Christophe Dettinger: o campeão de boxe da França preso por socar policiais

por João Melato | Revista Opera

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(Foto: Reprodução / Youtube)

A cena circulou o mundo, e provavelmente o leitor já a conhece. Em meio a uma manifestação dos Coletes Amarelos, no dia 5 de janeiro, um policial é forçado a recuar pelos golpes certeiros de um manifestante – ajudado por outro, que corre lateralmente numa tentativa de distrair e de deslocar o escudo de proteção do guarda, que é acertado na face mais de uma vez. A cena chamava atenção pela precisão técnica do manifestante, que mais tarde revelou-se Christophe Dettinger, campeão francês de boxe profissional da categoria meio-pesado em 2007 e 2008.

Para a mídia dominante e para os apoiadores de Emmanuel Macron, o vídeo era uma prova da sua teoria de que os Coletes Amarelos são um movimento agressivo e violento, que deve ser combatido e derrotado. Nas palavras dos dois policiais agredidos, seus golpes eram realmente “para machucar, talvez até matar”. Dettinger fez depois um vídeo, onde tentava explicar-se – dizendo lamentar o ato, classificando suas atitudes como uma reação impensada diante da repressão policial que presenciava. Não adiantou. No dia 10 de janeiro, ele foi colocado em prisão provisória aguardando julgamento.

Gravado durante uma conversa informal com um jornalista, o presidente francês deu sua opinião sobre o caso. No áudio, ele comentava o vídeo de explicações do boxeador, e prestava atenção de maneira peculiar à sua etnia: “Ele recebeu ajuda de algum advogado de extrema-esquerda. Dá pra ver! O estilo, essas não são as palavras de um boxeador cigano”.

Ontem, a justiça francesa condenou Dettinger a 12 meses de prisão mais 18 meses avec sursis. Ele dormirá na prisão e trabalhará fora dela nos primeiros 12 meses de sua pena, os 18 seguintes podem ser suspensos caso ele apresente bom comportamento. A pena também inclui uma proibição de visitar Paris pelos próximos seis meses e uma indenização monetária para ambas as vítimas – 2 mil euros para um, 3 mil para o outro.

Embora tenha sido recebida com certo alívio pela Defesa e pela esposa do réu, que poderia pegar até 7 anos de prisão, a condenação também foi aplaudida pela promotoria e tem causado indignação entre os Coletes Amarelos, que a descrevem como uma prisão política destinada a “dar um exemplo” à população que protesta nas ruas.

Os gendarmes têm sede

Retornemos um pouco no tempo. Estamos na madrugada do dia 26 de outubro de 2014, particularmente em uma manifestação contra a construção da barragem de Silvens, um projeto no curso do rio Tescou que, segundo alertavam as organizações de proteção do meio ambiente, teria impactos ambientais consideráveis. Rémi Fraisse, um estudante de botânica de 21 anos, dava sua contribuição à causa e participava da manifestação.

Foi então que Rémi foi atingido por uma granada de atordoamento jogada pela polícia e veio a falecer. Imediatamente, é claro, uma parte da mídia iniciou uma campanha para associá-lo ao radicalismo e para retratá-lo, especificamente naquela noite, como um manifestante violento. Não era verdade, é claro, mas era necessário arranjar justificativas para absolver os policiais diante da opinião pública e, depois, também diante de um tribunal.

Voltamos ao dia 5 de janeiro de 2019. Em um vídeo divulgado por pessoas presentes no dia da manifestação, nós podemos entender o que aconteceu antes da já famosa cena onde um ex-boxeador encurralava policiais. As imagens são esclarecedoras e o leitor é incentivado a conferi-las por conta própria. A marcha dos Coletes Amarelos encontra-se com um bloqueio policial. Os manifestantes começam a filmar o evento, pois pressentem o que se seguirá. Um deles grita: “nós temos família como vocês, deixem-nos passar!”.

Os Coletes Amarelos iniciam um movimento em conjunto destinado a furar o bloqueio policial, e todos começam a avançar sobre o bloqueio. A resposta da polícia é imediata: uma granada é atirada no meio da aglomeração. As bombas de gás lacrimogênio a seguem. Christophe Dettinger aparece no vídeo argumentando com um policial e, como resposta, recebe o spray de gás lacrimogênio diretamente em seu rosto. Dettinger dá um pontapé no policial, que cai mas logo se levanta. Perto dele, um Colete Amarelo é empurrado por um policial e cai, e a polícia avança sobre os manifestantes, cuja linha de frente resiste. Nesse momento, outra granada é atirada sobre os manifestantes e aí, sim, vem a cena ultramediatizada de pugilista desferindo socos certeiros.

