Manhattan de Caracas: retratos da classe média venezuelana segundo a Bloomberg

por Gabriel Deslandes | Revista Opera

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(Foto: Carlos Díaz)

As mobilizações da oposição de direita na Venezuela contra a Revolução Bolivariana têm classe social bem definida. Desde que Nicolás Maduro assumiu a presidência do país em 2013, é um fato que os protestos mais radicais e de maior repercussão estão geralmente circunscritos aos municípios de classe média alta na Área Metropolitana de Caracas, governados historicamente por partidos da oposição, e em estados como Táchira, Miranda, Mérida e Carabobo.[1] Os manifestantes antichavistas que ocupam vias públicas há anos são em sua maioria os netos de uma classe média que ascendeu nas décadas de gradual “branqueamento” do país, com importantes elos com as elites locais.[2]

Porém, é tão raro que a mídia internacional apresente essa dimensão socioeconômica e territorial da direita venezuelana que é até surpreendente quando um veículo de comunicação opta por destacar tais nuances. Foi o que fez a Bloomberg Business Week em um contundente artigo de 2017, assinado por seu correspondente na Venezuela, Andrew Rosati,[3] sobre a vida noturna de jovens manifestantes. A matéria “A Manhattan dos partidos venezuelanos contra um cenário de crise” é retrato categórico de quem vive no município de Chacao, um dos mais importantes centros comerciais de Caracas.[4]

Os manifestantes opositores apresentados pela Bloomberg desafiam a narrativa, apresentada hegemonicamente nas mídias globais, das “massas populares duramente reprimidas pelo governo autoritário chavista”. Entre as cenas cotidianas retratadas por Rosati, estão os bares, pubs e restaurantes caros que servem de espaço de reunião e entretenimento para os jovens opositores. Um dos mais simbólicos pontos de encontro é o bar La Esquina, frequentado por empresários, desportistas, celebridades televisivas e, é claro, militantes políticos.

No pátio do La Esquina, a estudante de culinária e manifestante anti-Maduro, Alexandra Lovera, contou sua vida dupla enquanto fumava narguilé e bebia uísque e sangria: “De dia, estou em marcha ou nas barricadas. Eu chego em casa, tomo banho e mando mensagem para os meus amigos, e pergunto: ‘Qual é o plano?’. É como uma rotina”. Essa é a dinâmica diária dos protestantes em Chacao: nas manhãs e tardes, eles lotam as praças e ruas do município, erguendo barricadas e atirando pedras. Depois que o sol se põe, as luzes se acendem, e o coquetel escolhido não é um molotov, mas uísque escocês. Portanto, o município que é o epicentro da agitação política na Venezuela aparece também, para esse seleto grupo de caraquenhos, como o melhor lugar para o escapismo.

Segundo a Bloomberg, para quem vê de longe, a capital venezuelana parece queimar dia e noite. Durante o dia, os protestos contra o governo ardem as ruas de Caracas em meio à mais grave crise econômica, política e social do país. Depois do anoitecer, as classes altas preenchem os bares, clubes de strip-tease e shoppings de Chacao, naquilo que o então prefeito opositor, Ramón Muchacho,[5] dirigente do partido de direita Primeiro Justiça, chamou de “Manhattan de Caracas”.

Faces das Manhattan caraquenha

Chacao é, de fato, um dos distritos mais abastados ao leste de Caracas, atraindo venezuelanos expatriados dispostos a gastarem suas poupanças acumuladas por meio de contratos antigos e recentes com o Estado venezuelano. Chacao também dispõe de uma zona financeira, centros comerciais e um enclave de golfe de elite chamado The Country Club, onde a filiação custa surpreendentes US$ 100 mil – 458 vezes o salário médio da Venezuela.[6] A vizinhança é repleta de edifícios baixos e residências fechadas e se estende do rio Guaire até a montanha verdejante que separa Caracas do Mar do Caribe.

