A brilhante estratégia de Trump para esquartejar a hegemonia do dólar

por Michael Hudson | CounterPunch - Tradução de Luiz Lima

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(Foto: Shealah Craighead / White House)

O fim da incontestável dominação econômica global dos Estados Unidos chegou mais cedo do que o esperado, graças justamente aos neocons que legaram ao mundo o Iraque, a Síria e as guerras sujas na América Latina. Assim como o Vietnã esgotou as reservas de ouro dos EUA em 1971, o violento aparato de guerra para a mudança de regime contra a Síria e a Venezuela – com ameaças de sanções a outros países recalcitrantes em se juntar à cruzada – está fazendo com que países europeus, e outros, tratem de criar suas próprias instituições financeiras alternativas.

Esta ruptura já se desenhava há um bom tempo e estava para ocorrer, uma hora ou outra. Porém, quem poderia imaginar que Donald Trump seria o seu catalisador? Nenhum partido de esquerda, nenhum socialista, anarquista ou líder nacionalista em parte alguma do mundo poderia alcançar o que ele já alcançou em seus esforços para demolir o Império Americano.

O Estado Profundo reage chocado à capacidade deste grileiro de terras de extrema-direita de fazer com que outros países se defendam por meio do desmantelamento da ordem mundial centralizada nos EUA. Ele faz questão de esfregar isto na cara de todos, empregando incendiários neocons das eras Reagan e Bush, como John Bolton e Elliott Abrams, para levantar as chamas na Venezuela. A coisa se assemelha a uma comédia política de humor negro. O mundo da diplomacia internacional é revirado e transformado num mundo onde os EUA nem mesmo fingem que devem aderir a normas internacionais, que dirá leis ou tratados.

Os neocons empregados por Trump estão conseguindo o que parecia inimaginável até recentemente: aproximar a China e a Rússia – o grande pesadelo de Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski. Também empurram a Alemanha e outros países europeus para a órbita eurasiana, o pesadelo da Teoria do Heartland de Halford Mackinder [NT] de um século atrás.

A razão de fundo é clara. Depois de uma sucessão de mentiras e pretextos sobre o Iraque, a Líbia e a Síria em conjunto com nossa absolvição ao regime sem lei da Arábia Saudita, os líderes políticos estrangeiros se veem obrigados a reconhecer o que as pesquisas de opinião mundiais já indicaram antes mesmo que os “rapazes Irã-Contras” voltassem sua atenção para as maiores reservas petrolíferas do mundo, na Venezuela: os Estados Unidos são agora a maior ameaça à paz mundial.

Nomear o golpe patrocinado pelos Estados Unidos na Venezuela de “defesa da democracia” revela o duplipensar subjacente à política externa do país. Define-se a “democracia” como o apoio à política externa dos EUA, a privatização neoliberal da infraestrutura pública, o desmantelamento da regulamentação governamental e a obediência às instituições globais dominadas pelo país, do FMI e o Banco Mundial à NATO. Por décadas a fio, as guerras no estrangeiro, os programas de austeridade doméstica e as intervenções militares que se seguiram trouxeram mais violência em lugar da democracia.

No “Dicionário do Diabo” [NT] que os diplomatas dos EUA aprendem a utilizar como seu manual de redação do duplipensar, um país “democrático” é aquele que se submete à liderança estadunidense, abre sua economia aos investimentos estadunidenses e a privatiza de acordo com as diretrizes patrocinadas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Assim, a Ucrânia é considerada uma democracia, tal como a Arábia Saudita, Israel e outros países que atuam como protetorados financeiros e militares dos EUA, dispondo-se a tratar os inimigos deste país como se seus o fossem.

Em algum ponto, essa política colidiria com os interesses próprios de outras nações, e acabaria por forçar passagem contra a retórica de relações-públicas do império. Outros países tratam de abandonar o dólar e substituir o “internacionalismo” (entendido como o nacionalismo estadunidense imposto ao resto do mundo) pelo próprio interesse nacional.

Podia-se vislumbrar esta trajetória há uns 50 anos (descrevi-a em Super Imperialism [1972] e Global Fracture [1978]). Teria de acontecer. Porém, ninguém pensava que o fim chegaria da forma como está a chegar. A História acabou por se tornar uma comédia, ou ao menos irônica, à medida que percorremos seu caminho dialético.

