O Novo Nepal: Forjando um caminho independente de paz

por Morgan Artyukhina | Liberation News - Tradução de Gabriel Deslandes

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(Foto: S Pakhrin)

Em novembro de 2018, a Frente Internacionalista de Estudantes (ISF) da Universidade George Washington, na capital americana, organizou o importante encontro “O Novo Nepal”, um fórum com três convidados: Pramod Kaphley, diretor do Instituto Internacional da Paz, sediado no Nepal; Hiranya Lal Shrestha, ex-embaixador nepalês na Rússia; e Chandra Prakash Mainali, secretário-geral do Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista) e ex-vice-primeiro-ministro do Nepal.

O encontro serviu para que essas três personalidades da política nepalesa relatassem, em primeira mão, os desafios e sucessos que o Nepal enfrenta, forjando um caminho independente em um mundo hostil.

O Nepal é uma sociedade em transição: em 2018, o país celebrou seu 10º ano como república, tendo dado fim à sua monarquia teocrática e feudal em 2008. O embaixador Shrestha explica como a democracia do Nepal continua florescendo: têm sido realizadas eleições em todos os níveis da sociedade (local, estadual e nacional), o Estado nepalês foi secularizado e uma nova Constituição foi estabelecida. O caminho para o republicanismo foi árduo e a escalada do país rumo ao futuro é construída sobre as fundações de seu passado.

A luta por uma república

Transmitir a história das lutas de seu país foi de particular importância para os palestrantes. Kaphley observa que seu país nunca foi totalmente colonizado. A partir dos anos 1950, um crescente movimento antimonarquista lutou por limites constitucionais ao poder do rei e por um sistema representativo de governo.

Em 1969, os camponeses resistiram ao domínio dos proprietários de terras no distrito de Jhapa, no leste do Nepal e, em 1971, a resistência se transformou em insurgência armada. A revolta foi esmagada e a maioria de seus líderes foi presa, mas Chandra Prakash Mainali escapou da prisão. Em 1978, Mainali fundou um novo partido, o Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista), dando continuidade à luta clandestina contra o latifúndio em Jhapa.

A Guerra Civil Nepalesa começou em 1996, quando o Partido Comunista do Nepal (Maoísta) lançou outro levante nacional amplamente apoiado pelo campesinato. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Índia correram para apoiar o rei. Em 2005, a resistência de massas contra as táticas brutais da monarquia se estendeu às cidades, e uma aliança entre os partidos revolucionário e parlamentares do Nepal forçou o rei a permitir a criação de um novo parlamento e realizar eleições. Comunistas e socialistas ganharam essas eleições e, em 2008, o Parlamento aboliu a monarquia, declarando que o Nepal passara a ser uma república.

Independência do Nepal ameaçada

Todos os três oradores observaram que a estratégia do Nepal para o autodesenvolvimento hoje é a sobrevivência e a triangulação: situada entre as economias gigantescas da Índia e da China, o país é vulnerável às influências de ambos, mas também vê oportunidades na integração regional. “Não estamos seguros”, enfatizou Mainali. “O capitalismo e o imperialismo bloqueiam o avanço do povo nepalês em direção ao Novo Nepal”, prosseguiu ele.

Segundo o diretor nacional da Coalizão ANSWER (sigla em inglês para “Aja Agora para Parar a Guerra e Acabar com o Racismo”), Brian Becker, o principal objetivo do governo Trump na Ásia é bloquear a ascensão econômica e diplomática da China para garantir a hegemonia americana no continente. Enquanto Barack Obama falava em um “Pivô para a Ásia”, agora o vice-presidente Mike Pence fala de uma estratégia “indo-pacífica”, como demonstram suas recentes visitas à Cingapura e Papua Nova Guiné para tentar estimular o sentimento antichinês entre os membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (APEC) em suas últimas cúpulas.

No caso de um conflito, os EUA certamente pressionarão países desalinhados, incluindo o Nepal, a tomarem partido – uma situação que só pode vir em seu próprio detrimento. Essa manobra, junto à continuada guerra comercial dos EUA com a China, não está afastando nações asiáticas para longe da China, mas empurrando-as para mais perto dela, observou Shrestha com uma pitada de ironia. No fundo, porém, esse antagonismo entre os EUA e a China não é simplesmente manobra geopolítica, mas subsiste sobre uma base de classe, disse Mainali.

“Essa mudança sinaliza um novo perigo para o Nepal”, afirmou Kaphley, e isso faz com que eventos como esse se tornem ainda mais importantes.

Lutando contra remanescentes feudais

Internamente, entretanto, o Nepal enfrenta desafios contínuos. Mainali disse que o país está preso no limbo: o atual governo não está entregando o que as pessoas esperavam da revolução de 2006, mas a situação ainda não está madura para um empurrão completo em direção à criação de uma república popular. Em vez disso, ele enfatizou a unidade em torno do desenvolvimento nacional, de modo que um dia o povo nepalês esteja pronto para iniciar o empurrão final em direção ao socialismo.

Shrestha considera que remanescentes de sua era feudal estão entre os maiores obstáculos para a expansão da participação democrática, especialmente o sistema de castas, que mantêm diferentes nacionalidades, mulheres e dalits oprimidos. Segundo ele, o Nepal precisa construir uma democracia multiétnica, e o multipartidarismo não é suficiente.

Mainali criticou a atual Constituição do país, alegando que ela não pode fornecer o tipo de igualdade que as etnias do país demandam. Uma mancha específica surgiu entre Katmandu e o povo Madheshi, que são descendentes de imigrantes indianos nas terras baixas próximas à fronteira com a Índia. Desde 2015, os Madheshis, que exigem seu próprio estado nas terras baixas, efetivamente impuseram um bloqueio a Katmandu, impedindo a importação de combustível e outros bens da Índia.

Todos os três oradores observaram essa extrema vulnerabilidade decorrente do bloqueio, uma vez que o Nepal é uma nação sem litoral e que a Índia, em particular, exerceu repetidamente esse poder de obstrução. Os palestrantes enfatizaram que o país não busca conflitos com a Índia ou a China, mas desenvolvimento e cooperação pacíficos.

A luta do Nepal pela autodeterminação ocorre dentro dessa complexa teia de forças políticas, econômicas e militares, e o povo americano poderia ajudar exigindo que seu próprio governo se abstenha de intervir nos assuntos soberanos do país. E é possível aprender com as décadas de experiência do povo nepalês em sua heroica luta pela liberdade e pelo socialismo.