O local esteve entre as regiões controladas por prefeitos opositores na região oriental de Caracas, como também são as cidades de Socopó, Barinas, Valencia, San Antonio de Los Altos, San Cristóbal e Los Teques.[7] Todas elas são bastiões históricos da direita venezuelana. Merecem destaque também outras regiões de classe média do Município Libertador de Caracas, como El Paraíso e Montalbán, no sudoeste da capital, e a parte baixa de El Valle. Todas estas áreas estão historicamente ligadas a famílias pertencentes às velhas estruturas e grupos de poder da Quarta República venezuelana (1953-1999).[8]

Nos casos específicos de El Paraíso e Montalbán, moram militares aposentados da antiga Guarda Nacional. A parte inferior de El Valle tem características semelhantes, embora conte com setores menos abastados que foram beneficiados pelas antigas políticas de habitação promovidas por governos pré-Chávez, considerando que estes habitantes tendem a ser militantes dos partidos de oposição ou funcionários públicos.

“Este é o país do surrealismo mágico”, afirmou Edgar Grossmann, dono de uma empresa de transportes que se debruçou sobre o bar La Esquina enquanto uma festa de aniversário borbulhava atrás dele. “O país vai para o inferno, mas as pessoas continuam saindo. Não há alternativa”, disse à reportagem da Bloomberg.

Chacao se tornou o principal polo de concentração de protestos por ser o distrito mais central controlado pela oposição, próximo aos prédios dos ministérios e ao Palácio Presidencial de Miraflores. Após um dia de manifestações, a Bloomberg relata que os clientes chegam ao La Esquina ainda usando as roupas brancas da oposição e bonés vermelhos, amarelos e azuis. “Você protesta de manhã, mas isso não significa que você pare de viver”, ponderou o dono do estabelecimento desde 2015, Juan Carlos Senior.

Por conta do medo da criminalidade, muitas das festas noturnas no distrito deram lugar, em grande parte, a confraternizações durante tarde. Contudo, nos fins de semana, linhas de carros SUVs escuros – vários blindados e protegidos por seguranças – esperam por passageiros em festas até tarde da noite. Em um lounge bar onde DJs tocam house music, Tomas Perez, proprietário de uma empresa de construção civil, disse à reportagem que foi sequestrado duas vezes e, por isso, passou a sair pela cidade em um Toyota 4Runner à prova de balas: “Esse é o padrão para aqueles que desejam sair à noite”.

Em Chacao, jantares finos também podem ser desfrutados pelo preço de fast food. O chef Carlos Garcia diz que uma refeição da alta culinária venezuelana moderna em seu estabelecimento custa o equivalente a US$ 20. “Aqui, você fica luxuoso”, afirmou Garcia. Tal luxo é desfrutado principalmente por aqueles que têm acesso à moeda forte dos EUA por meio do mercado negro de dólares. Muitos cidadãos têm dólares evadidos da lavagem de dinheiro, e algumas empresas multinacionais pagam em moeda forte. Outros venezuelanos têm contratos governamentais que lhes permitem acesso à moeda.

Classes médias de ontem e de hoje

A reportagem da Bloomberg evidencia não só o relativo conforto das classes médias altas de Caracas, mas também a própria natureza de classe da oposição venezuelana, traço apagado pelas coberturas midiáticas sobre a crise no país. Na prática, são os moradores dessas regiões não só os que menos sofrem com a situação política e econômica da Venezuela, mas também partícipes do agravamento dessa crise, haja vista que, enquanto não estão frequentando bares e pubs à noite, promovem protestos violentos que afetaram desproporcionalmente as pessoas dos setores mais pobres da sociedade venezuelana.

Apesar das paralisações de transporte público causadas por bloqueios de estradas e do medo da violência física, as classes trabalhadoras da Venezuela não podem deixar de trabalhar e, para elas, as atividades básicas acabaram se transformando desde 2014 em lutas diárias.[9] Isso inclui, em especial, trabalhadores domésticos e do setor de serviços que trabalham nos municípios mais ricos, onde as guarimbas se concentram, e passaram a enfrentar jornadas de trabalho mais longas. A maior parte dos supermercados também está localizado nessas mesmas áreas, o que agravou o desabastecimento para os mais pobres, já sobrecarregados com escassez de produtos, e ataques a programas governamentais de alimentação.