Durante os últimos 50 anos, os estrategistas dos EUA, o Departamento de Estado e o National Endowment for Democracy (NED) se preocuparam com o fato de que a oposição ao imperialismo financeiro do país provinha dos partidos de esquerda. Assim, foram despendidos vultosos recursos para manipular os partidos que se autodenominavam socialistas (o Partido Trabalhista inglês de Tony Blair, o Partido Socialista em França, os social-democratas alemães etc.) de forma a que estes adotassem políticas diametralmente opostas às que esposavam há um século. Entretanto, seus planejadores políticos e seus grandes manipuladores negligenciaram a direita, imaginando que esta apoiaria instintivamente a violência estadunidense.

A realidade é que os partidos de direita querem ser eleitos, e o nacionalismo populista é hoje o caminho para a vitória eleitoral na Europa e em outros países, como foi para Donald Trump em 2016. A agenda de Trump pode realmente ser a de desintegrar o Império Americano utilizando-se da velha retórica isolacionista do Tio Sam de 50 anos atrás. Ele certamente tenta atingir os órgãos vitais do Império. Seria ele um agente antiamericano consciente? Pode ser que seja – mas seria uma mistificação mental utilizar o “quo bono” para assumir que se trata de um agente consciente.

Afinal, se nenhuma construtora, fornecedor, sindicato ou banco quer fazer negócios com Trump, porque os chineses, os iranianos ou Putin seriam mais ingênuos? O problema certamente acabaria por eclodir, como um resultado da impossibilidade de impor a dinâmica interna da globalização patrocinada pelos EUA e seus desdobramentos, como a austeridade financeira, os deslocamentos populacionais causados pela fuga das guerras fomentadas pelos EUA e, acima de tudo, a recusa estadunidense a aderir às leis e regulações internacionais promovidas pelo próprio país, sete décadas atrás, no rastro da II Guerra Mundial.

O desmantelamento das leis e tribunais internacionais

Qualquer sistema internacional de controle necessita de um conjunto de leis. Pode mesmo ser um exercício arbitrário de poder desabrido a impor a exploração predatória, mas é, ainda assim, “A Lei”. E “A Lei” necessita de tribunais para aplicá-la (apoiados pelo poder de polícia para obrigar a aceitá-la e punir aos seus violadores).

Esta é a primeira contradição legal da diplomacia global estadunidense: os EUA sempre se negaram a permitir que qualquer outro país tenha o direito à voz sobre suas políticas domésticas, sua legislação ou sua diplomacia. É isto que compõe o assim chamado “excepcionalismo americano”. Todavia, durante 60 anos, seus diplomatas têm fingido que seu julgamento superior promove um mundo pacífico (como o Império Romano também dizia que seu mundo o era), e possibilita aos outros países repartir a prosperidade e padrões ascendentes de vida.

Nas Nações Unidas, os diplomatas estadunidenses insistiram no poder de veto. No Banco Mundial e no FMI, sempre se asseguraram de que sua participação na composição do capital fosse de tal ordem que lhes permitisse vetar qualquer empréstimo ou qualquer outra política. Sem possuir tal poder, os EUA simplesmente não se unem a qualquer organização internacional. Entretanto, o país sempre tratou de pintar o próprio nacionalismo como se este fosse uma defesa da globalização e do internacionalismo. Era tudo um eufemismo para aquilo de que realmente se tratava: a tomada unilateral de decisões pelos EUA.

O nacionalismo estadunidense teria inevitavelmente de romper com a miragem do internacionalismo global, e também com qualquer ideia de um tribunal internacional. Sem o poder de veto sobre os juízes, os Estados Unidos jamais aceitaram a autoridade de corte alguma, em particular o Tribunal Penal Internacional (TPI) das Nações Unidas em Haia. Recentemente, aquele tribunal encetou uma investigação dos crimes de guerra estadunidenses no Afeganistão, desde suas políticas de tortura até o bombardeio de alvos civis como hospitais, casamentos e infraestrutura. “Aquela investigação acabou por encontrar uma base razoável para crer que [foram cometidos] crimes de guerra e crimes contra a humanidade.”[1]

O assessor para a Segurança Nacional de Donald Trump, John Bolton, explodiu em fúria, e, em setembro de 2018, alertou: “Os Estados Unidos empregarão quaisquer meios que sejam necessários para proteger nossos cidadãos, e os de nossos aliados da perseguição injusta por esta Corte ilegítima”, e acrescentou que a Corte Internacional das Nações Unidas não deveria se atrever a investigar “Israel ou outros aliados dos EUA”.