Poucos dias depois, Gwenalle Antinori veio a público dar sua versão do acontecido: “Eu estava caída, um policial me dava chutes e golpes de cassetete”. Ela explica que esse policial foi interpelado por outro, que tentou pará-lo, mas não adiantou. Então Dettinger chegou e engajou-se num combate com o policial. “Ele me salvou a vida”, diz ela “porque do contrário eu desmaiaria graças aos meus problemas pulmonares”.

A repressão policial durante as manifestações dos Coletes Amarelos já deixou milhares de feridos. Segundo os números oficiais, no dia 16 de janeiro já eram 1.700 manifestantes feridos. Na última manifestação antes da condenação de Dettinger – o chamado ato XIII, no dia 9 de fevereiro – um manifestante teve a mão rasgada por uma granada atirada pela polícia. Uma coisa frequente tem sido a perda de olhos por parte dos manifestantes atingidos pelas balas de plástico das armas LBD. Até o ato XI, do dia 30 de janeiro, 14 manifestantes tinham perdido um olho.

A presença de alguém como Christophe Dettinger entre os manifestantes desequilibra o jogo de forças – não se espera que os manifestantes tenham ao seu lado um pugilista profissional. O Estado detém o monopólio da violência, e somente ele pode (ou poderia) deixar feridos seus inimigos. O mesmo não vale para manifestantes que enfrentam a polícia, que devem recorrer apenas ao direito de sair correndo e de se juntarem, de braços dados, em uma desesperada tentativa de se defender. Inverter a lógica e fazer um policial fugir está além dos limites do aceitável.

Não são apenas os policiais que estão cumprindo com excelência o papel de força repressiva. Também o sistema judiciário está trabalhando freneticamente para colocar tantos Coletes Amarelos quanto forem possíveis atrás das grades. O primeiro-ministro anunciou de forma triunfante, na terça-feira (12), que 1.796 condenações, compreendendo desde multas até prisões, já haviam sido decretadas desde o início das movimentações em novembro do ano passado, pelos mais diferentes tipos de delitos violentos. Sem um único vislumbre de ironia, Édouard Philippe terminou seu discurso chamando “o conjunto do país a mostrar sua indignação frente aos ataques contra aqueles que simbolizam nossa República e nossa democracia”.

Entre as pessoas condenadas nos últimos meses se encontram não apenas o que a mídia dominante chama de “casseurs” (algo próximo de “hooligans” ou “vândalos”) mas também réus primários. É o caso de dois Coletes Amarelos da cidade periférica de Caen, um trabalhador rural e outro desempregado, que junto com mais outras duas pessoas foram no dia 1º de dezembro condenados à prisão por terem, como Dettinger, agredido policiais. As penas do grupo de quatro caenenses variavam entre nove meses e dez anos de prisão.

O cigano de Massy

Aposentado em 2013, o “cigano de Massy”, como era apelidado, torna-se um cidadão como qualquer outro, empregado no serviço público na área de estrada e limpeza. Após a divulgação do vídeo onde aplicava golpes de boxe fora do ringue, sua vida passou ao centro da atenção pública e, especialmente, sua relação com a política e com o movimento dos Coletes Amarelos.

A primeira síntese veio do jornalista Stephane Jourdain, que conferiu o Facebook do ex-boxeador e notou que ele “curtiu uma foto de Marion Marechal” (deputada do partido de extrema-direita RN [1]) e também “fez comentários homofóbicos conspiracionistas e violentamente anti-Macron”. Isso foi o suficiente para alguns veículos de mídia distorcerem esta denúncia e afirmarem, sem apresentar fontes, que ele “reafirmou mais de uma vez sua admiração por Marion Marechal” no Facebook.

Stephane Jourdain não tem, é claro, culpa alguma de suas descobertas terem sido distorcidas nas mãos de repórteres que, por má-fé ou estupidez, manipularam a informação para torná-la mais alarmante e assim alimentar o discurso conspiracionista contra os Coletes Amarelos. Como Dettinger deletou sua conta do Facebook, fica impossível para nós verificarmos para mais além suas manifestações políticas nessa mídia. Mas analisemos com mais calma as evidências apresentadas por Jourdain.

De todas as acusações, aquela que é sem dúvida a mais frágil é a de homofobia. O que Jourdain classifica como “comentários homofóbicos” é o uso da palavra enculés (o equivalente do português a “arrombados”) por parte de Dettinger para descrever Macron e seu gabinete. A acusação é tão leviana que, em uma das respostas ao seu tweet, um cidadão francês escreveu: “eu sou homossexual e também xingo assim!”.

Em uma foto de Macron, Dettinger escreveu: “um belo de um arrombado, para ser educado”. O outro comentário é que dá ensejo à acusação de “conspiracionismo”. Em uma charge que representava o Ministro do Interior, Christophe Castaner, agradecendo ao terrorista do atentado de Estrasburgo por permitir que o governo ganhasse tempo para lidar com os Coletes Amarelos, Dettinger comentou: “é plenamente possível essa corrupção entre esses arrombados”.