Nesse sentido, deve-se destacar que uma das principais causas da crise venezuelana remonta à intervenção direta do governo norte-americano, que, em aliança com setores da burguesia local, vêm promovendo uma guerra econômica contra o país. Acontece que na Venezuela de hoje, tal qual no Chile de 1973, a pressão dos EUA precisa contar com um contínuo esforço contrarrevolucionário, com as elites se aproveitando do potencial revolucionário das massas populares para amedrontar as classes médias e jogá-las cada vez mais contra o governo bolivariano.[10]

Esse papel político nada progressivo das classes médias venezuelanas não consiste em uma novidade de momento, mas na posição constituída historicamente nas disputas pelo poder material e ideológico no país. Aquilo que chama-se hoje de classe média Marx denominava, no século XIX, de pequena-burguesia, refletindo acerca da renda econômica de tal classe, mas também da consciência de classe que representaram ao longo dos séculos. Enquanto o proletariado era a classe revolucionária por ser produto direto da exploração pelos donos do capital, a pequena-burguesia, em tese, poderia atuar como aliada contra a burguesia visando se salvar da ruína da sociedade capitalista.[11]

Por pequena-burguesia, entende-se uma classe composta nem pelos proprietários dos meios de produção – industriais ou agrícolas – nem por trabalhadores assalariados precarizados. Na perspectiva marxista, ela é formada fundamentalmente por membros da burocracia estatal, estamento militar e funcionários dos sistemas educacional e cultural, contando pouca ou nenhuma autonomia em relação aos interesses próprios da grande burguesia.[12] Em diferentes níveis de estratificação social, inclui-se no status de classe média desde o técnico até o profissional que trabalha para uma empresa ou profissionais liberais que obtém margens de lucro razoáveis, como engenheiros, médicos, advogados, administradores, entre outros.[13]

Na Venezuela, a classe média conceitua um segmento social que começou a ser instalado no país com a exploração petroleira no início do século XX e se consolidou nos anos 1960. Entre os incorporados nesse estrato social, estão os indivíduos dotados de uma base material superior (salários mais altos) que a média da classe trabalhadora, o que lhes permitiu realizar trabalhos não manuais e elevar seu nível de consumo; mas são dotados também de uma identidade que colonizou os aspectos da vida cotidiana, tais quais suas aspirações, gostos pessoais, entre outros. Assim, não sendo proletários nem proprietários, as classes médias lutam para se diferenciar das classes populares ao reivindicar uma superioridade moral e racional, muitas vezes, inexistente.

Leia também – Venezuela: Democracia ou Ditadura?

Como classes que, por vezes, tendem a se beneficiar das transformações sociais gerais, são tomadas pela ideologia do medo da pauperização iminente. Nela habita o pânico de se sentirem pobres, perdendo o pouco que valorizam (casas, veículos, uma renda média e a esperança de um futuro próspero).[14] A possibilidade de uma repentina expropriação é algo presente em suas visões de mundo diárias, e isso definitivamente explica por que a ideia de “comunismo” lhes causa horrores. Dessa forma, o fantasma que persegue a classe média é sempre o risco de queda social e de pobreza, algo do qual “precisam” escapar eternamente.

O caso específico da Venezuela é emblemático: quem é o núcleo principal da oposição interna à Revolução Bolivariana se não as classes médias altas oriundas de uma oligarquia vernacular, aliada do establishment dos EUA há décadas? Ao agitar os fantasmas do “comunismo ateu” que come criancinhas e força uma família de sem-tetos a viver na sala de estar de cada casa, esses setores historicamente repetem os clichês propagados contra governos populares, como os de João Goulart em 1964 e Salvador Allende em 1973. A partir do medo visceral de perderem o que têm, as classes médias se tornam o alvo perfeito para desenvolverem sentimentos antipopulares e individualistas, sendo visceralmente manipuladas e colocadas na perspectiva mais conservadora possível.