Isto provocou a renúncia do juiz alemão Christoph Flügge em protesto. Na verdade, Bolton advertiu a Corte para que se afastasse de qualquer caso envolvendo os EUA, prometendo proibir os “juízes e promotores de entrar nos Estados Unidos”. Assim Bolton pronunciou sua ameaça: “Vamos sancionar seus recursos em nosso sistema financeiro e processá-los criminalmente em nossos tribunais. Não vamos cooperar com o TPI. Não daremos qualquer assistência ao TPI. Não nos reuniremos ao TPI. Deixaremos que o TPI morra sozinho. Afinal de contas, para todos os efeitos, o TPI já está morto para nós”.

O que isto significou, e o juiz alemão o afirmou, foi que “se algum dia esses juízes vierem a interferir com assuntos de interesse doméstico dos EUA ou investigar algum cidadão estadunidense, [Bolton] disse que seu governo tudo fará para garantir que estes juízes não possam jamais viajar aos EUA – e que talvez sejam processados criminalmente.”

A inspiração original do TPI – utilizar as leis de Nuremberg que foram aplicadas contra os alemães nazistas para processar qualquer país ou funcionário culpado por cometer crimes de guerra – já havia caído em desuso com o fracasso no indiciamento dos autores do golpe de Estado no Chile, do escândalo Irã-Contras ou da invasão estadunidense ao Iraque por crimes de guerra.

O desmantelamento da hegemonia do dólar, do FMI ao SWIFT

De todas as instâncias do poder político global correntes, a finança e o investimento internacionais se tornaram os mais explosivos. As reservas monetárias internacionais devem ser tidas como sacrossantas, e as obrigações das dívidas internacionais devem seguir-se de perto.

Os bancos centrais mantêm há muito tempo seu ouro e outras reservas monetárias nos Estados Unidos e em Londres. Em 1945, isso parecia razoável, pois o Federal Reserve Bank de Nova York (em cujo porão o ouro dos bancos centrais estrangeiros era mantido) era guardado por militares, e porque o Consórcio do Ouro de Londres era o veículo por meio do qual o Tesouro dos EUA mantinha o dólar “tão bom quanto ouro” a US$ 35 por onça. As reservas estrangeiras para além do ouro eram mantidas sob a forma de títulos do Tesouro dos EUA, compradas e vendidas nos mercados de câmbio de Nova York e Londres, de forma a manter as taxas de câmbio estáveis. A maior parte dos empréstimos aos governos era denominada em dólares, de forma que os bancos de Wall Street eram rotineiramente apontados como agentes recebedores.

Este era o caso do Irã sob o xá, que os EUA entronizaram após bancar o golpe de 1953 contra Mohammed Mossadegh, quando este buscou nacionalizar a Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo (hoje British Petroleum) ou, pelo menos, cobrar-lhe impostos. Depois que o xá foi derrubado, o regime de Khomeini pediu a seu agente pagador, o Chase Manhattan, que utilizasse os depósitos que o país mantinha no banco para pagar os detentores de seus títulos. O Chase, seguindo a orientação do governo dos EUA, recusou-se a fazer isto, e os tribunais estadunidenses decretaram a inadimplência do Irã, congelando os ativos do país nos EUA e onde mais puderam fazê-lo.

Esse episódio demonstrou que a finança internacional é um braço do Departamento de Estado e do Pentágono, mas isso se passou há uma geração, e somente agora os outros países começaram a se sentir incomodados com a ideia de deixar seus ativos em ouro nos Estados Unidos, onde estes podem ser confiscados arbitrariamente, para punir qualquer país que resolva agir de maneira que a diplomacia estadunidense julgue ofensiva. Assim, no ano passado, a Alemanha finalmente reuniu coragem para pedir de volta parte do seu ouro. Os funcionários do governo dos EUA se fingiram chocados com a insultuosa insinuação de que poderiam fazer a um país cristão e civilizado o que fizeram com o Irã, e a Alemanha acabou por aceitar uma transferência mais lenta.