De fato, as fake news e teorias da conspiração de que a matança em Estrasburgo teria sido, na verdade, encomendada pelo governo francês circularam largamente entre os Coletes Amarelos. É plenamente possível que Dettinger tenha acreditado nelas. Mas pela imagem fornecida por Jourdain é impossível concluir. Dettinger poderia estar tanto argumentando seriamente em favor dessa hipótese quanto fazendo um exercício de retórica, algo do tipo “eu não duvidaria que Castaner seria capaz disso”.

E mesmo que acredite de fato nisto, isso não faz dele um conspiracionista maior do que o próprio Macron com sua falsa denúncia de um exército de 20 mil Coletes Amarelos se dirigindo a Paris para “quebrar e matar”. Seja como for, o establishment francês está enviando mensagens confusas sobre o boxeador-agressor-de-policiais: ora retratam-no como um partidário da extrema-direita enganado por fake news, ora retratam-no como um cigano ignorante manipulado por algum advogado de extrema-esquerda. No fundo, tudo parece apenas um grande esforço para fazer colar nele dois adjetivos: “manipulado” e “extremista”.

Dessa forma, tornam-se aceitáveis ações claramente ilegais como o congelamento da vaquinha que em dois dias arrecadou 145 mil euros para as despesas judiciais de Dettinger. Não há nada na lei francesa nem nas regras do site onde a campanha foi organizada que proíba pedir ajuda financeira para um caso judicial. Em resposta, a LR [2] lançou uma vaquinha em favor dos policiais agredidos que recebeu 1,4 milhão de euros e contou com a participação de 51 mil pessoas. A diferença de números não deve impressionar, já que uma das campanhas financeiras teve direito de existir, apoio governamental e foi encerrada no dia de hoje através de uma cerimônia com a presença do próprio Castaner, enquanto a outra foi arbitrariamente congelada em pouco mais de 48 horas de existência.

Eleitor do RN de Marechal e Le Pen ou não, o fato é que as observações de Macron sobre Dettinger não ter “as palavras de um cigano” têm levantado um debate sobre o racismo anti-cigano na França. O próprio Dettinger declarou que pretende processar Macron por injúria racial assim que o presidente perder a sua imunidade.

Coletes Amarelos gens du voyage de Clermont-Férrand participam do ato XII, dia 2 de fevereiro.

 

Quando de sua detenção provisória, diversos vídeos circularam nas redes sociais entre indivíduos que se identificam como gens du voyage (que compreende todas as pessoas sem domicílio fixo, entre elas as comunidades Romani) fazendo um apelo à mobilização de toda a comunidade contra o governo francês. Se os membros das minorias itinerantes estiveram ou não sempre presentes nas manifestações – afinal, eles são atingidos pela alta do preço do combustível como todos os franceses –, sua adesão parece ter de fato aumentado após a prisão de Dettinger.

O caso contra Christophe Dettinger lança luz sobre vários pontos da etapa da luta de classes que vive a França atualmente – especialmente, sobre a hipocrisia do gaulismo neoliberal que tenta se pintar como a “única alternativa à extrema-direita” ao mesmo tempo que mobiliza o chauvinismo racial para desmerecer seus inimigos diante do público, avança num número assombroso de condenações decretadas sobre manifestantes, se deita sobre o banho de sangue das LBD que já conta com centenas de feridos graves e – é importante não esquecer – aumenta o custo de vida das massas proletárias urbanas e rurais sob a desculpa da “preocupação ambiental”.

Notas:

[1] O Encontro Nacional (Rassemblement National), anteriormente conhecido como Front Nationale é o principal partido de extrema-direita francês. São fervorosamente anti-imigração, argumentando que estaria em curso uma “islamização” da cultura francesa e que seria necessário parar a vinda de imigrantes do Oriente Médio. Também flertam com o antissemitismo e com o negacionismo de alguns aspectos do holocausto, especialmente a participação dos colaboracionistas franceses no mesmo. Outras pautas defendidas incluem a prisão perpétua, a pena de porte e, mais recentemente, a saída da França da União Europeia. Durante as manifestações dos Coletes Amarelos, têm tentado cooptar as manifestações e transformá-las em comício eleitoral da extrema-direita (com sucesso questionável), coisa que a propaganda macronista tem incentivado. É importante pontuar que nem o RN, nem qualquer outro partido burguês, saiu em defesa de Dettinger.

[2] Os Republicanos (Les Républicains), partido político de orientação gaullista e liberal-conservadora. São, portanto, herdeiros da principal corrente (em termos de poder político) do antifascismo francês, mas aderem a uma visão de mundo conservadora (oposição aos direitos LGBT e restrição aos direitos de imigração, etc) e a uma orientação econômica de cunho neoliberal. Da mesma forma procede a LREM (La République en Marche!), partido de Macron.