A classe média e o chavismo

As origens dos setores pequeno-burgueses venezuelanos remontam à década de 1960 e 1970, quando a alocação de parte dos recursos da renda petroleira proporcionou as condições para a consolidação de uma classe média. Os mesmos segmentos sofreram com a queda do preço do barril de petróleo a partir dos anos 1980 e começaram a exigir mudanças para que sua base material retornasse, já que a renda era cada vez menor. Com a crise econômica da década de 1980 e o enfraquecimento do Estado venezuelano, esse estrato social – composto por pequenos e médios comerciantes e, principalmente, funcionários da administração pública – passou a constituir um elemento fundamental na organização da sociedade civil, adormecida pelo rentismo petroleiro.

Nesse contexto, um setor da classe média atuou de maneira reacionária, aliando-se a segmentos da elite venezuelana e tornando-se um obstáculo fundamental não só a novas políticas econômicas, mas retardando políticas voltadas para a transformação da educação e cultura no país. Entre a rebelião popular do Caracazo em 1989 e a revolta militar do 4 de Fevereiro de 1992, Chávez surgiu na fissura histórica da crise política oferecendo uma alternativa e convocando o povo, e mobilizando as vontades para a proposta de mudanças efetivas a partir dos marcos democráticos.

A classe média, na sua composição social instável e insegura, também havia sido um centro de recrutamento para projetos de mudança ou ruptura revolucionária, e assim não havia sido diferente no movimento de oficiais militares e profissionais ligados a conspiração de Chávez em 1992, que depois serviriam de núcleo para o seu movimento disputar as eleições.

Ao mesmo tempo, os partidos tradicionais do Pacto de Punto Fijo fracassaram em oferecer oportunidades de poder para os setores médios descontentes devido à concentração do controle partidário e estatal na mão de reduzidas elites políticas que remontavam ao início do Pacto.

O chavismo nascente foi abraçado por setores mais amplos da classe média, que entrarem neste projeto de transformação na esperança de recomporem sua base material após anos de crise. Porém, tal inclusão durou pouco. A despeito do governo Chávez, no contexto da redistribuição das receitas petroleiras, aumentar a base material de toda a sociedade, os membros das classes médias enxergaram na retórica socialista do chavismo uma tentativa de equalização por baixo. Assim, as lideranças opositoras, embora não fossem maioria, souberam capitalizar o discurso elitista e o radicalizar, convocando as classes médias continuamente para tomarem as ruas e apelando para ações violentas.

A grande ironia é que, em variados aspectos, tal classe média instrumentalizada pela oposição também desfrutou de medidas implantadas nos anos de chavismo. Esses setores foram favorecidos com a eliminação de empréstimos indexados, medidas específicas em defesa das vítimas de golpes imobiliários, baixas taxas de juros no cartão de crédito, linhas de crédito especiais para empresas, facilitação do acesso direto a moradias e microcréditos para veículos. Durante o governo Hugo Chávez, nunca os venezuelanos compraram tantos automóveis – primeiro recorde de 320 mil carros em 2006 –, graças à eliminação do Imposto sobre Valor Agregado sobre veículos. O número de clientes de cartões de crédito dobrou de 1999 a 2010, com uma taxa anual de juros inferior a 30% nesse período.[15]

Entre os jovens, as classes médias se beneficiaram do crescimento em 198% nas matrículas universitárias entre 1998 e 2011, o que fez da Venezuela o segundo país com maior corpo discente no ensino superior nos anos 2000. No ramo alimentício, 70% da classe média venezuelana afirma ter sido beneficiada pela missión Mercal, a rede pública de supermercados, de acordo com o Grupo de Pesquisa Social Século Siglo XXI (GIS XXI). Além disso, mais de 1,5 milhões de venezuelanos também passaram a colher os benefícios da Previdência Social, gerando um salto de 400% de 1999 a 2011.

Por outro lado, a crise econômica grave dos últimos anos, de fato, afetou parcela da classe média venezuelana. A desvalorização da moeda teve um impacto negativo maior sobre esse estrato social do que sobre os mais pobres, uma vez que é a classe média que tende a adquirir mais produtos em dólares, como carros, computadores, imóveis ou viagens aos EUA.[16] Como a Venezuela importa quase 70% de seus bens de consumo e a desvalorização leva a uma inflação geral de preços, esses bens importados se tornaram subitamente mais caros.