Foi quando surgiu a Venezuela. Ao precisar desesperadamente utilizar suas reservas de ouro para prover as importações necessárias ao funcionamento mínimo de sua economia devastada pelas sanções dos EUA – numa crise pela qual os diplomatas deste país culpam o “socialismo” e não as tentativas americanas de “fazer a economia gritar” (como os funcionários do governo Nixon falavam sobre o Chile de Salvador Allende) – a Venezuela instruiu, em dezembro de 2018, o Banco da Inglaterra a transferir uma parte dos 11 bilhões de dólares que possui em ouro guardados em seus cofres (e em outros bancos centrais). Uma operação tão simples quanto a de honrar um cheque emitido pelo depositante contra sua própria conta.

Os ingleses se recusaram a honrar a instrução oficial, seguindo as diretrizes de Bolton e do Secretário de Estado os EUA, Mike Pompeo. Como reportou a Bloomberg: “Os funcionários do governo do EUA tentam agora direcionar os ativos venezuelanos para o [Chicago Boy Juan] Guaidó para melhorar suas chances de efetivamente tomar o controle do governo. Os 1,2 bilhões de dólares em ouro são parte significativa dos 8 bilhões em divisas estrangeiras de propriedade do Banco Central da Venezuela”.[2]

O destino do ouro parecia ser a Turquia, o que fez com que Bolton e Pompeo tratassem de avisar aos turcos que desistissem de ajudar a Venezuela, ameaçando sancionar o país, ou qualquer outro que se atreva a ajudar a Venezuela a vencer sua crise econômica. Quanto ao Banco da Inglaterra, a conclusão da matéria da Bloomberg foi: “Os funcionários do Banco Central de Caracas receberam ordens de não mais tentar contato com o Banco da Inglaterra. Eles foram informados que os funcionários do Banco da Inglaterra não os atenderão”.

Isto deu origem a rumores de que a Venezuela estava vendendo 20 toneladas de ouro entregando-as através de um Boeing 777 da Rússia – cerca de 840 milhões de dólares. O dinheiro provavelmente chegaria às mãos de russos e chineses detentores de títulos venezuelanos, assim como serviria para comprar alimentos destinados a aliviar a fome local.[3] A Rússia negou a informação, porém a Reuters confirmou que a Venezuela havia vendido 3 toneladas de um total de 29 que planeava vender aos Emirados Árabes Unidos, com mais 15 toneladas a serem enviadas na sexta-feira, 1º de fevereiro.[4] O senador estadunidense e anticomunista linha-dura Marco Rubio acusou a venda de ser “roubo”, como se alimentar um povo para aliviar uma crise provocada pelos Estados Unidos fosse um crime contra o poder de pressão da diplomacia estadunidense.

Se há um país que os diplomatas americanos odeiam mais do que uma nação recalcitrante da América Latina é o Irã. A denúncia, por Trump, do acordo nuclear firmado pelos diplomatas europeus e do governo Obama chegou ao ponto de se ameaçar a Alemanha e outros países europeus com sanções punitivas se estes se negassem a também quebrar os seus acordos. Isto, mais a oposição americana à importação de gás russo, fez com que a Europa finalmente começasse a procurar uma maneira de defender a si própria.

As ameaças imperiais não são mais de ordem militar. Nenhum país, incluindo a Rússia e a China, pode organizar uma invasão militar de outro país com algum porte significativo. Desde a Guerra do Vietnã, único tipo de guerra que um país democraticamente eleito pode travar é a atômica, ou ao menos o bombardeamento pesado, tal como os Estados Unidos infligiram ao Iraque, à Líbia e à Síria. Porém, agora a guerra cibernética se tornou uma maneira de desconectar qualquer economia do resto do mundo. E as maiores ciberconexões são as utilizadas para transferências financeiras, à frente das quais está a SWIFT (sigla em inglês para a Sociedade Mundial Interbancária para Telecomunicações Financeiras), com sede na Bélgica.

A Rússia e a China já se movimentaram para criar um sistema próprio de transferências bancárias caso os EUA os desconectem do SWIFT. E, já agora, os países europeus se aperceberam que as ameaças de Bolton e Pompeo podem conduzir a pesadas multas e ao arresto de ativos se persistirem em comercializar com o Irã, como preveem os tratados que foram negociados.

