudita e outras monarquias petrolíferas, muitos dos quais vieram da Líbia, espalharam violência sectária e medo.

A suposição do memorando, de que os EUA poderiam decapitar o governo sírio ordenadamente e de forma limpa, sem precisar se preocupar com consequências mais amplas, era uma ilusão.

A idéia de que civis sírios cairiam de joelhos em gratidão era absurda, enquanto o desprezo de Clinton pela complexidade da política na Síria era assombrosa.

Há também a alegre sugestão no memorando de que Washington “trabalha com aliados regionais, como a Turquia, Arábia Saudita e Catar, para organizar, treinar e armar forças rebeldes sírias.”

No final de 2009, a Secretária de Estado Hillary Clinton enviou um outro memorando diplomático tornado público pelo WikiLeaks, dizendo que “doadores na Arábia Saudita constituem a fonte de financiamento mais significativa aos grupos terroristas sunitas ao redor do mundo.” Então o que a fez pensar, dois anos depois, que o reinado não financiaria jihadis sírios precisamente da mesma laia?

O memorando de 2009 bateu no Catar por permitir à Al Qaeda, Talibã e outros grupos terroristas, o uso do sheiknado “como uma localidade de captação de recursos.” Ela bem sabia na época que uma autocracia pró Al Qaeda iria agora ajudar os sírios “a lutar por sua liberdade,” como colocado no memorando por ela enviado.

Há uma notável continuidade entre a política para a Síria defendida por Clinton e políticas anteriores no Afeganistão e na Líbia. Na primeira, a assistência militar dos EUA acabou fluindo para o senhor da guerra Gulbuddin Hekmatyar, um religioso sectário e furioso xenofóbico anti-ocidental, o qual, não obstante, era “o mais eficiente em matar soviéticos,” como Steve Coll escreve em “Ghost Wars”, seu best-seller de 2004, no qual conta a história de amor da CIA com a jihad.

Os assassinatos de Hekmatyar acabaram nos braços americanos. Mais ou menos a mesma coisa aconteceu na Líbia quando Clinton persuadiu o Catar a se unir na coalizão anti-Gaddafi. O sheiknado agarrou a oportunidade de distribuir cerca de 400 milhões de dólares para diversas milícias rebeldes, muitas das quais extremistas islâmicas. A administração Obama não disse nada em resposta.

Mais uma vez, armas e materiais dos EUA acabaram nas mãos dos elementos mais reacionários. O mesmo aconteceria na Síria, onde armas americanas e sauditas foram parar nas mãos do afiliado local da Al Qaeda, conhecido como Jabhat al-Nusra, e até mesmo com o Estado Islâmico, como reportado meticulosamente pelo Conflict Armament Research, um grupo de estudo financiado pela Suíça e União Europeia.

Mistura insurgente

Por volta de Agosto de 2012, um relatório secreto da Defense Intelligence Agency descobriu que os Salafistas, a Irmandade Muçulmana e a Al Qaeda já eram “as principais forças dirigindo a insurgência” e que os EUA e estados do Golfo os apoiavam assim mesmo. O relatório advertiu que os EUA e alguns de seus aliados estavam apoiando o estabelecimento de um “Principado Salafista” na Síria Oriental para pressionar Assad, e que ele poderia se transformar em um “Estado Islâmico” – dois anos antes do Estado Islâmico ser declarado, em 2014. Clinton estava entre os oficiais sênior da administração Obama que por sua teria que ter visto o relatório, já que ele foi enviado ao Departamento de Estado e outras diversas agências.

Em 2016, o então Secretário de Estado, John Kerry, confirmou esta política em um áudio vazado, dizendo que os EUA, em vez de combater seriamente o Estado Islâmico na Síria, estava pronto para usar a crescente força dos jihadistas para pressionar Assad a renunciar, como enfatizado no documento da Defense Intelligence Agency.

“Nós sabemos que isso estava crescendo, estávamos assistindo, vimos que os Daesh [um nome árabe para Estado Islâmico] estava se fortalecendo e achamos que Assad estava ameaçado,” disse Kerry. “Nós achávamos, entretanto, que provavelmente poderíamos conseguir que Assad pudesse então renunciar, mas em vez de negociar ele conseguiu Putin para apoiá-lo.”

O escritor de discursos, Ben Rhodes, resumiu o problema dos rebeldes “moderados” sendo indistinguíveis da Al Qaeda, em suas memórias da Casa Branca, “The World As It Is.” Ele escreveu:

“A Al Nusra era provavelmente a maior força entre a oposição e enquanto havia elementos extremistas no grupo, também estava cada vez mais claro que a oposição moderada estava lutando lado a lado com a Al Nusra. Eu afirmei que estabelecer a Al Nusra como um grupo terrorista iria alienar as mesmas pessoas que queremos ajudar, e dar à Al Nusra menos incentivo para evitar afiliações extremistas.”

O problema era como separar os “bons” lutadores da Al Qaeda dos “maus”. Posteriormente Rhodes reclamou quando o Presidente russo Vladimir Putin disse que ele e os oficiais de Obama estavam “tentando escalar um pinheiro, pelados, sem arranhar suas bundas.” Isso era “presunçoso,” escreveu Rhodes. Mas Putin estava meramente utilizando uma colorida expressão para dizer que a política não fazia sentido; e não fazia mesmo.

O custo da política apoiada por Clinton na Síria tem sido impressionante. O total de pessoas mortas chega a 560 mil e metade da população foi deslocada, enquanto o Banco Mundial estimou os danos da guerra em 226 bilhões de dólares, equivalente a seis anos de salário de todos os homens, mulheres e crianças sírias.

Um memorando distorcido ajudou a desencadear uma catástrofe na vida real que se recusa a simplesmente desaparecer. É um pesadelo do qual Trump está lutando para escapar, ao tentar retirar as tropas estadunidenses com seu jeito confuso e iludido. E é um pesadelo que belicistas desde o neoconservador John Bolton, conselheiro de segurança de Trump. até a “liberal” porta-voz Nancy Pelosi e Hillary Clinton estão determinados a dar continuidade.

*Daniel Lazare é o autor de “The Frozen Republic: How the Constitution Is Paralyzing Democracy”(Harcourt Brace, 1996) e outros livros acerca da política americana. Eles escreveu para diversas publicações desde The Nation ao LeMonde Diplomatique e mantém um blog sobre a Constituição e assuntos relacionados (Daniellazare.com).