Outra razão pela qual a inflação afeta mais a classe média é o fato de ela depender de um salário reajustado no início do ano. Os pobres, que estão empregados na economia informal, podem adequar sua renda de acordo com a inflação, cobrando mais por seus produtos e serviços sem precisar esperar por um aumento salarial anual. Mesmo com o governo Maduro aumentando a cada ano o salário mínimo, a medida não chega ao ordenado de técnicos e profissionais liberais.

Além disso, os mais pobres tendem a formar redes sociais que amortecem o impacto da inflação, contando com grandes comunidades e famílias extensas que se ajudam mutuamente e também na forma de serviços públicos gratuitos de saúde e educação. Já a classe média costuma depender dos serviços de saúde e educação privados. E não se pode negar que, até antes da crise de 2014, os padrões de consumo na Venezuela aumentaram, incluindo os serviços básicos de água e eletricidade, bem como alimentos e bens de luxo, o que estimulou um maior aumento nas importações. Por conseguinte, maior dependência do comércio exterior.

É possível considerar também a transformação de alguns espaços específicos dominados por grupos corporativos dos setores médios. A empresa estatal de petróleo, PDVSA, era formada por casta de administradores e especialistas abastados, repletos de prestígio social e alguma influência política – a PDVSA era chamada de “Estado dentro Estado”. Os quadros da empresa passaram por uma grande transformação com o chavismo, especialmente por ter se envolvido em conspirações contra o governo – muitos saíram e um número ainda maior de novas pessoas entraram. Chávez também mudou o sistema de promoções dentro do exército, historicamente a principal via de ascensão social.

Durante o governo Chávez, quatro vezes mais venezuelanos também passaram a emigrar para os EUA do que costumavam fazer no final da década de 1990.[17] A insegurança pessoal e a radicalização política predominante são as principais causas dessa opção pelo “sonho americano”. Só em 2009 cerca de 11 mil venezuelanos obtiveram status de residência permanente legal nos EUA, segundo o Serviço de Imigração e Cidadania do Departamento de Segurança Interna americano. Isso significa que, em média, a cada 47 minutos um venezuelano recebia o greencard.

Ódio de classe criollo

A ameaça de perdas econômicas e prestígio social gera uma onda de ressentimento que, desde o começo da era Chávez, foi instrumentalizada por grupos opositores na política e nas instituições privadas. A classe média venezuelana está sujeita à manipulação comunicativa que usa o medo e a confusão, alimentando a fantasia de que seu status social será eliminado às custas dos valores individualistas próprios do capitalismo: “você vai perder o seu carro e seu apartamento e seus filhos serão tirados de você pelo Estado”.[18]

Em resposta a esse sentimento, as classes médias venezuelanas tentam manter sua unidade autoafirmando sua identidade perante as classes baixas. Assim, recorrem a formas de estigmatização de setores populares que, depois do chavismo, passaram a compartilhar de seus espaços públicos.[19] Apelam a estereótipos contra aqueles grupos considerados “inferiores” na pirâmide socioeconômica e, dada crescente polarização política nas últimas duas décadas, essas demonstrações de ódio de classe frequentemente descambaram para a violência aberta.

Nas fileiras de frente das manifestações anti-Maduro, os atos de violência desses grupos não incluem apenas barricadas de rua, queima de ônibus, vandalismo contra instalações de saúde pública e arremessos de coquetéis molotov com fezes humanas.[20] Entre esse conjunto de táticas, os manifestantes desferem ataques contra alvos precisos que consideram tipicamente chavistas, ou seja, transeuntes pobres e de pele escura.