Em 31 de janeiro, o dique se rompeu com o anúncio de que a Europa havia criado seu próprio sistema de pagamentos para contornar as sanções e o utilizaria com o Irã e com outros países na mira dos diplomatas americanos. Alemanha, França e até mesmo o cãozinho amestrado chamado Reino Unido se associaram para criar o INSTEX – Instrumento de Apoio ao Intercâmbio Comercial. A promessa é a de que o sistema será utilizado somente para “ajuda humanitária” de modo a poupar o Irã de uma devastação patrocinada pelos EUA como a que ocorre na Venezuela. Contudo, à luz da oposição cada vez mais fervente dos EUA ao gasoduto Nord Stream, que levará gás russo à Europa, esse sistema alternativo de compensação bancária estará pronto para operar caso os EUA tentem efetuar um ataque de sanções à Europa.

Acabei de retornar da Alemanha e vi uma rachadura considerável entre a indústria do país e sua liderança política. Ao longo dos anos, as grandes companhias sempre viram a Rússia como um mercado natural, uma economia complementar que necessitava modernizar a sua manufatura e capaz de suprir a Europa com gás natural e outras matérias-primas. A América e sua postura de Nova Guerra Fria tenta bloquear essa complementaridade comercial. Ao advertir os europeus contra a “dependência” do gás natural russo barato, os EUA oferecem seu gás liquefeito de petróleo caro (e entregue em instalações portuárias que, até o momento, não têm capacidade de receber o volume necessário). O presidente Trump insiste, ainda, que os membros da OTAN devem dedicar 2% de seus PIBs ao orçamento da organização – preferencialmente adquirindo armas aos EUA e não dos mercadores da morte franceses ou alemães.

O dramalhão criado com as posições estadunidenses acaba por conduzir ao pesadelo eurasiano imaginado por Mackinder, Kissinger e Brzezinski que mencionei mais acima. Além de impelir a Rússia e a China à união, a diplomacia estadunidense agrega a Europa ao Heartland, independentemente da capacidade intimidatória provocada pela dependência dos Estados europeus da diplomacia estadunidense, que o país tem buscado desde 1945.

O Banco Mundial, por exemplo, tem sido tradicionalmente chefiado por um Secretário de Defesa dos EUA. Desde que surgiu, sua política permanente tem sido a de prover empréstimos para que os países possam dedicar sua produção agrícola às exportações, em vez de priorizar a alimentação das próprias populações. Por isso, seus empréstimos são exclusivamente em moeda estrangeira e não na moeda nacional necessária a prover preços mínimos e os serviços de suporte científico à agricultura, que fizeram com que a agricultura dos EUA se tornasse tão produtiva. Ao seguir as orientações dos EUA, os países colocaram-se à mercê da chantagem alimentar – sanções que os privam do acesso a cereais e a outros alimentos, caso insistam em não se alinhar às demandas da diplomacia estadunidense.

Cabe notar que nossa imposição global das míticas “eficiências” que forçaram os países da América Latina a se tornar “plantations” de culturas de exportação, como café e bananas, em vez de cultivar seu próprio trigo e milho, falhou catastroficamente em prover melhores condições de vida, especialmente para os povos que vivem na América Central. A diferença entre os preços dos produtos de exportação e os preços baixos de importação de grãos dos EUA – que supostamente se materializaria caso os países seguissem à risca os nossos manuais – falhou miseravelmente, como testemunham as caravanas de refugiados que cruzam o México. Evidentemente, o fato de que demos apoio às ditaduras militares mais brutais e aos senhores do crime na região também não ajudou muito.

Do mesmo modo, o FMI já foi forçado a admitir que suas diretrizes básicas eram fictícias desde o princípio. O núcleo central dessas diretrizes é obrigar ao pagamento de dívida intergovernamental através da retenção de créditos do FMI dos países em “défault”. Essa regra foi instituída numa época em que a maior parte da dívida intergovernamental era contraída com os EUA. No entanto, há poucos anos a Ucrânia deixou de pagar US$ 3 mil milhões que devia à Rússia. O Fundo declarou, com efeito, que a Ucrânia e outros países não tinham de pagar a Rússia, ou qualquer outro país que se atrevesse a agir de forma excessivamente independente dos EUA. E tem oferecido crédito ao saco sem fundo da corrupção ucraniana em lugar de se manter fiel ao princípio de que as dívidas intergovernamentais têm de ser pagas.

É como se o FMI tivesse começado a funcionar numa saleta de um porão do Pentágono, em Washington. A Europa percebeu que seus próprios laços comerciais e financeiros correm o risco de atrair a ira estadunidense. Isso ficou claro no outono passado, no funeral de George H. W. Bush, quando o diplomata da União Europeia se viu relegado ao fim da lista dos chamados aos seus lugares. Foi dito a ele que os EUA não mais consideravam a Europa uma entidade digna deste nome. Mike Pompeo proferiu um discurso sobre a Europa em Bruxelas – o primeiro e muito aguardado – no qual exaltou as virtudes do nacionalismo, criticou o multilateralismo e a UE, e disse que os “organismos internacionais” que impõem constrangimento à soberania nacional “têm que ser reformados ou eliminados”.[5]

A maioria dos eventos descritos acima foi noticiada em um único dia: 31 de Janeiro de 2019. A julgar pela conjunção de tantos movimentos dos Estados Unidos em tantas frentes, contra a Venezuela, o Irã e a Europa (isto para não mencionar as ameaças comerciais à China e os movimentos contra a Huawei, que também explodem neste momento), parece-me que este pode ser o ano da fratura global.

Nem tudo é sobre o que o presidente Trump faz, é claro. Assistimos ao Partido Democrata exibir as mesmas cores. Em vez de aplaudir a democracia quando outros países elegem líderes que os diplomatas estadunidenses não aprovam (como Allende ou Maduro), as máscaras caem e eles se mostram como os imperialistas que são, a conduzir a Nova Guerra Fria. Isto está à vista de todos. Eles fariam da Venezuela o novo Chile da era Pinochet. Trump não está sozinho em seu apoio aos terroristas wahabitas da Arábia Saudita que agem, como Lyndon Johnson certa vez o disse, como “bastardos, porém nossos bastardos.”

O que se conclui de tudo isso? Esta é a questão com a qual iniciei este artigo. É notável que sejam somente os partidos de direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD) ou os nacionalistas franceses de Marine Le Pen e os [partidos similares] dos demais países a se opor à militarização da OTAN e a procurar reatar os laços comerciais e econômicos com o resto da Eurásia.

O fim do nosso imperialismo monetário, sobre o qual escrevi pela primeira vez em 1972 no livro Super Imperialism, assombra até mesmo um observador informado, como eu. São necessários níveis colossais de arrogância, miopia e desprezo às leis para apressar o seu declínio – algo que somente neocons enlouquecidos como John Bolton, Elliott Abrams e Mike Pompeo podem fazer por Donald Trump.

[NT 1] https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Geographical_Pivot_of_History

[NT 2] https://en.wikipedia.org/wiki/The_Devil%27s_Dictionary

Notas:

[1] – Alexander Rubenstein, “It Can’t be Fixed: Senior ICC Judge Quits in Protest of US, Turkish Meddling,” January 31, 2019. https://www.mintpressnews.com/icc-judge-quits-turkish-meddling/254443/

[2] – Patricia Laya, Ethan Bronner and Tim Ross, “Maduro Stymied in Bid to Pull $1.2 Billion of Gold From U.K.,” Bloomberg, January 25, 2019. https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-01-25/u-k-said-to-deny-maduro-s-bid-to-pull-1-2-billion-of-gold. Anticipating just such a double-cross, President Chavez acted already in 2011 to repatriate 160 tons of gold to Caracas from the United States and Europe.

[3] – Patricia Laya, Ethan Bronner and Tim Ross, “Maduro Stymied in Bid to Pull $1.2 Billion of Gold From U.K.,” Bloomberg, January 25, 2019,. https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-01-25/u-k-said-to-deny-maduro-s-bid-to-pull-1-2-billion-of-gold

[4] – Corina PonsMayela Armas, “Exclusive: Venezuela plans to fly central bank gold reserves to UAE – source,” Reuters, January 31, 2019. https://www.reuters.com/article/us-venezuela-politics-gold-exclusive/exclusive-venezuela-prepares-to-fly-tonnes-of-central-bank-gold-to-uae-source-idUSKCN1PP2QR

[5] – Constanze Stelzenmüller, “America’s policy on Europe takes a nationalist turn,” Financial Times, January 31, 2019.

Livros de Hudson citados no texto:

“Super Imperialism”: https://www.amazon.com/Super-Imperialism-Origin-Fundamentals-Dominance/dp/0745319890/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1549572195&sr=8-1&keywords=Super+Imperialism

“Global Fracture”: https://www.amazon.com/Global-Fracture-International-Economic-Order-ebook/dp/B017RN4MCO/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1549572343&sr=8-1&keywords=global+fracture+the+new+international+economic+order