O caso mais emblemático deles foi o brutal ataque, durante um protesto em maio de 2017, a Orlando Figuera, um jovem afro-venezuelano trabalhador de supermercado, que teve 80% do seu corpo queimado por manifestantes da direita venezuelana. Conforme registrado em vídeo, os espectadores em seu entorno nada fizeram para ajudá-lo.[21] Enquanto Figuera não resistiu à agressão, outra vítima de origem semelhante, Carlos Ramirez, conseguiu sobreviver, apesar das queimaduras graves sobre seu corpo. Ramirez disse depois que implorou por sua vida, gritando “Não me mate! Eu não sou chavista! Por favor, não me matem!”, enquanto os manifestantes de rua o espancavam e o incendiavam.[22]

Esse flagrante clima de ódio classista que descamba para o racismo explícito constitui a expressão mais bárbara de uma classe que orienta seu comportamento a partir de considerações de status social, definidos por seu poder de compra a nível individual e não propriamente pelo acúmulo real de capital. Tal comportamento típico, majoritariamente ignorado pelos meios de comunicação convencionais, é a natureza de classe que guia o antichavismo da direita na Venezuela. Nesse aspecto, o artigo da Bloomberg – uma agência de notícias do mercado financeiro americano – não deixa de impressionar pelo furo a esse bloqueio informativo.

De acordo ainda com a matéria de Andrew Rosati, a vida noturna das classes médias venezuelanas em Caracas consiste em uma “procura por uma válvula de escape”. José Cabrera, universitário de 22 anos entrevistado no terraço de bar em Chacao, disse que quando não está estudando, participa de todas as manifestações que pode, mas seus amigos o criticam por sair para a boemia caraquenha à noite. “Olha, eu marcho, eu protesto, eu faço o meu dever pelo meu país. Mas o que vamos fazer à noite? Vamos bloquear uma rua? Vamos marchar até o Palácio de Miraflores? Eu voltarei às ruas amanhã às 7 da manhã, mesmo sofrendo de ressaca”.

Fontes:

[1] – https://operamundi.uol.com.br/opiniao/34360/a-realidade-do-cenario-venezuelano

[2] – http://doras.dcu.ie/2146/1/2008-9.pdf

[3] – http://andrewrosati.com/about.html

[4] – https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-07-19/the-manhattan-of-venezuela-parties-against-a-backdrop-of-crisis

[5] – https://www.telesurtv.net/news/Conozca-los-alcaldes-de-derecha-que-permiten-violencia-en-Venezuela-20140314-0027.html

[6] – https://www.dailymail.co.uk/news/article-3640941/Super-rich-quaff-champagne-Venezuela-country-club-middle-classes-scavenge-food-rubbish-dumps-DOGS-starving.html

[7] – https://www.telesurtv.net/opinion/Venezuela-pais-que-resiste-20170620-0059.html

[8] – https://www.telesurtv.net/opinion/Una-noche-de-parapolitica-y-terror-20170421-0048.html

[9] – http://deepartnature.blogspot.com/2018/11/the-politics-of-food-in-venezuela.html

[10] – https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/03066150.2017.1380628?journalCode=fjps20

[11] – https://www.aporrea.org/internacionales/a134926.html

[12] – https://www.aporrea.org/actualidad/a250573.html

[13] – https://www.aporrea.org/ideologia/a241878.html

[14] – https://www.aporrea.org/oposicion/a27736.html

[15] – https://operamundi.uol.com.br/noticia/23818/classe-media-mistura-odio-e-duvida-contra-chavez

[16] – http://asembleabolivariana.blogspot.com/2008/11/el-impulso-de-la-clase-media-popular.html

[17] – http://borisspasky.wordpress.com/2010/05/10/cada-47-minutos-un-venezolano-recibe-visa-de-residente-en-los-estados-unidos/

[18] – http://asembleabolivariana.blogspot.com/2008/11/el-impulso-de-la-clase-media-popular.html

[19] – https://www.aporrea.org/ideologia/a242118.html

[20] – https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2017/05/09/venezuelanos-preparam-bombas-de-fezes-para-lancar-contra-forcas-de-seguranca.htm

[21] – https://www.thenation.com/article/burning-man-venezuela/

[22] – http://theprisma.co.uk/2017/07/24/crimes-of-hate-venezuelan-opposition-burns-people-alive-in-their-protests/